Semana 1: Sábado - Ame Seus Inimigos

 Semana 1: Sábado

 Ame Seus Inimigos


 Jesus falou muitas vezes sobre a obrigação da caridade fraterna. Ele nos

 levou além da proibição de matar ou mesmo bater em um irmão. Ele

 disse que não devemos ficar com raiva de nosso irmão, nem mostrar

 nossa amargura para com ele, injuriando-o de alguma forma.

 Se tivermos uma disputa, devemos nos reconciliar facilmente, não

 devemos tentar encerrar nosso desacordo levando-o a um juiz, nem

 mesmo buscar um mediador para sanar nossa divisão. Pois Cristo é o

 mediador de nossa reconciliação, e é o Espírito de sua caridade e graça

 que deve nos animar. Devemos estar dispostos a nos curvar, para que,

 junto com nosso irmão, possamos nos acomodar mutuamente.

 Ele disse que se chegarmos a sentir alguma amargura no coração de

 nosso irmão, devemos cuidar para apaziguá-lo e preferir a reconciliação

 ao sacrifı́cio. Mas ele leva a obrigação ainda mais longe e desenraiza o

 espı́rito de vingança. “Olho por olho e dente por dente” (cf. Exodo

 21:24). Isso é o que era permitido antigamente e parece ser um certo

 tipo de justiça. Mas Jesus não permite que um cristão faça isso sozinho

 ou busque satisfação dessa maneira. Se o poder público pune os crimes,

 o cristão não o impede; ele respeita a ordem pública. Mas, por sua vez,

 longe de se vingar de quem o golpeia, ele oferece a outra face; ele

 preferiria dar seu casaco para aquele que roubaria sua camisa do que

 buscar reparação legal por um assunto tão pequeno e assim

 sobrecarregar sua mente com legalismo e ressentimento (Mateus 5:39

40). Ele estará mais disposto a caminhar duas milhas com alguém que o

 forçaria a caminhar uma do que buscar justiça para si mesmo ou

 mesmo sonhar em causar dano a alguém que o feriu. A tranquilidade de

 seu coração lhe é mais cara do que a posse de qualquer coisa que a

 injustiça pudesse tirar, e se fosse necessária uma quebra de caridade

 para recuperar algo que lhe foi tirado, ele não a desejaria por nenhum

 preço.

 O evangelho, como você é puro! O ensino de Cristo, como você é

 digno de nosso amor! No entanto, quão mal nós, cristãos, respondemos

 a isso e quão pouco dignos somos de um nome tão adorável!

 “Dá a quem te pede e não recuses” – como é feito com tanta

 frequência – “aquele que de ti pede emprestado” (Mateus 5:42). Faça o

 que puder para cuidar daqueles que sofrem: seja liberal e beneficente.

 A soma das riquezas do mundo não equivale ao preço dessas duas

 virtudes, nem à recompensa que elas nos trarão.

Aqui, então, estão os três graus de caridade para com nossos

 inimigos: amá-los, fazer-lhes o bem e orar por eles. A primeira é a fonte

 da segunda: se amamos, damos. A última é aquela que pensamos ser a

 mais fácil de fazer, mas na verdade é a mais difícil, porque é a que

devemos fazer em relação a Deus. Nada deve ser mais sincero, nada

 mais sincero, nada mais verdadeiro do que aquilo que apresentamos

 àquele que tudo vê, até no fundo do nosso coração.

 Examinemos estes três graus: amar, fazer o bem e rezar. O que é

 “amar quem te ama”? “Não fazem também os cobradores de impostos? .

 . . Os gentios não fazem o mesmo?” (Mateus 5:46-47). Não é à toa que te

 é oferecida uma herança eterna e uma felicidade imutável: não é para te

 deixar indiferente, ou pior que os pagãos.



Jacques-Benigne Bossuet 

 Meditações para a Quaresma

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