terça-feira, 21 de maio de 2013

A ousadia de deixar se conduzir pelo Espírito Santo




Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?


O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa identidade franciscana, mediante o estudo das “Fontes Franciscanas”, e em repropô-la em nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas de nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm numa prazerosa “masturbação intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.

Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tornar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.

Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação devota à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.
Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.

Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, generosamente predisposto a suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua integralidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, se esconde no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: libertam-nos da idolatria do poder, do ter e do prazer egocêntricos e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?”. O que fazer para não nos deixarmos sucumbir face à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia que nos fez abraçar a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus de um uniformismo que amesquinha e asfixia?

Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no relacionamento com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”? T

segunda-feira, 20 de maio de 2013


O Papa Francisco alentou os fiéis cristãos a serem instrumentos da misericórdia, ternura e amor que Deus tem por cada homem e mulher, para evangelizar o mundo que precisa encontrar-se com Cristo.
Assim o indicou o Santo Padre em seu discurso nesta manhã aos diretores das Obras Missionárias Pontifícias e lhes disse que “isto é o que sempre deve nos alentar: saber que a força da evangelização provém de Deus, que pertence a Ele. Nós estamos chamados a abrir-nos cada vez mais à ação do Espírito Santo, a oferecer nossa completa disponibilidade para sermos instrumentos da misericórdia de Deus, da sua ternura, do seu amor por cada homem e cada mulher, sobretudo aos pobres, aos excluídos, aos afastados”.
“E esta para cada cristão e para toda a Igreja não é uma missão facultativa, mas essencial. Como dizia são Paulo ‘Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!’ A salvação de Deus é para todos!”.
O Santo Padre disse também que as Obras Missionárias Pontifícias são “plenamente atuais, mais ainda, necessárias porque há muitos povos que ainda não conheceram nem encontraram Cristo e urge encontrar novas formas e caminhos para que a graça de Deus toque o coração de cada homem e cada mulher e os leve a Ele”.
O Papa recordou que estas obras se chamam pontifícias porque “estão à disposição direta do Bispo de Roma com o objetivo específico de atuar para que se ofereça a todos o dom inapreciável do Evangelho”.
“Certamente a missão que nos espera é difícil, mas com a guia do Espírito Santo se transforma em uma missão entusiasta… E o que nos tem que dar sempre coragem é saber que a força da evangelização procede de Deus, pertence a Ele”, prosseguiu.
O Pontífice repetiu aos diretores gerais o convite que faz quase 50 anos lhes dirigiu Paulo VI: “Protejam com esforço a abertura universal” das Obras Missionárias Pontifícias, e exortou a que “seguindo o sulco de sua tradição secular continuem animando e formando as Igrejas, abrindo-as a uma dimensão ampla da missão evangelizadora”.
Embora estas Obras também estejam postas sob a solicitude dos bispos para que se radiquem na vida das Igrejas particulares, “devem converter-se realmente em uma ferramenta privilegiada para a educação no espírito missionário universal e na comunhão e colaboração cada vez mais intensa entre as Igrejas para o anúncio do Evangelho ao mundo”.
“Frente à tentação das comunidades de fechar-se em si mesmas, preocupadas com seus problemas -advertiu o Papa- sua tarefa é chamar à “missio ad gente”, de testemunhar profeticamente que a vida das Igrejas é missão e é missão universal”.
Neste contexto, o Papa Francisco, chamou a dedicar “uma atenção especial às Igrejas jovens que, frequentemente, vivem em um clima de dificuldade, de discriminação e também de perseguição, para que sejam sustentadas e ajudadas na hora de testemunhar com a palavra e as obras o Evangelho”.
Para concluir exortou os diretores das Obras Missionárias Pontifícias a prosseguir seu trabalho “para que as Igrejas locais assumam cada vez com mais generosidade, sua parte de responsabilidade na missão universal da Igreja”.

VATICANO, 17 Mai. 13 / 02:51 pm (ACI/EWTN Noticias).-

domingo, 19 de maio de 2013

Mártir Miguel Agostinho Pró Juarez

Miguel Agostinho Pró Juarez nasce em 1891 em Guadalupe, no México, numa família abastada e profundamente cristã.
O pequeno 'Miguelito', como é chamado, mostra ser um rapaz muito alegre e brincalhão. Crescido, ele abandona durante algum tempo a prática religiosa, mas volta a ela, movido pela entrada da sua irmã num convento … é o ponto de partida da sua vocação.
Aos 20 anos, junta-se aos jesuítas e faz os seus primeiros votos a 15 de Agosto de 1913. Atormentados pelo governo mexicano anti-clerical, os jesuítas em formação exilam-se para os Estados Unidos. Miguel irá também para Espanha, Nicarágua, e Bélgica, onde completará a sua formação na casa dos jesuítas franceses, também exilado pelo seu governo. Apesar da sua débil saúde e contínuas dores no estômago, o jovem jesuíta se distingue pela sua alegria constante e expansiva. É ordenado sacerdote com 34 anos na cidade de Amiens (França), em Agosto de 1925. Ele que é de uma família rica, podendo até suceder a seu pai, preferiu os pobres, em particular, os mineiros belgas e franceses, interessando-se pela pastoral do trabalho e a JOC (Juventude Operária Católica).
Apesar da escalada de perseguições no México com a chegada ao poder do General Calles, os superiores jesuitas pensam que o ar do país poderia ser benéfico à saúde do Padre Miguel. Ele regressa ao país natal em 1926, poucos dias depois de um decreto proibir a presença de sacerdotes. Na Cidade do México, durante mais de um ano, ele exerce o seu ministério clandestinamente. As igrejas estão fechadas e o culto público proibido. Mas o Padre Miguel Pró tem a arte de agir sem ser apanhado. Faz-se chamar "Cocol '(nome de um pão doce que ele gostava na sua infância), usa todo o tipo de disfarces, como vestir-se de agente da polícia para visitar as prisões. Um dia, quando a casa onde ele se escondia é cercada, ele finge ser inspector de polícia, queixando-se a outro agente de não se empenhar o suficiente para apanhar “aquele maldito Pró”, prometendo intensificar a investigação. Outra vez, apertado pela presença policial, ele agarra a mão de uma jovem mulher pedindo: "Ajuda-me, sou um padre”, e assim, o pseudo casal passa despercebido frente às forças da lei.
Nesta vida de proscrito, a Eucaristia é a força que anima o Padre Pró, e para alimentar o seu rebanho, ele organiza "estações eucarísticas”: missas celebradas todos os dias numa casa diferente; arrisca-se ainda mais em ser preso, adicionando ao seu ministério espiritual secreto, o serviço caritativo aos pobres.
Mas um dia, ele é apanhado, erradamente suspeito de conspirar com o seu irmão, também sacerdote, de um ataque contra o ex-presidente, o General Obregon. Todos sabem da sua inocência, mas o Padre Miguel Pró é sumariamente condenado… o General Calles não tolera a actividade deste sacerdote tão esperto.
A 23 de Novembro de 1927, Pró é levado ao lugar de execução.
Lá, depois de rezar e recusar ser vendado, ele levanta a voz, poderosa, perdoando a todos e clamando a Deus a sua inocência. Em seguida, ele abre os braços em cruz, segurando um crucifixo numa mão e um rosário na outra, e antes de ser fuzilado, ele grita: "Viva Cristo Rei!"
Para o seu funeral, qualquer manifestação pública é proibida, mas mais de 20 mil pessoas seguem o cortejo às janelas ou em silêncio nas ruas. Entre os sacerdotes mártires deste período, o Padre Miguel Pró é o mais conhecido.
Ele é beatificado pelo Papa João Paulo II a 25 de Agosto de 1988




Fotos do Martírio do Beato Miguel Pró

FONTE: http://sede-de-deus.blogspot.com.br/

A nós descei divina luz

A nós descei divina luz! A nós descei divina luz!
Em nossas almas acendei o amor, o amor de Jesus!

Vinde, Santo Espírito e do céu mandai luminoso raio! 

Vinde, Pai dos pobres, doador dos dons, a luz dos corações!
Grande defensor, em nós habitai e nos confortai!

Na fadiga, pouso, no ardor, brandura e na dor ternura.

Ó luz venturosa, divinais clarões, encham os corações! 
Sem um tal poder, em qualquer vivente nada há de inocente!
Lavai o impuro e regai o seco, sarai o enfermo! 
Dobrai a dureza aquecei o frio, livrai do desvio!

Aos fiéis, que oram com vibrantes sons, dai os sete dons!
Dai virtude e prêmio e no fim dos dias, eterna alegria!

Aleluia, Aleluia, Aleluia!

CD: Liturgia XV, melodia da faixa 7

sábado, 18 de maio de 2013

Da vida interior


1. O reino de Deus está dentro de vós, diz o Senhor (Lc 17,21). Converte-te a Deus de todo o coração, deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te às interiores, e verás chegar a ti o reino de Deus. Pois o reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito Santo (Rom 14, 17), que não se dá aos ímpios. Virá a ti Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu interior digna moradia.
Toda a sua glória e formosura está no interior (Sl 44,14), e só aí o Senhor se compraz. A miúdo visita ele o homem interior em doce intretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade sobremaneira admirável.
2. Eia, alma el, para este Esposo prepara teu coração, a m de que se digne vir e morar em ti. Pois assim ele diz: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23).
Dá, pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta. Se possuíres a Cristo, estarás rico e satisfeito. Ele mesmo será teu provedor e el procurador em tudo, de modo que não hajas mister de esperar nos homens. Porque os homens são volúveis e faltam com facilidade à conança, mas Cristo permanece eternamente (Jo 12,34), e rme nos acompanha até ao m.
3. Não se há de ter grande conança no homem frágil e mortal, por mais que nos seja caro e útil; nem nos devemos aigir com excessos, porque, de vez em quando, nos contraria com palavras ou obras. Os que hoje estão contigo amanhã talvez sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam como o vento. Põe toda a tua conança em Deus, e seja ele o teu temor e amor; ele responderá por ti, e fará do melhor modo o que convier. Não tens aqui morada permanente (Hbr 13,14), e onde quer que estejas, és estranho e peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres
intimamente unido a Jesus.
4. Para que olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu repouso? No céu deve ser a tua habitação, e como de passagem hás de olhar todas as coisas da terra. Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma cuidado para não te apegares a elas, a m de que não te escravizem e percam.

Ao Altíssimo eleva sempre teus pensamentos, e a Cristo dirige súplica
incessante. Se não sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa na paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas chagas. Pois, se te acolheres devotamente às chagas e preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto em tuas mágoas, não farás mais caso do desprezo dos homens e facilmente sofrerás as suas detrações.
5. Cristo também foi, neste mundo, desprezado dos homens, e em suma necessidade, entre os opróbrios, o desampararam seus conhecidos e amigos.
Cristo quis padecer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo teve adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por amigos e benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência, se não encontrares alguma adversidade? Se não queres sofrer alguma contrariedade, como ser ás amigo de Cristo? Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo queres reinar.
6. Se uma só vez entraras perfeitamente no Coração de Jesus e gozaras um
pouco de seu ardente amor, não farias caso do teu proveito ou dano, ao contrário, te elegrarias com os mesmos opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da desordenadas, pode facilmente recolher-se em Deus, e, elevando-se em espírito, acima de si mesmo, fruir delicioso descanso.
7. Aquele que avalia as coisas pelo que são, e não pelo juízo e estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio, ensinado mais por Deus que pelos ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade. O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos
externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa com as façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e distrai, quanto se mete nas coisas exteriores.
8. Se foras reto e puro, tudo te correria bem e se voltaria em teu proveito. Mas, porque ainda não estás de todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas terrenas, por isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações. Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor desordenado às criaturas. Se renunciares às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu e gozar a miúdo da alegria interior.

IMITAÇÃO DE CRISTO

terça-feira, 14 de maio de 2013

Aprenda com os outros – Os cinco maiores arrependimentos à beira da morte

Tinha consciência de que aquilo que foi ouvindo de uns e de outros ao longo de alguns anos era muito mais do que meros desabafos, mas ela estava, sim, diante de sentimentos profundos, de dores que machucavam, de vidas não vividas.

Para que o livro não se tornasse apenas um amontoado de depoimentos, organizou-os em grandes grupos, aos quais denominou “Os cinco maiores arrependimentos à beira da morte”. São eles:

1º – “Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse”.
Segundo Ware, esse foi o arrependimento mais comum.
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Diante da proximidade da morte, muitos olhavam para trás e tomavam consciência do que gostariam de ter feito e não fizeram, preocupados sempre com imposições externas ou com o desejo de querer agradar. Em outras palavras, poderiam escolher para a lápide de sua sepultura a frase: “A vida que poderia ter sido e não foi”.
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2º – “Eu gostaria de não ter trabalhado tanto”. Essa afirmação nascia especialmente da boca de homens que tinham passado a vida envolvidos pelo trabalho, pela luta para aumentar seu patrimônio ou para serem sempre mais famosos.
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Percebiam, de repente, que não haviam acompanhado a infância e a juventude seus filhos, que a família tinha ficado sempre em segundo plano, embora procurassem se convencer, enquanto estavam em sua roda viva, que era para a esposa e os filhos que tudo faziam.
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3º - Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos”. Alguns se arrependiam por não terem sido capazes de expressar seu amor e seu carinho ou por não terem sido capazes de fazer elogios a quem os merecia.
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Outros guardavam ressentimentos antigos, fazendo de seu coração um “freezer”, onde sua amargura estava congelada, sempre pronta a se manifestar. Agora, se perguntavam: “Para quê? De que adiantou isso?”
4º - Eu gostaria de ter tido mais tempo para meus amigos”. Muitos descobriram que não haviam cultivado velhas e sinceras amizades, e que não era naquela fase final da vida que iriam conseguir novos amigos.
5º - “Eu gostaria de ter-me permitido ser mais feliz”. Expresso isso com minhas palavras: o grande erro de muitas pessoas consiste em estragar a vida com mesquinharias, com insatisfações não superadas, com o fechar-se em si mesmas, num egoísmo que mata a alegria.
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Percebe-se que a autora do livro, não sei se premeditadamente, não entrou no campo espiritual, religioso. Por isso, sem pretender completar seu interessante trabalho, mas como expressão do que penso e acredito, faço duas observações baseadas na virtude da fé.
A primeira diz respeito a Santo Agostinho. Para que todos o situem no tempo, lembro que ele morreu no ano 430. Depois de uma vida atribulada em busca da verdade, escreveu os caminhos que percorreu até encontrá-la, no livro autobiográfico “Confissões”.
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Começou constatando: “Criaste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”.
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E concluiu: “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova; tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora de mim. (…) Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. (…) Saboreei-te, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e inflamei-me na tua paz.”
A segunda observação é de Jesus Cristo, e ele a apresentou sob a forma de uma pergunta:
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“De que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a própria vida?” (Mateus 16,26).
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Traduzindo isso em palavras muito pobres posso dizer: onde ficaram as vaidades de muitos, os bens que acumularam – muitas vezes de maneira não honesta–, os prazeres que dominaram suas vidas? O que fica de uma vida, além do amor semeado? Oportuno é, pois, o pensamento que bem poderia servir de título para um livro: “A vida nos é dada para procurar Deus; a morte, para encontrá-lo; e a eternidade, para possuí-lo”.

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
Fonte: Site Arquidiocese de Campo Grande

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O silêncio como opção de vida alternativa



A Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores, em 2003, publicou um pequeníssimo fascículo intitulado: O caminho que leva ao “lugar do coração”. Achegas para descobrir interioridade e silêncio na vida franciscana. Trata-se de uma joia encerrada num caderno de 16 pequenas páginas. “O caminho para a interioridade, hoje, dá-se num tempo de mudanças, tempo rico de muitos sinais de redescoberta da interioridade e do silêncio. A sociedade secularizada vem focada sobre o indivíduo, com uma identidade fluída. Temos diante de nós uma mudança radical da visão do homem, determinada sobretudo pela tecnologia. São imensos os recursos da inteligência humana, descobertos hoje, que podem ajudar os homens a criar um mundo melhor. É importante, no entanto, que o homem permaneça sujeito desse desenvolvimento, sobretudo a partir da verdade profunda de si mesmo” (p.4-5). Num mundo de superficialidade, de pressa, de técnica fria, de comunicação online, de áudio-fones, de corrida, a viagem ao fundo do coração torna-se delicada. Sem ela, o ser humano se torna joguete de forças cegas e, se religioso, pessoa de superficialidade. “Tornamo-nos estranhos a nós mesmos. O percurso para dentro de nossa interioridade não é só terapêutico para a nossa cultura do barulho, mas também vem a ser um caminho voltado para o acolhimento, para uma nova civilização do amor. O caminho para dentro de nossa interioridade e para o silêncio torna-se, então, o testemunho de uma opção de vida alternativa” (p. 5). Muito bem dito: não podemos seguir a onda. O caminho do coração é uma alternativa em nossos tempos. Precisamos tomá-lo.

São Francisco de Assis em meditação,
de Zurbaran.
Não falamos de um silêncio apenas material, do não falar ascético, frio, nem do orgulhoso mutismo, mas de uma aquietação que começa com o silenciamento de nosso ego e o desejo de deixar a verdade e o amor penetrarem em nossas entranhas. “Como o ar, meio em que aparece a luz e vibram uma infinidade de ondas, como o fogo, que aquece e ilumina, como a água que purifica e desaltera, como a terra, enfim, que nos carrega e nos alimenta, o silêncio é um elemento vital, indispensável para nossa subsistência espiritual, para nosso equilíbrio interior, para a paz e inteligência do coração e da alma. Mas é também um elemento raro, sutil, frágil, que se deve querer encontrar, saber procurar e, em seguida, fertilizar com toda doçura, para que permaneça vivo e fecundo. O ar viciado é irrespirável, o fogo sem controle morre ou, ao contrário, devora tudo, a água poluída se transforma em veneno e a terra não tratada fica estéril; da mesma forma o silêncio – e a solidão à qual está vinculado – precisa ser desejado, respeitado e cultivado com atenção e paciência para tornar-se espaço puro de concentração de meditação e de sonhos com os olhos abertos” (Sylvie Germain).

Há muitas modalidades de silêncio: o silêncio delicado que respeita o doente que quer dormir e a criança que mal e mal pegou no sono; o silêncio de quem guarda um segredo ou não quer denegrir a imagem do outro com palavras verdadeiras, mas que não precisam ser ditas; o silêncio do cirurgião quando realiza uma delicada e perigosa operação. Há o silêncio estático do homem que busca a Deus, se embrenha no deserto, tenta auscultar o mistério de seu próprio interior, onde o murmúrio do silêncio ecoa como se fosse uma brisa suave. Há esse exercício do silêncio exterior para se chegar à aquietação interior, a um vazio que permita ao Espírito agir em nós e de não sermos meros seres apressados, correndo de um lado para o outro sem ouvir a voz do Amado. Não podemos, como diz Francisco, perder o “espírito do Senhor”.

Francisco de Assis, na verdade, vivia o enlace amoroso com o Senhor no claustro do mundo, mas sentia-se atraído pelo silêncio das cavernas e das grutas. Assim escreve Michel Hubaut: “Em suas biografias podemos encontrar dezoito lugares de vida eremítica que encontrou ao longo de suas andanças. Francisco que era capaz de visitar num só dia, a pé ou montado num burrico, quatro ou cinco vilarejos, passou semanas inteiras na solidão e na oração. Sentia sede de Deus, como também sede pela salvação de seus irmãos. Sede de silêncio e sede de colóquios. Estes regulares mergulhos no silêncio ensinaram-no a conservar no meio do mundo aquele santuário interior no qual ele adorava a presença do Senhor. Convida-nos a fazer de nosso corpo a “sala do alto” onde haveremos de receber a visita do Espírito. Silêncio e interioridade: as duas coisas são para Francisco mais um despertar do coração do que um retiro espacial: ‘Onde quer que estejamos e para onde quer que andemos levemos sempre conosco nossa cela. Nossa cela é o nosso irmão corpo e nossa alma é o ermitão que mora nessa cela para rezar e meditar’”(Legenda Perusina, 80). (Hubaut. El caminho franciscano, p. 58).

O silêncio nos ajuda a guardar a lembrança de Deus. Não é mutismo porque ele favorece, ao mesmo tempo, a relação com Deus e entre os irmãos. Os buscadores de Deus, profissionais como os religiosos e os monges, querem manter viva a lembrança de Deus. Um autor descreve o silêncio dos cistercienses: “Chamado a viver uma autêntica ‘espiritualidade de comunhão’, segundo o desejo de João Paulo II, o monge procura o silêncio porque é pelo e no silêncio que ele pode viver a lembrança de Deus. O monge se recorda! Ele é o homem da memória, da memoria Dei. É convidado a viver ‘na constante lembrança de Deus’. Na Bíblia, o grande pecado é o esquecer Deus. Daí o terrível grito do profeta: ‘Eles me esqueceram!’. E, no livro do Deuteronômio, há essa forte acusação: ‘Esqueceste o Deus que te colocou no mundo’ (Dt 32, 19). Uma das principais missões do monge não seria exatamente de manter viva a lembrança de Deus? Não que os mosteiros sejam os únicos lugares onde se vive verdadeiramente a lembrança de Deus. Verdade, no entanto, que o mosteiro é concebido para colocar o monge nas melhores disposições para que ele possa lembrar-se de Deus, assim como a esposa se recorda do esposo” (Paul Houix, o.c.s.o. in La Vie Spirituelle, julho de 2012, p. 312).

Em nossa vida franciscana, de maneira bem prática, saberemos cultivar o silêncio. Há esse silêncio da casa, do quarto, da cela, da capela, silencio exterior que nos leva à quietude interior. Há a recitação do Ofício das Horas com calma, interrompida pelo silêncio entre um salmo e outro, entre um leitura e um responsório, precedida por momentos de silêncio. Há a celebração da Eucaristia que transforma nossa vida. Degustamos momentos de silêncio na sacristia antes de nos dirigirmos ao altar. Há essa discrição nas conversas no refeitório. Há essa prudência de não falar para fora o que precisa ficar dentro. Há todos esses momentos de silêncio previstos nas celebrações. Nós, franciscanos não somos monges, mas não podemos deixar a porta do interior escancarada… Precisamos sentir a brisa suave do silêncio…

“Talvez em nossos tempos dever-se-ia falar de um esmolar do silêncio, de uma busca do silêncio. Quem sabe falar mesmo de uma conquista do silêncio. Talvez conquista seja uma palavra pouco apropriada, porque estaria associada a furor, barulho. Os conquistadores podem ser barulhentos e quase furiosos. Melhor falar em busca do silêncio, perseguir o silêncio, abastecer-se do silêncio. O excesso de barulho nos projeta fora de nós mesmos, aliena. Na simbologia cristã, o barulho, fazendo com que estejamos fora de nós mesmos, nos impede o acesso para as fontes mais profundas. O silêncio, então, é plenitude. O silêncio místico cristão nunca é abismo, nem vazio, nem negação de desejo. No silêncio há uma Palavra. À sombra do silêncio, no silêncio interior, para além dos desvios do espírito surge uma outra palavra. Insinua-se uma presença que fala e pede ao coração que continue a estrada. O silêncio é como uma porta que se abre para outros mundos, ou simplesmente para o Outro que habita em nós. Para isso será preciso dar tempo ao silêncio, ir além dessa necessidade narcisista dele. Necessário sempre de novo que nos tornemos humanos”(André Beauchamp, Les bruits du monde, in Christus, 194, p. 142). O silencio nos humaniza!

Vamos terminar retomando o texto da Ordem dos Frades Menores que nos fala do caminho que leve ao lugar do coração: “São Francisco convida-nos a ‘conservar no coração os segredos do Senhor’ (Adm 28,3), através da paz e da meditação, sem nervosismos, nem dissipação (Adm 27,2). Insiste sobre a cela interior a carregar sempre conosco. O silêncio a ser observado é aquele do Evangelho, que evita palavras ociosas e inúteis no fruto da oração. Assim nos tornaremos sempre mais ’unificados’ no coração e a partir do coração. A Virgem Maria é modelo para aqueles que acolhem a Palavra, a guardam no coração e a vivem todos os dias” (p. 10). T