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sábado, 7 de julho de 2018

Como praticar o silêncio na vida cotidiana

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O principal meio para uma vida mais contemplativa não é ter mais tempo, mas mais propósito

Três anos atrás, tive a oportunidade de fazer um retiro silencioso de 24 horas e experimentar a beleza e a calma da solidão e do silêncio prolongados. Foi repousante, senti-me mais ligada a mim mesma e a Deus, e voltei pronta para viver todos os dias com mais propósito. Mais notavelmente nas semanas seguintes, eu tinha mais energia para estar presente para as pessoas da minha vida.
O silêncio nos permite passar o tempo com nós mesmos; isso nos abre espaço para que nossos pensamentos cresçam em criatividade e se conectem com nossas emoções. O silêncio nos ajuda a diminuir a velocidade e reconhecer o que está acontecendo internamente, ao invés de responder continuamente ao estímulo externo. Isso nos oferece uma ruptura com a entrada constante de informações que vêm com a vida moderna.
Os benefícios do silêncio e da contemplação
Pesquisas mostram que as práticas contemplativas têm vários benefícios. Um estudo mostrou que tais práticas aumentam a percepção precisa da taxa de batimentos cardíacos, que melhoram a habilidade de falar do próprio estado emocional. Quando podemos pausar em silêncio, podemos verificar o nosso corpo e nossas emoções, o que nos ajuda a cuidar melhor de nós mesmos, além de aumentar a conscientização sobre o que estamos trazendo em nossos relacionamentos.
Outro estudo mostrou que a prática contemplativa regular tem múltiplos impactos positivos em nossos cérebros. Pode melhorar a memória de trabalho, a função de manter informações no curto prazo, como lembrar instruções ou sobre o que você estava trabalhando antes de ser interrompido. Também apresentou aumentar o seu “filtro verbal” e sua capacidade de manter a tarefa em direção a seus objetivos. Também ajuda a regulação emocional, nos permitindo sentir emoções sem ser dominado por elas.
Praticando o silêncio num mundo ruidoso
Muitos de nós teríamos dificuldade em identificar um momento no nosso dia em que experimentamos mais do que alguns minutos de silêncio. Quando não estamos conversando com os outros, preenchemos nosso espaço sonoro com diferentes tipos de mídia e, com o advento dos podcasts, sempre podemos ter algo para ouvir. Para alguns de nós, a ausência de som é quase surpreendente, pois nos sentimos automaticamente obrigados a ligar a TV ou o rádio.

O principal meio para uma vida mais contemplativa não é ter mais tempo, mas mais propósito

Outros desejam o silêncio, mas parece difícil. Temos dias complicados, cheios de crianças barulhentas ou colegas de trabalho inquietos. Nós temos pessoas em nossas vidas que precisam de conexão e da nossa presença, e o tempo para si mesmo não parece se encaixar na mistura durante essa temporada de vida. Mesmo com tempo e oportunidade, parece que há outro item na lista de tarefas que precisa ser concluída antes de poder descansar na quietude.
Há momentos ao longo do dia que você pode integrar o silêncio no seu dia se você ficar de olho neles. Se você é um pai/mãe que fica em casa, você pode dedicar os primeiros 15 minutos de um descanso para silenciar. Se você trabalha, considere deixar seu telefone na sua mesa e dar um passeio na hora do almoço, ininterrupto. Tire cinco minutos durante o dia para olhar pela janela e fixar-se no instante presente.
As práticas de silêncio nem sempre devem ser estacionárias. Se você regularmente usa fones de ouvido na academia, considere deixá-los de lado uma vez por semana e preste atenção ao que está acontecendo dentro de você, incluindo pensamentos e emoções. Considere andar devagar durante a transição, como andar do seu carro até o prédio de escritórios, levando um momento para perceber seu próprio corpo e seus próprios sentimentos, antes de entrar no seu dia. Ou se você estiver em casa, encontre uma parte calma da sua casa para que você possa sentar-se por 2 a 10 minutos ininterruptos e, intencionalmente, ficar em silêncio.
Um simples começo para silenciar é desligar os aparelhos eletrônicos. Uma vez por semana, volto para casa do trabalho e faço o jantar enquanto o resto da minha família está fora. Enquanto antes eu costumava ouvir rádio, fiz uma prática de cozinhar em silêncio, permitindo que a quietude da casa crie espaço para meu próprio ser, pensamentos e emoções. Em primeiro lugar, o silêncio era desconfortável, pois me sentia aborrecida ou dominada por meus próprios pensamentos. No entanto, uma das chaves para o silêncio é reconhecer que, como a maioria das coisas que são boas para nós, é difícil no início, mas fica mais fácil com o tempo. Outros fizeram uma prática de dirigir sem o rádio, ao invés de preencher o tempo silencioso em seu carro.
Definir um temporizador pode ser uma boa maneira de se permitir estar presente sem se preocupar com o tempo. Passar pelo menos 20 minutos em silêncio produz muitos benefícios, simplesmente começar com dois a cinco minutos pode ter um impacto profundo no seu humor e consciência, especialmente se praticado ao longo do dia.
Definir um propósito
Se pensarmos em práticas contemplativas apenas em termos de visitar um mosteiro por um dia, nunca teremos tempo para praticar o silêncio. No entanto, mesmo os mais ocupados de nós pode tirar pequenos períodos de silêncio e decidir fazer uma pequena pausa na vida ocupada. O principal meio para uma vida mais contemplativa não é ter mais tempo, mas mais propósito. Usar o tempo que já estamos gastando – dirigindo, sentado em casa, lavando a louça – e decidindo praticar o silêncio, virando para dentro e ficando quieto.

https://pt.aleteia.org/2018/03/04/como-praticar-o-silencio-na-vida-cotidiana/2/

Medo do silêncio? Por quê?


O silêncio possibilita o conhecimento interior

stive pensando, por algum tempo, sobre o que eu poderia partilhar com você. Há algumas semanas, algo tem me inquietado e despertado a respeito do barulho e do silêncio.
Hoje em dia, é impressionante como há excesso de barulho e ruído. Passamos por uma carência de silêncio. Andando na rua, é muito comum ouvirmos sons, músicas, propagandas, principalmente nos grandes centros urbanos. Dentro dos ônibus, o som está ligado; nos supermercados e shoppings, a mesma coisa. O dia inteiro e o tempo todo é ocupado com músicas, programas de rádio, TV etc; sem falar nos barulhos e ruídos de buzinas, marteladas e falatório.
Muitas pessoas, ao chegarem em casa depois de um longo dia de trabalho, imediatamente, ligam o som ou a televisão, muitas vezes nem querendo ouvir a música ou assistir àquele programa que está passando. É que não suportam o silêncio e o fato de estarem sozinhas em casa. Outros até mesmo nem conseguem dormir se não for com a TV ou o som ligado – ainda que seja com o volume baixo.
Fiquei pensando comigo: nós não conseguimos mais ficar em silêncio. Ele se tornou insuportável, e a realidade de nos depararmos com a solidão nos apavora!

Por que o silêncio é “terrível”?

De fato, o silêncio é “terrível”, pois nos possibilita entrarmos em nós mesmos e nos conhecermos, depararmo-nos com realidades que preferimos que permaneçam adormecidas. Por isso é melhor não silenciar, não estar a sós.
Com isso, cada segundo deve ser preenchido com som, música, programas de TV, pois preferimos estar na companhia de todos, menos de nós mesmos.
Interessante é que é muito comum perguntarmos para alguém assim: “Ei, quem você é? Fale-me de você”. E a resposta, quando existe, é a seguinte: “Bem, eu sou fulano de tal, faço isso e aquilo, trabalho em tal lugar, estudo nessa ou naquela faculdade” e ponto final. O interessante é que não perguntamos o que a pessoa faz, mas quem ela é.
Como é difícil responder a essa pergunta! Sabe por quê? Porque estamos perdendo a capacidade de ouvir a nós mesmos, de silenciarmos e nos encontrarmos conosco. Isso porque pensamos que só temos mazelas, por isso é preferível manter a superficialidade do conhecimento de si, ou então simplesmente por achar que não vale a pena.

Contudo, preciso lhe falar: você não é só miséria e desilusão, não é apenas feridas e marcas dolorosas. Você é precioso e traz em si riquezas incalculáveis. Você é um tesouro que precisa ser descoberto, mas para isso é preciso cavar fundo, e as ferramentas não são outras senão o silêncio e a solidão.
Quem disse que estar só é ruim? Não admira que, em diversas passagens do Evangelho, Jesus, após um longo dia de missão, se retirava a sós na montanha para orar? Ele buscava ali dois encontros: primeiro, consigo mesmo, e outro com o Pai. Uma vez que mergulhava na profunda solidão, podia encontrar-se a si mesmo. O interessante é que, encontrando-se consigo, ele estava inteiro, e podia encontrar-se com o Pai. E ali havia repouso e alegria!
Só conseguiremos orar a Deus em profundidade quando aprendermos a nos encontrar, e, a partir daí, percebermos quem somos. Saberemos que só Ele nos completa e nos torna inteiros como Jesus. Disso depende a nossa felicidade.

Ouve, Israel!

Uma palavra do Antigo Testamento, que muito me chama à atenção, inclusive porque é constantemente orada pelos judeus, pois é a base de sua fé é o “Shemah, Israel”: “Ouve, Israel, Eu Sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da servidão…” (Ex 20, 2ss). Veja que a primeira palavra é “Shemah”, que se traduz pelo imperativo “ouve”. Mas como poderemos ouvir se não conseguimos silenciar?
Por isso, a importância de nos exercitarmos no silêncio e na capacidade de escuta. Só assim ouviremos de Deus as maravilhas que Ele realizou e realiza em nós, e também seremos libertos de toda escravidão e servidão.
Diante dessas poucas palavras, quero provocar você a fazer uma experiência do encontro consigo mesmo e, a partir daí, seus encontros com Deus terão um enorme salto de qualidade. Comece aos poucos, exercite-se em reservar uns poucos minutos de silêncio e interioridade, busque descobrir a riqueza que você é e, com certeza, o louvor a Deus, nosso Criador e nosso Pai fluirá espontaneamente.
Um abraço! Deus o abençoe!
Por Padre Clóvis Andrade de Melo, via Canção Nova