Semana 4: Terça-feira - Uma Vida Oculta em Deus (III)
Semana 4: terça-feira
Uma Vida Oculta em Deus (III)
Meu Senhor, onde você deve me levar? Que nova luz você deve brilhar
sobre mim? Vejo o cumprimento do que o santo Simeão disse: “Eis que
este menino está posto para queda e ressurreição de muitos em Israel e
para sinal de contradição” (Lucas 2:34, Douay-Rheims). O meu Salvador,
o que vejo nestas palavras? O caráter do Cristo que estava por vir, sua
grandeza e divindade.
E uma forma da grandeza de Deus que ele seja cognoscível de tantas
maneiras e, ainda assim, tão pouco conhecido, que brilhe em suas obras
e ainda assim seja ignorado por suas criaturas. De sua bondade ele
falou à humanidade e não os deixou sem revelação; mas de sua justiça e
grandeza ele se esconde dos orgulhosos, que não se dignam a abrir os
olhos para vê-lo. Que necessidade ele tem de seu reconhecimento? Ele
só precisa de si mesmo. *Nosso conhecimento dele não é um presente*
*que damos a ele, mas uma graça que ele nos dá.* Seremos amplamente
punidos se nos recusarmos a vê-lo. Sua glória essencial está
inteiramente nele mesmo, e a glória que recebe dos homens é um bem
para eles, não para ele.
Por outro lado, é um mal para eles, *e o maior de todos os males, não*
*glorificá-lo. Mesmo a recusa em glorificá-lo o glorifica de outra maneira,*
*porque os homens se tornam infelizes por não conhecê-lo.* O que
importa para o sol se nós o vemos? Ai do cego a quem sua luz está
escondida; ai do fraco que não aguenta! O cego acabará sendo exposto
ao sol escaldante e perguntará: “O que é que me queima?” Ele será
informado: “E o sol”. "O que? Este sol que ouço louvar e admirar todos
os dias: é isso que me atormenta? Que seja amaldiçoado!” E ele detesta
esta bela estrela porque não a vê, e não vê-la será seu castigo. Pois se
ele o visse, o próprio sol, com sua luz gentil, mostraria a ele onde ele
poderia buscar proteção contra seus raios ardentes. *Toda a sua miséria,*
*então, reside em não vê-lo.* Mas por que deveríamos falar do sol,
quando afinal ele não passa de um grande corpo sem vida que vemos
apenas com nossos olhos? Falemos de uma outra luz, sempre pronta a
brilhar no fundo da nossa alma e a enchê-la de luz. O que acontece com
o cego deliberado que o impede de brilhar para ele? Ele está afundado
nas sombras e infeliz.
E tu, ó luz eterna! Você permanece em sua glória e em seu brilho e
manifesta sua grandeza de tal forma que ninguém o perde, mas a perda
é dele. *Pai das luzes, você deu um caráter semelhante ao seu Cristo, de*
*modo a manifestar que ele é Deus como você é, o brilho de sua glória, o*
*brilho de sua luz, a marca de sua substância.* Ele é a queda de uns e a
ressurreição de outros, e pelo seu grande brilho é sinal de contradição,
pois quem não tiver força ou coragem para vê-lo, necessariamente
blasfemará contra ele.
O meu Deus, o que aconteceu com a cabeça e o mestre também
acontecerá com os membros e os discı́pulos. Este mundo orgulhoso não
é digno de ver os discı́pulos e imitadores de Jesus Cristo, nem de
conhecê-los. Devem ser desdenhados e contrariados, colocados na
fileira dos loucos, dos antiquados, dos débeis mentais, que dão bom
espetáculo, mas por dentro se alimentam de glória e vaidade como
todos os outros. O que o mundo não inventou para jogar contra seus
humildes servos? Esta é a maneira que desejaste dar-lhes parte do teu
caráter e do de teu Filho. *Portanto, desejo estar escondido em vós com*
*Jesus Cristo, até que a verdade apareça triunfante.*
E você, quem quer que seja, a quem a Divina Providência deve trazer
este livro, *seja você grande ou pequeno, pobre ou rico, sábio ou*
*ignorante, padre ou leigo, monge ou freira: vá agora ao pé do altar e*
*contemple Jesus ali, no sacramento onde se esconde. Permaneça aı́ em*
*silêncio. Não diga nada a ele. Olhe para ele e espere que ele fale com*
*você no fundo do seu coração.* Você vai vê-lo. Eu morri, diz ele, e minha
vida está escondida em Deus até que eu apareça em minha glória para
julgar o mundo. Esconda-se em Deus comigo e não pense em aparecer
até que eu apareça. Se você estiver sozinho, eu serei seu companheiro.
Se você for fraco, eu serei sua força. Se você for pobre, eu serei o seu
tesouro. Se você estiver com fome, eu serei sua comida. Se estiveres
aflita, serei a tua consolação e a tua alegria. Se você está entediado, eu
serei o seu deleite. Se você está caindo, eu vou te segurar. “Eis que estou
à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em
sua casa e comerei com ele, e ele comigo” (Ap 3:20). Não desejo um
terceiro: nenhum outro senão você e eu.
E eu lhe darei “a comer da árvore da vida, que está no paraı́so de
Deus”, e do “maná escondido”, cujo gosto ninguém conhece, exceto
aquele a quem é dado (Ap 2:7 , 17). “Quem tem sede venha, quem
quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22:17). Assim seja, ó Senhor,
que vives e reinas com o Pai e o Espı́rito Santo, para todo o sempre.
Amém.
Jacques-Benigne Bossuet
Meditações para a Quaresma
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