Boa Sexta-feira - A paixão
Boa Sexta-feira
A paixão
A paixão
Jesus, querendo nos enriquecer, primeiro nos deu seu sangue para nos
purificar, para que possamos receber os dons que ele oferece. Ó meu
querido Salvador, você vai para o Horto das Oliveiras, para a casa de
Caifás, para o pretório do governador romano, e finalmente sobe o
Monte Calvário. Onde quer que você vá, você derrama o sangue de sua
nova aliança, o sangue pelo qual nossos crimes são expiados e abolidos.
Contemplemos Jesus na sua dolorosa Paixão e vejamos correr o
sangue precioso da nova aliança, o sangue com o qual fomos redimidos.
Ele flui primeiro no Jardim das Oliveiras. As vestes de meu Salvador são
perfuradas e a terra é umedecida pelo suor sangrento de seu corpo. Ó
Deus! *Que espetáculo é esse que tanto nos confunde? O que é, antes,*
*este mistério que tanto nos purifica como nos santifica?*
A resposta não é que nosso Salvador sabia que nossa salvação estava
em seu sangue? E que do seu desejo ardente de salvar as nossas almas
brotou o seu sangue, sangue que contém em si a nossa vida muito mais
do que a dele? Assim, parece que este sangue divino, tão desejoso de
fluir para nós, transbordou pela força de sua caridade, antes que
qualquer violência fosse feita a ele. *Corramos com fé para receber este*
*sangue.* “O terra, não cubra este sangue!” (cf. Jó 16:18). E derramado
por nossas almas.
Esse suor sem precedentes revela outro mistério. *No seu desejo de*
*expiar os nossos crimes, Jesus abandonou-se voluntariamente a uma*
*dor infinita por todos os nossos excessos.* Ele os viu todos, um por um, e
foi afligido por eles além da medida, como se ele mesmo os tivesse
cometido, pois foi acusado deles diante de Deus. Sim, nossas
iniquidades derramaram sobre ele de todas as direções, para que ele
pudesse dizer com Davi: *“as torrentes da iniqüidade me perturbaram”*
(Salmos 17:5, Douay-Rheims [RSV = Salmos 18:4]). É por isso que ele
disse: “Agora a minha alma está perturbada” (João 12:27). Esta foi a
causa da inexplicável angústia que o levou a pronunciar estas palavras:
“A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mt 26:38). A
imensidão da dor poderia, de fato, ter desferido o próprio golpe mortal,
se Jesus não tivesse contido sua alma, preservando-a para suportar
males maiores e beber todo o cálice de sua Paixão. Ele, no entanto,
permitiu que seu sangue transbordasse no Horto das Oliveiras para nos
convencer de que nossos pecados - sim, apenas nossos pecados, sem a
ajuda do carrasco - poderiam ter causado sua morte. Você pode
acreditar que o pecado poderia ter um poder tão grande e maligno? Se
ao menos vı́ssemos Jesus cair nas mãos dos soldados que o lagelaram,
atormentaram e cruci icaram, culparı́amos sua morte apenas por essa
tortura. Agora que o vemos sucumbir no Jardim das Oliveiras, onde ele
tem apenas nossos pecados para persegui-lo, podemos acusar a nós
mesmos. Choremos, batamos no peito e estremeçamos no mais
profundo de nossa consciência. Como poderı́amos não ser tomados de
medo, tendo nós mesmos, em nossos corações, uma causa de morte tão
certa? *Se o pecado bastasse para matar Deus, como podem os homens*
*mortais sobreviver com tal veneno em seus corpos? Não. Existimos*
*apenas por um milagre contínuo de misericórdia.* O mesmo poder
divino que milagrosamente sustentou a alma do Salvador, para que ele
pudesse suportar todo o castigo, sustenta o nosso para que possamos
cumprir nossa penitência, ou pelo menos iniciá-la.
Depois que nosso Salvador fez seu sangue derramar apenas pela
força de sua caridade aflita, podemos facilmente acreditar que ele não o
pouparia dos cruéis perseguidores de sua inocência. Onde quer que
Jesus estivesse durante o curso de sua Paixão, uma crueldade furiosa o
feriu repetidamente. Se fôssemos acompanhá-lo a cada um dos lugares
por onde passou, veríamos os rastros sangrentos que marcaram seu
caminho. A casa do sumo sacerdote, o tribunal do juiz romano, a guarita
onde Jesus foi entregue à brutal insolência dos soldados, e todas as ruas
de Jerusalém estão manchadas com o sangue divino que purificou o Céu
e a terra.
Nunca devemos chegar ao fim se tentarmos considerar todas as
circunstâncias cruéis em que esse sangue inocente foi derramado. Basta
dizer que neste dia de sangue e carnificina, neste dia ao mesmo tempo
mortal e salvífico, em que os poderes do Inferno foram soltos sobre
Jesus Cristo, ele renunciou ao seu próprio poder. Enquanto seus
inimigos podiam fazer tudo o que desejavam, ele voluntariamente se
reduzia à condição de suportar tudo. Pelo efeito do mesmo desígnio
divino, Deus afrouxou o freio dos invejosos e reteve todo o poder de seu
Filho. Enquanto todos os poderes do Inferno foram desencadeados, a
proteção do Céu foi retirada, de modo que Jesus foi exposto nu e
desarmado, impotente e sem poder resistir, a quem quisesse insultá-lo.
Depois disso, precisamos contemplar os detalhes infinitos de sua
tristeza? Precisamos considerar como ele foi impiedosamente entregue
a lacaios e soldados para ser objeto de seu desprezo sangrento e sofrer
com sua insolência todos os golpes que sua zombaria impiedosa e
crueldade maliciosa poderiam desferir? Precisamos imaginar esse
querido Salvador permitindo que seu corpo sinta a força desses
carrascos, seu duro açoite em suas costas, os espinhos afiados em sua
cabeça? Ó divino Jesus! Quanto sangue custou ao Deus-homem para
ganhar a nossa salvação!
A nova aliança ainda não estava selada, pois suas veias ainda não
haviam sido esvaziadas na cruz. Devemos considerar os sofrimentos de
um homem cujos membros estão machucados e quebrados por um
violento enforcamento, já nem mesmo sentindo suas feridas,
pendurado pelas mãos dilaceradas pelo peso de seu corpo,
completamente espancado pela perda de seu sangue. Em meio a essa
dor excessiva, ele foi levantado, ao que parecia, com o único propósito
de ver a multidão zombar dele e rir de sua condição deplorável. Depois
de tudo isso, poderíamos nos surpreender se Jesus perguntasse: *“Existe*
*alguma dor como a minha?” (cf. Lam. 1:12).*
Nossos corações devem ser amolecidos por esta visão lamentável.
Não devemos deixar o grande espetáculo do Calvário com os olhos
secos. *Não há coração tão endurecido que possa ver sangue humano*
*derramado e não se comover.* Mas o sangue de Jesus dá ao nosso
coração a graça da compunção, que é a emoção da penitência. Aqueles
que permaneceram perto de sua cruz e o viram dar seu último suspiro,
“voltaram para casa batendo no peito” (Lucas 23:48). Jesus Cristo,
tendo uma morte cruel e derramando seu sangue inocente, derramou
um espírito de remorso e penitência sobre todo o Monte Calvário. *Não*
*devemos permitir que nossos corações se endureçam.* Façamos ecoar o
Calvário com o som dos nossos soluços. *Choremos lágrimas amargas*
*por nossos pecados e nos voltemos contra nós mesmos com uma cólera*
*santa. Vamos quebrar todos os nossos hábitos indignos e deixar para*
*trás nossas vidas mundanas. Levemos em nós a morte de Jesus Cristo.*
Jacques-Benigne Bossuet
Meditaçoes para a Quaresma
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