domingo, 11 de agosto de 2013
O tesouro do reino
Esta liturgia quer suscitar em nós o espírito de constante vigilância e serviço, tendo o coração voltado para Deus.O reino que ele nos oferece por meio de seu Filho é o verdadeiro tesouro que os ladrões não roubam nem a traça corrói. Com confiança e fé,celebremos em comunhão com os vocacionados para a vida em família, especialmente com nossos pais.
Jesus nos convida hoje a ajuntar um tesouro no céu e a fortalecer a fé no Deus que deseja dar-nos seu reino.
Se, diante da violência, da tragédia, da doença e da morte, o medo paralisa, a confiança em Deus faz ir além, pois ter fé é dar espaço para que Deus aja em nós e nos outros.
Esse reino que Deus quer nos dar, nós o vamos descobrindo já aqui, à medida que nos decidimos a agir de acordo com aquilo que o Mestre nos ensinou, à medida que nos decidimos a ajuntar um tesouro que não é dinheiro e não são bens materiais, mas ações de bondade que levamos para a eternidade.
E as palavras de Jesus nos levam a perguntar onde estará hoje o nosso coração. O coração, para o povo da Bíblia, representa o interior mais profundo, onde sentimos e sobretudo decidimos. Onde está o nosso coração? Que tipo de decisão tomamos no dia a dia? Que tesouro estamos construindo em nossa passagem por este mundo?
O tesouro de que Jesus fala é o próprio reino de Deus acontecendo em nós, quando agimos com fidelidade, na esperança do retorno definitivo do Senhor. Não podemos saber quando será nosso encontro definitivo com Deus, mas só com a lâmpada acesa da fé e preparados em atitude de serviço (rins cingidos) podremos abrir-lhe sem medo a porta de nossa vida quando for o momento.
E então o Senhor entrará e transforará nossa vida num eterno banquete, que ele mesmo servirá. Deus resgatará então nossos gestos de serviço, pequenos que sejam, e, mostrando-se mais uma vez, ele mesmo, servidor, nos tornará plenos com sua graça.
Até lá, o desafio é continuar vencendo o medo que nos deixa paralisados diante da violência e do mal no mundo: até lá, continuemos vigilantes, em atitude de serviço e doação da vida aos mais necessitados. Felizes seremos, então, pois o Senhor terá encontrado o tesouro do seu reino em nosso coração.
Pe. Paulo Bazaglia, ssp sobre o evangelho deste domingo 11/08/2013
Jesus nos convida hoje a ajuntar um tesouro no céu e a fortalecer a fé no Deus que deseja dar-nos seu reino.
Se, diante da violência, da tragédia, da doença e da morte, o medo paralisa, a confiança em Deus faz ir além, pois ter fé é dar espaço para que Deus aja em nós e nos outros.
Esse reino que Deus quer nos dar, nós o vamos descobrindo já aqui, à medida que nos decidimos a agir de acordo com aquilo que o Mestre nos ensinou, à medida que nos decidimos a ajuntar um tesouro que não é dinheiro e não são bens materiais, mas ações de bondade que levamos para a eternidade.
E as palavras de Jesus nos levam a perguntar onde estará hoje o nosso coração. O coração, para o povo da Bíblia, representa o interior mais profundo, onde sentimos e sobretudo decidimos. Onde está o nosso coração? Que tipo de decisão tomamos no dia a dia? Que tesouro estamos construindo em nossa passagem por este mundo?
O tesouro de que Jesus fala é o próprio reino de Deus acontecendo em nós, quando agimos com fidelidade, na esperança do retorno definitivo do Senhor. Não podemos saber quando será nosso encontro definitivo com Deus, mas só com a lâmpada acesa da fé e preparados em atitude de serviço (rins cingidos) podremos abrir-lhe sem medo a porta de nossa vida quando for o momento.
E então o Senhor entrará e transforará nossa vida num eterno banquete, que ele mesmo servirá. Deus resgatará então nossos gestos de serviço, pequenos que sejam, e, mostrando-se mais uma vez, ele mesmo, servidor, nos tornará plenos com sua graça.
Até lá, o desafio é continuar vencendo o medo que nos deixa paralisados diante da violência e do mal no mundo: até lá, continuemos vigilantes, em atitude de serviço e doação da vida aos mais necessitados. Felizes seremos, então, pois o Senhor terá encontrado o tesouro do seu reino em nosso coração.
Pe. Paulo Bazaglia, ssp sobre o evangelho deste domingo 11/08/2013
sábado, 10 de agosto de 2013
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Santa Tereza Benedita da Cruz (Edith Stein)
Edith Stein, a caçula de uma numerosa família hebraica, nasceu em 12 de outubro de 1891 em Breslau, Alemanha. Antes de completar dois anos ficou órfã de pai. A pequena Edith era de temperamento forte, vivaz e independente.
Ademais, demonstrava uma inteligência muito precoce, que lhe proporcionou o primeiro lugar da classe durante toda a sua vida escolar. Crescendo numa família praticante da religião judaica, ela acreditava em Deus e a Ele dirigia suas preces.
Jovem filósofa à procura da Verdade
Porém, ao atingir a adolescência, perdeu a fé na existência de Deus, parou de rezar e abandonou os estudos. Ela própria relatou mais tarde: "Com plena consciência e por livre decisão, deixei de rezar. Meus anseios de conhecer a Verdade eram minha única oração."
Aos 14 anos, decidiu retomar os estudos colegiais, para ingressar na universidade. E em 1911 matriculou-se, não em um, mas em três cursos: Filosofia, Língua Alemã e História. Naquela época era pouco comum uma mulher cursar a universidade, menos ainda ver uma jovem de 20 anos seguir três cursos ao mesmo tempo!
Todas as preferências de Edith eram para a Filosofia. Assim, mudou-se em 1913 para Göttingen a fim de assistir às aulas de Edmund Husserl, considerado o mais importante filósofo alemão da época.
Essa jovem estudante parecia haver sucumbido de todo na crise da fé, pois até já se declarava atéia. Mas, por paradoxal que pareça, ela continuava como uma incansável peregrina à procura da Verdade.
Descobre a oração do Pai-Nosso
E a Divina Providência, por seu lado, a guiava por caminhos misteriosos cada vez para mais perto de Deus, a Verdade Absoluta.
Afinal, Deus, o que é? Essa Verdade última, pela qual pautei minha vida, em que consiste? Qual o sentido do sofrimento? Como se explica o mal? Questões como essas povoavam a mente inquieta de Edith. Anos depois ela afirmou: "O estudo da filosofia é um contínuo caminhar à beira do abismo". E acrescentou: "Eu vivia no ingênuo auto-engano de que tudo em mim estava correto, como é freqüente em pessoas sem fé, que vivem num tenso idealismo ético".
Encontrava-se ela nessa situação interior quando, por volta de 1914, fez uma análise do Pai-Nosso, não do ponto de vista religioso, mas estudando a etimologia alemã. Ficou muito impressionada com essa oração, e a repassou várias vezes.
Nessa mesma época, Edith travou conhecimento com Adolf Reinach, judeu e discípulo de Husserl, como ela. Também ele buscava a Verdade com fervor e probidade. Logo se formou entre ambos uma sincera amizade, da qual participava também sua esposa Anna. Ora, o casal Reinach estava, por assim dizer, nas vésperas de sua conversão ao Catolicismo, e isso teria em breve uma especial repercussão sobre Edith.
Enfermeira voluntária
Nesse ano de 1914, as atividades intelectuais na Alemanha sofreram um forte abalo com o início da Primeira Guerra Mundial. Edith voltou para Breslau e alistou-se como enfermeira voluntária. "Agora não tenho vida própria - todas as minhas forças pertencem a esse grande acontecimento. Quando a guerra terminar, e se eu ainda continuar viva, poderei pensar em meus assuntos privados." Fez um curso de Enfermagem e foi destacada para ser vir num hospital militar, onde, além de prestar assistência na sala de cirurgias, ficou encarregada dos doentes de tifo. Por sua disponibilidade em serviço e sua dedicação aos enfermos, especialmente os moribundos, recebeu a medalha de honra da Cruz Vermelha.
Esse hospital foi fechado e ela mudou-se para Friburgo, onde fez o curso de doutorado em Filosofia, obtendo aprovação summa cum laude (máxima com louvor).
A força do exemplo
Pouco tempo depois, a Providência lhe pôs diante dos olhos dois episódios que, como flashes fotográficos, iluminaram a alma dessa jovem doutora a caminho da conversão.
Certo dia, visitando a Catedral de Friburgo com objetivo meramente turístico, ela v iu entrar uma mulher com sua cesta de compras e ajoelhar-se para fazer uma breve oração."Isso era algo completamente novo par a mim, pois eu só entrava em sinagogas e em igrejas protestantes p ara o culto religioso comunitário. Ali , em contra partida, estava alguém que acudia a uma igreja vazia em meio às ocupações diárias, como que para um diálogo confidencial com Deus . Disso nunca me esqueci" - relatou ela.
A outra cena deu-se na casa de um camponês católico onde ela se hospedara durante um passeio. Causoulhe profunda impressão ver esse pai de família fazer pela manhã uma oração com os seus empregados, antes de irem para os trabalhos do campo.
Enfim, a conversão
Adolf Reinach - o amigo de Edith que, como ela, estava à busca da Verdade - faleceu em 1917. Visitando a viúva, Anna Reinach, surpreendeuse ao vê-la cheia de paz e serenidade, com mais esperança que sofrimento! Ficou atônita e, ao mesmo tempo, maravilhada quando esta lhe comunicou sua conversão e lhe explicou o papel da Cruz de Cristo. "Esse foi o meu primeiro encontro com a Cruz e com a força divina que ela transmite aos que a carregam. Foi o momento em que a minha descrença desmoronou" - confidenciou mais tarde.
Por volta de 1918, Edith leu os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, por mero interesse acadêmico. Entretanto, ao perceber a densa espiritualidade contida nessa obra, fez os trinta dias de meditações, no fim dos quais desejou ardentemente se tornar católica. Todavia, precisou vencer ainda algumas batalhas interiores antes de chegar à c onversão definitiva.
Esta chegou no verão de 1921. Edith foi convidada a passar algumas semanas na casa de campo de uma amiga em Bergzabern, perto de Spira. Certo dia, estando só na casa, apanhou ao acaso um livro na estante. Deus lhe punha nas mãos a "Vida de Santa Teresa de Ávila, escrita por ela mesma". "Comecei a ler e fiquei tão arrebatada que não consegui parar até terminá-lo. Quando o fechei, disse comigo mesma: ‘Esta é a Verdade!'"
Depois de procurar em vão a Verdade nos livros e nos raciocínios filosóficos, ela a encontrou na história palpitante de amor da grande mística reformadora do Carmelo, cujo exemplo perfumava ainda as almas, cinco séculos após sua morte.
No dia seguinte, ela comprou o Catecismo e o Missal e, depois de estudar meticulosamente o conteúdo desses livros, foi pela Sta Teresa Benedita da Cruz - Edith Stein.jpgprimeira vez assistir a uma Missa, após a qual procurou o Pároco e pediu o Batismo, que lhe foi conferido poucos meses depois, no dia 1º de janeiro de 1922.
Professora apostólica
Não foi por mero acaso que a Virgem Maria pôs nas mãos dessa alma de escol a autobiografia da grande Santa Teresa. Já no dia de sua conversão ela sentiu-se de tal forma chamada à vida contemplativa na Ordem do Carmo que logo relegou todas as ambições mundanas e passou a levar uma vida de carmelita, tanto quanto lhe permitiam as circunstâncias.
Entretanto, seu diretor espiritual, Mons. Canon Schwind, julgou mais proveitoso para a Igreja que ela empregasse seus talentos no apostolado leigo, e convidou-a a lecionar Alemão e História no Instituto de Educação de Santa Maria Madalena, em Spira. Ela fez então in pectore os votos de pobreza, obediência e castidade e tornou- se professora. A Fräulein Doktor (Senhorita Doutora), como ficou conhecida, expressava-se com perfeição em seis idiomas. Conhecia e traduzia com facilidade as obras de São Tomás de Aquino.
No entanto, mais do que lecionar, ela se empenhava em "ajudar as alunas a moldar a vida no espírito de Cristo". E, persuadida de que "Frei Exemplo é o melhor pregador", fazia seu apostolado principalmente através de uma autêntica vida de piedade: passava horas ajoelhada ante Jesus Sacramentado, como se nada mais existisse no mundo, e tinha uma profunda devoção ao Sagrado Coração de Jesus e à Virgem Maria.
Conferencista e catedrática
Entre 1928 e 1933, por iniciativa de um insigne sacerdote, percorreu a Europa, fazendo conferências sobre o papel da mulher católica na família e na sociedade, apresentando como modelo Maria, a Virgem Mãe. Em 1932 foi nomeada para a Cátedra de Antropologia no Instituto Alemão de Pedagogia Científica, de Münster. Nessa época, porém, sopravam já os maléficos ventos do nazismo, de modo que pouco tempo depois ela perdeu o posto, devido à sua ascendência judaica.
Uma noviça a caminho da santidade
Se para ela essa demissão arbitrária foi um bem ou um mal, não vem ao caso analisar neste artigo. O fato concreto é que no dia 14 de outubro de 1933 ela ingressou no Carmelo de Colônia. Em abril de 1934, recebeu o hábito carmelitano. Edith Stein estava morta para este mundo, nascia uma nova esposa de Cristo, Irmã Teresa Benedita da Cruz.
Não lhe correu fácil o noviciado, tendo ela já 43 anos, e entre as freiras sua ciência filosófica pouco valia. Ademais, o trabalho manual era parte importante da vida monástica e Irmã Teresa era muito desajeitada... A mestra de noviças não deixava de repreendêla nas ocasiões oportunas, e ela nunca se mostrou ressentida. Pelo contrário, sabia que esses pequenos sacrifícios faziam parte de sua caminhada rumo à santificação, e aceitava tudo com serenidade.
O falecimento de sua mãe, em 1936, deixou sua irmã Rosa livre para receber o Batismo, que desejavSanta Teresa Benedita da Cruz - Edith Stein.jpga ardentemente, e ser acolhida como terciária carmelita no mesmo mosteiro de Colônia. As duas irmãs permanecerão unidas até a morte.
"Os judeus católicos, nossos piores inimigos"
Na segunda metade da década de 1930, acentuava-se cada dia mais o antagonismo entre o partido nazista e o ensinamento da doutrina católica. O governo encabeçado por Hitler perseguia disfarçadamente a Igreja. Quando, em 1937, o Papa Pio XI condenou de maneira contundente o nacional- socialismo através da Encíclica Mit brennender Sorge (Com ardente preocupação), cresceu a animadversão dos hitleristas: acentuou-se a campanha anticlerical, muitos bispos foram agredidos em público e milhares de fiéis foram deportados para os campos de concentração.
Para evitar que o Carmelo de Colônia corresse perigo por sua presença, Irmã Teresa Benedita pediu transferência para algum convento fora da Alemanha. Antes de ser atendido esse seu pedido, delegados do governo nazista violaram a clausura do mosteiro, à sua procura. À vista disso, ela foi transferida às pressas para o Carmelo de Echt, na Holanda. Um ano e meio depois, sua irmã Rosa foi se juntar a ela.
Em julho de 1942, os Bispos holandeses tomaram posição formal contra os nazistas, em defesa dos judeus injustamente perseguidos. O revide do regime nazista não se fez esperar. No dia 2 de agosto, agentes da Gestapo arrancaram do convento as duas irmãs, que foram deportadas para o campo de concentração de Westerbork, norte da Holanda, juntamente com outros 242 judeus católicos. O comissário geral Schmidt, reconheceu de público que essa tirânica medida tinha sido tomada como retaliação à corajosa atitude do Episcopado: "Como o clero católico não se deixa dissuadir por nenhuma negociação, vemo-nos forçados a considerar os judeus católicos como os nossos piores inimigos e, por essa razão, a deportá-los para o Leste o mais depressa possível".
Parecia uma imagem da "Pietà" sem o Cristo
Compreende-se facilmente o desânimo e mesmo o desespero desses infelizes, arrancados com brutalidade de seus lares e transportados em vagões de carga para um campo de concentração. Irmã Teresa, porém, não se deixou abater. Nos poucos dias em que ali permaneceu, manteve-se galhardamente trajada com seu hábito de carmelita, a todos impressionando pela sua fortaleza de ânimo, serenidade e recolhimento. Todo o tempo em que a "Freira Alemã", como era chamada, não passava em oração, ela o empregava em consolar os aflitos, confortar as mulheres e cuidar das crianças. Ela era uma "Pietà sem Cristo" - declarou uma testemunha sobrevivente.
Morta por ódio à Fé católica
Em 7 de agosto, os esbirros do governo embarcaram Sor Teresa Benedita e sua irmã Rosa - juntamente com centenas de outros judeus - em um trem rumo ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Uma tétrica viagem de quase três dias, sem água e sem alimentos. Logo na chegada, no dia 9, foram mortas na câmara de gás e em seguida seus corpos foram cremados e as cinzas espalhadas pelos campos.
Edith Stein morreu vítima do odium fidei do regime hitleriano. O Pe. Hopster, SVD, afirma isso claramente: "Após ter ouvido as explicações do comissário Schmidt, pode-se declarar que os religiosos presos nesta ocasião foram mortos em testemunho da Fé. Sua prisão foi efetuada por ódio às palavras de nossos bispos. Eram, pois, os bispos e a Igreja os visados e atingidos com a deportação dos religiosos e católicos de origem judaica".
Somente em 1947 as carmelitas de Echt e Colônia tiveram notícia segura a respeito da morte de Santa Teresa Benedita da Cruz, e puderam transmiti- la às demais casas da Ordem: "Não mais a procuremos sobre a terra, mas junto de Deus a quem foi agradável o seu sacrifício, fazendo-o frutificar em favor do povo pelo qual rezou, sofreu e morreu".
A conclusão do livro "A Ciência da Cruz"
Todos os momentos livres de sua vida de carmelita, e também parte da noite, Sor Teresa Benedita os dedicava à redação da obra "A Ciência da Cruz", que lhe tinha sido encomendada para assinalar o quarto centenário do nascimento de São João da Cruz. Contudo, não logrou terminá-la. Ou melhor, ela a concluiu sim, mas não por escrito: a conclusão se efetivou com a entrega de sua própria vida. Da mesma forma que a Verdade eterna se manifestou ao mundo plenamente num Homem, Jesus, e não escrita num livro.
Dela se pode dizer o que afirmou de si próprio o Apóstolo dos Gentios: combateu o bom combate, recebeu a coroa de glória. Foi canonizada em 1998 e, no ano seguinte, proclamada co-padroeira da Europa, junto com Santa Brígida e Santa Catarina de Sena.
(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2005, n. 44, p. 34 à 37)
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Os Nove Modos de Oração de São Domingos de Gusmão
fr. João da Cruz, op (séc. XVI),
Crónica de la Orden de Predicadores (Lisboa, 1567)
1.Mas não se deve calar nem passar, em geral com as outras virtudes deste santo confessor, a sua fervorosa e contínua oração, sem que façamos uma especial menção dela. Pois quem leia atentamente tudo quanto dissemos até aqui, em tudo encontrará que resplandeceu nele esta virtude com grande claridade. Porque o bem-aventurado santo, em todas as suas obras, tinha a oração por instrumento para as fazer, amava-a e seguia-a, como jóia de inestimável valor na vida espiritual.
Porque, como vimos, rezando, este homem de Deus fazia tantos milagres. Rezando recebia revelações divinas e alcançava maravilhosas vitórias do adversário. Rezando conseguia de Nosso Senhor as graças que lhe pedia, para si e para os seus frades, tanto temporais como espirituais. Rezando penetrava em muitos sentidos da sagrada escritura, mais do que pela lição ou pelo estudo. Rezando ganhava ânimo para pregar tão sábios e frutuosos sermões. E não duvido que, pela oração, alcançou de Deus a inocência que teve e a perseverança na sua santidade.
Finalmente, esta poderosa e maravilhosa virtude que o santo varão tinha tão contínua e familiar, que toda a sua vida era uma contínua oração.
E quanto à oração comum, à qual estava obrigado pelo estado clerical, já acima se disse que era diligentíssimo e com suma atenção rezava todo o ofício, de dia e de noite. E nos conventos assistia sempre com grande cuidado e vigilância na solenidade do ofício divino. E caminhando, se ouvia tocar a matinas nalgum mosteiro ou nalguma igreja, levantava-se e despertava os seus companheiros e rezava com eles.
Mas não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo.
A sua principal oração e mais elevado espírito era quando celebrava o santíssimo sacrifício da Missa, o qual fazia todos os dias onde quer que se encontrasse e tivesse oportunidade. E com muito temor e reverência celebrava, como se visse a Nosso Senhor Jesus Cristo em corpo e alma, conversando com os homens, ou cravado na cruz. E com tantas lágrimas dizia toda a Missa, sobretudo quando chegava ao Pai Nosso, que a todos os presentes colocava em grande devoção. E quando ouvia ou via a outro sacerdote celebrar da mesma maneira, começava a chorar. E quando via e adorava o Senhor, dava tantos gemidos e gritos, que achou melhor, por muito tempo, não ouvir missa na companhia dos seus religiosos, para não os inquietar.
Desta maneira se punha nas orações comuns e de obrigação. Mas não se contentava com isto, sabendo que, ainda que o servo de Deus faça tudo o que lhe é mandado fazer, se deve chamar servo inútil. Por isso, em muitas outras horas do dia e principalmente da noite, fazia oração a Deus levantando o seu espírito com grande fervor e caridade, e exercitando-se nas santas meditações: ou da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou da sua divindade, ou das suas acções, ou dos seus benefícios, segundo o que o Espírito Santo ia guiando o seu espírito. E como tinha a sua carne obediente à alma, juntamente se exercitava com os movimentos do corpo, segundo as diversidades das aflições e pensamentos que tinha na sua alma, porque, como diz o salmista, a sua alma e a sua carne se alegravam no Deus vivo. E com os mesmos gestos avivava ainda mais o fogo da devoção.
E, segundo isto, tinha diferentes maneiras de rezar na postura do seu corpo, sem dúvida ordenado e composto pela interior devoção da alma. A qual, porque aos homens estava escondida, pareciam estranhos e desordenados os movimentos e as palavras que dava e dizia, porque poucos entendem a força do espírito no tempo da oração. Por isso diz David: “feliz o povo que sabe o que é louvar”, que é um gozo da alma com o seu Deus que não se pode explicar com palavras, mas também não se pode dissimular para que não se mostre por um sinal exterior.
2.
[primeiro modo]
Muitas vezes, segundo alguns religiosos que o viram, colocava-se diante de um altar, inclinando não só a cabeça mas meio corpo, com tanto respeito como se estivesse na presença do Senhor, que o altar representava na sua alma. Entendendo ainda desta humilhação corporal o que diz Salomão: “a oração do que se humilha penetra os céus”, e trazendo à memória a humildade do Filho de Deus, por nós crucificado.
[segundo modo]
Outras vezes deitava todo o corpo por terra, rebaixando-se e depreciando-se, como se não fosse digno de estar de pé. Imitando o exemplo dos santos Reis que assim prostrados adoraram o Menino Jesus. E lembrando-se que o próprio Senhor, perto da sua paixão, com a face por terra, rezou ao Pai no horto. E então, dizia as palavras daquele humilde publicano, que não ousava levantar os olhos ao alto: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador”, e o que o profeta David escreve: “A minha alma está prostrada no pó da terra, e o meu coração e as minhas entranhas coladas à terra”.
[terceiro modo]
Outras vezes fazia oração em pé, levantado e direito, em especial quando se disciplinava. E então dizia: “A vossa disciplina, Senhor, me castigou, e a vossa disciplina me ensinará”.
[quarto modo]
Outras vezes, rezava de joelhos e dizia as palavras do leproso que, nessa posição, pediu a cura ao nosso Redentor: “Senhor, se quiserdes podeis curar-me”. E as que disse Santo Estêvão, quando, enquanto lhe atiravam pedras se colocou de joelhos e disse: “Senhor, recebe o meu espírito”. E, depois disto, clamava tão alto, que os frades ouviam. E dizia fortemente o mesmo que David: “A ti, Senhor eu clamo, não te cales nem deixes de me responder”. E dito isto, descansava assim, de joelhos. E já não se ouvia a sua voz, mas dentro do seu coração falava para si, movendo os lábios, como a mãe de Samuel. E algumas vezes, levantava os olhos e o rosto, como se quisesse subir ao céu, e subitamente se alegrava e limpava as suas lágrimas que lhe corriam dos olhos. Outras vezes levantava-se e voltava a ajoelhar-se, e isto repetia muitas vezes.
[quinto modo]
Outras vezes estava em pé e direito, diante do altar, sem se encostar a alguma coisa. E tinha as suas mãos abertas, diante do peito, somo se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da divina escritura. E algumas vezes tinha os ouvidos atentos, como para ouvir e entender o que lhe diziam, punha as mãos sobre os seus olhos e apertava-os fortemente. Outras vezes levantava as mãos até aos ombros, abertas como as coloca o sacerdote quando diz Missa.
[sexto modo]
Outras vezes rezava em pé, de braços estendidos em modo de cruz, e algumas vezes via-se o seu corpo levantado da terra. E chorava fortemente, lembrando-se de quando o nosso Redentor esteve levantado na cruz, preso por três cravos, pedindo ao Pai por nós, com muitas lágrimas, como diz o Apóstolo. E dizia com David: “A ti, Senhor, eu clamo, durante o dia estendo a ti a minhas mãos”.
[sétimo modo]
Outras vezes rezava em pé, com os braços estendidos ao alto e as mãos juntas acima da cabeça, como se fossem uma seta, e algumas vezes as abria como se estivesse a receber alguma coisa que lhe enviavam do alto. E dizia como o salmista: “Ouve o grito das minhas súplicas quando te invoco, quando ergo as minhas mãos para o teu santuário”. E então, segundo parecia aos frades, pedia e alcançava de Deus os favores e mercês para a sua Ordem. Mas não demorava muito neste modo de orar, que frequentemente se arrebatava e saía fora de si, mas logo voltava a si como se voltasse de novo ao mundo, ou como quem vinha de um longo caminho.
[oitavo modo]
Outras vezes rezava desta maneira. Acabando de ler ou ouvir alguma santa lição, afastava-se para um lugar secreto e meditava no que tinha lido e escutado. E viam-no como se estivesse pregando e disputando com algum companheiro. Umas vezes como se estivesse irado consigo mesmo, outras, risonho e contente, outras, choroso; outras vezes, quieto e descansado, e então ouviam-no dizer o que o profeta dizia: “prestarei atenção ao que me diz o Senhor Deus”.
E era seu costume, antes da oração, ler alguma coisa santa e, acabando de ler, fechava o livro e prestava-lhe reverência, inclinando-se diante dele e beijava-o, sobretudo se eram os Evangelhos. E algumas vezes, acabando de ler, colocava a sua fronte sobre as suas mãos e cobria a cabeça com o escapulário.
[nono modo]
Outras vezes rezava caminhando (como dissemos acima) e dizia para si ou ao companheiro o que escreve o profeta Oseias: “vou levá-la a um lugar deserto e falar-lhe ao coração”. E quando ficava sozinho adiantando-se ou ficando para trás, fazia muitas vezes sobre si o sinal da cruz, e mexia muitas vezes a mão, levantada diante do seu rosto, como quem sacode de si mosquitos ou quem enxota moscas.
3.
Estas nove maneiras de orar usava o bem-aventurado Padre, quando e onde o encaminhava o Espírito Santo, como aqueles santos animais que viu o profeta Ezequiel. E quem duvida que admoestaria com poderosas razões aos seus frades a que fizessem o mesmo.
E como se diz da águia, que voa diante dos seus filhos para os incitar a que eles voem, assim o santo varão se coloca como exemplo aos seus súbditos para que rezassem, e para que na sua Ordem perseverasse este santo exercício como importantíssimo para conservação de toda a virtude.
Tradução.: fr. Filipe, op | Revisão: Maria Torres
Sobre São Domingo de Gusmão
São Domingos de Gusmão: O santo que recebeu das mãos de Nossa Senhora o Santo Rosário
Domingos nasceu na Espanha, em Calaruega, perto de Burgos e da abadia de Silos, em 1170. Era filho de Félix de Guzman e de Joana de Aza, mulher que se distinguiu pela grande piedade.
A Domingos, o que o fez santo, foi a educação cristã que recebeu. Instruído primeiramente na piedade, pela bem-aventurada Joana, e depois pelo preceptor, deu-se ao estudo, com afinco, à oração, com calor, às leituras piedosas, com carinho, e às obras de caridade, com afã.
Por espírito de penitência privava-se dos divertimentos permitidos à idade. Assim, enquanto os jovens da cidade, em bandos ruidosos, buscavam o espairecimento, Domingos, recolhido, procurava a Deus.
Estudando nas escolas públicas, vigiavam, com a maior atenção, o coração e os sentidos. Sempre ocupado com as coisas de Deus, falava pouco e, quando a isto era levado, fazia-o com moderação. Conversar, conversava somente com pessoas virtuosas. Era, então, circunspecto e doce ao mesmo tempo.
Os exemplos da mãe inspiraram-lhe grande devoção a Nossa Senhora e um amor pelos pobres fora do comum. Pelos desprotegidos privava-se de tudo o que possuía. Desfazia-se de dinheiro, de livros, de roupas, para ajudar os infelizes. Destarte, aos vinte anos, já despertava, na cidade em que nasceu, a caridade dos condiscípulos e de todos os habitantes daquela Calaruega de 1190.
A todos os filhos, Joana propiciou sólida educação cristã, imprimindo-lhes o selo de Deus, tanto assim que os três filhos que teve se tornaram religiosos: Domingos seria aquele decantado Domingos que atravessaria os séculos; o mais velho professaria na ordem de São Tiago; e o caçula na ordem dos Irmãos Pregadores, fundada pelo grande irmão.
Joana de Aza, quando o trazia ainda em gestação, sonhou, certa feita, que carregava, no ventre, um cão em cuja boca se prendia, e bem preso entre os dentes, um archote de vivo fogo, fogo esse que se destinava a abrasar o mundo.
Que significava tão estranho sonho? Era um símbolo: na Idade Média, o cão designava os pregadores.
Também a madrinha de Domingos teve um presságio quanto à futura posição do afilhado: viu, uma vez, sobre a cabeça do menino, uma estrela, que dava a entender "que um dia o pequeno seria a luz das nações, e que havia de esclarecer os que jaziam nas trevas e à sombra da morte."
É a estrela que aparece nos quadros do Angélico.
Educado, pois, primeiramente pela mãe, Domingos, depois aos cuidados dum tio, que era arcipreste na vizinhança de Calaruega, aos catorze anos, foi enviado a Palência. Ali estudou com ardor, principalmente teologia, distinguindo-se pela vivacidade, amor ao trabalho e virtudes. A caridade, sobretudo, pairava acima das demais qualidades que o adornavam.
O rumor daquele mérito não tardou a chegar aos ouvidos do bispo de Osma. Assim apenas conheceu o jovem Domingos, agregou-o, sem hesitar, ao seu capítulo.
Depois do ano de 1194, terminados com sucesso os estudos, o predestinado jovem de Calaruega foi residir em Osma, onde se tornou um dos suportes da reforma introduzida pelo bispo.
Por nove anos, o Pai dos pregadores levou vida de claustro. Desta fase da vida de São Domingos nada sabemos, senão que foi para todos os que com ele privavam modelo de piedade e regularidade. Giordano da Saxônia, autor de Libellus de pincipiis ord. Praed., conta-nos que o Santo "vivia confinado ao mosteiro", donde saiu para, com Diego de Acebes, então bispo de Osma, cumprir uma nova missão delicada: pedir para o filho de Afonso IX de Castela, a mão duma princesa das Marcas.
Tudo correu maravilhosamente, e ambos tornaram à Espanha a dar conta do sucesso. O rei, satisfeito, fez com que os dois se incumbissem de trazer a princesa, de modo que o bispo e Domingos, de novo, demandaram as Marcas, para, muito tristemente, constatarem que a jovem que iria desposar o príncipe falecera repentinamente. Ao invés de buscar Castela, Diego enviou mensageiro a Afonso IX, para pô-lo ao par do acontecido, e, com Domingos, rumou para Roma.
O objetivo de Diego de Acebes, em Roma, era tratar com o Papa uma questão que, de há muito vinha acalentando: ver-se livre do bispado, porque queria dar-se todo inteiro à evangelização das tribos nômades e idólatras dos Cumanos, na região do Don e do Volga, desejo que o bom bispo não viu satisfeito, em vista das heresias que então devastavam a cristandade: Inocêncio III, simplesmente, recusara-se tratar do caso de Diego de Acebes, já que outros campos de ação se ofereciam ao zelo do bispo e do companheiro.
Em Languedoc, por exemplo, uma nova heresia surgira que devia ser combatida - a albigense.
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Apenas estabeleceu-se a religião cristã, surgiram-lhe no seio diversas heresias.
Os primeiros séculos da Igreja foram os que produziram maior número de sectários, a cuja frente se encontravam, quase sempre, bispos e arcebispos.
Naqueles tempos apareceram sucessivamente os gnósticos, que ensinavam que bastava a fé sem as boas obras, e cujos adeptos se arrogavam um conhecimento sublime da natureza e dos atributos divinos; os nicolaítas, que defendiam que as mulheres deviam ser comuns; os arianos, que negavam a consubstancialidade, ou seja, a igualdade de substância do Filho e do Pai na Trindade... (...)
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Do século XII para o século XIII, vivia tranquila e pacificamente entre o Garona e a margem esquerda do Ródano uma população composta de homens simples, sensatos e valorosos, que a história, mais tarde, designaria com o nome de albigenses, homens que, contaminando por pregações apaixonadas que ameaçavam a Igreja, tornaram-se heréticos, rejeitando a autoridade papal e não admitindo a maior parte dos sacramentos. Pelo ano de 1200, estes hereges de Albi, achavam-se espalhados por quase toda a Europa, mas em maior número e, pois, mais perigosamente, ao longo do curso inferior do Danúbio, no norte da Itália e ao sul da França.
A doutrina filosófica da seita calcava-se num velho princípio pagão: a existência de duas divindades, uma boa, que criara as almas, e outra má, que criara o mundo dos corpos. E, ensinando que os homens deviam resguardar-se de tudo aquilo que fosse corpóreo, acabavam os seus adeptos, a rejeitar o matrimônio, a vida de família, tudo aquilo, enfim, que julgavam fosse de encontro com a pura espiritualidade.
Destarte, os mais ardorosos, os mais zelosos, passavam, muitas vezes, a desejar a morte.
Tanto pela filosofia como pelo modus vivendi, tais hereges eram, pois, naturais inimigos da Igreja Católica.
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O Papa Lúcio III, alarmado com a consistência que tomavam os albigenses, os valdenses, restauradores do donatismo, e outras heresias, reuniu, em 1184, um grande concílio em Verona, do qual participou, espontaneamente, o imperador Frederico I.
Aquele concílio de Verona tomou as mais severas disposições contra os hereges: decretou que os condes, barões e outros senhores jurassem ajudar, e de mão armada, a Igreja, para descobrir e castigar os hereges, sob pena de serem excomungados e perder bens e direitos.
Os demais, que prometessem, também debaixo de juramento, denunciar ao bispo ou aos delegados, todas as pessoas que se suspeitasse viviam, na heresia ou formavam sociedade secretas.
A disciplina canônica, decretada pelo concílio de Verona daquele ano de 1184, faz crer que o estabelecimento da Inquisição datava daquela época.
O advento de Inocêncio III ao pontificado, em 1198, marcou a fase memorável da história da Inquisição. Este Papa, ao ver que a heresia dos albigenses triunfava das bulas apostólicas, insatisfeito com a maneira com que os bispos e delegados executavam as medidas decretadas pelo concílio de Verona, acabou por optar pela adoção de comissários que seriam encarregados de reparar o mal que os prelados não haviam extirpado. E, se não se atreveu, prontamente, a privá-lo da intervenção nos assuntos relativos aos hereges, achou meios de fazer com que a autoridade episcopal se tornasse quase nula.
Em 1203, Inocêncio III encarregou Pedro de Castelnau e a um Raul, ambos monges de Cister, de pregar contra os albigenses. Tais pregações tiveram êxito. Assim, pareceu ao Papa ser favorável o momento para introduzir na Igreja inquisidores dependentes dos bispos, que tivessem o direito de perseguir os hereges.
Diego de Acebes e Domingos de Gusmão, tornaram-se famosos perseguindo hereges com calorosíssimas pregações.
Em 1208, na França, sob o reinado de Filipe II e sob o pontificado de Inocêncio III, teve lugar o definitivo estabelecimento da Inquisição.
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Alguns meses antes da morte de Inocêncio III, São Domingos, cujo zelo em agir contra os hereges tornara-o estimadíssimo do Santo Padre, apresentou-se à corte romana com o fito de obter a autorização para fundar uma ordem destinada a pregar contra as heresias.
O Papa acolheu a ideia com grande satisfação, não escondendo a alegria que lhe ia na alma.
Dada a autorização, Domingos, imediatamente, pôs mão à obra: organizou o instituto e impôs-lhe a regra de Santo Agostinho, porque o concílio Lateranense de 1215 proibia novas Regras para ordens religiosas.
Em vista das novas Ordens, diz Joergensen que, numerosas haviam surgido em torno do ano de 1200, e para por fim à confusão que daí derivava, o concílio formalmente decretara que, no futuro, nenhuma ordem nova seria aprovada pela Igreja, e que nem quer que quisesse fundar uma nova orem, ou construir um novo convento, seria obrigado a aceitar uma das antigas Regras, já aprovadas.
E continua, falando de São Domingos:
E continua, falando de São Domingos:
Entre os primeiros fundadores atingidos por este decreto estava São Domingos. E, em nota ao seu Livro III, diz Joergensen:
Este fato bastaria para destruir a asserção do escritor dinamarquês Bierfreund, segundo o qual Domingos, ao contrário de Francisco, teria sido sempre o favorito do Papa e da corte romana, e dele teria sempre obtido os privilégios pedidos. E continua o texto:
Segundo Giordano da Saxônia, o Concílio de Latrão reconheceu tanto os frades dominicanos como os frades menores: mas nem uns nem outros puderam obter a aprovação pontifícia de sua Regra. O próprio Domingos, foi expressamente convidado a voltar para casa, e a deliberar com os seus frades sobre a escolha de uma regra a ase impor, entre as de ordens já existentes.
Como é sabido, os dominicanos escolheram a regra de Santo Agostinho; e Honório aprovou a escolha deles, declarando, de modo bastante explícito, que os dominicanos eram "uma ordem de cônegos segundo a Regra de Santo Agostinho".
Morto Inocêncio III, Honório III subiu ao trono imperecível de São Pedro.
Satisfeito com a conduta de Domingos e dos companheiros, o novo pontífice autorizou a propagação da ordem em toda a Cristandade, de modo que, em pouco tempo, a Espanha e a Itália sentiam os seus efeitos.
Os dominicanos, pois, associados com a Inquisição, foram apóstolos da cruzada contra os albigenses, que o conde de Tolosa, senhor deudal, protegia, conde que chegou ao extremo de, em 1208, assassinar o delegado da Santa Sé, Pedro de Castelnau.
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Um dos meios mais eficazes que São Domingos empregou para obter de Deus a conversão dos hereges, ao mesmo tempo, instruir os fiéis, foi a prática e a instituição do Santo Rosário, prática que consiste em se recitar quinze Pai-Nossos, e depois de cada Pai-Nosso, uma dezena de Ave-Marias, para honrar os quinze principais mistérios da vida de Jesus e de sua Santa Mãe. O terço é a sua terça parte. Rezá-lo bem é unir a oração do coração à oração vocal.
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Sixto V aprovou o antigo costume de recitar o Rosário. Gregório XIII instituiu a festa do Rosário. Clemente VIII introduziu-a no Martirológio. Clemente XI estendeu-a a toda a Igreja. Benedito XIII inseriu-a depois no Breviário Romano.
Leão XIII, na Encíclica Diuturni temporis, de 1891, falando sobre a festa do Rosário, diz:
Nós, em perene testemunho de nosso apreço por esta forma de piedade, além de havermos decretados que dita festa eu seu Ofício sejam celebrados em toda a Igreja, co rito duplo de segunda classe, também quisemos que o mês de outubro inteiro fosse consagrado a esta devoção. Enfim, prescrevemos que nas Ladainhas Lauretanas, se acrescentasse a invocação: "Rainha do sacratíssimo Rosário, como augúrio de vitória na presente luta".
O Papa Leão XIII, sobre o Rosário de Nossa Senhora, deixou-nos várias Encíclicas. Na sua Octobri Mense, entre outras coisas, sobre a excelência do Rosário, origem e glórias, escreve:
Ora, como quer que, entre as diversas formas e maneiras de honrar a divina Mãe, são de preferir aquelas que por si mesmas são julgadas mais excelentes e a ela mais agradáveis, apraz-nos expressamente apontar e vivamente recomendar o santo Rosário.
A este modo de orar doi dado, na linguagem comum, o nome de coroa, porque ela também recorda, num feliz enredo, os grandes mistérios de Jesus e de Maria: as suas alegrias, as suas dores e os seus triunfos.
Se os fiéis meditarem e contemplarem devotamente, na ordem devida, estes augustos mistérios, haurirão deles um admirável auxílio, quer em alimentar a sua fé e em preservá-la da ignorância e do contágio dos erros, quer em elevar e fortalecer o vigor do seu espírito. Com efeito, por esse modo o pensamento e a memória de quem reza são, à luz da fé, atraídos com suavíssimo ardor para esses mistérios. Neles concentrados e imersos, nunca se cansarão de admirar a obra inenarrável da Redenção humana, levada a efeito a tão caro preço e com uma sucessão de tão grandes acontecimentos. E, diante destas provas da divina caridade, a alma se inflamará de amor e de ingratidão, consolidará e aumentará a sua esperança, e avidamente visará à recompensa celeste, preparada por Cristo para aqueles que se Lhe houverem unido pela imitação dos seus exemplos e pela participação das suas dores.
E enquanto isso, com os lábios se pronunciam as orações ensinadas pelo próprio Cristo, pelo Arcanjo Gabriel e pela Igreja. Orações tão cheias de louvores e de salutares aspirações não poderão ser repetidas, sem produzirem sempre novos e suaves frutos de piedade.
Que, pois, a própria Rainha do Céu haja ligado a esta oração uma grande eficácia, demonstra-o o fato de haver ela sido instituída e propagada pelo ínclito São Domingos, por impulso e inspiração dela, em tempos especialmente tristes para a causa católica, e bem diferentes dos nossos, e instituída como um instrumento de guerra eficacíssimo para combater os inimigos da fé.
Com efeito, a seita herética dos albigenses, ora sorrateira, ora abertamente, invadira numerosas regiões, espantosa descendência dos maniqueus, repetia ela os monstruosos erros destes, e renovada as suas hostilidades, as suas violências e o seu ódio profundo contra a Igreja.
Contra essa turba tão perniciosa e arrogante, já agora pouco ou nada se podia contar com os auxílios humanos, quando o socorro manifestamente de Deus, por meio do Rosário de Maria.
Assim, graças à Virgem, gloriosa e debeladora de todas as heresias, as forças dos ímpios foram abatidas e quebradas, e a fé de muitíssimos ficou salva e intacta. E pode dizer-se que semelhantes fatos se verificaram no seio de todos os povos. Quantos perigos conjurados! Quantos benefícios alcançados! A história antiga e moderna aí está para o demonstrar com os mais luminosos testemunhos."
(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIV, p. 94 à 114)
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