Quinta-feira Santa - A Eucaristia

Quinta-feira Santa
A Eucaristia


 Leiamos as palavras da instituição da Eucaristia na Ultima Ceia no
 Evangelho de São Mateus (26,26-28), acrescentando as palavras dos
 outros autores sagrados sobre o mesmo assunto:
 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças e, havendo dado
 graças (1 Corı́ntios 11:24), partiu-o e deu-o aos discípulos,
 dizendo: Tomai, comei; este é o meu corpo, que é dado por vós.
 Faça isso em memória de mim ” (Lucas 22:19).
 Depois da ceia, tomou um cálice (Lucas 22:20) e, tendo dado
 graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; pois este é o meu
 sangue do novo aliança (Lucas 22:20), que é derramada por muitos
 para remissão dos pecados. Faça isso, sempre que você beber, em
 memória de mim” (1 Corı́ntios 11:25).
 Aqui está tudo o que temos sobre a instituição, exceto que no lugar
 de São Lucas "dado por você", São Paulo o faz dizer "quebrado por
 você" (1 Cor. 11:24 em certos textos antigos). O sentido de cada um é o
 mesmo. Ele foi entregue à morte, golpeado por golpes, perfurado com
 feridas, violentamente pendurado em uma cruz: ele foi quebrado. Este é
 o corpo que Jesus nos dá, o mesmo corpo que estava para sofrer essas
 coisas e que agora as sofreu.
 Só mais uma palavra no texto. Onde a Vulgata traduz “meu sangue,
 que será derramado por vós” (Lucas 22:20, Douay-Rheims), o original
 reza *“que é derramado”*, isto é, no tempo presente. E o mesmo quando
 fala dos meios pelos quais será capturado e morto: “Ai daquele por
 quem o Filho do homem é traído!” (Mateus 26:24). Nesse caso, ele fala
 no tempo presente porque sua morte já está decidida e planejada para
 o dia seguinte. No outro, é para que, ao mesmo tempo em que
 recebemos seu corpo e sangue, consideremos sua morte como
 presente.
 Cristão: você viu todas as palavras que dizem respeito ao
 estabelecimento deste mistério. Que simplicidade! Que precisão nessas
 palavras! Ele não deixa nada para ser interpretado ou comentado. Se
 houver algum comentário a ser feito sobre eles, é apenas observar que,
 de acordo com a força do grego original, devemos traduzi-lo assim:
 *“Este é meu corpo, meu próprio corpo; o mesmo corpo que é dado para*
 *você. Este é meu sangue, meu próprio sangue, o sangue da nova aliança;*
 *o sangue derramado por vós em remissão dos vossos pecados”.* A
 liturgia grega assim o exprime: «O que nos é dado, o que se faz deste
 pão e deste vinho, é o próprio corpo de Jesus e o seu próprio sangue».
 Aí está o comentário que exigimos. Que simplicidade, que precisão,
 que força têm essas palavras!
Se Jesus quisesse nos dar um sinal, uma mera semelhança, ele
 saberia nos dizer. Ele sabia muito bem que Deus havia dito, ao instituir
 a circuncisão: “Serás circuncidado na carne. . . e será por sinal da
 aliança entre mim e ti” (Gn 17:11). Quando propunha metáforas, sabia
 muito bem adaptar sua linguagem para ser entendido sem dúvidas: “Eu
 sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á” (João 10:9). “Eu sou
 a videira, vocês são os ramos. Quem está em mim e eu nele, esse dá
 muito fruto” (João 15:5). Quando ele fez essas comparações e falou em
 metáforas, os evangelistas disseram: “Outra parábola ele lhes
 apresentou” (Mateus 13:24); “ensinava-lhes muitas coisas por
 parábolas” (Marcos 4:2). Aqui, sem qualquer introdução, sem qualquer
 qualificação, sem qualquer explicação, nem antes nem depois, somos
 simplesmente informados: “Jesus disse: 'Tomai, comei; Esse é o meu
 corpo; isto é o meu sangue'” (Mateus 26:26, 28).
 Isto é o que eu dou a você, e você, o que fará ao recebê-lo? Lembre-se
 eternamente do presente que lhe dei naquela noite. Lembra-te que fui
 eu que o deixei para ti e que fiz este testamento, que te deixei nesta
 Páscoa e que comi contigo antes de padecer. Se eu te der meu corpo
 como prestes a ser e como tendo sido entregue por você, e meu sangue
 derramado por seus pecados, em uma palavra, se eu me entregar a você
 como uma vítima, coma-o como uma vítima e lembre-se que esta é uma
 promessa que foi sacrificada por você. O meu Salvador: que
 simplicidade, mas que autoridade e poder há em suas palavras!
 “Mulher, estás livre da tua enfermidade” (Lucas 13:12); ela foi curada
 naquele instante. "Esse é o meu corpo"; é o seu Corpo. “Este é o meu
 sangue”; é o seu Sangue. *Quem pode falar dessa maneira, exceto aquele*
 *que tem tudo em suas mãos?* Quem pode fazer-se acreditar senão
 aquele para quem fazer e dizer é a mesma coisa?
 *Minha alma, pare aqui e não vá mais longe.* Acredite com tanta
 simplicidade e força quanto o seu Salvador falou, com uma submissão
 que corresponde à sua autoridade e poder. Mais uma vez, ele quer ver
 na vossa fé a mesma simplicidade com que pronunciou estas palavras.
 No antigo rito da Comunhão, o padre dizia: “O corpo de Jesus Cristo”, e
 os fiéis respondiam: “Amém”, ou “assim é” e “O sangue de Jesus Cristo”, e
 os fiéis respondiam: “ Amém”, “assim é”. Tudo foi realizado. Tudo foi
 dito. Tudo foi explicado. Estou em silêncio. Eu acredito. Eu adoro.

Jacques-Benigne Bossuet 
Meditaço‌es para a Quaresma

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