Quarta-feira da Semana Santa - Lavado de Nossos Pecados
Quarta-feira da Semana Santa
Lavado de Nossos Pecados
Nas regiões mais quentes do Oriente, o banho era frequente e, depois
de se lavar de manhã e depois durante o dia, tudo o que restava à noite
era lavar os pés para que a sujeira de suas idas e vindas pudesse ser
limpa. É neste sentido que devemos tomar as palavras do Esposo no
Cântico dos Cânticos: «Banhei os meus pés, como os poderia sujar?»
(Cântico 5:3).
Jesus usa essa imagem para ensinar a seus seguidores que, depois de
terem sido lavados de seus pecados maiores, eles ainda precisam cuidar
para se purificar daqueles pequenos pecados que cometem durante o
curso normal da vida. *Uma alma que ama a Deus nunca acha menor*
*nada que a ofenda.* Se negligenciarmos a purificação dessas faltas, elas
colocarão nossa alma em um estado mortal, enfraquecendo
imperceptivelmente suas forças, de modo que restarão poucas forças
para resistir às grandes tentações, que só podem ser vencidas por uma
caridade muito ardente. “Quem já se banhou não precisa lavar senão os
pés, mas está todo limpo; e vós estais limpos, mas não todos” (João
13:10). Com essas palavras, Jesus nos ensina que não nos é permitido
negligenciar pecados menores, pois é isso que ele quis significar com o
lava-pés.
Para aprofundar este mistério, devemos ver que o cuidado que ele
tem em lavar os pés dos Apóstolos no momento em que está prestes a
instituir a Eucaristia nos ensina que o tempo em que devemos nos
purificar de nossos pecados veniais é quando nos preparamos para a
Comunhão, aquela união perfeitíssima com Jesus Cristo. Para esta
união, nossos pecados são um obstáculo tão grande que, se
morrêssemos antes de expiá-los, a Visão Beatífica seria retardada,
talvez por séculos. Devemos, pois, sentir-nos ainda mais obrigados a
purificar-nos destes pecados antes da Comunhão, porque é pela
Comunhão que eles são principalmente removidos, tendo os maiores
sido removidos pelo sacramento da Penitência.
A negligência dessas faltas pode chegar a tal excesso que nosso apego
a esses pecados não só se torna perigoso - o que sempre é - mas até
mesmo mortal. *Pois aquele que se preocupa apenas com os pecados*
*que o condenariam mostra que é só o castigo que ele teme e que não*
*ama verdadeiramente a justiça, ou seja, não ama a Deus como é*
*obrigado a amar.* Tal pessoa deve temer perder o que lhe resta do fogo
divino da caridade.
Lavemo-nos então cuidadosamente, não só as mãos e a cabeça, mas
também os pés, antes de nos aproximarmos da Eucaristia. Jesus ensina
aos seus Apóstolos a seriedade desta obrigação quando lhes diz: “Se eu
não vos lavar, não tendes parte comigo” (João 13:8). Isso não ocorre
apenas porque nossos pecados retardam a visão beatífica e nossa união
perfeita com Deus, *mas porque deixar de lavá-los pode trazer um frio*
*perigoso entre nossa alma e Cristo e até mesmo tornar-se mortal.*
Lava-te, cristão, lava-te de todos os teus pecados, mesmo dos
menores, quando te aproximas da mesa sagrada. Lave os pés com
cuidado. Renove-se inteiramente, para que não coma o corpo do
Salvador indignamente. Mesmo quando não somos totalmente indignos
— com aquela indignidade que nos torna indignos do Corpo e Sangue
do Salvador — podemos ainda ser indignos de receber grandes graças,
sem as quais não podemos vencer grandes fraquezas, nem as grandes
tentações de que a vida é completo.
Senhor, lava-me os pés, para que eu possa dizer com o Esposo:
“Banhei-me os pés, como posso sujá-los?” *A pureza é um ímã para*
*atrair a pureza: quanto mais branca a roupa, mais perceptíveis são as*
*manchas. Quanto mais limpo estiver, mais deve evitar sujar-se.
Desejemos ser contados entre aqueles de quem está escrito que são
“sem mancha” diante do trono de Deus (Ap 14:5). A esse objetivo
devemos aspirar, lembrando o belo ensinamento de Santo Agostinho de
que, embora não possamos viver aqui embaixo sem pecado, podemos
deixar esta vida sem pecado, porque embora nossos pecados sejam
muitos, os remédios para curá-los não faltam.
Jacques-Benigne Bossuet
Meditaçoes para a Quaresma
Lavado de Nossos Pecados
Nas regiões mais quentes do Oriente, o banho era frequente e, depois
de se lavar de manhã e depois durante o dia, tudo o que restava à noite
era lavar os pés para que a sujeira de suas idas e vindas pudesse ser
limpa. É neste sentido que devemos tomar as palavras do Esposo no
Cântico dos Cânticos: «Banhei os meus pés, como os poderia sujar?»
(Cântico 5:3).
Jesus usa essa imagem para ensinar a seus seguidores que, depois de
terem sido lavados de seus pecados maiores, eles ainda precisam cuidar
para se purificar daqueles pequenos pecados que cometem durante o
curso normal da vida. *Uma alma que ama a Deus nunca acha menor*
*nada que a ofenda.* Se negligenciarmos a purificação dessas faltas, elas
colocarão nossa alma em um estado mortal, enfraquecendo
imperceptivelmente suas forças, de modo que restarão poucas forças
para resistir às grandes tentações, que só podem ser vencidas por uma
caridade muito ardente. “Quem já se banhou não precisa lavar senão os
pés, mas está todo limpo; e vós estais limpos, mas não todos” (João
13:10). Com essas palavras, Jesus nos ensina que não nos é permitido
negligenciar pecados menores, pois é isso que ele quis significar com o
lava-pés.
Para aprofundar este mistério, devemos ver que o cuidado que ele
tem em lavar os pés dos Apóstolos no momento em que está prestes a
instituir a Eucaristia nos ensina que o tempo em que devemos nos
purificar de nossos pecados veniais é quando nos preparamos para a
Comunhão, aquela união perfeitíssima com Jesus Cristo. Para esta
união, nossos pecados são um obstáculo tão grande que, se
morrêssemos antes de expiá-los, a Visão Beatífica seria retardada,
talvez por séculos. Devemos, pois, sentir-nos ainda mais obrigados a
purificar-nos destes pecados antes da Comunhão, porque é pela
Comunhão que eles são principalmente removidos, tendo os maiores
sido removidos pelo sacramento da Penitência.
A negligência dessas faltas pode chegar a tal excesso que nosso apego
a esses pecados não só se torna perigoso - o que sempre é - mas até
mesmo mortal. *Pois aquele que se preocupa apenas com os pecados*
*que o condenariam mostra que é só o castigo que ele teme e que não*
*ama verdadeiramente a justiça, ou seja, não ama a Deus como é*
*obrigado a amar.* Tal pessoa deve temer perder o que lhe resta do fogo
divino da caridade.
Lavemo-nos então cuidadosamente, não só as mãos e a cabeça, mas
também os pés, antes de nos aproximarmos da Eucaristia. Jesus ensina
aos seus Apóstolos a seriedade desta obrigação quando lhes diz: “Se eu
não vos lavar, não tendes parte comigo” (João 13:8). Isso não ocorre
apenas porque nossos pecados retardam a visão beatífica e nossa união
perfeita com Deus, *mas porque deixar de lavá-los pode trazer um frio*
*perigoso entre nossa alma e Cristo e até mesmo tornar-se mortal.*
Lava-te, cristão, lava-te de todos os teus pecados, mesmo dos
menores, quando te aproximas da mesa sagrada. Lave os pés com
cuidado. Renove-se inteiramente, para que não coma o corpo do
Salvador indignamente. Mesmo quando não somos totalmente indignos
— com aquela indignidade que nos torna indignos do Corpo e Sangue
do Salvador — podemos ainda ser indignos de receber grandes graças,
sem as quais não podemos vencer grandes fraquezas, nem as grandes
tentações de que a vida é completo.
Senhor, lava-me os pés, para que eu possa dizer com o Esposo:
“Banhei-me os pés, como posso sujá-los?” *A pureza é um ímã para*
*atrair a pureza: quanto mais branca a roupa, mais perceptíveis são as*
*manchas. Quanto mais limpo estiver, mais deve evitar sujar-se.
Desejemos ser contados entre aqueles de quem está escrito que são
“sem mancha” diante do trono de Deus (Ap 14:5). A esse objetivo
devemos aspirar, lembrando o belo ensinamento de Santo Agostinho de
que, embora não possamos viver aqui embaixo sem pecado, podemos
deixar esta vida sem pecado, porque embora nossos pecados sejam
muitos, os remédios para curá-los não faltam.
Jacques-Benigne Bossuet
Meditaçoes para a Quaresma
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