Semana 3: Domingo - Em Espı́rito e em Verdade

 *Semana 3: Domingo*

 *Em Espirito e em Verdade*



 Meu Salvador, porque considerando o vão discurso daqueles que

 rejeitam a sua Igreja me leva a desejar uma maior compreensão da sua

 verdade, desejo refletir sobre os argumentos que são feitos contra a

 adoração, reserva e exposição do seu Santíssimo Sacramento.

 Eles dizem que as palavras do Evangelho não mostram que os

 Apóstolos adoraram o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo quando os

 receberam. Perguntemos-lhes se vemos os Apóstolos adorando o

 próprio Jesus, que estava constantemente sentado com eles em sua

 forma visível e natural.

 Oh meu Deus! Essas almas em disputa não verão que, seja qual for a

 maneira pela qual respondam, elas se condenarão? Os Apóstolos

 adoravam Jesus? Se eles disserem que sim, então eles acreditam sem

 que isso seja escrito. Se eles dizem que não, então o que eles devem

 concluir sobre o fato de que não está escrito se eles adoraram a

 Eucaristia?

 Esses descrentes, pensando que são sábios e nos chamando de tolos,

 são eles mesmos os tolos, pois nada sabem sobre a verdadeira

 adoração. Limitemo-nos às próprias palavras que estão escritas sobre a

 Ultima Ceia e, sem completar o relato com referência a outras

 passagens dos Evangelhos, acreditemos em Jesus quando diz: “Tomai,

 comei; isto é o meu corpo” (Mateus 26:26). *Acredite nele, isto é, sem*

 *hesitar e sem discutir,* quando ele diz algo tão surpreendente. *Faça o*

 *que ele diz e coma o que parece ser pão com uma fé segura de que é seu*

 verdadeiro corpo. Faça o mesmo com o cálice sagrado.*

 Fazer um ato de fé ao mesmo tempo tão puro e tão exaltado: isso não

 é adorar Jesus Cristo? Mas para discernir com São Paulo que este não é

 apenas o corpo de um homem, mas o de Deus, e o verdadeiro pão

 desceu do céu, para colocar nossa esperança e *buscar nossa vida ali,*

 para *nos unirmos a ele por amor:* isso não é adoração perfeita? O que

 significa acrescentar a tal fé genuflexões, reverências, prostrações ou

 qualquer forma de adoração exterior, exceto para testemunhar

 externamente o que está em nosso coração?

 “Você acredita no Filho do homem?” disse o Salvador ao cego que

 havia curado. “Quem é ele”, respondeu ele, “para que eu acredite nele?”

 “E ele quem vos fala”, respondeu Jesus. E o cego de nascença disse:

 “'Senhor, eu creio'; e ele o adorou” (João 9:35-38). *O que ele fez ao*

 *prostrar-se diante de Jesus senão repetir de outra maneira e em outra*

 *língua o “creio” que acabara de dizer com sua boca?* Aquela mulher que 

o tocou para ser curada (Lc 8,43): não o tinha já adorado no seu

 coração antes de se lançar aos seus pés?

Quem não vê isso para crer em Jesus, que diz: “Isto é o meu corpo;

 isto é o meu sangue”, recebê-lo nesta fé, e discernir que este corpo é o

 corpo de Deus pelo qual a vida nos é dada já é um ato da mais alta

 adoração e que todas as prostrações que fazemos a Jesus Cristo são

 apenas seu testemunho exterior? *E então com razão que juntamos a*

 *adoração exterior à adoração eucarística interior, isto é, juntamos o*

 *sinal ao sentimento e o testemunho à fé.* E com razão, como nos dizem

 os santos, que manifestamos externamente, por nossa postura, a

 humildade de nosso espirito interior, e que, como diz Santo Agostinho,

 *“ninguém toma este corpo sem primeiro adorá-lo.”* O testemunho da

 Igreja sobre esta prática é constante. Mas por que buscamos essas

 testemunhas quando comer e beber este Corpo e Sangue, como o Corpo

 e Sangue de Deus, e colocar toda a nossa esperança nele já é uma forma

 tão elevada de adoração que vemos que deve atrair todos os outros

 atrás dele em seu trem?

 *Vamos dar o passo. Não demoremos mais.* Adoremos Jesus, que

 repousa sobre o altar. Ah! *E lá que ele me espera.* E de lá que um dia ele

 será trazido a mim como Viático, para me trazer feliz desta vida para a

 próxima. *Pão de quem procura, serás um dia o pão de quem vê, o pão de*

 *quem vive na pátria celeste. Eu te adoro. Eu acredito em você. Eu te*

 *desejo. Eu comungo com você em espirito: você é meu alimento; você é*

 *minha vida.*


Jacques-Benigne Bossuet 

 Meditações para a Quaresma

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