Semana 3: Sexta-feira - O Grande Mandamento
Semana 3: Sexta-feira
O Grande Mandamento
“Mestre, qual é o grande mandamento da lei?” (Mateus 22:36). Jesus,
que é a própria verdade, sempre procedeu diretamente ao primeiro
princı́pio. Ficou claro que o maior mandamento deveria ter a ver com
Deus, por isso ele escolheu esta passagem para sua resposta: *“Ouve, ó*
*Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor”* (Dt 6:4). Aqui se
proclama a grandeza de Deus na sua perfeita unidade, donde se conclui
que devemos consagrar-lhe o nosso amor, fazendo-o reinar nos nossos
corações. O amor que devemos dar a um ser tão perfeito também deve
ser perfeito. É por isso que o Salvador respondeu à pergunta referindo
se à passagem da Escritura que ordena a perfeita união de todos os
nossos desejos em Deus. No entanto, por medo de que uma pessoa
ignorante pudesse suspeitar que unir todo o nosso amor em nosso
amor a Deus não deixaria nada para o nosso próximo, ele acrescentou o
segundo preceito ao primeiro, levando o amor ao próximo à sua
perfeição, mostrando novamente que o a lei ordena que “amemos o
próximo como a nós mesmos” e usando a palavra próximo em vez da
palavra amigo que está na lei (cf. Lev. 19:18 no Douay-Rheims), porque
a palavra mais geral vizinho estende nossa caridade a todos aqueles que
compartilham nossa natureza comum, como já havia explicado o Filho
de Deus na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:29).
Aqui, então, vemos toda a lei resumida em seus dois princı́pios mais
gerais. *O homem fica assim perfeitamente instruı́do sobre todos os seus*
*deveres, pois vê num piscar de olhos o que deve a Deus, seu Criador, e*
*aos homens, seus iguais.* Aqui está todo o Decálogo: a primeira tábua
está contida no preceito de amar a Deus, e a segunda no amor ao
próximo. Não apenas o Decálogo está contido nesses dois preceitos,
mas também “toda a lei e os profetas” (Mateus 22:40), pois Deus aqui
nos ensina não apenas nossos deveres exteriores, mas também o
princı́pio interior pelo qual devemos agir, que é o amor. Aquele que
ama não tem falta de nada para com aquele que ama. *E ele nos instrui*
*gentilmente, não nos obrigando a ler e entender toda a lei – o que os*
*fracos e ignorantes não seriam capazes de fazer – mas reduzindo o todo*
*a seis linhas.* Além disso, para que nossa atenção não se desvie
considerando cada um de nossos deveres em particular, ele os inclui
todos no único princípio de um amor sincero, dizendo que devemos
*“amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração . . . e ao teu próximo como*
*a ti mesmo” (Mateus 22:37-39).*
Adoremos a verdade eterna nesta admirável abreviação da lei. Como
sou grato a ti, ó Senhor, que me dá toda a substância da lei em apenas
algumas palavras! Quando, para dar à minha mente o exercício
adequado, eu ler o restante de suas Escrituras, esses dois preceitos
serão o fio que me guiará por todas as dificuldades desse livro
profundo. Eles resolverão e desvendarão todas as dificuldades. Ó Deus,
eu te louvo! Ó Jesus, seja abençoado! *Ó Jesus, dedicar-me-ei a meditar*
*neste admirável resumo da doutrina celeste. Desejo meditar nestas*
*palavras tão cheias de luz, para que eu possa sentir seu poder e me*
*encher delas.* Ó Jesus, dai-me esta graça! Ó Jesus, enche a minha alma
com o teu Espı́rito Santo, que é o amor eterno e subsistente do teu Pai e
de ti mesmo, para que ele me ensine a amar a ambos e a amar convosco,
como um só e o mesmo Deus, o Espı́rito que procede de vocês dois.
Jacques-Benigne Bossuet
Meditações para a Quaresma
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