Semana 5: Terça-feira - Os Fariseus

Semana 5: Terça-feira
Os Fariseus

 O reinado do Salvador deveria ser glorioso e brilhante, embora com
 glória e brilho diferentes do que os judeus carnais haviam imaginado.
 Jesus mostrou-lhes que nada era mais fácil do que ser reconhecido pelo
 povo como seu rei. Era necessário, no entanto, que houvesse
 contradição em seu triunfo, e isso vemos no ciúme dos principais
 sacerdotes, dos escribas e dos fariseus. O ciúme deles é explicado por
 São João. Enquanto todos se aglomeravam para ver o Salvador e louvá
lo, os fariseus diziam entre si: “Vês que nada podeis fazer; eis que o
 mundo o segue” (João 12:19). Isso eles não podiam suportar.
 *Eles foram consumidos pelo ciúme.* Enquanto até as crianças
 clamavam que ele era o filho de Davi, elas lhe disseram: “Mestre,
 repreende os teus discípulos” (Lucas 19:39); “Você está ouvindo o que
 eles estão dizendo?” (Mateus 21:16). Jesus disse duas coisas em
 resposta. Primeiro: “Você nunca leu: *'Da boca de pequeninos e crianças*
 *de peito você trouxe louvor perfeito'?”* (Mateus 21:16, Douay-Rheims).
 Você deveria se surpreender se as crianças louvassem a Deus em minha
 pessoa? Se você tivesse a simplicidade e sinceridade de um jovem
 inocente, você louvaria a Deus como eles; como eles, honrarias aquele
 que ele envia. Mas sua inveja, vanglória, hipocrisia e maquinações o
 impedem. Despojem-se desses vícios e vistam-se da inocência e
 simplicidade das crianças, para que possam cantar os louvores de Jesus
 Cristo com sinceridade e pureza.
 A segunda resposta do Salvador aos fariseus foi: *“Digo-vos que, se*
 *estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:40).* Pois Deus
 é suficientemente poderoso, como explicou São João Batista, “destas
 pedras para suscitar filhos a Abraão” (Mateus 3:9), e dos corações mais
 endurecidos para fazer verdadeiros crentes. O tempo estava por vir, e
 chegou, quando a glória de Jesus Cristo ressoaria tão alto por toda a
 terra que as nações se reuniriam ao som, e *Deus seria adorado por um*
 *povo que até então não o conhecia e que não o conhecia.* estavam
 profundamente adormecidos em seus pecados. *Ó pedras, ó corações*
 *endurecidos: vocês devem despertar com estas palavras do Salvador!*
 Enquanto o povo aplaudia o Salvador e elevava seus louvores ao Céu,
 seus inimigos, não contentes com o fato de sua inveja ilimitada aparecer
 apenas em suas palavras, fizeram planos secretos para matá-lo.
 *Contemplemos os efeitos do ciúme, que é uma das feridas mais*
 *graves de nossa natureza.* Jesus, que veio nos curar dela, primeiro teve
 que sentir toda a sua malícia, e o sofrimento que a inveja lhe causaria
 serviria de remédio a esse veneno. *A inveja é o efeito negro e secreto de*
 *um orgulho fraco, que se sente diminuído pelas mínimas conquistas*
 *dos outros.* É o veneno mais perigoso do nosso amor-próprio, que
começa por consumir aquele que o vomita sobre os outros e o leva a
 cometer atos mais vis. Pois o orgulho é naturalmente empreendedor e
 quer brilhar, mas a inveja se esconde sob todos os tipos de pretextos e
 se agrada de caminhos secretos e sombrios. Mentiras ocultas, calúnias,
 traições: todo truque maligno é sua porção e sua taça. Ele brilha e lança
 contra o homem justo - cuja boa reputação o confronta - todo insulto e
 zombaria, com toda a amargura do ódio e os últimos excessos da
 crueldade. O Salvador! O Apenas Um! O Santo dos santos! Isso é o que
 tinha que ser feito em sua pessoa.
 *Arranquemos as lascas de inveja que se alojam no fundo de nossos*
 *corações. Consideremos a malícia e o horror de tal veneno.*

Jacques-Benigne Bossuet 
Meditaço‌es para a Quaresma


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