Segunda-feira da Semana Santa - A unção

 Segunda-feira da Semana Santa
 A unção


 Aproximando-se o seu tempo, Jesus saiu de seu retiro em Efraim e
 voltou para Betânia, nos arredores de Jerusalém, apenas seis dias antes
 da Páscoa. Ele veio para um banquete na casa de seu amigo Lázaro.
 Marta estava servindo, como sempre fazia, enquanto Maria observava o
 costume dos judeus e “pegou uma libra de caro unguento de nardo
 puro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-lhe os pés com os cabelos dela”,
 com o resultado de que “a casa estava cheia da fragrância do ungüento”
 (João 12:3).
 Ungir Jesus com um bálsamo perfumado é louvá-lo. Ungir sua cabeça
 é louvar e adorar sua divindade, pois “a cabeça de Cristo”, como diz São
 Paulo, “é Deus” (1 Cor. 11:3). Ungir seus pés é adorar sua humanidade e
 sua fraqueza. Enxugar os pés com o cabelo dela era colocar toda a
 beleza e vaidade dela sob seus pés. Assim ela sacrificou tudo a Jesus. Só
 a ele ela desejava agradar. Como os cabelos que tocaram os pés de Jesus
 poderiam ser novamente colocados a serviço da vaidade? E assim que
 Jesus quer ser amado. Só ele é digno de tanto amor, de tanta
 homenagem.
 Devemos notar que esta profusão de óleo escandalizou o hipócrita e
 serviu de pretexto para que ele condenasse a piedade desta mulher e a
 acusasse de indiscrição. Judas fez isso para esconder sua inveja de Jesus
 e das honras que lhe eram prestadas e assim mostrou que ele pertence
 à companhia daqueles que são falsamente caridosos e falsamente
 devotos. Os homens mais perversos são os censores mais severos da
 conduta dos outros, seja por causa da desordem de suas mentes, seja
 por sua hipocrisia ou por seu falso zelo. Judas tinha ainda outro motivo,
 que era que ele guardava a caixa que continha o que era dado ao
 Salvador e “usava para pegar o que era colocado nela” (João 12:6). Quão
 alto fala a avareza quando se cobre com o pretexto da caridade!
 Suas palavras insolentes não só atacaram Maria, mas também Jesus.
 No entanto, o Salvador a defendeu, dizendo: “Deixe-a, deixe-a guardá-la
 para o dia do meu sepultamento” (João 6:7). Ele se considerava já
 morto pela hora que se aproximava, e se colocara na mente e na
 condição de vı́tima.
 Ao mesmo tempo, ele queria que considerássemos como poderíamos
 honrar adequadamente seu corpo puro, formado pelo Espírito Santo,
 onde habitava a própria Divindade, pela qual a morte seria vencida e o
 reino do pecado abolido. Que óleo poderia ser suficientemente fino
 para honrar sua pureza? Ele também queria que o óleo que poderia ter
 servido à suavidade e ao luxo servisse à piedade, para que a vaidade
 fosse assim sacrificada à verdade.
A falsa preocupação de Judas de que o óleo não tivesse sido usado a
 serviço dos pobres, Jesus respondeu: *“Você sempre terá os pobres com*
 *você e, quando quiser, poderá fazer o bem a eles”, mas “nem sempre me*
 *terá ” (Marcos 14:7).* Jesus deve ser servido enquanto resta o seu
 tempo, e depois, depois da sua partida, ser consolado pelo nosso
 serviço aos pobres, cujo cuidado ele aceita como se fosse dado a ele.
 *Quão queridos os pobres devem ser para nós, pois eles ocupam o lugar*
 *de Cristo!* Beijemos seus pés. Participemos de suas humilhações e
 fraquezas. Vamos lamentar sua miséria e sofrer junto com eles.
 Derramemos óleo sobre os seus pés como consolo para a sua dor e
 bálsamo para a sua dor. Vamos enxugá-los com nossos cabelos,
 compartilhando nossa abundância, e vamos nos privar de adornos para
 que possamos cuidar deles.
 Ao mesmo tempo, vamos ungir Jesus. *Expiremos de nossos corações*
 *terno desejo, amor casto, doce esperança, louvor contínuo. Se queremos*
 *amá-lo e louvá-lo dignamente, louvemo-lo com toda a nossa vida;*
 *guardemos a sua palavra.* Abramos-lhe o coração e digamos com São
 Paulo que Ele é “a nossa sabedoria, a nossa justiça, a nossa santificação
 e a nossa redenção” (1 Cor. 1, 30). Cantemos para ele as doces canções
 do povo que ele redimiu: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber
 poder, riqueza, sabedoria, poder, honra, glória e bênção!” (Ap. 5:12).
 Isso é o que toda criatura deveria cantar para ele; este é o caro óleo da
 unção que devemos derramar de nossos corações.

Jacques-Benigne Bossuet 
Meditaço‌es para a Quaresma


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"ORAÇÃO DA SANTA CRUZ DE JESUS CRISTO"

ORAÇÃO - Maria Valei-me

Oração contra todo mal – por um dos maiores exorcistas do mundo