Terça-feira da Semana Santa - A traição

Terça-feira da Semana Santa
A traição

 “Ao falar assim, Jesus perturbou-se em espírito”, e confessou-o, dizendo:
 *“Um de vós me trairá” (João 13:21).*
 Este problema na santa alma e espírito de Jesus merece atenção
 cuidadosa. O que primeiro notamos é sua causa: “um de vocês me
 trairá”. A traição de um dos seus discípulos causa a Jesus esta angústia
 interior. O que o preocupa em geral, então, é o pecado, e especialmente
 os pecados daqueles que estavam mais intimamente unidos a ele, como
 Judas, a quem ele colocou nas fileiras de seus apóstolos. A sua Paixão —
 pela qual destruiria o pecado — seria a ocasião para tantos novos
 crimes, crimes enormes e sem precedentes como a traição de Judas, a
 desumanidade e a ingratidão dos judeus e, numa palavra, o deicídio. Foi
 o pensamento desses crimes que lhe trouxe tantos problemas
 interiores e fez algumas das mais amargas borras do cálice que ele teve
 que beber.
 Existem três lugares principais onde São João fala do problema que
 Jesus sentiu em sua alma santa: aqui, e no capítulo anterior, quando ele
 disse: “Agora minha alma está perturbada” (João 12:27), e antes,
 quando ele viu as lágrimas de Maria, que chorou pela morte de seu
 irmão Lázaro: “Quando Jesus a viu chorando, e os judeus que vinham
 com ela também chorando, ele ficou profundamente comovido em
 espírito e perturbado” (João 11:33).
 Não há dúvida de que neste momento a causa de sua inquietação foi
 o crime de Judas e de todos os que cooperaram em sua morte. Também
 podemos ver que quando ele disse: “Agora minha alma está perturbada”
 na véspera de sua Paixão, ele também estava pensando principalmente
 nessa traição, pois somente o pecado poderia movê-lo. Se ele parecia
 tão perturbado com a morte de Lázaro e com as lágrimas derramadas
 por ele, não devemos pensar que foi a morte do corpo de Lázaro que o
 fez estremecer. *Foi, ao contrário, a morte da alma que ele viu, como em*
 *uma imagem, na morte do corpo, pois sabia que era o pecado que havia*
 *trazido a morte ao mundo. Lázaro era a imagem de um pecador, e de*
 *um pecador na condição mais mortal e terrível, que é quando, pelo*
 *pecado endurecido e habitual, ele apodrece em seu crime.*
 A angústia que Jesus aqui sente na alma é o horror que o atinge ao
 considerar o pecado, que é o que causa o sofrimento interno que se
 manifesta como um estremecimento. Se nos permitem perscrutar os
 seus sentimentos mais íntimos, o que mais lhe causou dor nesta ocasião
 foi ter visto o mau efeito que a sua morte produziria nos pecadores,
 sendo para eles uma ocasião para se abandonarem ao pecado através
 da esperança de que seus méritos obteriam perdão para eles. *Isso é o*
 *que há de mais horrível no pecado, quando a bondade de Deus e a graça*
*da redenção são colocadas a seu serviço.* Se isso é o que há de mais
 horrível no pecado, é também, conseqüentemente, o que trouxe ao
 Salvador seu maior horror, seus estremecimentos mais profundos e seu
 espírito perturbado.
 A angústia que sentiu com a proximidade da morte não foi causada
 apenas pela perfídia que resultaria em sua terrível morte, mas por suas
 causas mais profundas. Ele não omitiu nada em sua tentativa de corrigir
 os judeus; sua malícia era a única causa de sua fúria. *Também era*
 *verdade que a santidade de Jesus, sua doutrina e milagres, e seus*
 *insistentes apelos ao arrependimento deles deveriam ter contribuído*
 *para a salvação deles; em vez disso, excitavam o ciúme e o ódio*
 *implacável.* O próprio Judas interpretou as palavras que Jesus falou em
 defesa da unção de seus pés por Maria como a própria ocasião para
 deixá-lo.
 *Jesus teve que sofrer a morte como justo castigo de todos os pecados*
 *cujo peso ele carregou, em certo sentido como culpado. Assim, o horror*
 *do pecado se apoderou dele.* Ele se viu cercado por ela e até mesmo
 penetrado por ela. Que espetáculo cruel para o Salvador da
 humanidade! Ele viu o pecado aumentar pelo mau uso que sua morte
 seria feita. Faria muitos dizerem que ele não era o Filho de Deus e que
 todos os seus milagres não passavam de ilusões. Foi escândalo para os
 judeus, loucura para os gregos e, às vezes, até para os próprios fiéis.
 Que ocasião de vingança: pois todos aqueles que não lucrassem com
 sua morte se tornariam apenas mais culpados, mais dignos de punição
 e mais sujeitos à condenação. Como se comoveu com a sua miséria este
 bom Salvador, que tão ternamente ama todos os homens *e que se fez*
 *homem apenas para nos salvar! O Jesus! Isso é o que perturbou sua*
 *alma sagrada. Isso é o que fez você se emocionar. Fiquemos então*
 *horrorizados com o pecado e vejamos, nos problemas de Jesus, quão*
 *grandemente perturbada deve ser nossa própria consciência.*


Jacques-Benigne Bossuet 
Meditaço‌es para a Quaresma

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