Semana 1: terça-feira Nosso pai



Semana 1: terça-feira

Nosso Pai




Desde a primeira palavra da Oração do Senhor, nossos corações se

derretem de amor. Deus quer ser nosso Pai nos adotando, um a um. Ele

tem um Filho unigênito em quem se deleita. Pecadores ele adota. Os

homens adotam crianças quando não têm filhos. Deus, tendo tal Filho,

não obstante nos adotou. A adoção é um trabalho de amor, porque

escolhemos quem adotamos. A natureza dá outros filhos; só o amor faz

os adotivos. Deus, que ama o seu Filho unigénito com todo o seu amor,

até ao infinito, estende-nos o amor que tem pelo seu Filho. Assim o

disse Jesus na admirável oração que fez ao Pai por nós: “Que o amor

com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17,26). Amemos, pois,

tal Pai. Digamos mil vezes: Pai nosso, Pai nosso, Pai nosso, não te

amarei sempre? Não seremos sempre verdadeiros filhos envolvidos na

tua ternura paterna?

O que nos faz dizer Pai Nosso? Aprendamos de São Paulo: “porque

sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espirito de seu Filho, que

clama: 'Aba! Pai!' ” (Gálatas 4:6). E o Espirito Santo em nós. E o Espirito

que forma em nós a invocação do nosso coração a Deus como Pai

sempre pronto a nos ouvir. O mesmo São Paulo diz em outro lugar:

“Todos os que são guiados pelo Espirito de Deus são filhos de Deus”, e

que Deus nos envia “o Espírito de filiação” pelo qual clamamos “Abba!

Pai!" (Rm 8:14-15). Mais uma vez, é o Espirito Santo que nos dá este

grito filial.

Por que deveria ser chamado de choro? Choramos quando em grande

necessidade. Uma criança chora apenas quando sofre ou quando tem

necessidade. A quem a criança chora em sua necessidade senão a seu

pai, sua mãe, sua babá , a todos aqueles em cuja natureza ela sente algo

paternal? Choremos então, pois nossas necessidades são extremas.

Estamos caindo, seduzidos pelo pecado, levados pelos prazeres dos

sentidos. Clamemos — não podemos fazer mais — mas clamemos ao

nosso Pai. O Espirito Santo, o Deus que é Amor, o amor do Pai e do

Filho, aquele por quem “o amor de Deus foi derramado em nossos

corações” nos guiará (Rm 5:5). Clamemos ardentemente, e que todos os

nossos ossos gritem: O Deus, tu és nosso Pai!

“E o Espirito”, acrescenta São Paulo, “testificando com o nosso

Espírito que somos filhos de Deus” (Rom. 8:16). O Deus, quem é que

ouve este testemunho do Espirito Santo, que nos diz interiormente que

somos filhos de Deus? Quando desfrutamos da paz de uma boa

consciência e de um coração que não tem nada de que se censurar que

o separe de Deus, há uma voz que nos diz secretamente no silêncio

intimo do nosso coração: Deus é o vosso Pai, e você é ilho dele!

Infelizmente, essa voz é muito íntima e poucas pessoas a ouvem. Deixe

o falar novamente, e nós o entenderemos melhor. Devemos ser

fortalecidos e melhor enraizados no bem. O Espirito Santo não dá a

todos este testemunho secreto. Quanto a ele, deseja dar a todos, mas

nem todos são dignos. O Deus, torna-nos dignos disso! Isso é bom para*

pedir a Deus, pois na verdade é ele quem o dá . E ele responde: Aja

comigo, trabalhe ao meu lado, abra seu coração para mim, deixe toda

coisa criada ficar em silêncio e diga-me muitas vezes em segredo: Pai

nosso, Pai nosso.




Jacques-Benigne Bossuet

Meditações para a Quaresma

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