Semana 4: Domingo - Uma Vida Oculta em Deus (I)

Semana 4: Domingo

Uma Vida Oculta em Deus (I)



 *“Você morreu e sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando*

 *Cristo, que é a nossa vida, aparecer, vocês também aparecerão com ele*

 *na glória” (Cl 3:3-4).*

 *Você morreu: para quê?* _Para o pecado._ Você morreu para ele pelo

 batismo, pelo arrependimento e pela procissão de uma vida cristã . Você

 morreu para o pecado, mas como então *“nós, que morremos para o*

 *pecado, ainda podemos viver nele?”* (Romanos 6:2). Devemos morrer

 para ele de uma vez por todas.

 Para morrer completamente para o pecado, é necessário que

 morramos para todas as nossas *más inclinações,* para tudo o que

 *lisonjeia nossos sentidos e para o orgulho.* A todas estas coisas as

 Escrituras chamam pecado, porque procedem do pecado, porque

 inclinam para o pecado e porque não nos permitem ficar totalmente

 livres do pecado.

 *"Você morreu." Quando essas palavras de São Paulo se cumprirão em*

 *nós? Em que momento abençoado de nossas vidas? Quando estaremos*

 *sem pecado?* Nunca durante esta vida. A quem, então, São Paulo está

 falando quando diz: “Você morreu”? E para as almas dos justos? Eles

 estão mortos? Eles não estão, ao contrário, na terra dos vivos? Não

 pode ser para eles que São Paulo fala; é para nós. A concupiscência do

 mal permanece em nós, e devemos lutar contra ela durante toda a

 nossa vida. *Mas nós o seguramos com firmeza, presos ao chão.* Nós o

 seguramos, mas o vencemos? Deverı́amos. Podemos, com a graça de

 Deus. E se durante a luta nos causar algum dano, não cessaremos de

 gemer, nem de nos humilhar, dizendo com São Paulo: *“Quem me livrará*

 *deste corpo de morte?”* (Romanos 7:24). Você foi liberto, alma cristã:

 você foi liberto na esperança.

 “E sua vida está escondida.” Nossa morte, então, não é total. São

 Paulo explica: “Se Cristo está em vocês, embora seus corpos estejam

 mortos por causa do pecado”, isto é, o pecado que uma vez reinou neles

 e que deixou suas marcas, “seus espı́ritos estão vivos por causa da

 justiça”, a justiça que a caridade derrama em nossos corações (Rom.

 8:10). E com relação à vida de retidão cristã que São Paulo diz: “e sua

 vida está escondida”. Libertados do julgamento humano, devemos

 considerar verdadeiro apenas o que Deus vê em nós, o que ele sabe e o

 que ele julga. *Deus não julga como o homem.* O homem vê apenas o

 semblante, apenas o exterior. *Deus penetra no mais profundo de nossos*

 *corações.* Deus não muda como o homem. Seu julgamento não é de

 forma alguma inconstante. Ele é o único em quem devemos confiar.

 Quão felizes somos então, e quão pacificos! *Não somos mais*

*deslumbrados pelas aparências, nem estimulados por opiniões;*

*estamos unidos à verdade e dependemos somente dela.*

 *sou elogiado, censurado, tratado com indiferença, desdenhado,*

 *ignorado ou esquecido; nada disso pode me tocar. Não serei menos do*

 *que sou.* Homens e mulheres querem brincar de ser criadores. Eles

 querem me dar existência em sua opinião, mas essa existência que eles

 querem me dar é nada. E uma ilusão, uma sombra, uma aparência, ou

 seja, no fundo, o nada. O que é essa sombra, sempre me seguindo, atrás

 de mim, ao meu lado? Sou eu ou algo que me pertence? Não. No

 entanto, essa sombra não parece se mover comigo? Não importa: não

 sou eu. Assim é com os julgamentos dos homens: eles me seguiriam por

 toda parte, me pintariam, me esboçariam, me fariam mover de acordo

 com seus caprichos e, no final, me dariam algum tipo de existência. Mas,

 no fundo, eu sei bem: é apenas uma luz bruxuleante que me leva de um

 lado para o outro, que alonga, encurta, incha ou encolhe a sombra que

 me segue, que a faz aparecer de várias maneiras e desaparecer sem que

 eu ganhe ou perca nada de mim mesmo. E o que é essa imagem de mim

 mesmo que vejo refletida na correnteza? Ele borra e apaga a si mesmo;

 desaparece quando a água é agitada, mas o que perdi? Nada além de

 uma diversão inútil. Assim é com as opiniões e julgamentos que os

 homens formam de acordo com suas luzes. Infelizmente, não apenas

 me divirto com eles como com um jogo; Paro, e os tomo por algo sério e

 verdadeiro, e essa sombra, essa imagem frágil me incomoda e me

 inquieta, e acredito estar perdendo alguma coisa. Mas estou desiludido

 com esse erro. *Estou contente com uma vida escondida.* Como é

 tranquilo! Se vivo verdadeiramente esta vida cristã de que fala São

 Paulo, não sei, nem posso saber com certeza. *Mas espero que sim, e*

 *confio na bondade de Deus para me ajudar.*



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma




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