quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A utopia de um mundo onde caibam todos os mundos

Vivemos, para todos os efeitos, em um mundo globalizado. E o que se convencionou chamar de “Globalização” é, no fundo, uma construção ideológica do neo-liberalismo a serviço do mercado que se caracteriza por uma tríplice pretensão: onipotência, onipresença e onisciência. Talvez a melhor caracterização que temos da Globalização seja aquela feita com invejável rigor e plasticidade por E. Morin. Segundo ele, estamos navegando rumo a uma era planetária movida por duas hélices. As hélices não remontam propriamente à imagem do avião, mas aos modelos helicoidais do nosso DNA.

A primeira se encontra sob a hegemonia do poder-dominação e é impulsionada por quatro motores: a ciência sujeita à técnica que, por sua vez, é submetida à indústria, que, por sua vez, é subordinada à lógica do lucro. Deste modo, segundo Morin, a nave espacial Terra é colocada em movimento por esses quatro motores interconectados. A segunda distingue-se pela luta pelos direitos da pessoa humana, pelo direito dos povos à soberania, aos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, democracia.

Não resta dúvida que a Globalização em seu estado atual traz em seu próprio bojo uma gama enorme de transformações de tal sorte que se torna cada vez mais legítimo afirmar que o “nosso tempo” se caracteriza por uma “grande transformação”, cujos sintomas são perceptíveis em fenômenos como: a inovação constante, a crise da sociedade salarial, a financeirização do mundo, a sociedade do risco, do controle e do biopoder, o fim do social numa sociedade dita “pós-social”.

Todavia, o principal resultado da Globalização neoliberal e do Imperialismo é, sem dúvida, a pobreza estrutural na qual vive nada menos que 2/3 da inteira população do Planeta. Precisamente aqui, se revela o caráter estruturalmente excludente da Globalização neoliberal. E essa situação de exclusão se agrava ainda mais quando se tem presente que estamos falando da exclusão não só de pessoas e de setores da população, mas de povos e continentes inteiros. Na sua raiz mais profunda, portanto, a globalização econômica provoca assimetria em todas as esferas: economia, política, cultura e também religião.

Temos testemunhado recentemente o despertar de um verdadeiro imperialismo autoritário com discurso e prática fundamentalistas. Usam-se cada vez mais expressões eufemistas como: “império da paz”, “império da liberdade”, “império da democracia”, “império da civilização”, “civilização do Bem contra o reino do mal”, “guerra infinita”. Nesse sentido, o “novo imperialismo” encarna a síntese de todos os fundamentalismos: político, econômico, cultural e religioso. Embora os fiéis guardiães desse imperialismo sejam os Estados Unidos da América com seu potente exército – e isso ficou claro após as invasões do Afeganistão e do Iraque – seus reais detentores são os representantes do capitalismo global. E estes, por sua vez, são apoiados e sustentados pelos mais poderosos organismos internacionais como o Banco Mundial, o FMI, Organização Mundial do Comércio, etc…

O recurso a alguns dados poderá ilustrar melhor essa situação estrutural de exclusão. Em 1960, para cada pessoa considerada rica no mundo havia 30 pobres; hoje, essa situação se radicalizou de maneira brusca, pois, para cada rico, existem hoje 80 pobres no mundo. Dos 6.200 bilhões de habitantes, cerca de 2.852 bilhões de pessoas vivem na pobreza, dentre os quais, 1.200 se encontram na pobreza extrema. Os que vivem, portanto, na pobreza corresponderiam aproximadamente a 46% da população do Planeta.

Só para se ter uma ideia da gravidade do problema: segundo a FAO, a cada dia, morrem 35.000 crianças de fome, isto é, 10 vezes o número de pessoas mortas na destruição do World Trade Center. Na América Latina, a situação é alarmante: 44,4% da inteira população vivem na pobreza e 19,4% na extrema indigência, perfazendo um total de 63,8% de excluídos. O recurso a estes índices e cifras parece altamente esclarecedor na medida em que nos coloca diante do quadro real e estrutural da Globalização neoliberal, pois, na verdade, dos aproximadamente 6 bilhões de habitantes do inteiro Planeta, apenas 1,5 bilhão de pessoas gozam de todos os benesses produzidos pelos sofisticados meios técnico-científicos enquanto que 4,5 bilhões se encontram numa situação de total exclusão.

Tais constatações levam-nos a refletir seriamente sobre os conflitos provocados pela atual dinâmica da sociedade contemporânea. O primeiro deles seria entre a reprodução da humanidade e os destinos do Planeta. Encontramo-nos, para todos os efeitos, encurralados dentro de um beco-sem-saída: de um lado, nossas sociedades têm cada vez mais necessidade da Terra e de seus recursos; de outro, o Planeta suporta cada vez menos nosso crescimento. Não menos grave é o conflito entre a reprodução do capitalismo e da humanidade. A reprodução do capitalismo está cada vez menos relacionada com a reprodução da humanidade, pelo fato do capitalismo se autonomizar cada vez mais da sociedade na qual se encontra inserido.

E, por último, a Terra e as pessoas humanas que nela habitam estão à mercê de uma economia que se impõe como a fatalidade do “nosso tempo”. Trata-se de um acirrado conflito entre a reprodução do capitalismo, incluída naturalmente parte da humanidade ligada a suas atividades e a seus produtos, e a reprodução da Terra com o conjunto de suas criaturas. Numa palavra, as prioridades do capitalismo neo-liberal são radicalmente distintas daquelas orientadas pela ética e pelos valores humanos.

Consciente desta alarmante situação, pergunta-se E. Morin: “Seremos capazes de ir rumo a uma sociedade-mundo portadora do nascimento da própria humanidade? Eis a questão. A humanidade está em formação. Há possibilidade de rechaçar a barbárie e realmente civilizar os humanos? Será possível salvar a humanidade, realizando-a? Nada está definido, nem o pior”. Talvez seja esse, de fato, o grande desafio que nos é lançado em meio à conjuntura atual: a humanidade não está conseguindo mais gerar a humanidade. Nesse caso, a segunda hélice da qual falava Morin precisa ser reforçada pela inteligência e consciência humanas para que a nave espacial Terra não se torne um Titanic.

Toda a reflexão que fizemos até agora desembocará espontaneamente na eleição de uma perspectiva a partir da qual compreender esta complexa realidade e se posicionar coerentemente face à mesma. Como criaturas limitadas que somos devemos renunciar a toda e qualquer pretensão de totalidade. Enquanto tais, nós poderemos, na melhor das hipóteses, ensaiar, quem sabe, achegas distintas à realidade no seu complexo. Tais achegas, contudo, serão sempre parciais e fragmentadas. Nada além de simples clareiras que se abrem a partir de distintas perspectivas parciais. Esse é nosso limite, mas é também nossa chance, possibilidade privilegiada de compreensão da realidade e do conseqüente engajamento responsável em seu complexo tecido.

Além do mais, uma específica parcialidade inerente à fé cristã fica por conta da consciência da imprescindibilidade de se manter a fidelidade à parcialidade evangélica testemunhada por Jesus de Nazaré. Como cristãos somos desafiados a manter aquela sadia solidariedade para com Jesus na sua parcialidade de pregador enviado a anunciar a Boa-nova aos pobres e aos excluídos. A assunção dessa parcialidade evangélica permitirá a nós cristãos ver determinadas coisas que só se vêm a partir da condição na qual eles se encontram. E o que é ainda mais importante: levar-nos-á a uma correção da própria maneira de pensar e de conceber as grandes questões que assolam a grande maioria de nossas populações condenando-as à trágica condição de vítimas indefesas e inocentes.

Talvez hoje, mais do que nunca, os pobres têm sido colocados à margem de nossas relações econômicas, políticas, sociais e culturais a ponto de serem completamente excluídos de toda e qualquer convivência humana e social. Talvez a maior exclusão seja a de sequer prestar ouvidos aos clamores dos pobres por mais vida. Até mesmo seu clamor tem sido hoje silenciado mediante o recurso a tantos expedientes escusos e sofisticados. Chega-se a provar hoje em não poucos ambientes uma resistência ferrenha a sequer mencionar a existência dos pobres. Eles se encontram, de fato, completamente excluídos até de nossas agendas nesse princípio de século. Enquanto cristãos, inseridos na realidade do continente latino-americano neste limiar de século XXI, jamais poderemos ignorar aquela preciosidade que aflorou no coração mesmo de nossas comunidades que é “a opção pelos pobres contra a sua pobreza” como a caracterizou magistralmente o Documento de Puebla, aprofundando assim os sulcos abertos pela Conferência de Medellín.

Diante da gravidade desta situação, qual a posição do Cristianismo que se caracteriza como uma religião com pretensões de universalidade? Tendo presente que as maiores contradições e assimetrias se dão no Terceiro Mundo, onde se encontra 70% dos cristãos, o que teríamos nós cristãos a dizer diante do caráter eminentemente escandaloso desta situação? Qual seria nossa contribuição específica no processo de superação desta exclusão estrutural? Estamos dispostos a fomentar uma globalização não dos interesses do mercado e do capital transnacional, mas da solidariedade e da esperança, da justiça e da paz, dos direitos humanos, sociais e ecológicos? Seria utópico, de nossa parte, engajar-se na construção de um mundo onde caibam todos os mundos? T
 
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

70 mil acessos

NOSSO MUITO OBRIGADO A TODOS.
ATINGIMOS MAIS DE 70 MIL ACESSOS, ESPERAMOS QUE MESMO EM MEIO A TODAS AS DIFICULDADES QUE ENFRENTAMOS PARA LEVAR O EVANGELHO A TODOS OS CANTOS DO MUNDO, NUNCA PERCAMOS A ESPERANÇA. TODOS OS DIAS ALGUÉM PRECISA OUVIR SOBRE JESUS CRISTO, SOBRE SUA PESSOA, SUA HISTÓRIA, SUA AÇÃO NAS NOSSAS VIDAS, POIS ATRAVÉS DELE MUITAS VIDAS CONTINUAM SENDO TRANSFORMADAS, VAMOS EM FRENTE, AVANTE...
 
A EQUIPE:
FILHOS ESPIRITUAIS DE PE. PIO

sábado, 2 de novembro de 2013

Fiéis falecidos

02 de Novembro. Hoje a Igreja celebra o dia de todos os fiéis falecidos. O Purgatório: lugar de Purificação. Neste mês de Novembro, a Igreja convida-nos com maior insistência a rezar e a oferecer sufrágios pelos fiéis defuntos do Purgatório. Com esses irmãos nossos, que “também participaram da fragilidade própria de todo o ser humano, sentimos o dever - que é ao mesmo tempo uma necessidade do coração - de oferecer-lhes a ajuda afetuosa da nossa oração, a fim de que qualquer eventual resíduo de debilidade humana, que ainda possa adiar o seu encontro feliz com Deus, seja definitivamente apagado”, ensina-nos João Paulo II. No Céu, não pode entrar nada de impuro, nem “quem cometa abominação ou mentira, mas somente aqueles que estão inscritos no livro da vida” (Apocalipse 21). A alma desfeada pelas faltas e pecados veniais não pode entrar na morada de Deus: para chegar à eterna bem-aventurança, tem de estar limpa de toda a culpa. O Céu não tem portas - escreve Santa Catarina de Gênova -, e quem quiser entrar pode fazê-lo, porque Deus é todo misericórdia e permanece com os braços abertos para admiti-lo na sua glória. No entanto, o ser de Deus é tão puro que, se uma alma nota em si o menor vestígio de imperfeição, e ao mesmo tempo vê que o Purgatório foi estabelecido para apagar tais manchas, introduz-se nele e considera um grande favor que lhe seja permitido limpar-se dessa forma. O maior sofrimento dessas almas é o de terem pecado contra a bondade divina e o de não terem purificado a alma nesta vida. O Purgatório não é um inferno atenuado, mas o vestíbulo do Céu, onde a alma se purifica. E se não se expiou na terra, são muitas as realidades que a alma deve limpar ali; pecados veniais, que adiam tanto a união com Deus; faltas de amor e de delicadeza com o Senhor; a inclinação para o pecado, adquirida na primeira queda e aumentada pelos pecados pessoais… Além disso, todos os pecados e faltas já perdoados na Confissão deixam na alma uma dívida, um desequilíbrio que tem de ser reparado nesta vida ou na outra. E é possível que as disposições resultantes dos pecados já perdoados continuem enraizadas na alma à hora da morte, se não foram eliminadas por uma purificação constante e generosa nesta vida. Ao morrer, a alma percebe-as com absoluta clareza, e terá, pelo desejo de estar com Deus, um anelo imenso de livrar-se delas. O Purgatório apresenta-se então como a oportunidade única de consegui-lo. Neste lugar de purificação, experimentam-se uma dor e um sofrimento intensíssimos: um fogo “mais doloroso do que qualquer coisa que um homem pode sofrer nesta vida”, ensina Santo Agostinho. Mas também se experimenta muita alegria, porque se sabe que se ganhou definitivamente a batalha e que o encontro com Deus virá mais cedo ou mais tarde. A alma que está no Purgatório assemelha-se a um aventureiro no limiar de um deserto. O sol queima, o calor é sufocante, dispõe de pouca água; divisa ao longe, para além do grande deserto, a montanha onde se encontra o tesouro, a montanha onde sopram brisas frescas e onde poderá descansar eternamente. E põe-se a caminho, disposta a percorrer a pé aquela distância, ainda que o calor asfixiante a faça cair uma vez e outra. A diferença entre os dois está em que, no Purgatório, se tem a certeza de chegar à meta, por mais asfixiantes que sejam os sofrimentos. Nós aqui na terra podemos ajudar muito essas almas a percorrerem mais depressa esse longo deserto que as separa de Deus. E ao mesmo tempo, com a expiação das nossas faltas e pecados, abreviaremos a nossa própria passagem por esse lugar de purificação. Se, com a ajuda da graça, formos generosos na prática da penitência, no oferecimento da dor e no amor ao sacramento do perdão, poderemos ir diretamente para o Céu. Isso é o que fizeram os santos. E eles nos convidam a imitá-los.

http://luizcarlostotustuusmaria.tumblr.com/

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Os 12 graus do silêncio



A vida interior poderia consistir só nesta palavra: Silêncio! O silêncio prepara os santos; ele os começa, os continua e os acaba. Deus, que é eterno, não diz mais que uma só palavra, que é o Verbo. Do mesmo modo, seria desejável que todas as nossas palavras digam Jesus direta ou indiretamente. Esta palavra: silêncio, quão formosa é!
 

1º Falar pouco às criaturas e muito a Deus
Este é o primeiro passo, mas indispensável, nas vias solitárias do silêncio. Nesta escola é onde se ensinam os elementos que dispõe à união divina. Aqui a alma estuda e aprofunda esta virtude, no espírito do Evangelho, no espírito da Regra que abraçou, respeitando os lugares consagrados, as pessoas, e sobretudo esta língua na qual tão freqüentemente descansa o Verbo ou a Palavra do Pai, o Verbo feito carne. Silêncio ao mundo, silêncio às notícias, silêncio com as almas mais justas: a voz de um Anjo turbou Maria…

2º Silêncio no trabalho, nos movimentos
Silêncio no porte; silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz; silêncio de todo o ser exterior, que prepara a alma para passar a Deus. A alma merece tanto quanto pode, por estes primeiros esforços em escutar a voz do Senhor. Que bem recompensado é este primeiro passo! Deus a chama ao deserto, e por isso, neste segundo estado, a alma aparta tudo o que poderia distraí-la; se distancia do ruído, e foge sozinha Àquele que somente é. Ali ela saboreará as primícias da união divina e o zelo de seu Deus. É o silêncio do recolhimento, ou o recolhimento do silêncio.

3º Silêncio da imaginação
Esta faculdade é a primeira em chamar à porta fechada do jardim do Esposo; com ela vêm as emoções alheias, as vagas impressões, as tristezas. Mas neste lugar retirado, a alma dará ao Bem Amado provas de seu amor. Apresentará a esta potência, que não pode ser destruída, as belezas do céu, os encantos de seu Senhor, as cenas do Calvário, as perfeições de seu Deus. Então, também ela permanecerá no silêncio, e será a servente silenciosa do Amor divino.

4º Silêncio da memória
Silêncio ao passado… esquecimento. Há que saturar esta faculdade com a recordação das misericórdias de Deus… É o agradecimento no silêncio, é o silêncio da ação de graças.

5º Silêncio às criaturas
Oh, miséria de nossa condição presente! Com freqüência a alma, atenta a si mesma, se surpreende conversando interiormente com as criaturas, respondendo em seu nome. Oh, humilhação que fez gemer os santos! Nesse momento esta alma deve retirar-se docemente às mais íntimas profundezas deste lugar escondido, onde descansa a Majestade inacessível do Santo dos santos, e onde Jesus, seu consolador e seu Deus, se descobrirá a ela, lhe revelará seus segredos, e a fará provar a bem-aventurança futura. Então lhe dará um amargo desgosto para tudo o que não é Ele, e tudo o que é da terra deixará pouco a pouco de distrair-la.
 

6º Silêncio do coração

Se a língua está muda, se os sentidos se encontram na calma, se a imaginação, a memória e as criaturas se calam e fazem silêncio, se não ao redor, ao menos no íntimo desta alma de esposa, o coração fará pouco ruído. Silêncio dos afetos, das antipatias, silêncio dos desejos no que tem de demasiado ardente, silêncio do zelo no que tem de indiscreto; silêncio do fervor no que tem de exagerado; silêncio até nos suspiros… Silêncio do amor no que tem de exaltado, não dessa exaltação da qual Deus é autor, senão daquela na qual se mistura a natureza. O silêncio do amor, é o amor no silêncio…
É o silêncio diante de Deus, suma beleza, bondade, perfeição… Silêncio que não tem nada de chateado, de forçado; este silêncio não danifica a ternura, o vigor deste amor, de modo semelhante a como o reconhecimento das faltas não danifica tampouco o silêncio da humildade, nem o bater das asas dos anjos de que fala o profeta o silêncio de sua obediência, nem o fiat o silêncio de Getsemani, nem o Sanctus eterno o silêncio dos serafins…
Um coração no silêncio é um coração de virgem, é uma melodia para o coração de Deus. A lâmpada se consome sem ruído diante do Sacrário, e o incenso sobe em silêncio até o trono do Salvador: assim é o silêncio do amor. Nos graus precedentes, o silêncio era ainda a queixa da terra; neste a alma, por sua pureza, começa a aprender a primeira nota deste cântico sagrado que é o cântico dos céus.

7º Silêncio da natureza, do amor próprio
Silêncio à vista da própria corrupção, da própria incapacidade. Silêncio da alma que se compraz na sua baixeza. Silêncio aos louvores, à estima. Silêncio diante dos desprezos, das preferências, das murmurações; é o silêncio da doçura e da humildade. Silêncio da natureza diante das alegrias ou dos prazeres. A flor se abre no silêncio e seu perfume louva em silêncio ao criador: a alma interior deve fazer o mesmo. Silêncio da natureza na pena ou na contradição. Silêncio nos jejuns, nas vigílias, nas fadigas, no frio e no calor. Silêncio na saúde, na enfermidade, na privação de todas as coisas: é o silêncio eloqüente da verdadeira pobreza e da penitência; é o silêncio tão amável da morte a todo o criado e humano. É o silêncio do eu humano transformando-se no querer divino. Os estremecimentos da natureza não poderiam turbar este silêncio, porque está acima da natureza.

8º Silêncio do espírito
Fazer calar os pensamentos inúteis, os pensamentos agradáveis e naturais; só estes danificam o silêncio do espírito, e não o pensamento em si mesmo, que não pode deixar de existir. Nosso espírito quer a verdade, e nós lhe damos a mentira! Agora bem, a verdade essencial é Deus! Deus é o bastante à sua própria inteligência divina, e não basta à pobre inteligência humana!
No que concerne a uma contemplação de Deus perene e imediata, não é possível na debilidade da carne, a não ser que Deus conceda um puro dom de sua bondade; mas o silêncio nos exercícios próprios do espírito consiste, em relação à fé, em contentar-se com sua luz escura. Silêncio aos raciocínios sutis que debilitam a vontade e dissecam o amor. Silêncio na intenção: pureza, simplicidade; silêncio às buscas pessoais; na meditação, silêncio à curiosidade; na oração, silêncio às próprias operações, que não fazem mais que entravar a obra de Deus. Silêncio ao orgulho que se busca em tudo, sempre e em todas as partes; que quer o belo, o bem, o sublime; é o silêncio da santa simplicidade, do desprendimento total, da retidão.
Um espírito que combate contra tais inimigos é semelhante a esses anjos que vêem sem cessar a Face de Deus. Esta é a inteligência, sempre no silêncio, que Deus eleva a si.

9º Silêncio do juízo
Silêncio quanto às pessoas, silêncio quanto às coisas. Não julgar, não deixar ver a própria opinião. Não ter opinião às vezes, ou seja, ceder com simplicidade, sem nada se opor a ele por prudência ou por caridade. É o silêncio da bem-aventurada e santa infância, é o silêncio dos perfeitos, o silêncio dos anjos e dos arcanjos, quando seguem as ordens de Deus. É o silêncio do Verbo encarnado!

10º Silêncio da vontade
O silêncio aos mandamentos, o silêncio às santas leis da regra, não é, por dizer assim, mais que o silêncio exterior da própria vontade. O Senhor tem algo que ensinar-nos de mais profundo e de mais difícil: o silêncio do escravo sob os golpes de seu amo. Mas, feliz escravo, pois o Amo é Deus! Este silêncio é o da vítima sobre o altar, é o silêncio do cordeiro que é despojado de sua pele, é o silêncio nas trevas, silêncio que impede pedir a luz, ao menos a que alegra.

É o silêncio nas angústias do coração, nas dores da alma; o silêncio de uma alma que se viu favorecida por seu Deus, e que, sentindo-se rechaçada por Ele, não pronuncia nem sequer estas palavras: Por que? Até quando? É o silêncio no abandono, o silêncio sob a severidade do olhar de Deus, sob o peso de sua mão divina; o silêncio sem outra queixa que a do amor. É o silêncio da crucifixão, é mais que o silêncio dos mártires, é o silêncio da agonia de Jesus Cristo. Se este silêncio é seu divino silêncio e nada é comparável à sua voz, nada resiste à sua oração, nada é mais digno de Deus que esta classe de louvor na dor, que este fiat no sofrimento, que este silêncio no trabalho da morte.
Enquanto esta vontade humilde e livre, verdadeiro holocausto de amor, se despedaça e se destrói para a glória do nome de Deus, Ele a transforma em sua vontade divina. Então o que falta para sua perfeição? O que requer ainda para a união? O que falta para que Cristo seja acabado nesta alma? Duas coisas: a primeira é o último suspiro do ser humano; a segunda é uma doce atenção ao Bem Amado cujo beijo divino é a inefável recompensa.

11º Silêncio consigo mesmo
Não falar-se interiormente, não escutar-se, não queixar-se nem consolar-se. Em uma palavra, calar-se consigo mesmo, esquecer-se de si mesmo, deixar-se só, completamente só com Deus; fugir, separar-se de si mesmo. Este é o silêncio mais difícil, e sem embargo é essencial para unir-se a Deus tão perfeitamente como possa fazê-lo uma pobre criatura que, com a graça, chega com freqüência até aqui, mas se detém neste grau, porque não o compreende e o pratica menos ainda. É o silêncio do nada. É mais heróico que o silêncio da morte.

12º Silêncio com Deus
No começo Deus dizia à alma: “Fala pouco às criaturas e muito comigo”. Aqui lhe diz: “Não me fales mais”. O silêncio com Deus é aderir-se a Deus, apresentar-se e expor-se diante de Deus, oferecer-se a Ele, aniquilar-se diante dEle, adorá-lo, amá-lo, escutá-lo, ouvi-lo, descansar nEle. É o silêncio da eternidade, é a união da alma com Deus.

Fonte: Livre-tradução do Artigo “Los doce grados del silencio” de “Sor Amada de Jesús” publicado em “Cuadernos de La Reja” número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX.
www.afecatolica.com

Nota de Falecimento: Frei Inácio Larrañaga, OFMCap.




(4 Maio 1928 – 28 Outubro 2013)
[OFMCap.] Durante o seu incansável trabalho pastoral, voltou à casa do Pai Celestial em Guadalajara (México), na manhã de 28 de Outubro de 2013, Frei Ignácio Larrañaga Orbegozo. Concluiu-se, assim, a sua vida dedicada a implantar o Deus vivo e verdadeiro nos corações das pessoas.

Frei Ignácio nasceu em Loyola aos 4 de maio de 1928. Ordenado sacerdote em Pamplona, foi poucos meses depois, mandado ao Chile, onde começa a desenvolver uma intensa atividade de evangelização. Em 1965 fundou o Centro de Estudos Franciscanos e Pastorais (CEFEPAL), dedicando-se por uma dezena de anos a uma grande animação franciscana pós-conciliar em vários países da América Latina.

Em 1974, no Brasil, começa com os retiros semanais chamados “Encontro-Experiência de Deus”, que ele conduziu incansavelmente por 23 anos com a participação de dezenas de milhares de pessoas.

Desde 1984 começou a obra mais importante de sua vida, as “Oficinas de Oração e Vida”, reconhecida pela Santa Sé como eficaz método da nova evangelização e à qual dedicou os últimos trinta anos de sua vida percorrendo mais de 40 países do mundo.

Frei Ignácio é autor de 16 livros traduzidos em mais de 10 línguas! Entre os mais importantes estão; “Mostra-me o teu rosto”, “O Irmão de Assis”, “O Pobre de Nazaré”, “Salmos para a vida”, “O Silêncio de Maria”, “Do sofrimento à Paz”, “Matrimônio Feliz” e a sua autobiografia espiritual “A Rosa e o Fogo”. T

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Piedade

A piedade é dom do Espírito Santo que dá ao homem o amor e o respeito às coisas religiosas, levando-o à oração e aos exercícios de piedade e às obras de caridades corporais e espirituais. A verdadeira piedade não leva ao desleixo das obrigações urgentes do estado de vida abraçado, para ficar o dia inteiro na igreja, descuidado das coisas do lar ou dos deveres de Estado. Assim, São Paulo chega a dizer que a piedade é útil para tudo. Por meio da piedade mantemos um contato contínuo com Deus na oração, mas sem pieguice nem esquisitices que mais incomodam os outros do que edificam. A verdadeira piedade sempre edifica e move o próximo à imitação.

Frei Danillo Marques da Silva, OFM

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O demônio odeia os padres

São João Crisóstomo, segundo me disseram, disse que o chão do inferno é acarpetado com os crânios dos padres. Eu nunca ter localizado a fonte. No entanto, quando ouvimos as palavras do Senhor sobre moenda e aqueles que os merecem, e nós ouvimos as suas palavras sobre "a quem muito é dado," parece que alguns sentem tremor perante está em ordem.


Sacerdotes, especialmente, devem ser aterrorizados por essas advertências. As oportunidades para a glória espetacular (não as do mundo) ou o perigo espetacular (também não o do mundo) confrontar, a cada dia, a cada homem ordenado único da Igreja Católica. Um bom sinal de que um sacerdote agarra a realidade de sua responsabilidade e o preço do fracasso é que ele faz uma hora santa diante do Santíssimo Sacramento todos os dias.

E os leigos católicos devem, devem, devem rezar pelos sacerdotes todos os dias. O diabo odeia os sacerdotes. Ele quer nada mais do que entregá-los simultaneamente ao desprezo do mundo e as dores eternas do inferno. Satanás não se cansa.

Relatos das falhas morais do clero, de párocos, continuam a envergonhar a Igreja e desencorajar os fiéis, e eles nos lembram de nossa obrigação de rezar pelos sacerdotes, para seu bem e para o bem daqueles cujas vidas eles tocam para uma melhor ou para o mal, o visível e o invisível.

Em todo o caos em ambos os lados do Atlântico, você pode ter perdido a infeliz notícia de que um membro muito respeitado e muito bem colocado do clero de uma importante Diocese da Costa Leste (EUA) foi acusado há um mês ou mais por venda ilegal de metanfetaminas .

Além disso, ele foi acusado de lavagem de dinheiro sobre as vendas em uma loja que vendia dispositivos destinados a facilitar a prática do desvio. Infelizmente, as taxas continuam: Este padre é acusado de ter cedido a esses desvios mesmíssimos na companhia de outros homens em sua casa paroquial.

(Eu não fornecerei o link da história pela simples razão de que, mesmo mencionando, corro o risco de provocar o apetite caído para a lascívia que Santo Agostinho chamou de "concupiscência dos olhos", que foi exponencialmente agravado pela Internet).

Se o conto sórdido provar ser um mal-entendido gigante, será outro terrível escândalo para a Igreja que terá que suportar, e que vai abalar a fé de quem se diz católico.

Quando ouço histórias como esta, lembro da observação de Belloc que, a prova de que a Igreja Católica é uma instituição divina é que, desde a crucificação, ela foi prosperando, apesar das deficiências daqueles a quem o Senhor a confiou os seus cuidado . No entanto, o suposto comportamento deste sacerdote particular é desanimador.

Isso é só a ponta do iceberg. No caso do padre das metanfetamina, a sua posição, influência e estatura em sua diocese não pode deixar de significar que o dano que ele causou é maior do que nós sabemos.

Ele foi secretário de dois bispos, e reitor da catedral. É uma incógnita quanto dano invisível este homem fez a partir dessas posições de autoridade diocesana. Quantos bons padres que ele impediu de se tornar pastores? Quantos hereges que ele viu nomeado para as escolas diocesanas? Quanta liturgia irreverente que ele causou ou permitiu, e quanta coisa na liturgia que ele atrapalhava? Quantas boas vocações que ele desencorajou?

Quantas almas não ouviram a doutrina católica ou não tiveram a sólida direção espiritual por causa deste sacerdote? Nós realmente não temos ideia do que mais fez este home. Ore para as vítimas de abuso sexual clerical. Ore para que os sacerdotes cujas transgressões tiverem causado tanto mal. Ore para que os ordinários que deliberadamente esconderam ou fecharam os olhos aos pecados de seu clero.

E rezem para os católicos, cujo número é conhecido apenas por Deus, que sofrem alguns por ignorância, alguns em dores agudas de consciência pelo engano, intrigas, irreverência e heresia do clero cujos intelectos e vontades, destinados ao serviço de Deus, foram desfigurados por seus pecados horríveis.

Traduzido por Tiago Rodrigo da Silva, para o Veritatis Splendor, do original em inglês “The Devil Hates Priests” do site catholic.com.