Semana 4: Quarta-feira - Deus, a Vida da Alma
*Semana 4: Quarta-feira*
*Deus, a Vida da Alma*
Deus não fez a morte. Ao contrário, ele criou a alma racional para
habitar em união indissolúvel com o corpo humano. Quando o salmista
cantou: “Um corpo me preparaste” (Hebreus 10:5; cf. Salmos 39:7,
Douay-Rheims [RSV = Salmos 40:7]), foi como se ele tivesse dito ao
Criador: O Senhor, fizestes a minha alma de uma natureza diferente da
do meu corpo, pois, depois de ter formado este corpo da lama, isto é, da
terra úmida, não era nem da terra, nem da água, nem da uma mistura
do úmido e do seco, nem finalmente de qualquer matéria que você tirou
a alma que você misturou nesta massa para dar-lhe vida. Foi de ti
mesmo, da tua boca que o tiraste; você soprou o “fôlego da vida” (Gn
2:7), e o homem foi animado, não pelo arranjo de seus órgãos, não pela
harmonia dos elementos, mas por um princípio de vida que você trouxe
de dentro você mesmo, por uma nova criação, inteiramente diferente
daquela pela qual você tirou o mundo material do nada. E por isso que
quando você quis fazer o homem, você começou uma nova ordem de
coisas, uma nova criação. “Façamos o homem” (Gn 1:26); era outro
trabalho, outro método, diferente daquele que o precedeu e totalmente
diferente dele.
Deus fez esta alma com uma natureza imortal. Deixando de lado os
outros argumentos que nos mostram esta verdade, basta considerar
aquele que nos é dado pela Sagrada Escritura. E que Deus fez o homem
à sua imagem, e sua alma é uma participação na vida de Deus. De certo
modo a alma vive como ele, porque vive pela razão e pela inteligência, e
Deus a tornou capaz de amá-lo e conhecê-lo como ele se ama e se
conhece. E por isso que, sendo feita à sua imagem e vinculada à sua
verdade imortal, a alma não tira o seu ser da matéria e não está sujeita
às suas leis. *Por esta razão, a alma não morre, independentemente da*
*mudança que aconteça com a matéria abaixo dela, a menos que aquele*
*que a extraiu e a fez à sua imagem de repente afrouxasse seu aperto e a*
*deixasse cair no abismo.*
No entanto, como a alma pertence à ordem mais baixa das
substâncias inteligentes, é ela que forma o vı́nculo entre os espíritos e
os corpos. Deus fez substâncias espirituais em diferentes graus de
perfeição; o inferior é tão imperfeito que sua natureza é estar unido a
um corpo. Pois tudo está disposto em ordem, e o primeiro Ser dá o ser e
se difunde de acordo com essa ordem. Assim, a alma racional encontra
se unida a um corpo por sua natureza.
No entanto, as palavras “um corpo me preparaste” têm um
significado ainda mais particular. Pois podemos imaginar a alma
racional falando ao seu Criador, dizendo: “Ao mesmo tempo que você
me fez imortal ao me criar conforme a sua imagem, você também
preparou um corpo que me convém tão bem que nossa paz e nossa
união teria sido eterno e inquebrantável se o pecado, interpondo-se
entre nós, não perturbasse a harmonia celestial”. Como o pecado
desuniu duas coisas tão bem ajustadas uma à outra? Pode-se entender
por este ensinamento de Santo Agostinho: *“E uma lei imutável da*
*justiça divina que o mal que escolhemos deve ser punido por um mal*
*que odiamos.* E, portanto, justo que, tendo escolhido o pecado, a morte
se siga, contrariamente à nossa vontade, e que nossas almas sejam
constrangidas a deixar nossos corpos pelo castigo daquele que
abandonou a Deus voluntariamente”.
E assim que “como o pecado entrou no mundo”, a morte, como diz o
apóstolo, veio pelo mesmo meio (Rm 5:12). E por isso que o Filho de
Deus destruiu a morte somente depois de ter destruído o pecado. E
antes de falar a palavra de ressurreição aos mortos no fim dos tempos,
ele fala a palavra de arrependimento aos pecadores agora. *Ouça, você*
*que está morto em espírito, Jesus Cristo chama você para renascer com*
*ele: “Por que você vai morrer, ó casa de Israel?”* (Ezequiel 33:11). Saiam
de suas tumbas. Deixe seus maus hábitos para trás.
“Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em
que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem
viverão” (João 5:25). *Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, tanto os*
*mortos no corpo como os mortos no espı́rito.* Pois como Santo
Agostinho nos ensina: *“A alma é a vida do corpo, e Deus é a vida da*
*alma”.* Assim como o corpo morre quando perde sua alma, assim
também o espírito morre quando perde seu Deus.
Esta morte é uma morte que não se pode sentir, e, no entanto, se
soubéssemos como ver as coisas, se pudéssemos entender o quanto
mais deve ser temida a morte da alma devido ao pecado, sofreríamos de
bom grado a morte de nossos corpos, mesmo que essa morte nos
pareça tão cruel. Pois se é um grande mal para o corpo perder sua alma,
quanto pior é para a alma perder seu Deus! Se somos tomados de
horror ao ver o corpo frio e insensível abatido, sem poder e sem
movimento, quanto mais horrível é contemplar a alma racional
separada de Deus: *é um cadáver espiritual que vive agora apenas para*
*fazer sua morte eterna.* E aos que estão mortos em espírito, às almas
dos pecadores, que Jesus Cristo fala, chamando-os ao arrependimento:
*“Vem a hora, e já chegou”.*
Jacques-Benigne Bossuet
Meditações para a Quaresma
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