Semana 4: Sábado Nenhum Homem jamais falou como este Homem
Semana 4: Sábado
Nenhum Homem jamais falou como este Homem
Embora estejamos muito longe daquela bendita visão em que veremos
claramente o Pai no Filho e o Filho no Pai, o Filho de Deus vem nos
ensinar que o Pai já começou a se manifestar nele em dois
maravilhosos caminhos: pelas suas palavras e pelas obras do seu poder
que são os seus milagres.
*“Você não acredita que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As*
*palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo” (João 14:10).* Se
não sou de mim mesmo, não falo por minha própria autoridade; se eu
sou a palavra, sou a palavra de alguém. Aquele que me faz falar me dá o
meu ser, e todas as minhas palavras são dele, na medida em que a
palavra substancial da qual nascem todas as palavras que eu falo é dele.
As palavras de Jesus Cristo têm algo de divino, em sua simplicidade,
em sua profundidade e na branda autoridade com que fala. *“Ninguém*
*jamais falou como este Homem” (João 7:46).* Nenhum homem jamais
desfrutou da autoridade natural sobre as mentes que pertence à
verdade, que sem esforço e sem a afetação de uma maneira elevada lhe
dá um poder sobre nós que penetra no coração, mas é suave e pacifico.
No entanto, a maravilha dessas palavras é que um homem que fala
como Deus ao mesmo tempo fala como quem recebe tudo do outro: “O
que eu digo . . . Digo como o Pai me ordenou ”(João 12:50), e como ele
sempre me ordena, porque ele fala comigo continuamente, pois eu sou
a sua palavra. *“O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou”*
*(João 7:16).* E que prova disso ele dá? “Aquele que fala por sua própria
autoridade busca sua própria glória; mas aquele que busca a glória
daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade” (João 7:18).
Meu Salvador, não fale muito como uma criatura. O que é uma
criatura senão algo que não é de si mesmo, que nada tem de próprio,
que está sempre tomando emprestado? A diferença é imensa entre o
que é produzido desde toda a eternidade e o que é produzido no tempo.
O primeiro existe para sempre; o último não existe para sempre e pode
deixar de existir. E extraído do nada e em si mesmo é o nada. Que
grande diferença há, portanto, entre vir de Deus como sua obra e vir de
Deus como seu Filho! *Um é criado, o outro gerado.* A pessoa é tirada do
nada e em si mesma é o nada. O outro é extraı́do da substância de Deus
e, conseqüentemente, é o próprio ser.
*Meu Deus, ouso seguir esta luz?* O homem é pai, mas ele é um
verdadeiro pai? O que ele dá ao filho? O filho de um homem
compartilha sua natureza; mas foi o pai quem lhe deu essa natureza?
Não, certamente não. De que maneira, então, veio dele? Muito
imperfeitamente. A verdadeira paternidade encontra-se em Deus, que,
ao gerar o seu Filho desde o seu próprio ser, deu-lhe toda a sua
substância e o fez não só seu igual, mas um com ele: *«Eu e o Pai somos*
*um» (Jo 10, 30).*
Seu Pai, sempre abundante, comunica a ele todo o seu ser, sem reter
nada. Uma coisa é emprestar, ou seja, escolher dar o que não se pode
dar, e outra coisa é ter abundância. Precisamos tentar entender a
abundância, a plenitude, a fecundidade do Pai, sua plena efusão de si
mesmo, permanecendo em si mesmo para gerar outro semelhante a si
mesmo, que tudo recebe sendo gerado, tão grande, tão eterno, tão
perfeito quanto o Pai. Deus não vem de Deus sendo extraído do nada,
mas Deus vem de Deus sendo extraído de sua própria substância.
Produzir outro eu o degradaria se ele produzisse algo inferior a si
mesmo. *Deus, portanto, veio de Deus, o Filho perfeito do Pai perfeito,*
*perfeitamente um com ele, porque ele recebe sua natureza dele, e é sua*
*natureza ser um: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é um”*
*(Deuteronômio 6:4).*
Devemos ousar perscrutar essas profundezas profundas? Por que
Jesus Cristo revelou isso a nós? Por que ele volta ao assunto com tanta
frequência? Quando paramos para considerar essas verdades, não
corremos o risco de esquecer a sublimidade da doutrina cristã?
Devemos tremer quando os consideramos. *Devemos considerá-los*
*através da fé.* Devemos, ouvindo Jesus Cristo e estas palavras divinas,
crer que elas vêm de Deus, e ao mesmo tempo crer que este Deus de
quem elas procedem vem de Deus e que é Filho. A cada palavra que
ouvimos, devemos voltar totalmente à fonte e contemplar o Pai no Filho
e o Filho no Pai.
Fala, então, fala ó Jesus! Fala, tu que és a própria palavra. Eu vejo você
em suas palavras porque elas me fazem ver que você é Deus. *Mas*
*também vejo seu Pai neles, porque eles me ensinam que você é Deus de*
*Deus, a Palavra e o Filho de Deus (João 1:1, 14).*
Jacques-Benigne Bossuet
Meditações para a Quaresma
Nenhum Homem jamais falou como este Homem
Embora estejamos muito longe daquela bendita visão em que veremos
claramente o Pai no Filho e o Filho no Pai, o Filho de Deus vem nos
ensinar que o Pai já começou a se manifestar nele em dois
maravilhosos caminhos: pelas suas palavras e pelas obras do seu poder
que são os seus milagres.
*“Você não acredita que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As*
*palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo” (João 14:10).* Se
não sou de mim mesmo, não falo por minha própria autoridade; se eu
sou a palavra, sou a palavra de alguém. Aquele que me faz falar me dá o
meu ser, e todas as minhas palavras são dele, na medida em que a
palavra substancial da qual nascem todas as palavras que eu falo é dele.
As palavras de Jesus Cristo têm algo de divino, em sua simplicidade,
em sua profundidade e na branda autoridade com que fala. *“Ninguém*
*jamais falou como este Homem” (João 7:46).* Nenhum homem jamais
desfrutou da autoridade natural sobre as mentes que pertence à
verdade, que sem esforço e sem a afetação de uma maneira elevada lhe
dá um poder sobre nós que penetra no coração, mas é suave e pacifico.
No entanto, a maravilha dessas palavras é que um homem que fala
como Deus ao mesmo tempo fala como quem recebe tudo do outro: “O
que eu digo . . . Digo como o Pai me ordenou ”(João 12:50), e como ele
sempre me ordena, porque ele fala comigo continuamente, pois eu sou
a sua palavra. *“O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou”*
*(João 7:16).* E que prova disso ele dá? “Aquele que fala por sua própria
autoridade busca sua própria glória; mas aquele que busca a glória
daquele que o enviou é verdadeiro, e nele não há falsidade” (João 7:18).
Meu Salvador, não fale muito como uma criatura. O que é uma
criatura senão algo que não é de si mesmo, que nada tem de próprio,
que está sempre tomando emprestado? A diferença é imensa entre o
que é produzido desde toda a eternidade e o que é produzido no tempo.
O primeiro existe para sempre; o último não existe para sempre e pode
deixar de existir. E extraído do nada e em si mesmo é o nada. Que
grande diferença há, portanto, entre vir de Deus como sua obra e vir de
Deus como seu Filho! *Um é criado, o outro gerado.* A pessoa é tirada do
nada e em si mesma é o nada. O outro é extraı́do da substância de Deus
e, conseqüentemente, é o próprio ser.
*Meu Deus, ouso seguir esta luz?* O homem é pai, mas ele é um
verdadeiro pai? O que ele dá ao filho? O filho de um homem
compartilha sua natureza; mas foi o pai quem lhe deu essa natureza?
Não, certamente não. De que maneira, então, veio dele? Muito
imperfeitamente. A verdadeira paternidade encontra-se em Deus, que,
ao gerar o seu Filho desde o seu próprio ser, deu-lhe toda a sua
substância e o fez não só seu igual, mas um com ele: *«Eu e o Pai somos*
*um» (Jo 10, 30).*
Seu Pai, sempre abundante, comunica a ele todo o seu ser, sem reter
nada. Uma coisa é emprestar, ou seja, escolher dar o que não se pode
dar, e outra coisa é ter abundância. Precisamos tentar entender a
abundância, a plenitude, a fecundidade do Pai, sua plena efusão de si
mesmo, permanecendo em si mesmo para gerar outro semelhante a si
mesmo, que tudo recebe sendo gerado, tão grande, tão eterno, tão
perfeito quanto o Pai. Deus não vem de Deus sendo extraído do nada,
mas Deus vem de Deus sendo extraído de sua própria substância.
Produzir outro eu o degradaria se ele produzisse algo inferior a si
mesmo. *Deus, portanto, veio de Deus, o Filho perfeito do Pai perfeito,*
*perfeitamente um com ele, porque ele recebe sua natureza dele, e é sua*
*natureza ser um: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é um”*
*(Deuteronômio 6:4).*
Devemos ousar perscrutar essas profundezas profundas? Por que
Jesus Cristo revelou isso a nós? Por que ele volta ao assunto com tanta
frequência? Quando paramos para considerar essas verdades, não
corremos o risco de esquecer a sublimidade da doutrina cristã?
Devemos tremer quando os consideramos. *Devemos considerá-los*
*através da fé.* Devemos, ouvindo Jesus Cristo e estas palavras divinas,
crer que elas vêm de Deus, e ao mesmo tempo crer que este Deus de
quem elas procedem vem de Deus e que é Filho. A cada palavra que
ouvimos, devemos voltar totalmente à fonte e contemplar o Pai no Filho
e o Filho no Pai.
Fala, então, fala ó Jesus! Fala, tu que és a própria palavra. Eu vejo você
em suas palavras porque elas me fazem ver que você é Deus. *Mas*
*também vejo seu Pai neles, porque eles me ensinam que você é Deus de*
*Deus, a Palavra e o Filho de Deus (João 1:1, 14).*
Jacques-Benigne Bossuet
Meditações para a Quaresma
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