quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"VIVO SEM VIVER EM MIM"



VIVO SEM EM MIM VIVER
Vivo sem em mim viver
e tão alta vida espero
que morro por não morrer.
Vivo já fora de mim
depois que morro de amor,
porque vivo no Senhor,
que me quis só para Si:
dei meu coração a Ti
e pus nele o dizer
que morro por não morrer.
Esta divina prisão
do amor em que sempre vivo
fez de Deus o meu cativo
e livre meu coração.
Causa em mim tanta paixão
Deus meu prisioneiro ser,
que morro por não morrer.
Ai! Que longa é esta vida!
Quão duros estes desterros!
Este cárcere, estes ferros
em que a alma esta metida!
Só de esperar a saída
me causa tal padecer
que morro por não morrer.
Ai! Como a vida é amarga
sem o gozo do Senhor!
Do Pai tão doce é o amor,
e a esperada hora tão longa!
Tire-me Deus esta carga,
Este aço não vou poder,
que morro por não morrer.
Vivo com uma confiança:
qualquer hora hei de morrer,
pois morrendo hei de viver 
me sustenta esta esperança.
Morte que o viver alcança,
não tardes em me querer,
que morro por não morrer.
Mira como o amor é forte!
Vida, não sejas molesta:
veja que somente resta
eu perder-te, e achar o norte;
venha já, ò doce morte,
me matar sem se deter,
que morro por não morrer.
Lá no Alto segura eu viva
a vida que é verdadeira;
Nesta vida, tão ligeira,
não há gozo que me sirva.
Morte, não sejas esquiva,
vai matando o meu viver,
que morro por não morrer.
Ó vida, que posso eu dar
a meu Deus, que vive em mim,
a não ser perder-te a ti
e a Ele melhor gozar?
Morrendo o quero alcançar,
só Ele me basta ter,
que morro por não morrer.



GLOSA

Já toda me dei a Ti,
E de tal sorte hei mudado,
que o Amado é para mim
e eu sou para o meu Amado.
Quando o doce Caçador
me atirou e fui rendida,
e nos braços do amor
minh’alma estacou, caída,
recobrando nova vida
de tal modo hei mudado
que o Amado é para mim
e eu sou para o meu Amado.
Atirou-me com uma seta,
enarvorada de amor,
e minha alma quedou feita
una com seu Criador;
já não quero outro amor,
a meu Deus já me hei dado,
que o Amado é para mim
e eu sou para o meu Amado.

Santa Teresa D’Ávila
ou Santa Teresa de Jesús
(Espanha,1515-1582) representa um dos pontos altos da mística cristã. Seus momentos poéticos mais altos constituem, como nos poemas acima, uma celebração mística do amor divino. Sua influência, como mística e como poeta, atravessou séculos e deixou marcas, entre outros, no seu contemporâneo Juan de la Cruz (no Brasil, São João da Cruz), em Leibniz e em Bataille. Segundo Carpeaux, "Santa Teresa criou toda a terminologia psicológica empregada pelo sentimentalismo do século XVIII e em seguida pelo romantismo".
José
Wanderson Lima Torres é poeta e ensaísta, e costuma escrever sobre cinema e literatura. Doutorando em Literatura Comparada pela UFRN. Autor, entre outros, de "Reencantamento do mundo: notas sobre cinema" (Amálgama, 2008), em co-autoria com Alfredo Werney. E-mail: wandersontorres@hotmail.com

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Jejum, penitência e oração


Jejum, penitência, oração
Por: Padre Wagner Augusto Portugal

Em nossos relacionamentos com as pessoas, existe um ritual que nós realizamos naturalmente, sem perceber. Por exemplo, quando queremos agradar uma pessoa a quem amamos, fazemos-lhe carinho, dizemos-lhe palavras boas, damos a ela alguma coisa, um objeto, um presente, que é nosso, de que nós gostamos, mas que queremos dar a ela como gesto de amizade.

De outras vezes, quando magoamos alguém, queremos fazer de tudo para apagar aquele gesto impensado: pedimos desculpas, lastimamos o nosso procedimento, até que sentimos que aquilo ficou esquecido. Nós nos penitenciamos diante das pessoas que amamos. Penitência é um ato de amor.

No nosso relacionamento com Deus, a penitência torna-se premente para nós. Temos necessidade de mostrar a Ele nosso amor porque tudo o que temos vem d’Ele e é d’Ele. Devemos mostrar-nos humildes diante d’Ele porque, sem a sua providência, nada somos. A recepção das cinzas na fronte, durante a missa da quarta-feira de cinzas, se feita com convicção, é um gesto de humildade muito agradável a Deus. Precisamos também nos penitenciar ainda mais porque erramos muito, pecamos e não correspondemos à magnitude do amor divino.

Mas Ele é misericordioso e basta um pequeno gesto nosso em sua direção que Ele se consome de piedade por nós.

A penitência implica em arrependimento, dor por causa de nossas falhas e propósito de evitá-las e confiança na ajuda de Deus. Nutre-se da esperança na sua misericórdia. Ela se exprime de formas muito variadas, em particular, com o jejum, a oração e a esmola. Essas e muitas outras formas de penitência podem ser praticadas na vida cotidiana do cristão, em particular no tempo da quaresma e no dia penitencial da sexta-feira.A penitência interior é o dinamismo do “coração contrito”, movido pela graça divina a responder ao amor misericordioso de Deus.

A prática do jejum é uma forma de penitência. A Igreja nos pede o jejum durante a quaresma, mas podemos praticá-lo em várias situações. A propósito diz a legislação complementar do Código de Direito Canônico que: “Quanto aos cânn. 1251: 1. Toda sexta-feira do ano é dia de penitência, a não ser que coincida com solenidade do calendário litúrgico. Os fiéis nesse dia se abstenham de carne ou outro alimento, ou pratiquem alguma forma de penitência, principalmente obra de caridade ou exercício de piedade.” Conhecemos pessoas que se privam de guloseimas agradáveis ao paladar, colocando esse sacrifício como uma alavanca por intenção de um ente querido.

Há também o jejum da palavra ferina. Muitas vezes temos ímpetos de dar uma resposta ofensiva a alguém. Mas, se nos abstemos disto, estamos praticando jejum. Somos convidados, por fim, a jejuar de todos os sentidos como maus pensamentos, maus olhares, maus desejos, más palavras, uso indevido de nossas mãos e de nossos pés na busca desenfreada das paixões desordenadas.

O repartir os nossos bens com outras pessoas é também uma maneira de jejuar. Neste mundo consumista, queremos sempre ter e nos esquecemos de dar. É um jejum admirável quando a pessoa se desprende do que gosta em detrimento do outro que necessita daquilo.

Enfim, uma penitência maravilhosa, prodigiosa é a oração. Assim como, no nosso dia-a-dia é necessário conviver com as pessoas, falar-lhes e escutá-las, mais ainda é preciso praticar a oração com Deus, falar com Ele e escutar o que Ele nos diz. Não podemos limitar nossas orações a pedidos. Só queremos falar com Deus pedindo, pedindo, pedindo...

Primeiro, nós O louvamos pela sua grandeza e majestade infinita. Em seguida, nós devemos agradecer a Ele tudo o que temos e somos. Depois disto, então, pedimos uma graça, uma bênção, uma providência, um socorro. Alguém já disse que "a oração é à força do homem e a fraqueza de Deus", porque Ele é que nos amou primeiro e quer que sejamos felizes. Importante, muito mais importante ainda, é que nós saibamos escutar o que Deus tem a nos dizer. Nós, na maioria das vezes, queremos só falar, mas, como num diálogo, precisamos aprender a escutar a Palavra de Deus.
E Deus, na sua insondável misericórdia, nos fala de várias maneiras: através da Bíblia, através dos acontecimentos, através da palavra de um amigo e até de um estranho. A nossa vida é uma constante palavra de Deus. A nossa própria consciência é a presença de Deus nos alertando sobre alguma coisa, tanto quando praticamos um gesto nobre como quando erramos.

Até em pensamentos podemos conversar com Deus. Ele nos deu vários caminhos para chegar a Ele, que está de mãos estendidas para nós. Só falta abrirmos o coração.

"SOBRE SÃO PAULO MIKI"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"DISTINÇÃO DE CANTOS NA LITURGIA"



Visto que os cantos, na liturgia, não são genéricos, mas funcionais, costuma-se

fazer uma distinção entre eles, de acordo com a sua ministerialidade. Assim, podem

ser classificados:


 I - Cantos processionais -

São aqueles que acompanham as procissões litúrgicas.

 Temos então, com relação à missa: o canto de entrada, o de aclamação ao Evangelho

(quando se faz a procissão deste), o da procissão das oferendas, o da comunhão e o

canto final (quando este acompanha a saída do povo).


 II - Cantos interlecionais -

São os que ficam entre as leituras bíblicas (O salmo

 responsorial e a aclamação ao Evangelho).


 III - Cantos fixos ou ordinários -

Os que não variam com o tempo litúrgico ou a festa

(O Glória, o Santo, o Kirye e o Cordeiro de Deus).


 IV - Cantos próprios -

Os que variam de acordo com o tempo litúrgico, festa ou solenidade.


 V - Cantos litânicos -

Os que têm a forma de ladainha (Ato penitencial e Cordeiro de Deus).


 VI - Cantos antifonais ou alternados -

Os que se cantam alternando-se: coro e povo, homens e mulheres (O canto alternado ou antifonal embeleza muito a celebração, mas quase não se pratica. A criatividade pastoral deveria usar mais este recurso).


 VII- Cantos responsoriais -

No canto responsorial, as estrofes são cantadas pelo coral ou por um solista, aqui chamado então salmista. O povo só participa com o refrão.

Exemplo de canto responsorial é o salmo depois da primeira leitura.


 

PARÓQUIA NOSSA SENHORA APARECIDA e SÃO LOURENÇO
“Em obediência à vossa palavra, lançarei as redes” (Lc 5,5b)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PARA TODOS A ENTRADA NA VIDA É A MESMA E A PARTIDA SEMELHANTE


Também eu sou um mortal, igual a todos, do gênero daquele ser terreno que por primeiro foi feito. Formado em carne, no seio de minha mãe, durante dez meses tomei consistência em seu sangue, por força do sêmen viril e do prazer,
companheiro do sono. Também eu, quando nasci, respirei o ar comum e, ao cair na terra, que tudo recebe de modo igual, estreei minha voz chorando, igual a todos.
Envolto em faixas fui criado, entre cuidados; 5 nenhum rei começou a existência de outra maneira.
Para todos é uma só a entrada na vida, e uma só, a saída.
Por isso desejei, e foi-me dado o bom senso; supliquei, e veio a mim o espírito da
Sabedoria. Preferi-a aos reinos e tronos e, em comparação com ela, julguei sem valor as riquezas. A ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois, a seu lado, todo o ouro é um punhado de areia e, diante dela, a prata será avaliada como o lodo.
Amei-a mais que a saúde e a beleza, e quis possuí-la mais do que a luz, pois seu esplendor é inextinguível.
Todos os bens me vieram junto com ela, pois uma riqueza incalculável está em suas mãos. E alegrei-me com todos esses bens, pois é a Sabedoria quem os precede, apesar de eu ignorar que ela é mãe de todos eles.
Aprendi-a sem falsidade e reparto-a sem inveja: não escondo suas riquezas.
Ela é um tesouro inesgotável para a humanidade: os que a adquirem estão preparados para a amizade com Deus, porque recomendados pelos dons da instrução.
Deus me conceda falar segundo o seu desejo e ter pensamentos dignos dos dons que
recebi, pois ele é o guia da Sabedoria e é também quem corrige os sábios; em suas mãos estamos nós e as nossas palavras, assim como toda a Sabedoria e a habilidade.
Ele me deu um conhecimento exato de tudo o que existe, para eu entender a estrutura do mundo e as propriedades dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças das estações, os ciclos do ano e a posição das estrelas, a natureza dos animais e a fúria das feras, a força dos espíritos e os pensamentos dos homens, a variedade das plantas e as propriedades das raízes.
Aprendi tudo o que está oculto e tudo o que se vê, pois a Sabedoria, artífice de todas as coisas, mo ensinou.

Livro da Sabedoria 7, 1-22
Bíblia da CNBB