Semana 2: quarta-feira - Não ser servido
*Semana 2: quarta-feira*
*Não ser servido*
A hora de Jesus se aproxima. Ele sobe voluntariamente a Jerusalém,
sabendo que ali morrerá , e assim o diz aos seus Apóstolos.
“Então a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se dele, com seus
filhos, e ajoelhou-se diante dele . . . ela lhe disse: 'Manda que estes meus
dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu
reino'” (Mateus 20:20-21). Ao relatar o mesmo episódio, São Marcos diz
claramente que não foi apenas a mãe deles, mas os próprios dois
irmãos, isto é, os santos. Tiago e João, que fizeram o pedido (Marcos
10:35-37). Isso nos mostra que a mãe agia por instigação dos filhos, que
parecem ter aderido abertamente à demanda. E é por isso que o
Salvador dirigiu sua resposta a eles: “Você pode beber o cálice que eu
devo beber?” (Mateus 20:22).
Essa troca nos mostra como foi difı́cil para os apóstolos ouvir sobre a
cruz. Jesus acaba de falar claramente (Mateus 20:19), e longe de ouvi-lo,
Sts. Tiago e João — lı́deres entre os Apóstolos — acabaram de lhe falar
de sua glória e da distinção que esperam obter dele.
Vamos pesar estas palavras de Jesus: “Você não sabe o que está
pedindo” (Mt 20:22). Você fala de glória e não está pensando no que
deve ser sofrido para ganhá-la. Então ele explica esses sofrimentos a
eles por duas metáforas, pela do cálice amargo que deve ser bebido e
pelo batismo sangrento que deve ser aceito. Engolir todo tipo de
amargura, sofrer a ponto de ter o corpo submerso, como no batismo:
este é o preço da glória.
*Os ambiciosos apóstolos se oferecem por tudo isso, mas Jesus, vendo*
*que eles se oferecem apenas para sofrer por ambição, não escolhe*
*satisfazê-los.* Ele concede o pedido deles no que diz respeito à cruz, mas
quanto à glória, ele os refere aos decretos eternos e à sabedoria oculta
de seu Pai. Ele poderia ter dito a eles o que depois disse a todos os
Apóstolos: *“Assim como meu Pai designou um reino para mim, também*
*eu designo um para vocês” (cf. Lucas 22:29).* Mas aqueles que estão
dispostos a sofrer apenas por ambição ainda não eram dignos de ouvir
esta promessa. Assim, para prendê-los à Cruz, cujo poder eles ainda não
compreendiam, Jesus deixa ao Pai o que pertence à glória e aqui se
permite apenas prever e distribuir as lições.
Tudo isto se realizou com a profunda economia tantas vezes
praticada no Evangelho, onde, por várias razões, se atribui coisas
diversas ao Pai e ao Filho. No entanto, devemos sempre lembrar que o
que está por baixo como fundamento é o que o Salvador disse a seu Pai:
*“Tudo o que tenho é teu e o que tens é meu”* (cf. Jo 17, 10).
Os outros apóstolos “ficaram indignados” com o pedido dos dois
irmãos (Mt 20:24). Cegos, eles não perceberam que estavam todos
possuı́dos pelos mesmos sentimentos que condenavam nos dois, visto
que tanto antes quanto depois Jesus os surpreendeu em uma disputa
sobre “qual deles era o maior” (Lucas 9:46; 22). :24). Assim é que não
podemos suportar nos outros o vı́cio que temos em nós mesmos: *somos*
*perspicazes o suficiente para impor reprovação, mas cegos demais para
*o autoconhecimento e a autocorreção.*
Devemos observar a admirável mudança que as instruções do
Salvador e a efusão do Espı́rito Santo efetuaram nos Apóstolos. Esses
homens, que nunca paravam de discutir entre si sobre quem era o
maior, cederam sem esforço a honra a São Pedro. Eles o deixam falar em
todos os lugares. Ele presidiu todos os seus conselhos e assembléias.
São João, que acabava de pedir o primeiro lugar, espera São Pedro junto
ao túmulo do Salvador para que entre primeiro, e a pressa em ver os
sinais da Ressurreição do seu Mestre não o impediu de pagar o honra
que ele devia ao prı́ncipe dos Apóstolos.
Consideremos bem as palavras de São Mateus com as quais Jesus
derruba toda ambição com seu exemplo:
Você sabe que os governantes dos gentios dominam sobre eles, e
seus grandes homens exercem autoridade sobre eles. Não será
assim entre vós; mas quem quiser ser grande entre vós deverá ser
vosso servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós deverá ser
vosso escravo, assim como o Filho do homem não veio para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
(Mateus 20:25-28)
Não seja ambicioso, ó cristão! Não queiras mandar nem ter vantagem
entre os homens, porque és discı́pulo *Daquele que, embora Senhor de*
*todos, se fez servo e colocou toda a sua glória na redenção dos seus*
eleitos com a perda da sua vida. Redimidos pela humildade e pela Cruz
do teu Salvador, não sonhes em elevar-te, nem em insular de maneira
alguma o teu coração.
*Consideremos também o quanto as nossas paixões nos cegam,*
*especialmente a ambição, e gritemos, como os dois cegos e como*
Bartimeu: “Senhor, que se abram os nossos olhos” (Mt 20,33; Mc 10,46,*
51; Lucas 18:41).* Ajude-nos a conhecer nossas falhas. A reprovação dos
homens nunca deve nos impedir de clamar a Jesus para implorar a
ajuda de sua graça. *Deixemos para trás nossos hábitos, corramos para*
*ele, abramos nossos olhos, glorifiquemos a Deus e nunca nos gloriemos*
*em nós mesmos.*
*Jacques-Benigne Bossuet*
*Meditações para a Quaresma*
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