Semana 3: Quinta-feira - Sacerdote, Profeta e Rei

Semana 3: Quinta-feira

Sacerdote, Profeta e Rei



 Embora o que devemos a Jesus esteja incluído no mandamento de amar

 a Deus, vale a pena considerar o que devemos a ele como o Cristo, isto

 é, como mediador e vı́nculo do amor de Deus por nós e do nosso por

 ele. Para fazer isso, devemos olhar para a própria explicação de Cristo

 da famosa profecia de seu reinado proferida por Davi, seu antepassado.

 Como é bom que o Cristo tenha sido visto por seus pais! Por Abraão,

 que viu seu dia e se alegrou com ele (João 8:56), e por Davi, que ficou

 maravilhado com sua grandeza e chamou de “meu Senhor” (Sl 110:1)

 aquele que seria seu próprio filho.

 Assim como Deus deu a Abraão a promessa da multiplicação dos

 fiéis, também deu a Davi a de seu reino eterno, de um trono que duraria

 mais que o sol e a lua (Sl 89:35-7). Assim, convinha que Davi — a quem

 a promessa foi feita como figura de Jesus Cristo — fosse o primeiro a

 reconhecer o Cristo, chamando-o de seu Senhor. “O Senhor disse ao

 meu Senhor” (Sl 110:1); é como se ele tivesse dito: “Parece que Deus

 me prometeu um império sem fim, mas, na verdade, é para você, meu

 filho e também meu Senhor, a quem será dado. E venho em espı́rito, o

 primeiro de todos os seus súditos, para prestar-lhe homenagem em seu

 trono, à direita de seu Pai, como ao meu soberano Senhor”.

 “Se Davi assim o chama de Senhor, como ele é seu filho?” (Mateus

 22:45). Com esta pergunta, Jesus desejava elevar seus olhos para o

 nascimento superior do Cristo, que não era apenas o Filho de Davi, mas

 o Filho unigênito de Deus. Tudo o que eles tiveram que fazer para

 aprender sobre esse nascimento eterno foi continuar o salmo, pois o

 próprio Deus diz a seguir: *“No brilho dos santos; desde o ventre antes*

 *do amanhecer eu te gerei”* (Salmos 109:3, Douay-Rheims [RSV = Salmos

 110:3]).

 *Antes do amanhecer, antes que começasse a aparecer aquela luz que*

 *se põe e nasce todos os dias, havia uma luz eterna que fazia a felicidade*

 *dos santos: é nessa luz eterna que eu te gerei.*

 Eu vos adoro, ó Jesus, meu Senhor, nesta imensa e eterna luz. Eu te

 adoro como a luz que “ilumina todo homem” (João 1:9): *Deus de Deus,*

*luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.*

 Que alegria é ver o próprio Jesus Cristo explicando as profecias que

 se referem a ele e assim nos ensinando como devemos entender todas

 as outras. Tudo o que devemos a Jesus nos é mostrado neste salmo. Nós

 o vemos primeiro como Deus e dizemos: *este é o nosso Deus e não há*

 *outro. Porque, se foi gerado, é o Filho; se é o Filho, é da mesma natureza*

 do Pai; se ele é da mesma natureza que seu Pai, ele é Deus, e um só

 Deus com seu Pai, pois nada é mais essencial para Deus do que sua

 unidade.

Ele é rei. Onde está o seu trono? A direita de Deus. Poderia ser

 colocado mais alto? Tudo depende deste trono, tudo o que depende de

 Deus e o reino dos céus é submetido a ele: aqui está o seu reinado.

 Este império é sagrado, um sacerdócio e um sacerdócio estabelecido

 por um juramento. Deus quis, por meio de uma declaração mais

 particular de sua vontade, marcar este sacerdócio como único: “O

 Senhor jurou e não se arrependerá”. O sacerdócio de Jesus Cristo é

 eterno: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de

 Melquisedeque” (Sl 110:4). *Você não tem começo nem fim.* Este não é

 um sacerdócio que veio de seus antepassados, nem que passará para

 seus descendentes. Seu sacerdócio não passará para outras mãos:

 haverá sacerdotes que sacrificarão sob seu comando, mas serão seus

 vigários e não seus sucessores.

 Você celebra um ofício eterno para nós à direita de seu Pai. Conservas

 continuamente as marcas das chagas que o apaziguaram e nos salvas.

 Você oferece a ele nossas orações. Você intercede por nossas faltas. Tu

 nos abençoas e nos consagras. Das alturas do Céu você batiza seus

 filhos. Você transforma dons terrenos em seu Corpo e Sangue. Você tira

 nossos pecados. Você envia seu Espı́rito Santo, consagra seus ministros

 e realiza tudo o que eles realizam em seu nome. Quando nascemos,

 você nos lava com água celestial; quando morremos, tu nos sustentas

 com o conforto da tua unção, e nossos sofrimentos se tornam nossos

 remédios, nossa morte uma passagem para a verdadeira vida. Ó Deus! Ó

 Rei! Ó Sumo Sacerdote! Eu me uno a você em todas essas qualidades e

 me submeto à sua divindade, seu governo e seu sacerdócio, que honro

 com humildade e fé na pessoa daqueles por quem você se compraz em

 exercê-lo na terra.



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma


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