Domingo - Tentado no Deserto

 Domingo  
Tentado no Deserto


 Jesus, “cheio do Espı́rito Santo” que havia pousado sobre ele sob a

 figura de uma pomba, “voltou do Jordão e foi guiado pelo Espirito” ao

 deserto (Lucas 4:1). Imediatamente após o seu batismo, cheio de

 Espirito e gemidos (cf. Rm 8, 23), Jesus, aquela pomba inocente, foi

 jejuar e chorar os nossos pecados na solidão. Segundo São Mateus, ele

 foi “conduzido pelo Espirito” (Mt 4.1); de acordo com São Marcos, o

 Espirito “o conduziu” (Marcos 1:12). Seja qual for o caso, vemos que

 pelo batismo somos separados do mundo e consagrados ao jejum e

 abstinência e à batalha contra a tentação. Foi o que aconteceu com o

 Salvador do mundo assim que foi batizado.

 A vida cristã é um retiro. Nós “não somos do mundo”, assim como

 Jesus Cristo “não é do mundo” (João 17:14). O que é o mundo? E, como

 disse São João, a “concupiscência da carne”, isto é, sensualidade e

 corrupção em nossos desejos e ações; “a concupiscência dos olhos”,

 curiosidade, avareza, ilusão, fascínio, erro e loucura na afetação do

 aprendizado; e, finalmente, orgulho e ambição (1 João 2:16). A esses

 males dos quais o mundo está cheio e que constituem sua substância,

 deve-se opor um recuo. Precisamos nos tornar um deserto por um

 desapego santo.

 A vida cristã é uma batalha. O demônio de quem uma alma escapa

 “traz consigo outros sete espíritos piores do que ele” (Mateus 12:45)

 para nos tentar novamente. Nunca devemos deixar de lutar. Nesta

 batalha, São Paulo ensina-nos a fazer uma abstinência eterna, ou seja, a

 separarmo-nos dos prazeres dos sentidos e a guardar deles o nosso

 coração. “Todo atleta exerce autocontrole em todas as coisas. Eles

 fazem isso para receber uma coroa perecível, mas nós, uma

 incorruptível” (1 Corı́ntios 9:25).

 Foi para reparar e expiar as falhas do nosso retiro, da nossa luta

 contra as tentações, da nossa abstinência, que Jesus foi levado ao

 deserto. Seu jejum de quarenta dias prefigurava o jejum vitalício que

 devemos praticar, abstendo-nos de más ações e contendo nossos

 desejos dentro dos limites estabelecidos pela lei de Deus. Este deve ser

 o primeiro efeito do jejum de Jesus. Se ele nos chama mais alto e nos

 leva não apenas a uma renúncia do coração, mas a uma saída real do

 mundo, felizes seremos de ir e jejuar com Jesus Cristo: encontremos

 nossa felicidade no deserto com Ele!

 “E ele estava no deserto”, diz São Marcos, “quarenta dias, tentado por

 Satanás; e ele estava com as feras; e os anjos o serviam” (cf. Marcos

 1:13). Aqui vemos, como se fosse uma pintura, Jesus sozinho no

 deserto, onde o Diabo é seu tentador, as feras sua companhia e os anjos

 seus ministros.

Por que Jesus está com as feras? Por que ele se dá tais companheiros

 no deserto? "Fuja dos homens", disse uma voz a um antigo eremita. As

 bestas permaneceram em sua condição natural e, por assim dizer, em

 sua inocência, enquanto entre os homens tudo foi pervertido pelo

 pecado. “Toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”

 (Gn 6:12). Na sociedade dos homens encontramos dissimulação,

 nfidelidade, amizade interesseira, uma troca mutuamente interessada

 de lisonjas, mentiras, inveja secreta junto com benevolência ostensiva,

 mas falsa, inconstância, injustiça e corrupção. Fujamos de tudo isso,

 pelo menos em espírito; será melhor viver com as feras do que com os

 homens do mundo.

 Seremos expostos à tentação com Jesus, mas como ele teremos anjos

 para ministrar a nós. Eles vieram para servir o Salvador em sua hora de

 necessidade, na condição enfraquecida que ele escolheu estar no final

 de seu longo jejum. No entanto, devemos também lembrar que eles são

 “espíritos ministradores enviados para servir, por causa daqueles que

 devem obter a salvação” (Hb 1:14), e que em honra do Salvador eles se

 tornam ministros daqueles que jejuar com ele no deserto, que amam a

 oração e o retiro, e que vivem abstendo-se do que traz contentamento à

 natureza, nunca entregando o coração a ela.


Jacques-Benigne Bossuet 

 Meditações para a Quaresma

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