domingo, 10 de novembro de 2013

"Porque sentimos medo diante da morte?"



Depois de ter celebrado a Solenidade de Todos os Santos, hoje a Igreja convida-nos a comemorar todos os fiéis defuntos, a dirigir o nosso olhar para os numerosos rostos que nos precederam e que concluíram o caminho terreno. Na Audiência deste dia, então, gostaria de vos propor alguns pensamentos simples sobre a realidade da morte, que para nós cristãos é iluminada pela Ressurreição de Cristo, e para renovar a nossa fé na vida eterna.

Como disse ontem noAngelus, nestes dias vamos ao cemitério para rezar pelas pessoas queridas que nos deixaram, é quase como ir visitá-las para lhes manifestar, mais uma vez, o nosso carinho, para as sentir ainda próximas, recordando também, deste modo, um artigo do Credo: na comunhão dos Santos há um vínculo estreito entre nós que ainda caminhamos nesta terra e muitos irmãos e irmãs que já alcançaram a eternidade.

Desde sempre, o homem preocupou-se pelos seus mortos e procurou conferir-lhes uma espécie de segunda vida, através da atenção, do cuidado e do carinho. De certa maneira, deseja-se conservar a sua experiência de vida; e, paradoxalmente, como eles viveram, o que amaram, o que temeram e o que detestaram, nós descobrimo-lo precisamente a partir dos túmulos, diante dos quais se apinham recordações. Estas são como que um espelho do seu mundo.

Por que é assim? Porque, não obstante a morte seja com frequência um tema quase proibido na nossa sociedade, e haja a tentativa contínua de eliminar da nossa mente até o pensamento da morte, ela diz respeito a cada um de nós, refere-se ao homem de todos os tempos e de todos os espaços. E diante deste mistério todos, também inconscientemente, procuramos algo que nos convide a esperar, um sinal que nos dê consolação, que abra algum horizonte, que ofereça ainda um futuro. Na realidade, o caminho da morte é uma senda da esperança, e percorrer os nossos cemitérios, como também ler as inscrições sobre os túmulos é realizar um caminho marcado pela esperança de eternidade.

Mas perguntamo-nos: por que sentimos medo diante da morte? Por que motivo uma boa parte da humanidade nunca se resignou a acreditar que para além dela não existe simplesmente o nada? Diria que as respostas são múltiplas: temos medo diante da morte, porque temos medo do nada, este partir rumo a algo que não conhecemos, que nos é desconhecido. E então em nós existe um sentido de rejeição, porque não podemos aceitar que tudo quanto de belo e grande foi realizado durante uma existência inteira seja repentinamente eliminado e precipite no abismo no nada. Sobretudo, nós sentimos que o amor evoca e exige a eternidade, e não é possível aceitar que ele seja destruído pela morte num só instante.

Além disso, temos medo diante da morte porque, quando nos encontramos próximos do fim da existência, há a percepção de que existe um juízo sobre as nossas obras, sobre o modo como conduzimos a nossa vida, principalmente sobre aqueles pontos de sombra que, com habilidade, muitas vezes sabemos anular ou tentamos remover da nossa consciência. Diria que precisamente a questão do juízo está com frequência subjacente ao cuidado do homem de todos os tempos pelos finados, a atenção pelas pessoas que foram significativas para ele e que não estão mais ao seu lado no caminho da vida terrena. Num certo sentido, os gestos de carinho e de amor que circundam o defunto constituem um modo para o proteger, na convicção de que eles não permaneçam sem efeito na hora do juízo. Podemos ver isto na maior parte das culturas que caracterizam a história do homem.

Hoje o mundo tornou-se, pelo menos aparentemente, muito mais racional, ou melhor, difundiu-se a tendência a pensar que cada realidade deve ser enfrentada com os critérios da ciência experimental, e que também à grandiosa interrogação da morte é necessário responder não tanto com a fé, mas a partir de conhecimentos experimentais, empíricos. Porém, não nos damos conta de modo suficiente, de que precisamente desta maneira terminamos por cair em formas de espiritismo, na tentativa de manter algum contato com o mundo para além da morte, quase imaginando que existe uma realidade que, no final, seria uma réplica da vida presente.

Caros amigos, a Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fiéis defuntos dizem-nos que somente quem pode reconhecer uma grande esperança na morte, pode também levar uma vida a partir da esperança. Se nós reduzirmos o homem exclusivamente à sua dimensão horizontal, àquilo que se pode sentir de forma empírica, a própria vida perde o seu profundo sentido. O homem tem necessidade de eternidade, e para ele qualquer outra esperança é demasiado breve, é demasiado limitada. O homem só é explicável, se existir um Amor que supere todo o isolamento, também o da morte, numa totalidade que transcenda até o espaço e o tempo. O homem só é explicável, só encontra o seu sentido mais profundo, se Deus existir. E nós sabemos que Deus saiu do seu afastamento e fez-se próximo, entrou na nossa vida e diz-nos: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá» (Jo 11, 25-26).

Pensemos por um momento na cena do Calvário e voltemos a ouvir as palavras que Jesus, do alto da Cruz, dirige ao malfeitor crucificado à sua direita: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Pensemos nos dois discípulos no caminho de Emaús quando, depois de terem percorrido um trecho da estrada com Jesus Ressuscitado, O reconhecem e, sem hesitar, partem rumo a Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 24, 13-35). Voltam à mente com clareza renovada as palavras do Mestre: «Não se turve o vosso coração: credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito; pois vou preparar-vos um lugar?» (Jo 14, 1-2). Deus revelou-se verdadeiramente, tornou-se acessível e amou de tal modo o mundo, «que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16), e no supremo gesto de amor da Cruz, mergulhando no abismo da morte, venceu-a, ressuscitou e abriu também para nós as portas da eternidade. Cristo sustém-nos através da noite da morte que Ele mesmo atravessou; é o Bom Pastor, a cuja guia podemos confiar sem qualquer temor, porque Ele conhece bem o caminho, até através da obscuridade.

Cada domingo, recitando o Credo, nós confirmamos esta verdade. E visitando os cemitérios para rezar com afeto e com amor pelos nossos defuntos, somos convidados, mais uma vez, a renovar com coragem e com força a nossa fé na vida eterna, aliás, a viver com esta grande esperança e testemunhá-la ao mundo: por detrás do presente não existe o nada. E é precisamente a fé na vida eterna que confere ao cristão a coragem de amar ainda mais intensamente esta nossa terra e de trabalhar para lhe construir um futuro, para lhe dar uma esperança verdadeira e segura. T



A vida presente e a futura

Entram em cena, neste domingo, os casos de duas famílias, com sete irmãos cada uma, para ilustrar o mesmo tema: a ressurreição dos mortos. O primeiro (primeira leitura) é histórico e o segundo (evangelho) é fictício. O caso do evangelho, proposto pelos saduceus, que negavam a ressurreição, vem questionar a crença na vida após a morte. Querem testar Jesus a respeito do despropósito, segundo eles, da fé na vida eterna.
Jesus, percebendo a malícia dos seus opositores e não se prendendo à lei do levirato, desmascara-os e esclarece que a vida após a morte não é continuação da presente. As preocupações e as questões desta vida não perdurarão na eternidade. A vida de ressuscitados será diferente da que temos hoje.
O que será da pessoa após a morte? Eis uma questão que está sempre na cabeça de qualquer mortal - também dos cristãos. Outra questão que nos incomoda: Por que temos de morrer? O certo é que, alguns antes e outros depois, todos morreremos.
A fé na ressurreição não nos aliena da vida nem nos tira da história; ao contrário, mergulha-nos nela e nos torna os seus principais artífices, ao procurarmos moldar a sociedade segundo o projeto de Deus, na qual todos tenham seu lugar e todos se realizem como seres humanos.
Desde que nasce, a pessoa convive com a vida e a morte. Às passagens pelas várias etapas da existência humana correspondem perdas e conquistas. Para haver ressurreição, passagem para uma vida melhor, faz-se necessária a morte. Vida e morte, duas irmãs inseparáveis, são parte de nossa experiência terrena e nos acompanham no dia a dia.
A realidade do pós-morte continua sendo um mistério, embora nossa fé nos garanta que a vida não se limita aos anos deste mundo. A fé no além da morte deveria nos levar á reflexão e á valorização da vida presente. A ressurreição precisa ser vista como a plenitude do viver cotidiano: inicia-se com o nascimento e plenifica-se com a morte.

Pe. Nilo Luza, ssp sobre o evangelho deste domingo 10-11-2013

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A lâmpada voltiva de São Francisco de Assis




Detalhe do verso de Dante:
"Altro non è che di Suo lume un raggio"
A Lâmpada

Ao Arquiteto Ugo Tarchi foi confiada a tarefa de desenhar uma lâmpada votiva e nos primeiros dias de Setembro 1937, enviou ao Ministro Geral o desenho da lâmpada, com uma descrição detalhada:

“A lâmpada votiva, de 1 metro e 20 centímetros é toda em bronze polido (fosco) e prata. No eixo central, está forjada a cruz, alçada desde o meio da taça, que em sua forma semisférica simboliza o mundo. No alto, a coroa de torres da Itália, o brasão da Casa de Savoia, o Feixe de varas (Lictor), a Loba Romana e o brasão da cidade de Assis. Sobre a orla da copa, na parte externa, contra o fundo luminoso do alabastro as palavras do verso dantesco: 'Não é mais que um raio de Sua luz'. Abaixo da copa a frase de dedicatória: 'Dos Municípios da Itália para o Santo'. Acima da taça, três pombas de prata sustentam com seu bico uma coroa de Oliveira, símbolo soberano e universal da paz”.

O acender da Lâmpada Votiva em Assis

Em 4 de Outubro de todo ano a Basílica de São Francisco se torna o coração pulsante de toda a Nação italiana. Na presença de uma multidão de fiéis e de outras personalidades da hierarquia eclesiástica e do Estado, o Prefeito da capital de uma região escolhida para representar o País, reacende a Lâmpada votiva que ilumina a cripta onde repousam os restos mortais do Pobrezinho de Deus.

Por um ano inteiro a Lâmpada arderá com o óleo oferecido, em nome de todos os italianos e dos habitantes daquela região.

Lâmpada na entrada da Cripta
em que repousam os restos mortais do Santo de Assis
A cerimônia sugestiva se repete desde 4 Outubro de 1939. Naquele ano, enquanto Pio XII proclamava Francisco de Assis Patrono primário da Itália (18 Junho), os Municípios da Nação ofereceram ao seu Patrono celeste a Lâmpada artística em torno da qual gira o verso dantesco "Não é mais que um raio de Sua luz". (Canto 26 do Paraíso, verso 33). A linguagem do Divino Poeta evidencia o simbolismo que se dá à Lâmpada e à cerimônia em seu reacendimento anual: toda a Itália vê no Pobrezinho de Deus o místico "Sol", que levantou-se de Assis como do "Oriente" (Canto 11 do Paraíso, versos 50-54), e se espalham por toda a terra os raios poderosos da sua luz espiritual, da qual aquela Lâmpada não é senão sinal de um brilho suave.

Todos os anos, portanto, na região italiana que viaja até Assis para oferecer o óleo para a Lâmpada Votiva, está toda a alma da Nação que vibra e se inclina reverente e grata ao todo Seráfico em ardor (Canto 11 do Paraíso, 37) que o mundo inteiro abalou e iluminou com a exemplaridade de sua vida evangélica e com a sua mensagem de amor e de fraternidade universal.

A luz discreta

Na penumbra da Tumba de Francisco, o enamorado de Cristo, se vê arder por todo o ano uma pequena luz. Não é invasora, mas discreta: muitos nem sequer a notam, mas também não é a intenção tirar a atenção. É a Lâmpada votiva alimentada pelo óleo que os Municípios da Itália oferecem anualmente por meio de um representante daquela Região por ocasião da festa do Santo, em 4 de Outubro. Uma luz que está ali, ao menos em desejo, em oração, para dizer a Francisco: ensina-nos a tua pobreza, ensina-nos a ver um irmão que nos circunda. T

A utopia de um mundo onde caibam todos os mundos

Vivemos, para todos os efeitos, em um mundo globalizado. E o que se convencionou chamar de “Globalização” é, no fundo, uma construção ideológica do neo-liberalismo a serviço do mercado que se caracteriza por uma tríplice pretensão: onipotência, onipresença e onisciência. Talvez a melhor caracterização que temos da Globalização seja aquela feita com invejável rigor e plasticidade por E. Morin. Segundo ele, estamos navegando rumo a uma era planetária movida por duas hélices. As hélices não remontam propriamente à imagem do avião, mas aos modelos helicoidais do nosso DNA.

A primeira se encontra sob a hegemonia do poder-dominação e é impulsionada por quatro motores: a ciência sujeita à técnica que, por sua vez, é submetida à indústria, que, por sua vez, é subordinada à lógica do lucro. Deste modo, segundo Morin, a nave espacial Terra é colocada em movimento por esses quatro motores interconectados. A segunda distingue-se pela luta pelos direitos da pessoa humana, pelo direito dos povos à soberania, aos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, democracia.

Não resta dúvida que a Globalização em seu estado atual traz em seu próprio bojo uma gama enorme de transformações de tal sorte que se torna cada vez mais legítimo afirmar que o “nosso tempo” se caracteriza por uma “grande transformação”, cujos sintomas são perceptíveis em fenômenos como: a inovação constante, a crise da sociedade salarial, a financeirização do mundo, a sociedade do risco, do controle e do biopoder, o fim do social numa sociedade dita “pós-social”.

Todavia, o principal resultado da Globalização neoliberal e do Imperialismo é, sem dúvida, a pobreza estrutural na qual vive nada menos que 2/3 da inteira população do Planeta. Precisamente aqui, se revela o caráter estruturalmente excludente da Globalização neoliberal. E essa situação de exclusão se agrava ainda mais quando se tem presente que estamos falando da exclusão não só de pessoas e de setores da população, mas de povos e continentes inteiros. Na sua raiz mais profunda, portanto, a globalização econômica provoca assimetria em todas as esferas: economia, política, cultura e também religião.

Temos testemunhado recentemente o despertar de um verdadeiro imperialismo autoritário com discurso e prática fundamentalistas. Usam-se cada vez mais expressões eufemistas como: “império da paz”, “império da liberdade”, “império da democracia”, “império da civilização”, “civilização do Bem contra o reino do mal”, “guerra infinita”. Nesse sentido, o “novo imperialismo” encarna a síntese de todos os fundamentalismos: político, econômico, cultural e religioso. Embora os fiéis guardiães desse imperialismo sejam os Estados Unidos da América com seu potente exército – e isso ficou claro após as invasões do Afeganistão e do Iraque – seus reais detentores são os representantes do capitalismo global. E estes, por sua vez, são apoiados e sustentados pelos mais poderosos organismos internacionais como o Banco Mundial, o FMI, Organização Mundial do Comércio, etc…

O recurso a alguns dados poderá ilustrar melhor essa situação estrutural de exclusão. Em 1960, para cada pessoa considerada rica no mundo havia 30 pobres; hoje, essa situação se radicalizou de maneira brusca, pois, para cada rico, existem hoje 80 pobres no mundo. Dos 6.200 bilhões de habitantes, cerca de 2.852 bilhões de pessoas vivem na pobreza, dentre os quais, 1.200 se encontram na pobreza extrema. Os que vivem, portanto, na pobreza corresponderiam aproximadamente a 46% da população do Planeta.

Só para se ter uma ideia da gravidade do problema: segundo a FAO, a cada dia, morrem 35.000 crianças de fome, isto é, 10 vezes o número de pessoas mortas na destruição do World Trade Center. Na América Latina, a situação é alarmante: 44,4% da inteira população vivem na pobreza e 19,4% na extrema indigência, perfazendo um total de 63,8% de excluídos. O recurso a estes índices e cifras parece altamente esclarecedor na medida em que nos coloca diante do quadro real e estrutural da Globalização neoliberal, pois, na verdade, dos aproximadamente 6 bilhões de habitantes do inteiro Planeta, apenas 1,5 bilhão de pessoas gozam de todos os benesses produzidos pelos sofisticados meios técnico-científicos enquanto que 4,5 bilhões se encontram numa situação de total exclusão.

Tais constatações levam-nos a refletir seriamente sobre os conflitos provocados pela atual dinâmica da sociedade contemporânea. O primeiro deles seria entre a reprodução da humanidade e os destinos do Planeta. Encontramo-nos, para todos os efeitos, encurralados dentro de um beco-sem-saída: de um lado, nossas sociedades têm cada vez mais necessidade da Terra e de seus recursos; de outro, o Planeta suporta cada vez menos nosso crescimento. Não menos grave é o conflito entre a reprodução do capitalismo e da humanidade. A reprodução do capitalismo está cada vez menos relacionada com a reprodução da humanidade, pelo fato do capitalismo se autonomizar cada vez mais da sociedade na qual se encontra inserido.

E, por último, a Terra e as pessoas humanas que nela habitam estão à mercê de uma economia que se impõe como a fatalidade do “nosso tempo”. Trata-se de um acirrado conflito entre a reprodução do capitalismo, incluída naturalmente parte da humanidade ligada a suas atividades e a seus produtos, e a reprodução da Terra com o conjunto de suas criaturas. Numa palavra, as prioridades do capitalismo neo-liberal são radicalmente distintas daquelas orientadas pela ética e pelos valores humanos.

Consciente desta alarmante situação, pergunta-se E. Morin: “Seremos capazes de ir rumo a uma sociedade-mundo portadora do nascimento da própria humanidade? Eis a questão. A humanidade está em formação. Há possibilidade de rechaçar a barbárie e realmente civilizar os humanos? Será possível salvar a humanidade, realizando-a? Nada está definido, nem o pior”. Talvez seja esse, de fato, o grande desafio que nos é lançado em meio à conjuntura atual: a humanidade não está conseguindo mais gerar a humanidade. Nesse caso, a segunda hélice da qual falava Morin precisa ser reforçada pela inteligência e consciência humanas para que a nave espacial Terra não se torne um Titanic.

Toda a reflexão que fizemos até agora desembocará espontaneamente na eleição de uma perspectiva a partir da qual compreender esta complexa realidade e se posicionar coerentemente face à mesma. Como criaturas limitadas que somos devemos renunciar a toda e qualquer pretensão de totalidade. Enquanto tais, nós poderemos, na melhor das hipóteses, ensaiar, quem sabe, achegas distintas à realidade no seu complexo. Tais achegas, contudo, serão sempre parciais e fragmentadas. Nada além de simples clareiras que se abrem a partir de distintas perspectivas parciais. Esse é nosso limite, mas é também nossa chance, possibilidade privilegiada de compreensão da realidade e do conseqüente engajamento responsável em seu complexo tecido.

Além do mais, uma específica parcialidade inerente à fé cristã fica por conta da consciência da imprescindibilidade de se manter a fidelidade à parcialidade evangélica testemunhada por Jesus de Nazaré. Como cristãos somos desafiados a manter aquela sadia solidariedade para com Jesus na sua parcialidade de pregador enviado a anunciar a Boa-nova aos pobres e aos excluídos. A assunção dessa parcialidade evangélica permitirá a nós cristãos ver determinadas coisas que só se vêm a partir da condição na qual eles se encontram. E o que é ainda mais importante: levar-nos-á a uma correção da própria maneira de pensar e de conceber as grandes questões que assolam a grande maioria de nossas populações condenando-as à trágica condição de vítimas indefesas e inocentes.

Talvez hoje, mais do que nunca, os pobres têm sido colocados à margem de nossas relações econômicas, políticas, sociais e culturais a ponto de serem completamente excluídos de toda e qualquer convivência humana e social. Talvez a maior exclusão seja a de sequer prestar ouvidos aos clamores dos pobres por mais vida. Até mesmo seu clamor tem sido hoje silenciado mediante o recurso a tantos expedientes escusos e sofisticados. Chega-se a provar hoje em não poucos ambientes uma resistência ferrenha a sequer mencionar a existência dos pobres. Eles se encontram, de fato, completamente excluídos até de nossas agendas nesse princípio de século. Enquanto cristãos, inseridos na realidade do continente latino-americano neste limiar de século XXI, jamais poderemos ignorar aquela preciosidade que aflorou no coração mesmo de nossas comunidades que é “a opção pelos pobres contra a sua pobreza” como a caracterizou magistralmente o Documento de Puebla, aprofundando assim os sulcos abertos pela Conferência de Medellín.

Diante da gravidade desta situação, qual a posição do Cristianismo que se caracteriza como uma religião com pretensões de universalidade? Tendo presente que as maiores contradições e assimetrias se dão no Terceiro Mundo, onde se encontra 70% dos cristãos, o que teríamos nós cristãos a dizer diante do caráter eminentemente escandaloso desta situação? Qual seria nossa contribuição específica no processo de superação desta exclusão estrutural? Estamos dispostos a fomentar uma globalização não dos interesses do mercado e do capital transnacional, mas da solidariedade e da esperança, da justiça e da paz, dos direitos humanos, sociais e ecológicos? Seria utópico, de nossa parte, engajar-se na construção de um mundo onde caibam todos os mundos? T
 
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

70 mil acessos

NOSSO MUITO OBRIGADO A TODOS.
ATINGIMOS MAIS DE 70 MIL ACESSOS, ESPERAMOS QUE MESMO EM MEIO A TODAS AS DIFICULDADES QUE ENFRENTAMOS PARA LEVAR O EVANGELHO A TODOS OS CANTOS DO MUNDO, NUNCA PERCAMOS A ESPERANÇA. TODOS OS DIAS ALGUÉM PRECISA OUVIR SOBRE JESUS CRISTO, SOBRE SUA PESSOA, SUA HISTÓRIA, SUA AÇÃO NAS NOSSAS VIDAS, POIS ATRAVÉS DELE MUITAS VIDAS CONTINUAM SENDO TRANSFORMADAS, VAMOS EM FRENTE, AVANTE...
 
A EQUIPE:
FILHOS ESPIRITUAIS DE PE. PIO

sábado, 2 de novembro de 2013

Fiéis falecidos

02 de Novembro. Hoje a Igreja celebra o dia de todos os fiéis falecidos. O Purgatório: lugar de Purificação. Neste mês de Novembro, a Igreja convida-nos com maior insistência a rezar e a oferecer sufrágios pelos fiéis defuntos do Purgatório. Com esses irmãos nossos, que “também participaram da fragilidade própria de todo o ser humano, sentimos o dever - que é ao mesmo tempo uma necessidade do coração - de oferecer-lhes a ajuda afetuosa da nossa oração, a fim de que qualquer eventual resíduo de debilidade humana, que ainda possa adiar o seu encontro feliz com Deus, seja definitivamente apagado”, ensina-nos João Paulo II. No Céu, não pode entrar nada de impuro, nem “quem cometa abominação ou mentira, mas somente aqueles que estão inscritos no livro da vida” (Apocalipse 21). A alma desfeada pelas faltas e pecados veniais não pode entrar na morada de Deus: para chegar à eterna bem-aventurança, tem de estar limpa de toda a culpa. O Céu não tem portas - escreve Santa Catarina de Gênova -, e quem quiser entrar pode fazê-lo, porque Deus é todo misericórdia e permanece com os braços abertos para admiti-lo na sua glória. No entanto, o ser de Deus é tão puro que, se uma alma nota em si o menor vestígio de imperfeição, e ao mesmo tempo vê que o Purgatório foi estabelecido para apagar tais manchas, introduz-se nele e considera um grande favor que lhe seja permitido limpar-se dessa forma. O maior sofrimento dessas almas é o de terem pecado contra a bondade divina e o de não terem purificado a alma nesta vida. O Purgatório não é um inferno atenuado, mas o vestíbulo do Céu, onde a alma se purifica. E se não se expiou na terra, são muitas as realidades que a alma deve limpar ali; pecados veniais, que adiam tanto a união com Deus; faltas de amor e de delicadeza com o Senhor; a inclinação para o pecado, adquirida na primeira queda e aumentada pelos pecados pessoais… Além disso, todos os pecados e faltas já perdoados na Confissão deixam na alma uma dívida, um desequilíbrio que tem de ser reparado nesta vida ou na outra. E é possível que as disposições resultantes dos pecados já perdoados continuem enraizadas na alma à hora da morte, se não foram eliminadas por uma purificação constante e generosa nesta vida. Ao morrer, a alma percebe-as com absoluta clareza, e terá, pelo desejo de estar com Deus, um anelo imenso de livrar-se delas. O Purgatório apresenta-se então como a oportunidade única de consegui-lo. Neste lugar de purificação, experimentam-se uma dor e um sofrimento intensíssimos: um fogo “mais doloroso do que qualquer coisa que um homem pode sofrer nesta vida”, ensina Santo Agostinho. Mas também se experimenta muita alegria, porque se sabe que se ganhou definitivamente a batalha e que o encontro com Deus virá mais cedo ou mais tarde. A alma que está no Purgatório assemelha-se a um aventureiro no limiar de um deserto. O sol queima, o calor é sufocante, dispõe de pouca água; divisa ao longe, para além do grande deserto, a montanha onde se encontra o tesouro, a montanha onde sopram brisas frescas e onde poderá descansar eternamente. E põe-se a caminho, disposta a percorrer a pé aquela distância, ainda que o calor asfixiante a faça cair uma vez e outra. A diferença entre os dois está em que, no Purgatório, se tem a certeza de chegar à meta, por mais asfixiantes que sejam os sofrimentos. Nós aqui na terra podemos ajudar muito essas almas a percorrerem mais depressa esse longo deserto que as separa de Deus. E ao mesmo tempo, com a expiação das nossas faltas e pecados, abreviaremos a nossa própria passagem por esse lugar de purificação. Se, com a ajuda da graça, formos generosos na prática da penitência, no oferecimento da dor e no amor ao sacramento do perdão, poderemos ir diretamente para o Céu. Isso é o que fizeram os santos. E eles nos convidam a imitá-los.

http://luizcarlostotustuusmaria.tumblr.com/

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Os 12 graus do silêncio



A vida interior poderia consistir só nesta palavra: Silêncio! O silêncio prepara os santos; ele os começa, os continua e os acaba. Deus, que é eterno, não diz mais que uma só palavra, que é o Verbo. Do mesmo modo, seria desejável que todas as nossas palavras digam Jesus direta ou indiretamente. Esta palavra: silêncio, quão formosa é!
 

1º Falar pouco às criaturas e muito a Deus
Este é o primeiro passo, mas indispensável, nas vias solitárias do silêncio. Nesta escola é onde se ensinam os elementos que dispõe à união divina. Aqui a alma estuda e aprofunda esta virtude, no espírito do Evangelho, no espírito da Regra que abraçou, respeitando os lugares consagrados, as pessoas, e sobretudo esta língua na qual tão freqüentemente descansa o Verbo ou a Palavra do Pai, o Verbo feito carne. Silêncio ao mundo, silêncio às notícias, silêncio com as almas mais justas: a voz de um Anjo turbou Maria…

2º Silêncio no trabalho, nos movimentos
Silêncio no porte; silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz; silêncio de todo o ser exterior, que prepara a alma para passar a Deus. A alma merece tanto quanto pode, por estes primeiros esforços em escutar a voz do Senhor. Que bem recompensado é este primeiro passo! Deus a chama ao deserto, e por isso, neste segundo estado, a alma aparta tudo o que poderia distraí-la; se distancia do ruído, e foge sozinha Àquele que somente é. Ali ela saboreará as primícias da união divina e o zelo de seu Deus. É o silêncio do recolhimento, ou o recolhimento do silêncio.

3º Silêncio da imaginação
Esta faculdade é a primeira em chamar à porta fechada do jardim do Esposo; com ela vêm as emoções alheias, as vagas impressões, as tristezas. Mas neste lugar retirado, a alma dará ao Bem Amado provas de seu amor. Apresentará a esta potência, que não pode ser destruída, as belezas do céu, os encantos de seu Senhor, as cenas do Calvário, as perfeições de seu Deus. Então, também ela permanecerá no silêncio, e será a servente silenciosa do Amor divino.

4º Silêncio da memória
Silêncio ao passado… esquecimento. Há que saturar esta faculdade com a recordação das misericórdias de Deus… É o agradecimento no silêncio, é o silêncio da ação de graças.

5º Silêncio às criaturas
Oh, miséria de nossa condição presente! Com freqüência a alma, atenta a si mesma, se surpreende conversando interiormente com as criaturas, respondendo em seu nome. Oh, humilhação que fez gemer os santos! Nesse momento esta alma deve retirar-se docemente às mais íntimas profundezas deste lugar escondido, onde descansa a Majestade inacessível do Santo dos santos, e onde Jesus, seu consolador e seu Deus, se descobrirá a ela, lhe revelará seus segredos, e a fará provar a bem-aventurança futura. Então lhe dará um amargo desgosto para tudo o que não é Ele, e tudo o que é da terra deixará pouco a pouco de distrair-la.
 

6º Silêncio do coração

Se a língua está muda, se os sentidos se encontram na calma, se a imaginação, a memória e as criaturas se calam e fazem silêncio, se não ao redor, ao menos no íntimo desta alma de esposa, o coração fará pouco ruído. Silêncio dos afetos, das antipatias, silêncio dos desejos no que tem de demasiado ardente, silêncio do zelo no que tem de indiscreto; silêncio do fervor no que tem de exagerado; silêncio até nos suspiros… Silêncio do amor no que tem de exaltado, não dessa exaltação da qual Deus é autor, senão daquela na qual se mistura a natureza. O silêncio do amor, é o amor no silêncio…
É o silêncio diante de Deus, suma beleza, bondade, perfeição… Silêncio que não tem nada de chateado, de forçado; este silêncio não danifica a ternura, o vigor deste amor, de modo semelhante a como o reconhecimento das faltas não danifica tampouco o silêncio da humildade, nem o bater das asas dos anjos de que fala o profeta o silêncio de sua obediência, nem o fiat o silêncio de Getsemani, nem o Sanctus eterno o silêncio dos serafins…
Um coração no silêncio é um coração de virgem, é uma melodia para o coração de Deus. A lâmpada se consome sem ruído diante do Sacrário, e o incenso sobe em silêncio até o trono do Salvador: assim é o silêncio do amor. Nos graus precedentes, o silêncio era ainda a queixa da terra; neste a alma, por sua pureza, começa a aprender a primeira nota deste cântico sagrado que é o cântico dos céus.

7º Silêncio da natureza, do amor próprio
Silêncio à vista da própria corrupção, da própria incapacidade. Silêncio da alma que se compraz na sua baixeza. Silêncio aos louvores, à estima. Silêncio diante dos desprezos, das preferências, das murmurações; é o silêncio da doçura e da humildade. Silêncio da natureza diante das alegrias ou dos prazeres. A flor se abre no silêncio e seu perfume louva em silêncio ao criador: a alma interior deve fazer o mesmo. Silêncio da natureza na pena ou na contradição. Silêncio nos jejuns, nas vigílias, nas fadigas, no frio e no calor. Silêncio na saúde, na enfermidade, na privação de todas as coisas: é o silêncio eloqüente da verdadeira pobreza e da penitência; é o silêncio tão amável da morte a todo o criado e humano. É o silêncio do eu humano transformando-se no querer divino. Os estremecimentos da natureza não poderiam turbar este silêncio, porque está acima da natureza.

8º Silêncio do espírito
Fazer calar os pensamentos inúteis, os pensamentos agradáveis e naturais; só estes danificam o silêncio do espírito, e não o pensamento em si mesmo, que não pode deixar de existir. Nosso espírito quer a verdade, e nós lhe damos a mentira! Agora bem, a verdade essencial é Deus! Deus é o bastante à sua própria inteligência divina, e não basta à pobre inteligência humana!
No que concerne a uma contemplação de Deus perene e imediata, não é possível na debilidade da carne, a não ser que Deus conceda um puro dom de sua bondade; mas o silêncio nos exercícios próprios do espírito consiste, em relação à fé, em contentar-se com sua luz escura. Silêncio aos raciocínios sutis que debilitam a vontade e dissecam o amor. Silêncio na intenção: pureza, simplicidade; silêncio às buscas pessoais; na meditação, silêncio à curiosidade; na oração, silêncio às próprias operações, que não fazem mais que entravar a obra de Deus. Silêncio ao orgulho que se busca em tudo, sempre e em todas as partes; que quer o belo, o bem, o sublime; é o silêncio da santa simplicidade, do desprendimento total, da retidão.
Um espírito que combate contra tais inimigos é semelhante a esses anjos que vêem sem cessar a Face de Deus. Esta é a inteligência, sempre no silêncio, que Deus eleva a si.

9º Silêncio do juízo
Silêncio quanto às pessoas, silêncio quanto às coisas. Não julgar, não deixar ver a própria opinião. Não ter opinião às vezes, ou seja, ceder com simplicidade, sem nada se opor a ele por prudência ou por caridade. É o silêncio da bem-aventurada e santa infância, é o silêncio dos perfeitos, o silêncio dos anjos e dos arcanjos, quando seguem as ordens de Deus. É o silêncio do Verbo encarnado!

10º Silêncio da vontade
O silêncio aos mandamentos, o silêncio às santas leis da regra, não é, por dizer assim, mais que o silêncio exterior da própria vontade. O Senhor tem algo que ensinar-nos de mais profundo e de mais difícil: o silêncio do escravo sob os golpes de seu amo. Mas, feliz escravo, pois o Amo é Deus! Este silêncio é o da vítima sobre o altar, é o silêncio do cordeiro que é despojado de sua pele, é o silêncio nas trevas, silêncio que impede pedir a luz, ao menos a que alegra.

É o silêncio nas angústias do coração, nas dores da alma; o silêncio de uma alma que se viu favorecida por seu Deus, e que, sentindo-se rechaçada por Ele, não pronuncia nem sequer estas palavras: Por que? Até quando? É o silêncio no abandono, o silêncio sob a severidade do olhar de Deus, sob o peso de sua mão divina; o silêncio sem outra queixa que a do amor. É o silêncio da crucifixão, é mais que o silêncio dos mártires, é o silêncio da agonia de Jesus Cristo. Se este silêncio é seu divino silêncio e nada é comparável à sua voz, nada resiste à sua oração, nada é mais digno de Deus que esta classe de louvor na dor, que este fiat no sofrimento, que este silêncio no trabalho da morte.
Enquanto esta vontade humilde e livre, verdadeiro holocausto de amor, se despedaça e se destrói para a glória do nome de Deus, Ele a transforma em sua vontade divina. Então o que falta para sua perfeição? O que requer ainda para a união? O que falta para que Cristo seja acabado nesta alma? Duas coisas: a primeira é o último suspiro do ser humano; a segunda é uma doce atenção ao Bem Amado cujo beijo divino é a inefável recompensa.

11º Silêncio consigo mesmo
Não falar-se interiormente, não escutar-se, não queixar-se nem consolar-se. Em uma palavra, calar-se consigo mesmo, esquecer-se de si mesmo, deixar-se só, completamente só com Deus; fugir, separar-se de si mesmo. Este é o silêncio mais difícil, e sem embargo é essencial para unir-se a Deus tão perfeitamente como possa fazê-lo uma pobre criatura que, com a graça, chega com freqüência até aqui, mas se detém neste grau, porque não o compreende e o pratica menos ainda. É o silêncio do nada. É mais heróico que o silêncio da morte.

12º Silêncio com Deus
No começo Deus dizia à alma: “Fala pouco às criaturas e muito comigo”. Aqui lhe diz: “Não me fales mais”. O silêncio com Deus é aderir-se a Deus, apresentar-se e expor-se diante de Deus, oferecer-se a Ele, aniquilar-se diante dEle, adorá-lo, amá-lo, escutá-lo, ouvi-lo, descansar nEle. É o silêncio da eternidade, é a união da alma com Deus.

Fonte: Livre-tradução do Artigo “Los doce grados del silencio” de “Sor Amada de Jesús” publicado em “Cuadernos de La Reja” número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX.
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