quinta-feira, 17 de julho de 2014

O repouso prometido


O Mestre Jesus propôs-se a romper um certo esquema religioso de sua época, no qual as pessoas viviam assoberbadas em cumprir uma enorme quantidade de minuciosas prescrições religiosas, não tendo tempo para as coisas essenciais. Evidentemente, quem penava, carregando pesados fardos, era o povo simples, ao passo que fariseus e doutores da Lei adaptavam as exigências legais às suas comodidades.
O jugo suave e o fardo leve anunciados por Jesus não consistiam na abolição pura e simples das exigências religiosas, mas sim, na sua substituição por uma outra pauta de ação: seguir o Mestre no caminho do amor compassivo e misericordioso ao próximo. Nada de preocupação com coisas secundárias, nem neurotização para cumprir, nos mínimos detalhes, as coisas prescritas. A libertação disto tudo aconteceria, ao se buscar viver o amor misericordioso como exigência fundamental, no processo de comunhão com Deus.
Por isso, existe uma profunda diferença entre os discípulos dos mestres da Lei e os discípulos de Jesus. Os primeiros penam, sob o pesado fardo das exigências da Lei. Os segundos fazem a experiência da paz e do repouso, ao se submeterem somente à lei do amor. Os primeiros são orientados por espíritos arrogantes e prepotentes. Os segundos experimentam a mansidão e a humildade de Jesus.
"Vinde a mim" é o apelo de Jesus a quem é escravizado pela religião.
 
Oração
Espírito de paz e de repouso, liberta-me do pesado jugo do legalismo, e faze-me abraçar o jugo suave e leve, que me leva a ser misericordioso para com o meu próximo.


(O comentário do Evangelho é feito pelo Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica, Professor da FAJE – e disponibilizado neste Portal a cada mês)

 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nossa Senhora do Carmo - Virgem Mãe do Escapulário

Nossa Senhora do Carmo
Virgem Mãe do Escapulário


A devoção a Nossa Senhora do Carmo é muito antiga na Igreja. Sua origem veio do Monte Carmelo, na Palestina, quando no século XIII, São Simão Stock, então superior da Ordem Carmelita rezava para Nossa Senhora, pedindo proteção pelas perseguições que recebia. Foi para atender a este pedido que Nossa Senhora do Carmo apareceu e lhe fez a seguinte promessa: “Recebe, querido filho, este Escapulário de tua Ordem, privilégio para ti e para todos os meus filhos que usarem: aquele que morrer revestido deste ‘manto’ será preservado do fogo do inferno. Ele é sinal de salvação, proteção dos perigos.”
A partir daí a devoção difundiu-se rapidamente na Europa e propagou-se amplamente em outros lugares, inclusive na América Latina.



O Escapulário
Sinal de confiança e amor a Maria

O Escapulário é um sinal externo de devoção mariana, que consiste na consagração a Santíssima Virgem Maria, na esperança de sua proteção maternal. No dizer do Vaticano II, "um sinal sagrado, segundo o modelo dos sacramentos, por intermédio do qual significam efeitos, sobretudo espirituais, que se obtêm pela intercessão da Igreja". Em suas normas práticas o Escapulário é imposto só uma vez por um sacerdote ou diácono. Seu uso exige, no mínimo, a oração diária de três Ave-Marias em honra a Nossa Senhora do Carmo.
O Escapulário do Carmo não é: um sinal de proteção mágica ou amuleto; uma garantia automática de salvação; uma dispensa de viver as exigências da vida Cristã.

O Escapulário do Carmo é composto por duas peças de pano, de cor marrom, unidas entre si por dois cordões. A palavra "escapulário" indica uma vestimenta que os frades usavam sobre o hábito religioso, durante o trabalho manual. Com o passar dos anos, a Igreja entendendo os privilégios e benefícios espirituais do escapulário, percebe a necessidade de reduzir o seu tamanho para que todos os fiéis o pudessem receber.

http://www.santuariodocarmo.com.br/site/area_publica/controles/ScriptPublico.php?cmd=santuario

Ó Virgem do Carmelo

Nossa Senhora do Carmo

terça-feira, 15 de julho de 2014

A vida perfeita - São Boaventura

Traduzido do latim por um frade da mesma Ordem

Editora Vozes, Petrópolis, 1921.


Prefácio do Tradutor


Entre todas as Obras místicas de São Boaventura é A direção da alma a que mais notavelmente e com nitidez no-lo mostra abalizado mestre da vida espiritual. É muito pouco extenso este tratado. Seu autor, porém, concretizou nele os princípios básicos sobre os quais deseja levante a alma o edifício da vida espiritual. O leitor sequioso de seu próprio aperfeiçoamento, encontrará neste opúsculo matéria abundante para proveitosas meditações e um guia seguro na direção de sua alma. Entretanto, com uma leitura rápida e superficial não se chegará sequer a avaliar a importância real do conteúdo da obra. Mas quem pausadamente a saboreia e estuda, certifica-se que o Doutor Seráfico expõe com mão de mestre, embora sucintamente, como a alma deve haver-se para com Deus e para com o próximo, o que quer dizer nas suas relações mais importantes e graves.

A alma então terá em si uma base solida sobre a qual poderá edificar, se nutre de Deus uma ideia altíssima, piíssima e santíssima e se abraça a lei de Deus com humildade, devoção e pureza. As faltas a alma as refaz pelo arrependimento, pelo santo temor e santo desejo.Na convivência com o próximo devem resplandecer a modéstia, a justiça e a piedade em suas diversas formas. É este o resumo da lição eficientíssima do presente opúsculo.

Segundo o prólogo do códice, conservado no Vaticano, São Boaventura escreveu este tratado para a princesa Branca, filha de São Luiz, rei da França, casada com Fernando, filho de Afonso X da Espanha. Depois da morte do marido, Branca voltou para Paris, onde morreu.


A DIREÇÃO DA ALMA

I

Antes de tudo, minha alma, é necessário que do bom Deus faças uma ideia altíssima, piíssima e santíssima. A isto chegarás por meio de fé inabalável, meditação atenta e lúcida intuição repassada de admiração.

1. - Altíssima será a ideia que fazes de Deus se fiel, piedosa e claramente crês, admiras e louvas seu poder imenso, que do nada criou tudo e tudo sustenta; sua sabedoria infinita que tudo dispõe e governa; sua justiça ilimitada que tudo julga e recompensa; e se, saindo de ti e voltando de novo e elevando-te acima de ti, com todas as veras cantas com o profeta: "Regozijaram-se as filhas de Judá pelos teus juízos, Senhor, porque tu és Senhor altíssimo sobre toda a terra, tu és sobremaneira exaltado sobre todos os deuses" (Ps. 96, 8 e 9).

2. - A ideia que fazes de Deus será piíssima se admiras, abraças e bendizes a sua imensa misericórdia que se mostrou sumamente benigna em tomar a nossa natureza «humana e mortalidade, sumamente terna em suportar a cruz e a morte, sumamente liberal em mandar o Espírito Santo e instituir os Sacramentos, principalmente comunicando-se a si mesmo liberalissimamente no Sacramento do altar, para que de coração possas cantar as palavras do salmo: "Suave é o Senhor para com todos e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras" (Ps. 144, 9).

3. - A ideia que fazes de Deus será santíssima se consideras, admiras e louvas a sua inefável santidade e o proclamas, com os bem-aventurados Serafins: Santo, santo, santo!

Santo quer dizer, em primeiro lugar, que possui Ele a santidade em grau tão elevado e com tanta pureza que Lhe é impossível querer ou aprovar coisa alguma que não seja santa.

Santo, em segundo lugar, por Ele amar a santidade nos outros, de forma que Lhe é impossível subtrair os dons da graça ou negar o prêmio da glória aos que na verdade conservam a santidade.

Santo, em terceiro lugar, por Ele aborrecer tanto o contrário da santidade que Lhe é impossível não reprovar os pecados ou deixá-los impunes.

Se desta forma pensas de Deus, cantarás com Moisés, o legislador da Antiga lei: "Deus é fiel e sem nenhuma iniquidade, justo e reto" (V Moisés, 32, 4).


II


Depois, dirige o teu olhar sobre a lei de Deus que te manda oferecer ao Altíssimo um coração humilde, ao Piíssimo um coração devoto, ao Santíssimo um coração ilibado.

1. - Um coração humilde, digo, deves oferecer ao Altíssimo pela reverência no Espírito, pela obediência nas obras, pela honra nas palavras e nos atos, observando a apostólica regra e doutrina: "Faze tudo para a glória de Deus" (I Cor., 10, 31).

2. - Um coração devoto deves oferecer ao Piíssimo, invocando em orações fervorosas, saboreando doçuras espirituais, dando muitas graças para que tua alma sempre mais a Deus "ascenda pelo deserto como uma varinha de fumo composto de aromas de mirra e de incenso" (Cântico dos Cânticos, 3, 6).

3. - Um coração ilibado deves oferecer ao Esposo santíssimo de maneira que não reine em ti, - nem nos sentidos, nem na vontade, nem no afeto, - algum prazer em deleites desordenados, desejo de coisas terrenas, nenhum movimento de maldade interna, e assim, livre de toda a mácula de pecado, possas cantar com o salmista: "Seja imaculado o meu coração nas tuas justificações para que não seja confundido" (Ps. 118, 80).

Reflete, pois, diligentemente e vê se tudo isto observaste desde a juventude. Se a consciência t'o afirmar, não o atribuas a ti mesmo, mas à mercê de Deus e rende-lhe graças. Se, porém, achares que uma ou mais vezes, num ponto ou em alguns, ou talvez em todos eles, faltaste grave ou levemente, por fraqueza, por ignorância ou com pleno conhecimento, procura reconciliar-te com Deus com "gemidos inexplicáveis" (Rom. 8, 26) e, para Lhe mostrar a emenda, reveste-te do Espírito de penitência, para que possas cantar com o salmista penitente: "Porque preparado estou para os açoites, e a minha dor está sempre diante de mim" (Ps. 37, 18).


III


A dor da alma, porém, deve ter dois companheiros para que a purifiquem e aplaquem a Deus, a saber: o temor do juízo divino e o ardor de interno desejo, afim de que recuperes pelo temor um coração humilde, pelo desejo um coração devoto e pela contrição um coração ilibado.

1. - Teme, pois, os juízos divinos que são "um abismo profundo" (Ps. 35, 7). Teme, repito, teme muito para que, embora de algum modo penitente, não desagrades ainda a Deus; teme mais, para que depois não recomeces a ofender a Deus; teme muitíssimo, para que no fim não te afastes de Deus, carecendo sempre de luz, ardendo sempre no fogo, jamais livre do verme. Somente uma vida de verdadeira penitência e uma morte na graça da perseverança pode preservar-te desta infelicidade. Canta, pois, com o profeta: "Trespassa com o teu temor a minha carne, porque temos os teus juízos" (Ps. 118, 120).

2. - Arrepende-te e tem cuidado por causa dos pecados cometidos. Arrepende-te, aconselho, arrepende-te muito, porque por eles aniquilaste todo o bem que de Deus recebeste[1]; arrepende-te mais porque ofendeste a Cristo que por ti nasceu e foi crucificado; arrepende-te muitíssimo porque desprezaste a Deus, cuja majestade desonraste transgredindo as suas leis, cuja verdade negaste, cuja bondade afrontaste. Pelo pecado desonraste, desfiguraste e transtornaste toda a criação; porque pela rebeldia contra os divinos estatutos, mandamentos e juízos, abusaste de todas as coisas que, segundo a vontade de Deus, te deveriam servir: das criaturas, dos merecimentos alcançados, das misericórdias de Deus, os dons gratuitamente outorgados, e o prêmio prometido.

Depois de atentamente considerar tudo isto, toma luto como por teu filho único, chora amargamente (Jr. 6, 26); Faze correr uma como que corrente de lágrimas de dia e de noite; não te dês descanso algum nem se cale a menina dos teus olhos (Lm. 2, 13).

3. - Deseja, contudo, os dons divinos, elevando-te pela chama do divino amor, até Deus, o qual tão pacientemente te suportou nos teus pecados, tão longanimemente esperou, tão misericordiosamente te reconduziu à penitência, concedendo-te o perdão, infundindo-te a graça, prometendo-te a coroa, enquanto de tua parte Lhe ofertaste - ou antes d'Ele recebeste para Lhe ofertar, - o sacrifício de um Espírito atribulado, de um coração contrito e humilhado (Ps. 50, 19) por meio de sentida compunção, confissão sincera e satisfação condigna.

Deseja, digo, muito a benevolência divina por uma larga comunicação do Espírito Santo, deseja mais a semelhança com Deus por uma imitação exata de Cristo crucificado, deseja muitíssimo, a posse de Deus por uma visão clara do Eterno Padre, para que na verdade cantes com o Profeta: "A minha alma arde em sede por Deus forte e vivo; quando irei e aparecerei diante da face de Deus?" (Ps. 41, 3).


IV


Ora, para conservar em ti este espírito de temor, de dor e de desejo, exerce-te externamente numa perfeita modéstia, justiça e piedade, afim de que, segundo escreve o Apóstolo, "renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivas sóbria, justa e piedosamente neste século" (Tito, 2, 12).

1. - Exerce-te numa perfeita modéstia para que, segundo a doutrina do Apóstolo, "a tua modéstia seja conhecida por todos os homens" (Phil. 4, 5). Exerce-te primeiro na modéstia da parcimônia no comer e vestir, no dormir e vigiar, no recreio e no trabalho, não excedendo a medida em coisa alguma.

Depois exerce-te na modéstia da disciplina, com moderação no silêncio e no falar, na tristeza e na alegria, na clemência e no rigor, conforme as circunstâncias o exigem e a sã razão o prescreve.

Finalmente, exerce-te na modéstia da civilidade,, regulando, ordenando e, compondo as ações, os movimentos, os gestos, as vestes, os membros e os sentidos, conforme o requer a educação moral e o costume na ordem, para que merecidamente pertenças ao número daqueles aos quais o Apóstolo diz: "Faça-se tudo entre vós com decência e ordem" (I Cor. 14, 40).

2. - Exerce-te também na justiça para que te sejam aplicáveis as palavras do Profeta: "Reina por meio da verdade, da mansidão e da justiça" (Ps. 44, 5).

Na justiça, afirmo, integra por zelo pela honra divina, por observância da lei de Deus e por desejo da salvação do próximo.

Na justiça regulada pela obediência aos superiores, pela sociabilidade aos iguais, pela punição das faltas dos inferiores.

Na justiça perfeita, de forma que aproves toda a verdade, favoreças a bondade, resistas à maldade tanto no Espírito, como nas palavras e obras, não fazendo a ninguém o que não queres que te façam, não negando a ninguém o que dos outros desejas, para que imites com perfeição aqueles a quem foi dito: "Se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus" (Mt. 5, 20).

3. - Finalmente, exerce-te na piedade, porque, como diz o Apóstolo, "a piedade é útil para tudo, porque tem a promessa da vida presente e futura" (I Tim. 4, 8).

Exerce-te na piedade do culto divino recitando as horas canônicas atenta, devota e reverentemente, acusando e chorando as faltas quotidianas, recebendo a seu tempo o Santíssimo Sacramento e ouvindo todos os dias a santa missa.

Na piedade, por meio da salvação das almas, auxiliando ora por freqüentes orações, ora por instrutivas palavras, ora pelo estímulo do exemplo, para que quem ouve diga: Vem! (Ap. 22, 17). Isto, porém, cumpre fazer com tanta prudência, que a própria alma não sofra prejuízo.

Na piedade, por meio do alívio das necessidades corporais, suportando com paciência, consolando amigavelmente, ajudando com humildade, alegria e misericórdia, para desta forma: cumprires o mandamento divino enunciado pelo Apóstolo: "Carregai os fardos uns dos outros, e desta maneira cumprireis a lei de Cristo" (Gl. 6, 2).

Para praticares tudo isto, o meio melhor, eu o creio, é a lembrança do Crucificado, afim de que o teu Dileto, como um ramalhete de mirra (Cântico dos C. 1, 12), descanse sempre junto ao teu coração.

Isto te queira prestar Aquele que é bendito por todos os séculos dos séculos. Amém.


[1] Trata-se do pecado mortal que destrói todos os dons sobrenaturais.



http://www.institutosapientia.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=1329:a-direcao-da-alma-e-a-vida-perfeita-de-sao-boaventura&catid=112:artigos-de-teologia&Itemid=468

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Repense seus conceitos


Só tem mérito o que custa

Todo cristão bem formado sabe que, para seguir a Cristo, é necessário tomar a Cruz: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24).
Daí alguns deduzem, extrapolando, que só a cruz dá o toque de qualidade cristã às nossas ações. Em consequência, pensam que todas as ações que dão prazer, sem exigir nenhum sacrifício especial, ou são erradas ou, pelo menos, não têm mérito diante de Deus. É conhecida a frase irônica que diz: “Tudo o que é gostoso, ou é pecado ou faz mal à saúde”. Pode ter graça, mas com certeza não tem razão.
É verdade que as boas ações que custam sacrifício costumam ter mais valor que as ações fáceis, realizadas quase sem esforço. Quanto mais dificuldades são superadas, quantas mais mortificações são praticadas ou suportadas, maior é o mérito dessas ações. Isso é parcialmente verdade, sob certas condições, mas nem sempre o é. Vale a pena um esclarecimento a respeito.
Não há dúvida de que abraçar a mortificação, a cruz, é indispensável para ter uma vida cristã autêntica, madura. Mas o amor à cruz não encerra todo o panorama da vida cristã.
Em primeiro lugar, é preciso repisar que a cruz –ainda que seja imprescindível- não é a única via existente para atingir a santidade, a plenitude do amor a Deus e ao próximo. Sim, é preciso reafirmar que não há cristianismo nem santidade sem cruz; mas é igualmente necessário afirmar que é errado julgar que os atos que não estão marcados pelo sofrimento ou o pelo sacrifício não têm valor diante de Deus.
Só o amor santifica
O que dá valor sobrenatural, meritório, aos nossos atos é a caridade, o amor a Deus e ao próximo. Por isso, muitas vezes se tem repetido – e com toda a razão – que a menor das pequenas tarefas domésticas de Nossa Senhora no lar de Nazaré – tendo em conta que a sua alma imaculada possuía um grau de amor elevadíssimo – tinha mais valor e merecia mais graça e mais prêmio do que os martírios somados de muitos santos.
Se cumprimos com amor a Deus e com amor ao próximo o menor dos nossos deveres, esse dever nos santifica: Queres de verdade ser santo? – pergunta São Josemaria Escrivá –. Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes. E, na mesma linha: Um pequeno ato, feito por Amor, quanto não vale!1.
São Paulo fala com alegria de que até os pequenos prazeres honestos do comer e do beber podem ser um meio de santificação e de glória de Deus, quando vividos em espírito de ação de graças ao Senhor: Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa –escreve – fazei tudo para a glória de Deus (1 Cor 10,31).
Pelo contrário, os maiores sacrifícios, feitos sem amor, não valem nada: Ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me valeria (I Cor 13,3).
É verdade que o espírito de desprendimento, a disposição alegre de tomar Cruz, o esquecimento de nós mesmos, devem estar sempre prontos na alma do cristão; mas não é menos verdade que encontramos Deus inúmeras vezes em tarefas, em tempos de oração, em conversas, em momentos de amor e de amizade, em lazeres honestos, que nos dão imenso prazer, e que, se estão de acordo com a Vontade de Deus e impregnados de seu amor, nos santificam tanto como o sacrifício difícil feito com o mesmo nível de amor.
No meio dessas horas felizes, como condimento que lhes faz mais delicioso o sabor, não falta, com certeza, a pequena mortificação amável, mas não é a mortificação a que dá o caráter santo a esses atos, é a caridade.
A Cruz do cristão é o portão da alegria
Em segundo lugar, é preciso afirmar que a Cruz não é o ponto final, nem na vida de Cristo nem na vida do cristão. E aí está precisamente o seu segredo e a sua grandeza.
Na vida de Cristo, a Cruz foi o caminho escolhido pela Santíssima Trindade para chegar ao triunfo da Ressurreição, que é a verdadeira meta da Redenção: a vitória do Redentor sobre o pecado, o demônio e a morte, que Jesus Ressuscitado nos oferece –como Vida nova e imortal – a todos nós. A Cruz levou Cristo ao cume do Amor, mas esse cume era como o monte que deve ser transposto para se atingir o vale da felicidade que não morre. O mistério da Cruz é mistério pascal, mistério de passagem: passagem da morte para a Vida, do pecado para a graça, da tristeza para a alegria que ninguém nos poderá tirar (Jo 16,22).
Cristo, triunfante e glorificado, mostrando com imensa alegria as chagas vitoriosas da sua Paixão (cfr. Luc 24,39), derrama finalmente sobre nós o Espírito Santo, o Amor pessoal de Deus, que é o grande “fruto da Cruz”2, para que inunde as nossas almas com a sua graça, com os seus sete dons e com a abundância dos seus frutos: amor, alegria, paz, paciência, bondade… (cfr. Gál 5, 22).
É por tudo isso que os autênticos cristãos nunca encararam a Cruz com ar tristonho ou com complexo de vítima. Nunca se obsessionaram neuroticamente com o sofrimento. Nunca se queixaram da Cruz santa, que é o portão da alegria. Gozaram ao sofrer, convencidos de que aquela dor não era um mal, mas a raiz de uma maior alegria. Assim, souberam carregar a Cruz às costas, com um sorriso nos lábios, com uma luz na alma 3, souberam abraçar a dor com alegria, dando graças ao Senhor por conceder-lhes o privilégio de participar da sua doce Cruz 4.
Sobre essa “arte cristã de sofrer com fé, esperança e amor” escrevi algumas páginas em outra pequena obra sobre “A paciência” 5, que está neste site, entre as “obras de espiritualidade”. Nela se evoca o exemplo empolgante de vários homens e mulheres do nosso tempo que sofreram com paz, com categoria, sem que se notasse, e com o coração totalmente voltado para os outros. Permita-me o leitor remetê-lo para o que lá está escrito.
Dentro dessa perspectiva, desejava terminar com umas palavras de São Josemaria, que me parecem um belo fecho para estas considerações:
“Sinais inequívocos da verdadeira Cruz de Cristo: a serenidade, um profundo sentimento de paz, um amor disposto a qualquer sacrifício, uma eficácia grande, que brota do próprio Lado aberto de Jesus, e sempre –de modo evidente – a alegria: uma alegria que procede de saber que, quem se entrega de verdade, está junto da Cruz e, por conseguinte, junto de Nosso Senhor”6.
(Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A sabedoria da Cruz)
1 Caminho, nn. 815 e 813
2 Josemaría Escrivá, “É Cristo que passa”, n. 96
3 Via Sacra, II estação, n. 3
4 Caminho 658
5 Ed. Quadrante, São Paulo 1995
6 Forja, n. 772