quinta-feira, 5 de julho de 2012

Do conhecimento profundo da Santa Missa





1. É necessário conhecer profundamente a Santa Missa?
Um ato de religião praticado com tanta freqüência, tão precioso em suas graças, e tão consolador em
seus frutos, é desejoso que se conheça o mais possível, na medida de nossas capacidades.
2. Como podemos conhecer mais profundamente a Santa Missa?
Podemos conhecê-la mais profundamente estudando seus mistérios, seus dogmas, a moral que ela
encerra, e até os menores detalhes de suas cerimônias e orações.
3. Para que devemos conhecer tudo isto?
Para que a Santa Missa, que é o centro do culto católico, desperte os mais vivos sentimentos de
religião e de piedade.
4. Que mais devemos conhecer da Santa Missa?
Devemos conhecer suas palavras sagradas; cada ação e cada movimento do sacerdote; cada
palavra que ele pronuncia para nos lembrar que um Deus se imola por nós, e que nós também
devemos nos imolar com Ele e por Ele.
5. Que mais é salutar conhecer?
Devemos saber as grandes vantagens espirituais que um conhecimento mais íntimo da Santa Missa
proporciona aos fiéis, com a explicação literal de suas orações e cerimônias.
6. Deus exige de todos os fiéis um conhecimento profundo e detalhado da Santa Missa?
Não. Deus supre com a fé o conhecimento que não foi possível adquirir e jamais irá desprezar o
sacrifício de um coração arrependido e humilhado (Sal. 50, 19).
7. Por acaso a Igreja ocultaria aos fiéis algum mistério da Santa Missa?
Não. Na Igreja nada há de oculto e Ela jamais pretendeu ocultar qualquer mistério aos fiéis, seja da
Santa Missa ou de qualquer outra cerimônia litúrgica.
8. Com que estado de espírito devemos assistir a Santa Missa?
Devemos deixar fora da igreja a indiferença e o tédio, a dissipação e o escândalo e sermos, na igreja,
adoradores em espírito e verdade.

Associação Cultural Montfort - http://www.montfort.org.br/

segunda-feira, 2 de julho de 2012

"O VAZIO DO CORAÇÃO SEM DEUS"



Lágrimas ao amanhecer. Quando o Domingo de Páscoa começava a clarear, um grande silêncio envolvia o descampado onde se encontrava o túmulo de Jesus. Só duas coisas poderiam chamar ali aatenção de um passante solitário: uma grande pedra circular - que servira para fechar verticalmente a entrada do sepulcro - fora rolada e estava posta a um lado; e perto da entrada escancarada, uma mulher, em pé, soluçava baixinho, com um leve estremecer de ombros, de modo que os primeiros raios de sol faziam cintilar as lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Era Maria Madalena. Entretanto – lemos no Evangelho de São João –, Maria conservava-se do lado defora, perto do sepulcro, e chorava (Jo 20,11). Era a segunda vez, naquele amanhecer de domingo, que Maria ia até ao sepulcro de Jesus, incansável no seu empenho por prestar uma última homenagem a nosso Senhor, depois da sua paixão e morte. Ajudada por outras santas mulheres, queria ungir-lhe o corpo – que na sexta-feira santa só tinham podido ungir às pressas e de modo incompleto – com os aromas que haviam preparado. Foi assim que Maria Madalena chegou ao túmulo juntamente com Maria, mãe deTiago e Salomé, suas amigas. Estas últimas – conta São Marcos – fugiram, trêmulas e amedrontadas (Mc 16,8), ao verem que o sepulcro estava vazio. Maria, porém, foi correndo à procura de Pedro e João, para lhes dizer, quase sem fôlego: Tiraram o Senhordo sepulcro, e não sabemos onde o puseram (Jo 20,2). Há espanto geral. Recuperados do primeiro susto, os dois Apóstolos saem em disparada e ela vai atrás. Quando chegam ao túmulo, entram, e ficam perplexos ao ver que, além de estar vazio, os panos com que tinham amortalhado o cadáver de Jesus permaneciam intactos, com o mesmo formato que tinham quando envolviam o corpo de Cristo, só que agora aplanados, como se o corpo do Senhor os tivesse atravessado, esvaziando-os sem nem mesmo tocá-los; e o sudário que lhe cobrira a cabeça estava cuidadosamente enrolado, também intacto, a um lado. Pedro e João, emocionados e perplexos, sentiram as pernas tremer e o coração rebentar, e voltaram correndo ao Cenáculo para avisar os outros. Maria, porém, não arredou pé de lá. Não queria ir-seembora. Queria encontrar Jesus, queria honrá-lo com carinho, mesmo que fosse apenas um pobre cadáver dilacerado. Por isso estacou ali, imóvel, chorando .As suas lágrimas silenciosas eram a expressão do seu amor. São Gregório Magno, o grande Papa do século sexto, tem um comentário muito bonito a este respeito: "E nós temos que pensar – diz ele – na força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo quando os apóstolos dele já voltavam. Buscava a quem não encontrava; chorava procurando-o e, consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando... Começou a buscar, e não oencontrou; perseverou no seu querer, e achou-o; de tal forma cresceram os seus desejos, e tanto se dilataram, que acabaram alcançando o que buscavam". Quando meditamos em tudo o que nos conta dessa mulher o santo Evangelho, percebemos que a vida de Maria Madalena poderia ser definida assim: o Amor com maiúscula, ou seja, o Amor de Deus, procurou-a e salvou-a; ela correspondeu a esse Amor e não se cansou, por sua vez, de procurá-lo, de modo que toda a sua vida foi uma buscaardente e um aprofundamento nesse divino Amor, como o foi a vida de muitos grandes santos... Mas tem havido tantas confusões, tantas mentiras e interpretações esquisitas sobreo amor de Maria Madalena, que vale a pena lembrar a sua verdadeira história.




 São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 313
 Amigos de Deus, n. 205

domingo, 1 de julho de 2012

"Bravura e Fidelidade de São Miguel Arcanjo"



São Miguel Arcanjo, cujo nome significa “Quem como Deus?”, segundo a SagradaEscritura e a tradição da Igreja, é um dos sete espíritos assistentes ao Trono do Altíssimo,portanto um dos grandes príncipes do céu e ministro de Deus, a quem o Criador conferiu poderesextraordinários para a salvação dos eleitos, como afirma o Catecismo da Igreja Católica 1993, p.102: “(...) Ad omnia bona nostra cooperantur angeli – Os Anjos cooperam para todos os nossosbens”. O profeta Daniel chama-o: “um dos dois ilustres príncipes” (Dn 10,13), o príncipe protetordos judeus daquela nação entre todas a escolhida, de todas a mais querida, onde depositária dasgrandes profecias e revelações. Herdeira que é do povo de Israel, a Igreja venera São MiguelArcanjo, também como protetor, e deseja que os fiéis acompanhem nessa veneração e depositemao grande espírito angélico toda a confiança. Inimigo do orgulho e da mentira. São MiguelArcanjo defendeu vitoriosamente os direitos de Deus contra as arrogâncias de Lúcifer e de seuscompanheiros, precipitando-os no abismo, como afirma a Sagrada Escritura: “com efeito, se Deusnão poupou os anjos que pecaram, mas lançou-os nos abismos tenebrosos do Tártaro, onde estãoguardando a espera do juízo (...)” (2 Pd 2, 4). Quem é igual a Deus? É o lema de São MiguelArcanjo e dos anjos bons na luta contra os anjos rebeldes. Estes foram derrotados e seu lugar nãoera mais no céu. Em muitos outros lugares, a Bíblia faz menção do Anjo do Senhor, que segundaexplicação dos exegetas, não é outro senão São Miguel Arcanjo, como em Daniel 10, 13-21;12,1;Ap 12, 7.É opinião de muitos que São Miguel Arcanjo é reservado o papel saliente do últimocombate, pois o protetor das almas justas e defensor dos corpos destinados à eterna glória. Motivaessa suposição um fato, cuja descrição se encontra na Epístola de São Judas. “E no entanto, oarcanjo Miguel, quando disputava com o Diabo, discutindo a respeito do corpo de Moisés, não seatreveu a pronunciar uma sentença contra ele mas, limitou-se a dizer: O Senhor te repreenda!” (Jd1, 8-9) A fé católica concluiu daí que São Miguel Arcanjo despensa uma proteção especial aosmoribundos e isto muito de acordo com os dizeres do Ofício da festa do Arcanjo.Nas orações da Santa Missa a Igreja deposita, por assim dizer, as almas dos justos nasmãos do Arcanjo, para que as leve ao reino da luz perpétua. É quem as acompanha até o céu,tomando-lhes a guarda do túmulo. O padre apostólico Hermas afirma que São Miguel arcanjo:“visitas os agonizantes que em vida foram fiéis observadores da lei do Senhor, e determina-lhes olugar no céu” (HERMAS, apud BERARDINO, 2002, p.101). Segundo a piedosa tradição foi SãoMiguel Arcanjo que levou a alma de Maria Santíssima ao céu, e era ainda quem no AntigoTestamento conduzia ao Limbo as almas dos justos.Pedro Lombardo enumera quatro atribuições de que São Miguel Arcanjo é possuidor:“primeiro combateu o dragão infernal; segundo este combate continua, na defesa das almascontra as influências diabólicas; terceiro, São Miguel Arcanjo é o protetor da família de Deussobre a terra; quarto, é o príncipe das almas no paraíso” (LOMBARDO, apud BERARDINO,2002, p.60).Assim se explica a grande veneração de que São Miguel Arcanjo goza na Igreja Católica.Na ladainha de todos os Santos figura o seu nome em primeiro lugar os santos, Anjos eArcanjos. Muitos altares, e muitas capelas e igrejas são dedicadas, entre estas algumas tem sidotestemunhas de grandes prodígios e aparições do Príncipe Celestial....Em Roma existe o castelo de Santo Ângelo, com a igreja de São Miguel Arcanjo, quedeve a construção à aparição do Arcanjo ao Papa Gregório Magno, por ocasião de uma grandepeste. O Papa viu São Miguel Arcanjo embainhar a espada, em sinal de extinção da horrívelepidemia. os napolitanos festejavam já em 493 o dia de São Miguel Arcanjo, na qual teriaaparecido no Monte Gárgano. No tempo dos Apóstolos existia um Santuário de São MiguelArcanjo na Frígia. Uma fonte milagrosa dava saúde aos peregrinos enfermos. Desde o século X adiocese de Acrenche, na Normandia, comemora solenemente uma aparição de São MiguelArcanjo em Monte Tumba ou Mont St. Michel.O Papa Leão XIII ordenou a recitação de uma oração a São Miguel Arcanjo depois dasMissas rezadas. A Igreja Católica romana celebra a festa de São Miguel Arcanjo, no dia 29 desetembro, que antigamente levava o nome da dedicação da Igreja, isto é, da Igreja celeste eterrestre.Reflexão:Bravura e fidelidade são as brilhantes qualidades que distinguem o glorioso PríncipeCeleste São Miguel Arcanjo bravura na defesa dos direitos de Deus contra os ataques curiosos deseus inimigos, fidelidade no serviço permanente e dedicado ao seu divino Criador e Senhor.Bravura e fidelidade devem igualmente distinguir ao católico de nossos tempos. Onde o mundomoderno se encontra materialista e sem valor do sagrado.




Postulante Marcos Vinícius Faria de Moraes
Referências bibliográficas:
_________ Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Editora Loyola, 1993.
AMDERSON, Ana Flora et al. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Editoras Paulinas, 1981.
BERARDINO, Ângelo Di (org). Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Petrópolis:
Editoras Vozes, 2002.
BARTMANN, Bernardo. Teologia Dogmática. São Paulo: Editoras Paulinas, 1962.
LEHMANN, Pe João Batista. Na luz perpetua. 5°edição. Juiz de Fora: Editora Lar Católico,

"QUANDO AS PERDAS SE TORNAM GANHOS"



Quando entregamos nossa vida  a Deus e temos um verdadeiro encontro com o Senhor, precisamos entender que muitas mudanças irão acontecer. Seremos privados de muitos prazeres que na verdade são uma fonte de mal requintado.
Naturalmente, o Espírito Santo vem nos envolvendo, nos transformando e passamos a olhar a vida por outro ângulo, um outro sentido. Muitas coisas passam a não agradar mais, coisas que até então fazíamos questão de ter já não fazem mais falta.
O Espírito Santo nos coloca no mar misterioso do mundo espiritual e ao mesmo tempo nos coloca em contradição com os costumes mundanos; começamos a nadar contra a correnteza; muitas dúvidas, medos e incertezas nos assolam, passagens bíblicas começam a fazer sentido em nossas vidas e algo em nós fala para seguirmos, fala para ir adiante, mesmo sem saber o que nos espera ou o que vai acontecer. Quando abrimos sinceramente e verdadeiramente o coração a Deus, potencializamos essa ação do Espírito Santo, renascemos para uma nova vida, com um outro fim. Certas companhias não nos agrada mais, certos lugares e situações evitamos, não por vontade própria mas por ação do próprio Espírito. Questionamos sobre certas atitudes e situações que aparecem em nossas vidas e parece que não controlamos mais a nossa vida, é como se o Espírito Santo fizesse oposição ás maneiras fáceis do mundo. Por outro lado Deus coloca consolações celestiais em nossos corações, as vezes recusamos ir a uma festa para estar na presença Dele e então passamos a ser criticados, dizem que estamos perdendo o melhor da vida e não entendem que esta perda se torna ganho.
As vezes você já está cansado dessa vida, dessa situação, nada muda nada acontece, então deixe que Jesus seja o seu melhor amigo.


Por: Filhos Espirituais de Pe. Pio 

"Em Busca da Terra Prometida"

SAN FRANCISCO DE ASIS Y STA CLARA - Legenda em espanhol

terça-feira, 26 de junho de 2012

DA MODÉSTIA DOS OLHOS



Quase todas as paixões que se revoltam contra nosso espírito têm sua origem na
liberdade desenfreada dos olhos, pois os olhares livres são os que despertam em nós, de
ordinário, as inclinações desregradas. "Fiz um contrato com meus olhos de não cogitar
sequer em uma virgem", diz Jó (Job 31, 1). Mas, por que diz ele de não pensar sequer
em uma virgem? Não parece que deveria dizer: Fiz um contrato com meus olhos de não
olhar sequer? Não, ele tem toda a razão de falar assim, porque o pensamento está
intimamente ligado ao olhar, não se podendo separar um do outro, e, para não ter maus
pensamentos, propôs-se esse santo homem nunca olhar para uma virgem.
Santo Agostinho diz: "Do olhar nasce o pensamento, e do pensamento a
concupiscência". Se Eva não tivesse olhado para o fruto proibido, não teria pecado; ela,
porém, achou gosto em contemplá-lo, parecendo-lhe bom e belo; apanhou-o então, e
fez-se culpada da desobediência.
Aqui vemos como o demônio nos tenta primeiramente a olhar, depois a desejar
e, finalmente, a consentir. Por isso nos assegura São Jerônimo que o demônio só
necessita de nosso começo: dá-se por satisfeito se lhe abrimos a metade da porta, pois
ele saberá conquistar a outra metade. Um olhar voluntário, lançado a uma pessoa do
outro sexo, acende uma faísca infernal que precipita a alma na perdição. "As primeiras
setas que ferem as almas castas, diz São Bernardo (De mod. ben. viv., serm. 23), e não
raro as matam, entram pelos olhos". Por causa dos olhos caiu Davi, esse homem
segundo o coração de Deus. Por causa dos olhos caiu Salomão, esse instrumento do
Espírito Santo. Por causa dos olhos, quantas almas não se perderam eternamente?
Vigie, pois, cada um sobre seus olhos, se não quiser chorar uma vez com
Jeremias: "Meus olhos me roubaram a vida" (Jer 3, 51); as afeições criminosas que
penetraram em meu coração por causa dos meus olhares, lhe deram a morte. São
Gregório diz (Mor. 1, 21, c. 2): "Se não reprimires os olhos, tornar-se-ão ganchos do
inferno, que a força nos arrastarão e nos obrigarão, por assim dizer, a pecar contra a
nossa vontade". "Quem contempla objeto perigoso, acrescenta o Santo, começa a querer
o que antes não queria". É também o que diz a Sagrada Escritura (Jdt 16, 11), quando
diz que a bela Judite escravizou a alma de Holofernes, apenas este a contemplou.
Sêneca diz que a cegueira é mui útil para a conservação da inocência. Seguindo
esta máxima, um filósofo pagão arrancou-se os olhos para quardar a castidade, como
nos refere Tertuliano. Isso, porém, não é lícito a nós, cristãos; se queremos conservar a
castidade, devemos, contudo, fazer-nos cegos por virtude, abstendo-nos de olhar o que
possa despertar em nós os maus pensamentos. "Não contemples a beleza alheia; disso
origina-se a concupiscência, que queima como o fogo" (Ecli 9, 8). À vista seguem-se as
imaginações pecaminosas, que acendem o fogo impuro.
São Francisco de Sales dizia: "Quem não quiser que o inimigo penetre na
fortaleza, deve conservar as portas fechadas". Por essa razão foram os Santos tão
cautelosos em seus olhares. Por temor de enxergarem inesperadamente qualquer objeto
perigoso, conservavam os olhos quase sempre baixos, e se abstinham de olhar coisas
inteiramente inocentes. São Bernardo, depois de um ano inteiro no noviciado, não sabia
ainda se o teto de sua cela era plano ou abobadado. Na igreja do convento havia três
janelas e ele não o sabia, porque conservara os olhos baixos. Evitavam os Santos, com
cautela maior ainda, pôr os olhos em pessoa de outro sexo. São Hugo, bispo, nunca
olhava para o rosto das mulheres com quem tinha de conversar. Santa Clara nunca
olhava para a face de um homem. Aconteceu uma vez que, levantando os olhos para a
Hóstia Sagrada, durante a Elevação, viu o rosto do sacerdote, com o que ficou
profundamente aflita.
Julgue-se agora quão grande é a imprudência e temeridade dos que, não
possuindo a virtude dum desses Santos, ousam passear suas vistas em todas as pessoas,
não exceptuando as de outro sexo, e querendo ainda ficar livre de tentações e do perigo
de pecar. São Gregório diz (Dial. 1.2, c. 2) que as tentações que levaram São Bento a
revolver-se sobre espinhos, provieram de um olhar imprudente sobre uma senhora. São
Jerônimo, achando-se na gruta de Belém, onde continuamente orava e macerava seu
corpo com as mais atrozes penitências, foi por longo tempo atormentado pela lembrança
das damas que vira tempos antes em Roma. Como, pois, poderemos ficar preservados
de tentações, quando nos expomos ao perigo, olhando e até fitando complacentemente
pessoas de outro sexo?
O que nos prejudica não é tanto o olhar casual como o premeditado, o mirar.
Razão porque Santo Agostinho diz (Reg. ad Serv. Dei, n. 6): "Se vossos olhos
casualmente caírem sobre uma pessoa, cuja vista vos pode ser prejudicial, guardai-vos,
ao menos, de fitá-la". E São Gregório diz: "Não é lícito contemplar ou extasiar-se com a
vista daquilo que não é lícito desejar, pois, ainda que expulsemos os maus pensamentos
que costumam seguir o olhar voluntário, deixam sempre uma mancha na alma". Tendose
perguntado ao irmão Rogério, franciscano, dotado de uma pureza angélica, por que se
mostrava tão reservado em seus olhares, quando trata va com mulheres, respondeu: "Se
o homem foge à ocasião, Deus o protege; se se expõe a ela, Nosso Senhor o abandona e
facilmente cairá no pecado".
Suposto mesmo que a liberdade que se concede aos olhos não produzisse outros
males, impediria sempre o recolhimento da alma durante a oração; pois tudo o que
vimos e nos impressionou, apresenta-se aos olhos de nossa alma e nos causa uma
imensidade de distrações. Quem já tem recolhimento de espírito durante a oração, tome
muito cuidado para não se ver privado dessa graça dando liberdade a seus olhos.
Está fora de dúvida que um cristão que vive sem recolhimento de espírito não
pode praticar as virtudes cristãs da humildade, da paciência, da mortificação, como
deveria. Guardemo-nos, por isso, de olhares curiosos, e só olhemos para objetos que
elevam para Deus o nosso espírito. "Olhos baixos elevam o coração para o Céu", dizia
São Bernardo. São Gregório Nazianzeno (Ep. ad Diocl.) escreve: "Onde habita Cristo
com Seu amor, reina aí a modéstia". Com isso não quero, porém, dizer que nunca se
deva levantar os olhos ou considerar coisa alguma; pelo contrário, é até bom, às vezes,
olhar coisas que elevam nosso coração para Deus, como santas imagens, prados
floridos, etc, já que a beleza dessa criatura nos atrai à contemplação do Criador.
Deve-se notar também que a modéstia dos olhos é necessária não só para nosso
próprio bem, como para a edificação do próximo. Só Deus vê o nosso coração; os
homens vêem apenas nossas obras externas e, ou se edificam, ou se escandalizam com
elas. "Pelo rosto se conhece o homem", diz a Escritura (Ecli 19, 26), isto é, pelo exterior
se depreende o que é o homem interiormente. Todo cristão, por isso, deve ser o que era
São João Batista, conforme as palavras do Salvador (Jo 5, 35): "Uma lâmpada que arde
e ilumina". Interiormente deve arder em amor divino; exteriormente, alumiar, pela
modéstia, a todos os que o vêem. Também a nós se podem aplicar as palavras que São
Paulo dirigiu a seus discípulos (I Cor 4, 9): "Somos o espetáculo dos anjos e dos
homens". "A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens" (Filip 4, 5).
Pessoas devotas são observadas pelos anjos e pelos homens, e, por isso, sua
modéstia deve ser notória a todos, do contrário, deverão dar rigorosas contas a Deus no
dia do Juízo. Observando a modéstia, edificamos sumamente os outros e os
estimulamos à prática da virtude.
É celebre o que se conta de São Francisco de Assis: Uma vez deixou ele o
convento junto a uma companheiro, dizendo que ia pregar; tendo dado uma volta pela
cidade com os olhos baixos, entrou novamente no convento. 'Mas quando farás o
sermão?', perguntou-lhe o companheiro. 'Já o fiz, respondeu-lhe o Santo, consistiu todo
no resguardo dos olhos, do que demos exemplo ao povo'.
Santo Ambrósio diz que a modéstia das pessoas virtuosas é uma exortação mui
poderosa ao coração dos mundanos. "Quão belo não seria se bastasse te apresentares em
público para fazeres bem aos outros!" (In ps. 118, s. 10). De São Bernardino de Sena se
conta que, mesmo antes de entrar para o convento, bastava só a sua presença para pôr
fim às conversas livres de seus companheiros; mal o avistavam, diziam uns para os
outros: Silêncio, Bernardino vem vindo; e então calavam-se ou começavam a falar de
outras coisas. Santo Efrém, segundo o testemunho de São Gregório de Nissa, era tão
modesto, que já a sua vista estimulava à devoção, e não se podia vê-lo sem se sentir
levado a se tornar melhor. Mais admirável ainda é o que nos refere Suvio, do santo
sacerdote e mártir Luciano: só por sua modéstia moveu muitos pagãos a abraçarem a
santa Fé. O imperador Mazimiano, que fôra disso informado, temendo sentir a sua
influência e ser obrigado a converter-se, citou-o à sua presença, mas não quis vê-lo, e
sujeitou-o ao interrogatório ocultando-o a suas vistas por uma cortina estendida entre os
dois. Nosso ideal mais perfeito de modéstia foi, porém, o nosso Divino Salvador
mesmo, pois, como nota um célebre autor, os Evangelistas dizem, várias vezes, que o
Redentor levantou os olhos em certas ocasiões, dando a entender, com isso, que tinha
ordinariamente os olhos baixos. Por isso exalta o Apóstolo a modéstia de seu Divino
Mestre, escrevendo a seus discípulos: "Rogo-vos pela mansidão e modéstia de Cristo"
(II Cor 10, 1).
Concluo com as palavras de São Basílio a seus monges: "Se quisermos que
nossa alma tenha suas vistas sempre postas no Céu, filhos queridos, conservemos
nossos olhos sempre voltados para a terra". De manhã, ao despertar, devemos já pedir,
com o Profeta: "Afastai meus olhos, Senhor, para que não vejam a vaidade" (Sl 118,37)

POR:  (SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO)