Semana 3: terça-feira - Reconciliação
Semana 3: terça-feira
Reconciliação
Podemos aprender o quanto Deus ama a paz com o belo preceito que
nos ordena a reconciliar-nos com nosso irmão antes de adorá-lo, para
que não nos aproximemos da oblação oferecida a ele com o coração
ressentido e as mãos voltadas para a vingança.
Devemos estar muito atentos a estas palavras: *“Se você estiver*
*apresentando sua oferta no altar, e ali se lembrar de que seu irmão tem*
*algo contra você, deixe sua oferta ali diante do altar e vá; reconcilia-te*
*primeiro com teu irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta” (Mateus*
*5:23-24).* E devemos buscar a reconciliação não apenas quando
realmente ofendemos nosso irmão, mas mesmo se ele se ofendeu por
engano. Devemos buscar uma resolução caridosa por medo de que
possamos odiá-lo, se descobrirmos que ele já nos odeia. O primeiro
dom a oferecer a Deus é um coração purificado de toda frieza e de toda
inimizade para com o irmão.
Não devemos esperar pelo domingo, quer estejamos todos juntos ou
sozinhos na Santa Missa. *O Dia do Senhor deve ser precedido pela*
*reconciliação.*
Devemos levar ainda mais longe nosso amor pela paz. São Paulo diz:
“Não deixe o sol se pôr sobre a sua ira” (Ef 4:26). As sombras só fazem
aumentar nosso aborrecimento. *Nossa raiva voltará e nos despertará à*
*noite, e terá se tornado amarga.* As emoções sombrias e dolorosas
entre as quais o ódio, o desejo de vingança e o ciúme - tornam-se mais
dolorosas durante a noite, da mesma forma que as feridas, as febres e
as doenças.
Nas brigas, processos e disputas, cada um convoca o outro perante
um juiz, porque a ofensa é mútua. Em vez disso, ambas as partes devem
buscar um acordo voluntário e mútuo, em vez de chegar a um
julgamento que só aumentará a amargura de todos. Esta é a verdade
que devemos considerar.
Santo Agostinho disse que o inimigo com o qual devemos nos
reconciliar enquanto caminhamos aqui embaixo não é outro senão a
verdade, que nos condena nesta vida e na próxima nos leva ao carrasco
que nos obrigará a pagar ao último centavo, ou seja, permanecer para
sempre naquela terrı́vel prisão, pois nunca poderemos saldar a dívida
de nossos crimes.
“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos
nossos devedores” (Mateus 6:12, Douay-Rheims). É algo digno de nossa
reflexão que Deus fez depender o perdão que esperamos dele do
perdão que ele nos ordena dar àqueles que nos ofenderam. Não
contente em ter constantemente inculcado esta obrigação, ele a colocou
em nossas próprias bocas em nossa oração diária, de modo que, se
falharmos em perdoar, ele nos dirá o que disse ao servo mau: *“Eu te*
*condeno por tua causa da própria boca!”* (cf. Lucas 19:22). Você me pediu
perdão, prometendo perdoar em troca. Você pronunciou sua própria
sentença quando se recusou a perdoar seu irmão. Vá para aquele lugar
infeliz onde não há perdão nem misericórdia.
Jacques-Benigne Bossuet
Meditações para a Quaresma
Comentários
Postar um comentário