quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

"O RITO DA PALAVRA"



O Rito da Palavra é a segunda parte da missa, e também a segunda mais importante, ficando atrás, somente do Rito Sacramental, que é o auge de toda celebração.
Iniciamos esta parte sentados, numa posição cômoda que facilita a instrução. Normalmente são feitas três leituras extraídas da Bíblia: em geral um texto do Antigo Testamento, um texto epistolar do Novo Testamento e um texto do Evangelho de Jesus Cristo, respectivamente. Isto, porém, não significa que será sempre assim; às vezes a 1ª leitura cede espaço para um outro texto do Novo Testamento, como o Apocalipse, e a 2ª leitura, para um texto extraído dos Atos dos Apóstolos; é raro acontecer, mas acontece... Fixo mesmo, apenas o Evangelho, que será extraído do livro de Mateus, Marcos, Lucas ou João.

1.Primeira Leitura
Como já dissemos, a primeira leitura costuma a ser extraída do Antigo Testamento.
Isto é feito para demonstrar que já o Antigo Testamento previa a vinda de Jesus e que Ele mesmo o cumpriu (cf.
Mt 5,17). De fato, não poucas vezes os evangelistas citam passagens do Antigo Testamento, principalmente dos profetas,
provando que Jesus era o Messias que estava para vir.
O leitor deve ler o texto com calma e de forma clara. Por esse motivo, não é recomendável escolher os leitores
poucos instantes antes do início da missa, principalmente pessoas que não têm o costume de freqüentar aquela comunidade.
Quando isso acontece e o "leitor", na hora da leitura, começa a gaguejar, a cometer erros de leitura e de português, podemos
ter a certeza de que, quando ele disser: "Palavra do Senhor", a resposta da comunidade, "Graças a Deus", não se referirá aos
frutos rendidos pela leitura, mas sim pelo alívio do término de tamanha catástrofe!
Ora, se a fé vem pelo ouvido, como declara o Apóstolo, certamente o leitor deve ser uma pessoa preparada para exercer
esse ministério; assim, é interessante que a Equipe de Celebração seja formada, também, por leitores "profissionais", ou
seja, especial e previamente selecionados.

2.Salmo Responsorial
O Salmo Responsorial também é retirado da Bíblia, quase sempre (em 99% dos casos) do livro dos Salmos.
Muitas comunidades recitam-no, mas o correto mesmo é cantá-lo... Por isso uma ou outra comunidade possui, além do
cantor, um salmista, já que muitas vezes o salmo exige uma certa criatividade e espontaneidade, uma vez que as traduções
do hebraico (ou grego) para o português nem sempre conseguem manter a métrica ou a beleza do original.
Assim, quando cantado, acaba lembrando um pouco o canto gregoriano e, em virtude da dificuldade que exige para sua execução, acaba sendo simplesmente - como já dissemos – recitado.

3.Segunda Leitura
Da mesma forma como a primeira leitura tem como costume usar textos do Antigo Testamento, a segunda leitura
tem como característica extrair textos do Novo Testamento, das cartas escritas pelos apóstolos (Paulo, Tiago, Pedro, João e
Judas), mais notadamente as escritas por São Paulo.
Esta leitura tem, portanto, como objetivo, demonstrar o vivo ensinamento dos Apóstolos dirigido às comunidades cristãs.
A segunda leitura deve ser encerrada de modo idêntico ao da primeira leitura, com o leitor exclamando: "Palavra do Senhor!" e a comunidade respondendo com: "Graças a Deus!".

4.Canto De Aclamação Ao Evangelho
Feito o comentário ao Evangelho, a assembléia se põe de pé, para aclamar as palavras de Jesus. O Canto de Aclamação tem como característica distintiva a palavra "Aleluia", um termo hebraico que significa "louvai o Senhor". Na
verdade, estamos felizes em poder ouvir as palavras de Jesus e estamos saudando-O como fizeram as multidões quando Ele adentrou Jerusalém no domingo de Ramos.
Percebemos, assim, que o Canto de Aclamação, da mesma forma que o Hino de Louvor, não pode ser cantado sem alegria, sem vida. Seria como se não confiássemos Naquele que dá a vida e que vem até nós para pregar a palavra da
Salvação. O Canto deve ser tirado do lecionário, pois se identifica com a leitura do dia, por isso não se pode colocar qualquer música como aclamação, não basta que tenha a palavra aleluia.
Comprovando este nosso ponto de vista está o fato de que durante o tempo da Quaresma e do Advento, tempos de preparação para a alegria maior, também a palavra "Aleluia" não aparece no Canto de Aclamação ao Evangelho.

5.Evangelho
Antes de iniciar a leitura do Evangelho, se estiver sendo feito uso de incenso, o sacerdote ou o diácono (depende de quem for ler o texto), incensará a Bíblia e, logo a seguir, iniciará a leitura do texto.
O texto do Evangelho é sempre retirado dos livros canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João, e jamais pode ser omitido.
É falta gravíssima não proceder a leitura do Evangelho ou substituí-lo pela leitura de qualquer outro texto, inclusive bíblico.
Ao encerrar a leitura do Evangelho, o sacerdote ou diácono profere a expressão: "Palavra da Salvação!" e toda a comunidade glorifica ao Senhor, dizendo: "Glória a vós, Senhor!". Neste momento, o sacerdote ou diácono, em sinal de veneração à Palavra de Deus, beija a Bíblia (rezando em silêncio: "Pelas palavras do santo Evangelho sejam perdoados os nossos pecados") e todo o povo pode voltar a se sentar.

6.Homilia
A homilia nos recorda o Sermão da Montanha, quando Jesus subiu o Monte das Oliveiras para ensinar todo o povo reunido. Observe-se que o altar já se encontra, em relação aos bancos onde estão os fiéis, em ponto mais alto, aludindo claramente a esse episódio.
Da mesma forma como Jesus ensinava com autoridade, após sua ascensão, a Igreja recebeu a incumbência de pregar a todos os povos e ensinar-lhes a observar tudo aquilo que Cristo pregou. A autoridade de Cristo foi, portanto,
passada à Igreja.
A homilia é o momento em que o sacerdote, como homem de Deus, traz para o presente aquela palavra pregada por Cristo há dois mil anos. Neste momento, devemos dar ouvidos aos ensinamentos do sacerdote, que são os mesmos
ensinamentos de Cristo, pois foi o próprio Cristo que disse: "Quem vos ouve, a mim ouve. Quem vos rejeita, a mim rejeita"
(Lc 10,16). Logo, toda a comunidade deve prestar atenção às palavras do sacerdote.
A homilia é obrigatória aos domingos e nas solenidades da Igreja. Nos demais dias, ela também é recomendável, mas não obrigatória.

7.Profissão De Fé (Credo)
Encerrada a homilia, todos ficam de pé para recitar o Credo. Este nada mais é do que um resumo da fé católica, que nos distingue das demais religiões. É como que um juramento público, como nos lembra o Pe. Luiz Cechinatto.
Embora existam outros Credos católicos, expressando uma única e mesma verdade de fé, durante a missa costuma-se
a recitar o Símbolo dos Apóstolos, oriundo do séc. I, ou o Símbolo Niceno-Constantinopolitano, do séc. IV. O primeiro é mais curto, mais simples; o segundo, redigido para eliminar certas heresias a respeito da divindade de Cristo, é mais longo, mais completo. Na prática, usa-se o segundo nas grandes solenidades da Igreja.

8.Oração Da Comunidade
A Oração da Comunidade ou Oração dos Fiéis, como também é conhecida, marca o último ato do Rito da Palavra. Nela toda a comunidade apresenta suas súplicas ao Senhor e intercede por todos os homens.
Alguns pedidos não devem ser esquecidos pela comunidade:
 As necessidades da Igreja.
 As autoridades públicas.
 Os doentes, abandonados e desempregados.
 A paz e a salvação do mundo inteiro.
 As necessidades da Comunidade Local
A introdução e o encerramento da Oração da Comunidade devem ser feitas pelo sacerdote. Quando possível, devem ser feitos espontaneamente. As preces podem ser feitas pelo comentarista, mas o ideal é que sejam feitas pela equipe
de Liturgia, ou ainda pelos próprios fiéis. Cada prece deve terminar com expressões como: "Rezemos ao Senhor", entre outras, para que a comunidade possa responder com: "Senhor, escutai a nossa prece" ou "Ouvi-nos, Senhor”
Quando o sacerdote conclui a Oração da Comunidade, dizendo, por exemplo: "Atendei-nos, ó Deus, em vosso amor de Pai, pois vos pedimos em nome de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso”. a assembléia encerra com um: "Amém!".


ARQUIDIOCESE DE BRASÍLIA
PARÓQUIA SÃO JOSÉ
CATEQUESE DE CRISMA


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

"MEDITAÇÃO DA MORTE"



1. Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?2. Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Oxalá tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; freqüentemente, porém, é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito. Bem-aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste alguém morrer, reflete que também tu passarás pelo mesmo caminho.3. Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lc 12,40). Quando vier àquela hora derradeira, começarás a julgar mui diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso.4. Quão feliz e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a morte. Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade. Mui fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raro também se santificam os que andam em muitas peregrinações.5. Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio de tua salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens. Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Mui precioso é o tempo presente: agora são os dias de salvação, agora é o tempo favorável (2Cor 6,2). Mas, ai! Que melhor não aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.6. Olha, meu caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte. Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar livremente a Cristo. Castiga agora teu corpo pela penitência, para que possas então ter legítima confiança.7. Ó louco, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo! Quantas vezes ouviste contar: morreu este a espada; afogou-se aquele; este outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte, e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Sl 143,4).8. Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faze já, irmão caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Só cuida em tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus. Granjeia agora amigos, venerando os santos de Deus e imitando suas obras, para que, ao saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lc 16,9).9. Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses com os negócios da terra. Conserva livre teu coração, e erguido a Deus, porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige tuas preces e gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça tua alma, depois da morte, passar venturosamente ao Senhor. Amém.


IMITAÇÃO DE CRISTO

"COMO SE HÁ DE RESISTIR AS TENTAÇÕES"



1. Enquanto vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações. Por isso lemos no livro de Jó (7,1): É um combate a vida do homem sobre a terra. Cada qual, pois, deve estar acautelado contra as tentações, mediante a vigilância e a oração, para não dar azo às ilusões do demônio, que nunca dorme, mas anda por toda parte em busca de quem possa devorar (1 Pdr 5,8) . Ninguém há tão perfeito e santo, que não tenha, às vezes, tentações, e não podemos ser delas totalmente isentos.2. São, todavia, utilíssimas ao homem as tentações, posto que sejam molestas e graves, porque nos humilham, purificam e instruem. Todos os santos passaram por muitas tribulações e tentações, e com elas aproveitaram; aqueles, porém, que não as puderam suportar foram reprovados e pereceram. Não há Ordem tão santa nem lugar tão retirado, em que não haja tentações e adversidades.3. Nenhum homem está totalmente livre das tentações, enquanto vive, porque em nós mesmos está a causa donde procedem: a concupiscência em que nascemos. Mal acaba uma tentação outribulação, outra sobrevém, e sempre teremos que sofrer, porque perdemos o dom da primitiva felicidade. Muitos procuram fugir às tentações, e outras piores encontram. Não basta a fuga para vencê-las; é pela paciência e verdadeira humildade que nos tornamos mais fortes que todos os nossos inimigos.4. Pouco adianta quem somente evita as ocasiões exteriores, sem arrancar as raízes; antes lhe voltarão mais depressa as tentações, e se achará pior. Vencê-las-á melhor com o auxílio de Deus, a pouco e pouco com paciência e resignação, que com importuna violência e esforço próprio. Toma a miúdo conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero parao que é tentado, trata antes de o consolar, como desejas ser consolado.1. O princípio de todas a más tentações é a inconstância do espírito e a pouca confiança em Deus; pois, assim como as ondas lançam de uma parte a outra o navio sem leme, assim as tentações combatem o homem descuidado e inconstante em seus propósitos. O ferro é provado pelo fogo, e o justo pela tentação. Ignoramos muitas vezes o que podemos, mas a tentação manifesta o que somos. Todavia, devemos vigiar, principalmente no princípio da tentação; porque mais fácil nos será vencer o inimigo, quando não o deixarmos entrar na alma, enfrentando-o logo que bater no limiar. Por isso disse alguém: Resiste desde o princípio, que vem tarde o remédio, quando cresceu o mal com a muita demora (Ovídio). Porque primeiro ocorre à mente um simples pensamento, donde nasce a importuna imaginação, depois o deleite, o movimento; e assim, pouco a pouco, entra de todo na alma o malvado inimigo. E quanto mais alguém for indolente em lhe resistir, tanto mais fraco se tornará cada dia, e mais forte o seu adversário.2. Uns padecem maiores tentações no começo de sua conversão, outros, no fim; outros por quase toda a vida são molestados por elas. Alguns são tentados levemente, segundo a sabedoria da divina Providência, que pondera as circunstâncias e o merecimento dos homens, e tudo predispõe para a salvação de seus eleitos.3. Por isso não devemos desesperar, quando somos tentados; mas até, com maior fervor, pedir a Deus que se digne ajudar-nos em toda provação, pois que, no dizer de S. Paulo, nos dará graça suficiente na tentação para que a possamos vencer (1 Cor 10,13). Humilhemos, portanto, nossas almas, debaixo da mão de Deus, em qualquer tentação e tribulação porque ele há de salvar e engrandecer os que são humildes de coração.4. Nas tentações e adversidades se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas consiste o maior merecimento e se patenteia melhor a virtude. Não é lá grande coisa ser o homem devoto e fervoroso quando tudo lhe corre bem; mas, se no tempo da adversidade conserva a paciência, pode-se esperar grande progresso. Alguns há que vencem as grandes tentações e, nas pequenas, caem freqüentemente, para que, humilhados, não presumam de si grandes coisas, visto que com tão pequenas sucumbem.


IMITAÇÃO DE CRISTO

domingo, 13 de janeiro de 2013

"VIRTUDES E SENTIMENTOS"



Uma das grandes vantagens das provas por que passamos é o fato de que elas nos libertam dos enganos da bondade sentimental. As virtudes não consistem em sentimentos, e menos ainda em sentimentalismos, mas em bons hábitos práticos, que devem ser vividos em todas as circunstâncias,
favoráveis ou adversas. “Sentir-se bom”, experimentar o gosto pelos bons sentimentos de amor e de bondade, não quer dizer “ser bom”. A bondade mede-se, não o esqueçamos, pela prática de atos de
virtude, especialmente dos atos de virtude difíceis.
Não pode ser considerada paciente uma mulher que sente os seus nervos calmos e inalterados durante umas semanas em que, por qualquer motivo, ninguém a perturba. Será paciente se souber manter-se serena e equilibrada no meio de uma chuva de contrariedades: falta de
dinheiro, os filhos que se tornaram impossíveis, o marido que acaba de perder o emprego e, coincidentemente, o preço da cesta básica que subiu... “Existem alguns – dizia São Gregório Magno, já no século VII – que querem ser humildes, mas sem serem desprezados; querem
contentar-se com o que têm, mas sem padecer necessidade; ser castos, porém sem mortificar o corpo; ser pacientes, mas sem que ninguém os injurie. Quando querem adquirir as virtudes, fugindo ao esforço que as virtudes trazem consigo, é como se, ignorando e nada querendo saber dos combates no campo de batalha, quisessem ganhar a guerra vivendo comodamente na cidade”.
Um sentimento não provado pode ser falso; e tem o perigo de induzir-nos à vaidosa autocomplacência de quem pensa: “Como sou bom!”, e se deixa invadir pelas emanações do orgulho, como um perfume enganoso destampado no coração.
A tentação, portanto, é boa. Em certo sentido, é até necessária. Santo Agostinho chega a dizer que “nesta peregrinação em que consiste agora a nossa vida, não pode deixar de haver tentações, porque o nosso melhoramento realiza-se através da tentação. Ninguém se conhece a si mesmo se não for tentado; ninguém pode ser coroado se não tiver vencido; não pode vencer se não tiver lutado; e não pode lutar a não ser tendo tido tentações e inimigo”.

Pe. Francisco Faus - O VALOR DAS DIFICULDADES

"ORAÇÃO A SÃO PIO DE PIETRELCINA"





ORAÇÃO A SÃO PIO DE PIETRELCINA

(escrita por João Paulo II) 

Ensine também a nós, te rogamos, a humildade do coração para que possamos fazer parte dos pequeninos do Evangelho aos quais o Pai prometeu revelar os mistérios do seu Reino. 

Ajude-nos a obter um olhar de fé capaz de reconhecer imediatamente o vulto de Jesus nos pobres e nos que sofrem.

Ajude-nos nos momentos de luta e de provação e, se caírmos, faça com que experimentemos a alegria do sacramento do perdão.

Transmita-nos a devoção à Maria, mãe de Jesus e também nossa.

Acompanhe-nos na peregrinação terrena

em direção à Pátria abençoada, onde esperamos chegar um dia para contemplar eternamente a Glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.


http://www.saopio.com.br/index.php?ddir=paginas&page=oracoes

PADRE PIO EM POUCAS PALAVRAS



Isto aqui não pretende ser uma biografia do Padre Pio, mas apenas um primeiro passo ao encontro deste grande santo, hoje tão popular e querido no mundo inteiro.

Nasceu em Pietrelcina, pequena aldeia perto de Nápoles (Itália), em 25 de maio de 1887, sendo batizado já na manhã seguinte, com o nome de Francesco. Seus pais Grazio Forgione e Maria Josefa de Nunzio eram humildes e trabalhadores; viviam modestamente da pequena lavoura e de umas ovelhas que tinham, num lugar próximo chamado Piana Romana. Eram bons católicos, viviam sua fé de maneira simples; foram sempre muito piedosos. Tiveram sete filhos, mas apenas cinco sobreviveram.

Francisco gostava do recreio, mas não permitia brincadeiras de mau gosto e palavrões. Aparentemente, era um menino igual aos outros. Na realidade, porém, sua vida foi cheia de carismas especiais e de estranhas experiências. Desde os cinco anos começou a ter aparições de Jesus, de Nossa Senhora e do Anjo da Guarda – um fato que ele considerava comum a todas as pessoas. Por isso ficou admirado quando perguntou ao confessor se ele também enxergava a Madonna, e esse lhe respondeu que não. Chegou a pensar que o padre dissera aquilo por humildade.

Ademais de ser abençoado com aparições celestes, Francisco teve que enfrentar o assédio implacável do demônio, que começou a molestá-lo ainda como bebê. Em todas as suas biografias encontramos que chorava muito de noite. Um choro estranho, que nada tinha a ver com problemas de saúde, e que ele próprio explicaria mais tarde: “Depois de me colocar na cama, a mãe apagava a luz, e então se aproximavam de mim muitos monstros, que me faziam chorar de medo... Uma vez, eles até tentaram matar-me!”
 Que monstros seriam esses? Figuras criadas pela imaginação? Não, porque com um ou dois anos de idade, a imaginação da criança não tem condições de criar imagens capazes de assustá-la. 
 Sentiu-se chamado ao sacerdócio já aos cinco anos. Estava rezando, sozinho na igreja, quando viu Jesus acenar-lhe, pedindo que se aproximasse, e o abençoou paternalmente.
 Este desejo de se tornar padre foi crescendo bem nutrido, ao longo dos anos, pela oração, estudo e penitência. Depois de brincar um pouco, dava um jeito de se retirar, para rezar. Aos nove anos, a mãe o encontrou dormindo no chão. E mais de uma vez o surpreendeu assentado atrás da cama, flagelando as costas com uma correntinha de ferro.  

Em 6 de janeiro de 1903, acompanhado de seu professor e mais dois candidatos, tomou o trem para Morcone, onde se encontrava o noviciado capuchinho que os iria acolher.
 Para quem ingressa na vida religiosa, o noviciado representa a etapa básica para verificar se o candidato reúne as condições exigidas por aquela ordem ou congregação. À semelhança dos atletas esportivos, ele também aprende ali técnicas e exercícios espirituais para se tornar um “atleta de Deus” e poder levar uma vida ascética sadia.

É aqui que, em 22 de janeiro de 1903, juntamente com doze confrades, recebe o hábito capuchinho, passando a chamar-se Frei Pio de Pietrelcina. Escolheu esse nome em honra de Pio V, o Santo  Padroeiro de Pietrelcina. 

Mas, eis que, a partir do final do noviciado, a saúde do jovem Frei Pio começa a emitir sinais de alarme. 
Aparecem-lhe doenças misteriosas, que os próprios médicos não conseguem entender ...
Passa de cama dias inteiros ... 
Seu estômago não tolera qualquer alimento ... 
Tem febres absurdas, que chegam a 48º. Para tomar-lhe a febre os médicos se valem de termômetros especiais, utilizados para medir a temperatura da água. 
Sua fraqueza é geral e, às vezes, não consegue manter-se de pé. 

     Consultam-se os melhores especialistas. Segundo alguns, está com tuberculose, e para evitar o perigo de contagiar os confrades, convém isolá-lo o mais possível. Segundo outros, porém, está apenas com bronquite.
 Por via das dúvidas, tanto os médicos como os superiores concordam em mandá-lo à Pietrelcina onde, aos cuidados da família e respirando ares mais puros, puderá recuperar novamente a saúde necessarária para continuar os estudos. Diante deste arranjo, Pietrelcina devia acolher o filho, quando doente e dar-lhe nova vida e os superiores, reconduzi-lo ao convento, logo que melhorasse. 
 Este processo de vai-e-vem acabou durando  uns dez anos, pois de volta ao convento, as febres altíssimas, as dores por todo o corpo se repetiam!  Uma situação anômala e estranha exisgindo novas visitas aos médicos, e levando à mesma conclusão de antes: passar mais uma temporada em sua terra natal. Simplesmente não havia lógica. 
 Era um caso que não harmonizava com a Regra da Ordem e com o Código de Direito Canônico. Uma situação difícil de resolver mesmo havendo a melhor boa vontade de ambos os lados. 
 O escritor Renzo Allegri, num de seus livros, tontou uma explicação com estas palavras: “O Padre Pio era uma pessoa especial. Viera ao mundo para cumprir a missão mais alta e sublime que se possa imaginar: ser um ‘outro Cristo’, a fim de colaborar com Ele, através do mistério do sofrimento, na redenção do mundo. Devia ser um ‘co-redentor’, como realmente o foi. Para isto o próprio Deus quis encarregar-se de educá-lo e conduzi-lo. E quis fazê-lo [...] fora dos procedimentos de uma ascese normal.
“Após tê-lo chamado ao convento, a fim de iniciá-lo nos rudimentos da vida espiritual e ascética, encontrou um jeito de o empurrar para fora e encaminhá-lo por aquelas estradas intransitáveis que reserva a certas almas eleitas. Neste sentido, pilotou habilmente situações, recorreu a doenças misteriosas, criou condições de emergência, até conseguir o que queria....”.

Apesar das difíceis circunstancias, Frei Pio não descurava seus estudos e obrigações religiosas. Fez os votos perpétuos junto com os demais do grupo, no dia 27 de janeiro de 1907. 
 Em 18 de julho de 1909, em Morcone recebeu o diaconato. Um ano depois, indo com os colegas a Benevento, superou com facilidade os exames requeridos antes da ordenação sacerdotal. Por razões de saúde sua ordenação fora antecipada de seis meses, com o compromisso, porém, de continuar seus estudos. 
 Então, aos 23 anos de idade, em 10 de agosto de 1910, foi ordenado sacerdote, na catedral de Benevento. Na tarde do mesmo dia, viajou à Pietrelcina, onde quatro dias depois celebrou sua primeira Missa solene, na presença de confrades, da mãe e muitos familiares. O pai se encontrava trabalhando na América. 
 Durante os cinco anos que se seguiram, ajudava o pároco Pannullo no que estava a seu alcance: fazia batizados, dava bênçãos, orientação espiritual aos poucos que o procuravam. Mas não podia confessar por causa da doença e por não ter concluído o curso regular de Teologia Moral.
 Esta amizade fraterna com o pároco lhe abriu as portas para contar-lhe o que acontecera em Piana Romana, em 7 de setembro de 1910. No momento em que a mãe foi à cabaninha dele para comunicar-lhe que a janta estava pronta, viu-o sair agitando nervosamente as mãos, como se acabasse de se queimar.
 – Ué! – disse-lhe em tom de brincadeira – está aprendendo a tocar violão?
 – Nada de importante, mãe – respondeu. 
 Na realidade, um fato importantíssimo. O Padre Pio acabava de receber os estigmas de Jesus, como seu fundador São Francisco. Embora aceitasse ‘morrer de dor’ pediu e Deus  os mantive invisíveis.

Outra experiência que o marcou profundamente ao final deste período foi a convocação ao serviço militar. Estava-se em plena primeira guerra mundial (1914-1918). Em novembro 1915, ele se apresentou em Benevento; com o número 2094/25 ficou incorporado na 10ª Companhia Sanitária e foi enviado como enfermeiro à Nápoles. Alí, diante da sua fragilidade e do seu pouco entusiasmo pela vida militar, o designaram para tarefas mais humildes, como sentinela, carregador e varredor. Não raro, ao fazer a faxina dos sanitários, sentia que estava sendo alvo de graçolas. 
      Viveu e viu, assim, um pouco das circunstâncias ingratas da guerra, mas, o mais duro, porém, era o fato de não poder celebrar Missa, por falta de capela no quartel. Apesar do mundo novo em que vivia, as extranhas doenças anteriores persistiam. Por isto, depois de muitos exames e vários tratamentos, em 10 de dezembro de 1915, recebeu  dispensa por um ano. 

       Temporáriamente libre do serviço militar, retira-se a um convento em Foggia, a fim de continuar o tratamento de saúde. O lugar é baixo e de clima tórrido. Intolerável para alguém com tantos problemas pulmonares... ou bronquiais como ele.
        Afortunadamente, aparece ali um colega de San Giovanni Rotondo – o padre Paulino de Casacalenda – e o convida a passar algumas semanas com ele. Trata-se de ir à uma vilazinha insignificante, porém de clima saudável – 600 metros acima do nível do mar.Padre Pio aceita. 
        Chega a San Giovanni Rotondo em 28 de julho de 1916. Mas, ao invés de algumas semanas, acaba ficando por mais de 50 anos. Sua passagem por ali é tão marcante que, em poucos anos, a pequena vila, tão insignificante que nem constava nos mapas comuns da Itália, se tornará conhecida no mundo inteiro.

Foi ali que teve lugar o fato mais estrondoso da vida do Padre Pio. Na manhã de 20 de setembro de 1918, enquanto rezava diante de um crucifixo de madeira, no coro da igreja, viu explicitar-se o que lhe fora entremostrado oito anos antes, em Piana Romana, ao receber os estigmas invisíveis. O acontecido deixa-o em pânico. Um “misterioso personagem”, com uma lança na mão, se aproximou e o golpeou no peito, nas mãos e nos pés. Cinco chagas enormes, que haveriam de verter sangue ininterruptamente, por cinqüenta anos, indiferentes a todos os curativos, e sem nunca apresentar sinal de gangrena ou infecção.
 Trata-se de um fenômeno raro na vida dos santos, e que no caso do Padre Pio “haveria de assombrar médicos crentes e ateus, desconcertar a ciência e atrair multidões de todos os quadrantes do universo, desejosas de conhecer o ‘crucificado do Gargano’” – segundo um autor.
      Curiosamente, como tudo na vida do Padre Pio, essas feridas, durante seus últimos dias de vida, foram desaparecendo; ao celebrar sua última Missa já eram inperceptíveis. Mas a série de maravilhas não termina aqui: a pele das áreas antes tomadas pelas feridas, agora se apresentava “lisa como a de um recém-nascido”, conforme o testemunham algumas fotos batidas na ocasião.

     Em San Giovanni Rotondo, ao longo de seus cinqüenta anos de permanência ali, Padre Pio não fez outra coisa que confessar – uma atividade que se tornaria sua faceta mais característica. O “prisioneiro do confessionário” passava ali, diariamente, entre 10, 12 e até 14 horas, sempre com filas enormes pela frente que, ao invés de diminuir, só faziam aumentar.
      Com o correr dos anos, essa afluência atingiu níveis estratosféricos, obrigando a agendar as confissões com antecedência de alguns dias e até de muitos. Conforme o biógrafo Karl Wagner, que testemunhou os fatos in loco, o tempo de espera variava, segundo a estação do ano, de cinco, oito e até trinta e cinco dias.
      Em conseqüência, toda a área ao redor do convento e da igreja ficava, às vezes, coalhada de barracas, onde passavam as noites os que não conseguiam lugar nas pousadas ou não cabiam dentro de seus carros. Todos aguardando pacientemente a sua vez.

     Mas onde estaria o segredo de tamanho magnetismo sobre as multidões? Em primeiro lugar, na santidade que irradiava, na bondade com que acolhia e no seu fino tato em lidar com os mais delicados problemas. Mas estava igualmente nos extraordinários carismas com que Deus o prendara e que a Teologia Mística bem conhece. 
      Mencionamos quatro:
 – Introspecção, que é a capacidade de ler o interior das pessoas: seus pensamentos, seus temores, seus pecados, até mesmo os já esquecidos. Por isso, quantas vezes, no final da confissão, surpreendia os penitentes de memória curta ou que tentavam passar um pecado sem acusá-lo, lembrando-lhes com precisão o que tinham feito e em que circunstâncias.

– Clarividência, isto é, a capacidade de prever fatos futuros ou que estão acontecendo com pessoas distantes e desconhecidas. Como: 
o sexo de um bebê que a mãe ainda tem no ventre e que ela encarregou alguém de lhe pedir uma bênção, 
ou a situação de uma pessoa desconhecida e a centenas ou milhares de quilômetros de distância. 
Ou ainda: ... de sua casa, uma pessoa lhe fazia mentalmente um pedido. Dias depois, viajava para lá e, ao se confessar, se dava conta de que o Padre estava a par não só das graças pedidas mentalmente, senão também do número de vezes que fora invocado.

– Glossolalia – o dom de falar línguas desconhecidas, sem nunca as ter estudado, como os apóstolos em Pentecostes. Padre Pio conhecia apenas o italiano – ou, mais exatamente, o dialeto napolitano – e um pouco de latim. No entanto, conseguia atender penitentes de todas as raças e cores, cada um na sua própria língua: inglês, francês, alemão, árabe, eslovaco, entre outros, e até nos dialetos mais raros da América e do Japão.

– Bilocação. Consiste em estar ao mesmo tempo em dois lugares. Graças a esse dom, Padre Pio se transformava num “padre voador”. Sem se mexer do lugar, conseguia atender gente do mundo inteiro, que o invocasse mentalmente. Sua primeira “façanha” nesta área se deu quando ele era ainda seminarista em Santo Elias em Pianisi. Durante a noite de 18 de janeiro de 1905, encontrou-se de repente no quarto de um casal, em Údine (norte da Itália) no qual o marido (maçom) estava às portas da morte, e a esposa, prestes a dar à luz. Naquele momento ouviu Nossa Senhora lhe dizer: “Este homem se salvará... e a menina que vai nascer, quero que tome conta dela, para que venha a se tornar uma pérola na minha coroa”. O desfecho desta história você o encontra no livro Padre Pio, o Santo do Terceiro Milênio, de Olivo Cesca, pp. 177-179.
      Num tempo em que muitos católicos sofriam nas prisões de países comunistas, ele, de repente, aparecia para os confortar, como aconteceu, entre muitos outros, com os cardeais Mindzensty, da Hungria; Stepinac, da Iugoslávia, e Wyszynski, da Polônia. Ao primeiro levou um cálice, possibilitando-lhe assim celebrar Missa na prisão, acolitado pelo próprio Padre Pio. De testemunhas fidedignas sabe-se que esteve também na Sibéria, na Tchecoslováquia e outros países dominados pelo comunismo.
      Vários penitentes ou amigos tiveram ocasião de presenciar o momento em que estava em bilocação. Interrompia bruscamente a conversa ou a confissão e ficava por algum tempo imóvel, como que ausente. Notavam que estava à escuta, murmurava alguma coisa, gesticulava e voltava a ficar imóvel. Por fim dava um profundo suspiro e continuava atendendo à pessoa ou às pessoas que estavam ao seu lado.

     Concomitantemente com estes favores celestes, Deus permitia que fosse molestado e até agredido com violência pelo Maligno. Suas agressões, por vezes, eram tão ferozes que o deixavam cheio de hematomas em todo o corpo e até sangrando, como se vê em dezenas de casos em suas biografias.

     Outro particular que chama atenção na vida do Padre Pio é sua atividade exterior, que sabia exercer sem sacrificar a interior. Nele, oração e trabalho se casavam sem problemas. Não obstante passar seus dias no confessionário, como vimos, conseguiu levar avante a construção de um gigantesco hospital – a famosa Casa Sollievo della Sofferenza. Com sua capacidade atual para quase dois mil leitos e equipamentos dos mais sofisticados que se conhecem, ele figura hoje entre os mais categorizados, não apenas na Europa senão também no mundo. Um verdadeiro “oásis de modernidade”.

     O hospital fora-lhe pedido por Jesus. Inicialmente devia atender às populações pobres das montanhas, que não tinham a quem recorrer em casos de doenças. Com a certeza de que Deus proveria os recursos, lançou-se à obra sem um projeto bem definido, sem um engenheiro supervisor, sem dinheiro em caixa e sem um plano de arrecadação. Apenas com algumas contribuições vindas de seus amigos.
 O ceticismo encontrado – nem podia ser de outra maneira – foi enorme. De que forma – todos se perguntavam – pretendia ele construir uma obra daquela envergadura, sem meios, numa encosta rochosa que dava medo só de olhar, a quarenta quilômetros do centro urbano mais próximo (Foggia), tendo como única via de acesso uma estradinha estrangulada entre rochas? E a água? San Giovanni Rotondo não tinha água encanada... De onde bombeá-la até aquela altura de 600 metros, para as obras da construção e, mais tarde, para o consumo diário do hospital?
 E havia mais: a quem podia interessar um hospital assim tão fora de alcance? E quantos médicos teriam coragem de deixar os confortos de suas cidades para trabalhar naquele fim de mundo?

À revelia deste ceticismo geral, o Padre Pio foi tocando adiante sua obra. E as contribuições, chegando espontaneamente do mundo inteiro, graças aos romeiros que apareciam em número cada vez maior. E graças principalmente a algumas contribuições muito vultosas.
 Iniciado em 1946, seria inaugurado dez anos depois, com a presença de centenas de bispos, do presidente do senado italiano, de numerosas personalidades do mundo da medicina, de uns trezentos jornalistas internacionais e de uns 15.000 fiéis.
 De todas as benemerências desta verdadeira “cidade hospitalar”, a maior é o seu atendimento – mais de 80.000 internações por ano – inteiramente gratuito. Inclusive o transporte dos doentes impossibilitados de se deslocar até lá. Um completo serviço de ambulâncias os busca em suas casas e os reconduz de volta depois de tratados. Em situações de mais difícil acesso, um helicóptero se encarrega de apanhá-los onde se encontram e os desembarca no heliporto construído sobre o hospital.

     O idealismo do Padre Pio não parou aqui. Desde o início deu-se conta de que esta gigantesca obra arquitetônica, esta montanha de concreto frio, precisava de uma alma que lhe transmitisse vida, calor. Uma alma que fizesse todos os sofredores – não só os do seu hospital, mas do mundo inteiro – sentirem-se irmãos, ao saberem-se amparados pelas orações de milhares de outros.

E foi por esta razão que nasceram os “Grupos de Oração”. Colocar a oração no centro de tudo sempre fora sua preocupação, que se reacendeu quando tomou conhecimento dos apelos do recém-eleito papa Pio XII. Frente ao surto de irreligião e paganismo que invadia o mundo, com o fim da segunda guerra mundial, o Papa não encontrava remédio mais eficaz que a oração. “Rezem – pedia encarecidamente –, rezem sempre mais e com maior fervor... elevem as mãos e o coração a Deus... sem oração ninguém consegue observar por muito tempo os Mandamentos e evitar o pecado grave... a oração é a chave dos tesouros de Deus, a arma de combate e de vitória em qualquer luta pelo bem e contra o mal... deve tornar-se o alimento cotidiano da alma”.
      
      Foi dentro do espírito desses apelos do Papa que nasceram os “Grupos de Oração” do Padre Pio. Em pouco tempo eles se multiplicaram na Itália, na Europa e no mundo. Basta dizer que em 1991 já eram mais de 5.000, espalhados por 40 nações, com mais de 300.000 participantes.

O Padre Pio morreu na madrugada de 23 de setembro de 1968, quando milhares de seus filhos espirituais se encontravam em San Giovanni Rotondo para celebrar o IV Congresso Internacional dos Grupos de Oração. Pouco antes de partir, tinha perguntado inocentemente ao superior da casa se o “autorizava a morrer”. E justificava o pedido, dizendo que “do céu podia fazer ainda mais”. “Ao chegar lá, – garantia –, prometo ficar parado na porta, e só entrar depois que, todos os filhos aos quais prestei assistência na terra, estiverem dentro”.

     Seu funeral, ocorrido quatro dias depois, contou com a presença de mais de 100.000 pessoas, dentre as quais, uns 3.000 eram Padres. O cortejo transportando seu corpo percorreu as principais ruas da cidade, durante quase quatro horas. Depois da Missa fúnebre o corpo do Padre Pio foi transferido à cripta da nova igreja de Santa Maria das Graças. Desde aí, ele continua seu papel de intercessor diante de Deus, alcançando muitas graças e curas milagrosas para os peregrinos de todo mundo e de todas as classes sociais.

     Os processos de beatificação e canonização foram “desencalhados” pelo papa João Paulo II que, como jovem sacerdote, tivera a graça de confessar-se com ele. 

     O Padre Pio foi proclamado Beato em 2 de maio de 1999, e Santo, em 16 de junho de 2002. As cerimônias da canonização reuniram mais de trezentos mil devotos só em Roma. Um caso único na história da Igreja!

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"TÓPICOS DA VIDA DE Pe. PIO"




 Ele recebeu de Deus uma grandíssima missão. 

 Confesso que me surpreende o fato de encontrar, cada vez mais, pessoas que se dizem devotas de São Pio de Pietrelcina. Pessoas que pela primeira vez vêm a conhecê-lo sentem-se cativadas, simpatizam e já se tornam devotas, antes ainda dum conhecimento mais profundo da vida dele e dos muitos carismas com que fora agraciado por Deus; algumas até confirmam terem sido agraciadas de forma extraordinária. Isso vou constatando aos poucos desde que passei a prestar assistência religiosa na Ermida de São Pio no Cerro Comprido, Faxinal do Soturno/RS. Trata-se de pessoas simples, sensatas, e que demonstram devoção autêntica e não produzida por força de marketing, de propaganda exagerada, como às vezes pode acontecer. Qual é mesmo o segredo disso? 
 São Paulo Apóstolo afirma: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo... Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito a todos. A um o Espírito dá a mensagem da sabedoria, a outros a palavra da ciência...; a outro o Espírito dá a fé; a outro ainda o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro ainda, o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo Espírito que isso tudo realiza, distribuindo a cada um seus dons, conforme lhe apraz” (1 Cor 12,4-11).

 Cada pessoa é obra única de Deus, sem igual. Podemos ser parecidos uns com os outros, mas jamais perfeitamente iguais, porque Deus não se repete. Por certo, há bilhões e bilhões de santos no céu e cada qual exemplar único. 
 Deus distribui os seus dons conforme lhe apraz, livremente. E nós constatamos que a uns Deus constitui instrumentos especiais para atrair e arrastar multidões. Todos podemos constatar que existem santos que atraem as massas, que têm milhões de devotos, como um São Francisco, um Santo Antônio, uma Santa Teresinha do Menino Jesus, etc... Serão os de maior glória no céu? Não sabemos. Deus é quem livremente distribui seus dons de acordo com seus planos sapientíssimos.

 São Pio de Pietrelcina (1887-1968) foi suscitado por Deus para ser um santo extraordinário para a nossa época, um santo que cativa à primeira vista e que leva à conversão multidões (já em sua vida mortal ele atraíra multidões e fora instrumento de conversão, especialmente pelo sacramento da reconciliação, pelo seu modo de celebrar a santa Missa, por sua vida de oração, pelo seu sofrimento). Desde sua infância, ele foi super-agraciado por Deus. Talvez seja difícil encontrar outro santo que, desde os primeiros anos de vida, apareça tão cumulado de dons por Deus.
 É filho de Grazio Maria e de Maria Giuseppa di Nunzio Forgione, nascido em Pietrelcina (Benevento), no dia 25 de maio de 1887. Foi batizado no dia seguinte com o nome de Francisco. A sua infância, transcorrida serenamente num ambiente familiar cristão, não apresentava fatos notáveis (espalhafatosos), e ele era avesso a manifestar os dons que Deus lhe conferia. Contudo existiram alguns sinais indicativos de que Pietrelcina num primeiro momento e, mais tarde, San Giovanni Rotondo se tornariam famosas em razão da presença e do apostolado dele. Francisco tinha apenas cinco anos de idade quando, num impulso incomum para a sua idade, começou a acariciar a idéia de consagrar-se para sempre a Deus. Nessa mesma idade apareceram os primeiros dons carismáticos e os primeiros assaltos violentos de satanás: “Os êxtases e as aparições, afirma seu Diretor Espiritual Pe. Agostinho de San Marco in Lamis, começaram no quinto ano de idade, quando teve a idéia e o sentimento de consagrar-se para sempre ao Senhor, e foram contínuos. Interrogado porque os tivesse ocultado por tanto tempo (até 1915, quando já estava com 28 anos de idade), respondeu candidamente que não os havia manifestado, porque os acreditava coisas ordinárias que aconteceriam a todas as almas; na verdade, um dia ele disse ingenuamente: ‘E o Senhor não vê Nossa Senhora?’. A uma minha resposta negativa, acrescentou: ‘Isso o Senhor diz, por santa humildade!’. Aos cinco anos de idade começaram também as aparições diabólicas”.

 Coroinha assíduo, Francisco “rezava sempre de joelhos e bem comportado”, e também a portas fechadas, de acordo com o sacristão (a quem pedia que o deixasse trancado na igreja, indicando-lhe a hora para abrir-lhe a porta). Dormia freqüentemente no chão, tendo por travesseiro uma pedra, e mortificava-se impondo-se penitências, inclusive flagelando-se com uma corrente (“pois Cristo fora flagelado”, desculpava-se com a mãe, que se angustiava por tais atitudes do filho).
 Ele ingressou no convento capuchinho de Morcone no dia 06 de janeiro de 1903 (faltavam-lhe uns 3 meses para completar 16 anos).
 Mas antes disso ele já tivera três importantes visões, que mais tarde, por ordem de seus Diretores espirituais, relatou por escrito, embora muito a contragosto (felizmente para nós, os Diretores espirituais às vezes forçavam-no a revelar os dons especiais que recebia de Deus).
 Ele não indica a data da primeira visão, mas deve ter acontecido pouco antes das outras duas. A segunda aconteceu no dia 01/01/1903 e a terceira na noite do dia 05 de janeiro de 1903, véspera de sua entrada no convento.
 Eis como ele próprio, com seu jeito, conta os fatos(realces meus):

 “In nomine Jesu. Amen. (Em nome de Jesus. Amém)

 Tudo o que narrarei neste meu pobre escrito, faço-o por imposição, em virtude da santa obediência. Com quanta repugnância eu o faça, somente Deus pode compreendê-lo perfeitamente. Somente Ele me é testemunha. E se Ele não tivesse fortalecido muito bem meu espírito sobre o respeito que se deve à autoridade, com certeza recusar-me-ia até à revolta; de forma alguma, induzir-me-iam a registrar por escrito o que estou por escrever, bem sabedor que sou da malícia desta alma favorecida por tão distintos favores do céu. Queira Deus assistir-me e fortificar o meu espírito para que possa sentir-me seguro, apesar da confusão em que me encontro, ao manifestar o que estarei narrando.
 Primeiro chamado extraordinário feito a esta alma a fim de que abandonasse o mundo e o caminho da própria perdição para dedicar-se inteiramente ao serviço de Deus.
 Desde os mais tenros anos, esta alma sentira fortemente a vocação para o estado religioso; mas com o correr dos anos, ai de mim, esta alma andava bebendo a largos tragos a vaidade deste mundo. A vocação que se fazia sentir forte nesta alma, por um lado, e, por outro lado, o doce e falso gosto deste mundo começam a lutar poderosamente entre si no coração desta pobrezinha, e - talvez e sem talvez - os sentidos, com o andar do tempo, teriam triunfado sobre o espírito e sufocado a boa semente do divino chamado. Mas o Senhor, que queria esta alma para si, dignou-se favorecê-la com esta visão.
 Certo dia, enquanto estava meditando sobre a sua vocação e como decidir-se para dar um adeus ao mundo e dedicar-se inteiramente a Deus num sagrado recinto, foi repentinamente raptada nos sentidos e levada a fitar com o olho da inteligência objetos diferentes daqueles que se vêem com os olhos do corpo.
 Deparou ao seu flanco um homem majestoso de rara beleza, brilhante como o sol. Este tomou-a pela mão e (a pobrezinha) ouviu dele: “Vem comigo, porque te convém combater qual valente guerreiro”. Conduziu-a a uma vastíssima esplanada. Aí havia uma grande multidão de homens divididos em dois grupos. Dum lado, homens de vulto belíssimo com vestes brancas, cândidas como a neve; - doutro lado, o segundo grupo, vultos de aspecto horrível, em vestes pretas como sombras escuras. 

 Entre estes dois grandes grupos de personagens havia um grande espaço e aí foi colocada esta alma pelo seu guia. Esta alma estava toda ocupada em admirar estes dois grupos de homens e eis que, de repente, avançou por aquele espaço, que dividia os dois grupos, um homem de enorme estatura, de tal forma a tocar com a fronte as nuvens. O vulto dele parecia o de um etíope, tão horrendo era.
 À tal visão a pobre alma sentiu-se totalmente desconcertada, sentiu que a vida lhe era sustada. Aquele estranho personagem avançava sempre para mais perto de si; o seu guia ao flanco disse-lhe que com aquele indivíduo devia bater-se. A tais palavras a pobrezinha empalideceu, tremeu toda e estava a ponto de cair semimorta por terra, tão grande era o terror que havia experimentado.

 O guia sustentou-a por um braço. Quando a pobrezinha se havia refeito um pouco do pavor, volta-se para o guia suplicando-lhe a não a expor à fúria daquele tão estranho personagem, porque, dizia-lhe, ser tão forte que não bastariam para vencê-lo sequer as forças de todos os homens juntos.
 “Vã é toda a tua resistência; com este te convém engalfinhar-te. Toma coragem: entra confiante na luta, avança corajosamente que eu permanecerei ao teu lado; eu te ajudarei e não permitirei que ele te abata. Como prêmio da vitória que alcançarás, doar-te-ei uma esplêndida coroa, que te ornará a fronte.”
 A pobrezinha toma ânimo; entra em combate com aquele formidável e misterioso personagem. O choque foi formidável, mas com a ajuda que lhe era oferecida pelo guia, que jamais se apartou dela, finalmente supera-o, abate-o, vence-o e obriga-o à fuga.

 O guia, então, fiel à promessa, tira de debaixo de suas vestes uma coroa de raríssima beleza que seria inútil tentar descrevê-la e lha coloca na cabeça, mas imediatamente retira-a dizendo: “Uma outra mais linda tenho reservada para ti se souberes lutar bem contra aquele personagem com o qual combateste agora. Ele retornará sempre ao assalto para vingar a honra perdida; combate como valoroso e não duvides do meu auxílio. Mantém bem abertos os olhos, porque aquele personagem misterioso esforçar-se-á por agir contra ti de surpresa. Não te assuste a moléstia dele, não te amedronte a sua formidável presença, lembra-te do quanto te prometi: eu estarei sempre ao teu lado; ajudar-te-ei continuamente, a fim de sempre que possas prostrá-lo”.
 Derrotado aquele misterioso homem, toda a grande multidão de homens de horrível aspecto se pôs em fuga entre urros, imprecações e gritos ensurdecedores; - enquanto dos peitos da outra multidão de homens de belíssimo aspecto brotavam vozes de aplausos e de louvores em direção àquele homem esplêndido e reluzente mais que o sol, que havia assistido tão esplendidamente a pobre alma naquela tão áspera batalha.
 Assim acabou a visão.
 A pobre alma, mediante esta visão, ficou tão repleta de coragem que lhe pareciam mil anos o tempo para romper definitivamente com o mundo e dedicar-se inteiramente ao serviço divino nalgum instituto religioso.

 O significado da supracitada visão foi compreendido por esta alma, mas não claramente. O Senhor, porém, quis manifestar-lhe o significado desta simbólica visão com uma outra visão (a segunda), poucos dias antes dela entrar na vida religiosa. Digo poucos dias antes, porque ela já havia feito o pedido ao Superior Provincial do qual havia recebido a resposta de aceitação, quando o Senhor se dignou dar-lhe esta outra visão, a qual foi puramente intelectual.
 Era o dia da Circuncisão de Nosso Senhor (01/01/1903), cinco dias antes da partida dela da casa paterna. Havia comungado e enquanto se entretinha com o seu Senhor foi instantaneamente investida de luz sobrenatural interior. Por meio desta luz puríssima, repentinamente, compreendeu que a sua entrada na vida religiosa para dedicar-se ao serviço do celeste Monarca outra coisa não era do que expor-se à luta com aquele misterioso homem do inferno com o qual havia mantido a batalha na visão precedente.
 Compreendeu ademais, e isto valeu para confortá-la, que, embora os demônios se fizessem presentes aos combates dela para zombarem nas derrotas, por outro lado nada havia a temer porque aos combates dela assistiriam os anjos seus para aplaudir frente às derrotas de satanás.
 E uns e outros estavam simbolizados nos dois grupos de homens que tinha visto na outra visão. Compreendeu, ademais, que o inimigo, com o qual devia lutar, embora fosse terrível, não devia temê-lo, porque ele mesmo, Jesus Cristo, representado por aquele homem luminoso que lhe servira de guia, a assistiria e sempre lhe estaria próximo para ajudá-la e premiá-la no céu pelas vitórias que alcançasse, contanto que, confiada somente nele, tivesse combatido com generosidade.
 Esta visão tornou generosamente forte esta alma para dar o seu último adeus ao mundo. Mas não se deve crer que ela nada tivesse que sofrer na parte inferior, pelo abandono a dar aos seus, com os quais se sentia fortemente ligada. Sentia até serem-lhe moídos os ossos neste abandono a ser feito e esta dor sentia-a sim ao vivo, a tal ponto que estava por desmaiar.

 Conforme se aproximava o dia da sua partida, esta angústia ia crescendo sempre mais. Na noite, a última que passava junto aos seus, o Senhor veio confortá-la com outra visão (a terceira). Viu Jesus e sua Mãe que com toda a majestade puseram-se a encorajá-la e a confirmar-lhe a predileção deles. Jesus, enfim, pôs-lhe uma mão sobre a cabeça, e isto foi o suficiente para torná-la forte na parte superior da alma, de tal modo a não fazer-lhe verter sequer uma lágrima na dolorosa separação, apesar do pungente martírio que a angustiava na alma e no corpo”. (Epistolario I, pp. 1280-1284).
 Mais tarde, em novembro de 1922 (com 35 anos de idade, 12 de sacerdócio e quase 20 daquelas 3 visões), ele toca de novo no assunto ao escrever a uma dirigida espiritual, Nina Campanille, pedindo-lhe orações. Eis alguns tópicos:
 “Jesus esteja sempre convosco! (saudação à Nina).
 Estou no terceiro dia do santo retiro espiritual e, através da fulgurante graça de Deus, vou conhecendo sempre mais a mim mesmo, por um lado e a bondade de Jesus para comigo e para com todos vós, por outro lado.
 Reza por mim a este Amante divino, a este querido Esposo das nossas almas, para que complete a obra da graça que iniciou comigo pobrezinho. Em mim pobre e vil criatura sua, que desde o nascimento me demostrou sinais de especialíssima predileção: demostrou-me que ele não somente seria o meu salvador, o meu sumo bem-feitor, mas o amigo devoto, sincero e fiel, o amigo do coração, o eterno e infinito amor, a consolação, a alegria, o conforto, todo o meu tesouro”.
 (E passa a descrever a sua infidelidade aos dons de Deus...)
 Depois continua:
 “Mas tu, Senhor, que fizeste experimentar todos os efeitos de um verdadeiro abandono a este teu filho, surgiste no fim, estendeste-me a tua mão poderosa e me conduziste lá onde antes me havias chamado. Sejam-te dados infinitos louvores e ações de graças, ó meu Deus!
 Mas tu me escondeste aqui, aos olhos de todos, mas havias confiado desde então uma grandíssima missão ao teu filho: missão que a ti e a mim somente é conhecida. Meu Deus! Pai meu! como correspondi a tal missão?
 Não o sei. Sei somente que talvez devia fazer mais, e (este) é o motivo da presente inquietação do meu coração.

 Inquietação que sinto agigantar-se sempre mais dentro de mim nestes dias de retiro espiritual. Levanta-te portanto mais uma vez, ó Senhor, e liberta-me sobretudo de mim mesmo e não permitas que se perca aquele, que com tanta solicitude chamaste e roubaste do mundo que não é teu. Surge portanto mais uma vez, ó Senhor, e confirma na tua graça aqueles que me confiaste e não permitas que alguém venha a se perder desertando do ovil.
 Ó Deus! ó Deus!... não permitas que se perca a tua herança. Ó Deus! faz-te sentir ao meu pobre coração e completa em mim a obra já iniciada.
 Sinto internamente uma voz que freqüentemente me diz: Santifica-te e santifica. Pois bem, minha caríssima (Nina), eu o quero, mas não sei por onde começar.
 Ajuda-me também tu; sei que Jesus te quer tanto bem e o mereces. Portanto, fala-lhe por mim, que me conceda a graça de ser um filho menos indigno de São Francisco, que possa servir de exemplo aos meus confrades de modo que o fervor continue sempre e aumente cada vez mais em mim de tal forma a fazer de mim um perfeito capuchinho.
 Deixo-te no Coração sacratíssimo de Jesus e abençôo-te com duplicado afeto. P. Pio” . ( Epistolario III, pp. 1005-1010).

 Quem se inteira da autêntica vida do Padre Pio, dá-se conta de que toda ela se transformou, por assim dizer, na batalha prevista na primeira visão. E que ele foi fiel no combate até o fim. Com toda a certeza recebeu a maravilhosa coroa que o Guia lhe prometera na ocasião. As lutas com o demônio (os demônios), também fisicamente, foram mais vezes comprovadas até por autoridades eclesiásticas. Lutas com os demônios muito mais graves no âmbito moral, pelas tentações, especialmente contra a fé. Luta sofrida também da parte dos homens, inclusive autoridades eclesiásticas, com mil e umas contradições, desconfianças, e até calúnias e punições. Mais os sofrimentos físicos por doenças corporais (inexplicáveis) que o acompanharam durante quase toda a vida. Em sentindo místico, a noite escura, os estigmas e demais dons místicos também configuram o homem da dor, do sofrimento, da verdadeira vítima. 

 Pe. Bento de São Marcos in Lamis, seu diretor espiritual (na época era também seu Reitor Provincial), frente às angústias do Padre Pio por ocasião da transverberação (que a considerava como condenação, vingança de Deus) respondia-lhe: “Piuccio caríssimo, nada de abandono, nada de justiça vingativa, nada de indignidade de vossa parte merecedora de rejeição e de condenação. Tudo o que acontece em vós é efeito de amor, é prova, é vocação a co-redimir, e, portanto, é fonte de glória... Eis tudo, eis a verdade e somente a verdade. A vossa não é sequer uma purificação, mas uma união dolorosa. O fato da ferida (transverberação) realiza a vossa paixão tal como a realizou o Amado na cruz”... (Epistolário I, p 1068 s). 
 Vocação a co-redimir: Padre Pio muitas vezes oferecia-se como vítima pelos pecadores e pelas almas do purgatório. No dia 29 de novembro de 1910 (ordenado padre há pouco mais de 3 meses) pedia ao diretor espiritual, Pe. Bento: “Há muito tempo que sinto em mim uma necessidade, isto é, de oferecer-me ao Senhor como vítima pelos pobres pecadores e pelas almas do purgatório. Este desejo foi crescendo sempre mais no meu coração, tanto assim que agora se tornou, por assim dizer, uma forte paixão. Na verdade, fiz mais vezes esta oferta ao Senhor, esconjurando-O a verter sobre mim os castigos preparados para os pecadores e para as almas do purgatório, até centuplicando-os sobre mim, contanto que converta e salve os pecadores e admita logo no paraíso as almas do purgatório; mas agora quisera fazer ao Senhor esta oferta com a vossa obediência” (Epistolário I, p. 206). 
 Podemos dizer que Deus aceitou tal oferta. E também os estigmas que recebeu como dom e que o acompanharam por mais de 50 anos, vertendo sangue a cada dia, são um sinal da sua identificação com o Cristo Crucificado. Os estigmas não eram meros enfeites, para suscitar a curiosidade do povo, mas uma perfeita participação nos sofrimentos de Cristo. Padre Pio podia repetir com muita propriedade para os seus dirigidos o que São Paulo dizia de si mesmo: “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo pelo seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).
 Apraz-me transcrever o que Frei Francisco Colacelli, no Editorial de “Voce di Padre Pio”, anno XXXVII, n. 9, settembre 2006, p. 3, apresenta: 
 “Nós aqui em San Giovanni Rotondo “usamos” (sic) o nosso Santo. Continuamos a propor, como bandeira, um homem chamado por Deus para tornar novamente visível ao mundo o Evangelho de Cristo crucificado. A missão do Padre Pio, portanto, de forma alguma acabou. E não é só a de converter. Não se esgota sequer considerando a oferta dos seus sofrimentos, numa humilde disponibilidade para a corredenção, para completar na sua “carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, em favor do seu corpo, a Igreja”. Ele foi e continua a ser, na época do triunfo dos sentidos, o sinal do sacrifício divino que se tenta obscurecer. O sinal duma morte na cruz que grita “amor” a toda a criatura”.

 Por isso é que São Pio de Pietrelcina atrai hoje tantas pessoas e a tantos também agracia. É um extraordinário homem de Deus, um santo para os nossos tempos.
 Ele próprio, apesar da sua profunda humildade, reconheceu que “desde o nascimento Deus lhe demonstrara sinais de especialíssima predileção..., que lhe confiara uma grandísima missão conhecida somente por ele e por Deus”... Uma grandíssima missão que não se reduziria ao tempo de sua vida mortal, mas que se prolongaria nos tempos futuros e que está deveras se prolongando nos nossos dias. 


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Fonte: Introdução e tradução de Pe. Bernardino Trevisan