quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Direção Espiritual: Como descobrir a minha vocação?



É comum que as pessoas procurem direção espiritual para se orientar quanto ao estado de vida que vão seguir ou quanto à profissão que vão exercer. Para descobrir isso, no entanto, é necessário dar um passo atrás. Assim como uma casa não pode ser bem construída se não tem um bom alicerce, não é possível que sigamos em frente sem que esteja assegurada a consciência de nossa vocação à santidade, que recebemos pelo sacramento do Batismo.

Como bom discípulo de Aristóteles, Santo Tomás de Aquino sabia que as coisas se definem por sua causa final, por aquilo para que servem. Por isso, ele inicia a primeira seção da segunda parte (chamada de prima secundae) de sua Suma Teológica indagando justamente qual o fim último do homem. Ao final, o Aquinate conclui, com Santo Agostinho, que este fim é a bem-aventurança [1] e que ela não consiste nem nas riquezas, nem nas honras, na fama, no poder, no prazer ou em algum dos bens criados, senão em Deus mesmo:

“É impossível estar a bem-aventurança do homem em um bem criado. A bem-aventurança é um bem perfeito, que totalmente aquieta o desejo, pois não seria o último fim, se ficasse algo para desejar. O objeto da vontade, que é o apetite humano, é o bem universal, como o objeto do intelecto é a verdade universal. Disto fica claro que nenhuma coisa pode aquietar a vontade do homem, senão o bem universal. Mas tal não se encontra em bem criado algum, a não ser só em Deus, porque toda criatura tem bondade participada. Por isso, só Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana, segundo o que diz o Salmo 102: ‘Que enche de bens o teu desejo’. Consequentemente, só em Deus consiste a bem-aventurança do homem”[2].
Hoje, as pessoas vivem com a cabeça no futuro, estudando para trabalhar e trabalhando para acumular dinheiro... Mas, ao final de suas cansativas e atarefadas existências, sobra apenas um sentimento de vazio, porque todas elas passam o hoje pensando apenas no amanhã – e, um dia, com a morte, o amanhã não vem; porque transferem o sentido de tudo o que fazem para este mundo – e a luz deste mundo, mais cedo ou mais tarde, para de brilhar. É preciso admitir que, se a vida tem realmente um sentido, ele se encontra fora da vida. Se essa existência, transitória, tem razão de ser, essa razão só pode ser eterna e transcendente. Caso contrário, como pregaram os filósofos existencialistas, só existe o nada. Tertium non datur.

Realmente, se Deus não existisse, não só a existência humana seria um absurdo como o próprio homem seria um animal defeituoso. Afinal, enquanto todos os animais encontram o objeto de seus desejos na natureza, o homem, mesmo que se lhe deem fama, sucesso, dinheiro e prazer, permanece insatisfeito. Na verdade, essa sede aparentemente insaciável do ser humano aponta para o alto: “ Feciste nos ad Te, Domine, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te – Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Vós” [3].

Feciste nos ad Te. Eis uma verdade essencial para toda a nossa vida: fomos feitos para Deus! Por isso, não só não nos pertencemos, como devemos dirigir todos os nossos atos a Ele. Caso contrário, tudo perde o seu sentido.

Antes de trilhar uma vocação específica, portanto, é preciso que purifiquemos a nossa intenção. Muitas pessoas perseguem um determinado estado de vida ou uma determinada carreira deixando de lado a verdadeira causa final, que dá fundamento às suas vidas e ordena todas as coisas. Não raramente elas demoram em encontrar a sua vocação, porque descuidaram do seu primeiro chamado, agindo como se a vida tivesse sentido em si mesma.

O famoso psicólogo Viktor Frankl, que passou a Segunda Guerra Mundial nos campos de concentração da Alemanha, dizia que “o homem (...) pode suportar tudo, menos a falta de sentido” [4]. Uma pessoa pode ser bem ou mal sucedida, mas se olha para as realidades terrenas sub specie aeternitatis, todas as coisas se lhe tornam leves. A finalidade da vida, definitivamente, é geradora de saúde e o fim último de nossa existência não está aqui, mas em Deus.

Referências

Cf. Suma Teológica, I-II, q. 1, a. 7
Suma Teológica, I-II, q. 2, a. 8
Santo Agostinho, Confissões, I, 1
Apud Olavo de Carvalho, A mensagem de Viktor Frankl, Bravo!, novembro de 1997

Jesus nos aponta a luz, a direção e o caminho do céu

A transfiguração de Jesus nos aponta a luz, a direção e o caminho do céu. Permitamos que essa luz do alto resplandeça em nossa vida e nos dê ânimo, fé e coragem! 
E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz”(Mateus 17, 2).
A Igreja nos dá a graça de celebrarmos hoje a Festa da Transfiguração de Jesus, que, de tão importante por ter um sentido tão profundo para a nossa fé, merece uma celebração à parte na liturgia. Mesmo que nós meditemos este mesmo Evangelho em outros domingos, em outro dia, vale a pena meditar e celebrar o dia em que Jesus, bem antes de Sua morte, subiu à montanha sagrada e diante dos apóstolos Pedro, Tiago e João transfigurou-se, isto é, mudou a figura diante de Seus discípulos, o Seu rosto brilhou como o sol e Suas vestes brancas ficaram como uma luz única.
O que tudo isso tem a nos ensinar? Primeiro que Jesus nos dá a garantia e nos mostra aquilo que seremos, aquilo que a vida eterna vai transformar: o corpo do homem e da mulher será novo e ressuscitado em Cristo Jesus. E que receberemos uma nova veste, uma veste branca, única, transfigurada pelo amor divino. E segundo que a veste do homem novo e da mulher nova não terá mais a mancha do pecado, do mal e nossa vida brilhará como a luz, como o sol. O brilho do Cristo Ressuscitado há de também resplandecer em nós!
Nós hoje celebramos a festa da luz, da luz que vem do céu, da luz que brota do Cristo vivo e ressuscitado, que ilumina a nossa vida. É importante dizer isso, porque, muitas vezes, no fundo da nossa alma, caminhamos na penumbra, na incerteza, no medo e na insegurança por não sabermos o que será da nossa vida depois. O pânico que a morte causa na vida de muitas pessoas! “O que vai ser de mim? Vou morrer um dia!”.
Ah, quando não nos alimentamos da eternidade, quando não recebemos a Eucaristia, que faz transfigurar e transparecer a vida nova do Cristo em nós, a nossa vida fica muito humana e terrena e perdemos a direção do céu. Ao transfigurar-se diante desses apóstolos Jesus lhes antecipa como será a ressurreição futura.
A transfiguração de Jesus, hoje, é para nos apontar a luz, a direção e o caminho do céu, e para que não percamos essa luz chamada Cristo Jesus. Permitamos que a luz, que vem do alto, resplandeça em nossa vida e nos dê ânimo, fé, coragem e a certeza de que, um dia, também estaremos gloriosos com Ele no céu!
Deus abençoe você!
http://homilia.cancaonova.com/

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

São João Maria Vianney

Com sua fervorosa vida de oração e seu apaixonado amor a Jesus Crucificado, São João Maria Vianney alimentou a sua cotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja.

O Cura d'Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre um dom imenso para o seu povo: "Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina".

Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: "Oh como é grande o padre! [...] Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. [...] Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do Céu e encerra- Se numa pequena hóstia".

E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos Sacramentos, dizia: "Sem o Sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando- a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. [...] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! [...] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu".

Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: "Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. [...] Sem o padre, a Morte e a Paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra [...]. Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, se não houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens [...]. Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. [...] O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós".

Santidade objetiva do ministério e santidade subjetiva do ministro

Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes, precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação religiosamente precária: "Naquela paróquia, não há muito amor de Deus; infundi-lo-eis vós". Por conseguinte, achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando a Sua ternura salvífica: Meu Deus, "concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por todo o tempo da minha vida!": foi com esta oração que começou a sua missão. E, à conversão da sua paróquia, dedicou- se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado.

Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de podermos também nós assimilar o todo pastoral de São João Maria Vianney.

A primeira coisa que devemos aprender é a sua total identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a Sua ação salvífica era e é expressão do Seu "Eu filial" que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à Sua vontade. Com modesta, mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objetiva do ministério e a subjetiva do ministro.

O Cura d'Ars principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do ministério que lhe estava confiado, decidindo "habitar", mesmo materialmente, na sua igreja paroquial: "Logo que chegou, escolheu a igreja por sua habitação. [...] Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá" - lê-se na primeira biografia. [...]

"Todas as boas obras reunidas não igualam o valor da Missa"

O Santo Cura ensinava os seus paroquianos, sobretudo, com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus-Eucaristia. "Para rezar bem - explicava-lhes o Cura -, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está ali, no Tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração, alegremo-nos pela Sua presença sagrada. Esta é a melhor oração". E exortava: "Vinde à Comunhão, meus irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver dEle para poderdes viver com Ele". "É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!".

Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a Comunhão adquiria uma eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia, afirmava que "não era possível encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. [...] Contemplava a Hóstia amorosamente".

Dizia ele: "Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do Sacrifício da Missa, porque aquelas são obras de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus". Estava convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia da Missa: "A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse uma coisa ordinária!". E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida: "Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!".

"Círculo virtuoso" entre o altar e o confessionário

Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o - por um único movimento interior - do altar ao confessionário. Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este Sacramento.
Na França, no tempo do Santo Cura d'Ars, a confissão não era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência íntima da Presença eucarística.

Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitálo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado "o grande hospital das almas". [...]

Assimilar em si o "novo estilo de vida" inaugurado por Jesus

No mundo atual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d'Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e ação, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico.

Observou, justamente, Paulo VI que "o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres; ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas". Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: "Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais do que o sejam o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?".

Assim como Jesus chamou os Doze para estarem com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são chamados a assimilar aquele "novo estilo de vida" que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.

Os três conselhos evangélicos, necessários também para os presbíteros

Foi precisamente a adesão sem reservas a este "novo estilo de vida" que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d'Ars. O Papa João XXIII, na carta encíclica Sacerdotii nostri primordia - publicada em 1959, centenário da morte de São João Maria Vianney -, apresentava a sua fisionomia ascética referindo-se de modo especial ao tema dos "três conselhos evangélicos", considerados necessários também para os presbíteros: "Embora, para alcançar esta santidade de vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado clerical a prática dos conselhos evangélicos, entretanto esta representa para ele, como para todos os discípulos do Senhor, o caminho regular da santificação cristã".

O Cura d'Ars soube viver os "conselhos evangélicos" segundo modalidades apropriadas à sua condição de presbítero. Com efeito, a sua pobreza não foi a mesma de um religioso ou de um monge, mas a requerida a um padre: embora manejasse muito dinheiro (dado que os peregrinos mais abonados não deixavam de se interessar pelas suas obras sócio-caritativas), sabia que tudo era dado para a sua igreja, os seus pobres, os seus órfãos, as meninas da sua Providence, as suas famílias mais indigentes. Por isso, ele "era rico para dar aos outros e era muito pobre para si mesmo". Explicava: "O meu segredo é simples: dar tudo e não guardar nada". Quando se encontrava com as mãos vazias, dizia contente aos pobres que se lhe dirigiam: "Hoje sou pobre como vós, sou um dos vossos". Deste modo pôde, ao fim da vida, afirmar com absoluta serenidade: "Não tenho mais nada. Agora o bom Deus pode chamarme quando quiser!".

Também a sua castidade era aquela que se requeria a um padre para o seu ministério. Pode-se dizer que era a castidade conveniente a quem deve habitualmente tocar a Eucaristia e que habitualmente a fixa com todo o entusiasmo do coração e com o mesmo entusiasmo a dá aos seus fiéis.Dele se dizia que "a castidade brilhava no seu olhar", e os fiéis apercebiam- se disso quando ele se voltava para o sacrário fixando-o com os olhos de um enamorado.

Também a obediência de São João Maria Vianney foi toda encarnada na dolorosa adesão às exigências diárias do seu ministério. É sabido como o atormentava o pensamento da sua própria inaptidão para o ministério paroquial e o desejo que tinha de fugir "para chorar a sua pobre vida, na solidão". Somente a obediência e a paixão pelas almas conseguiam convencê-lo a continuar no seu lugar. A si próprio e aos seus fiéis explicava: "Não há duas maneiras boas de servir a Deus. Há apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido". A regra de ouro para levar uma vida obediente parecia-lhe ser esta: "Fazer só aquilo que pode ser oferecido ao bom Deus"

Saber acolher os Movimentos Eclesiais e novas Comunidades

No contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos conselhos evangélicos, aproveito para dirigir aos sacerdotes, neste Ano a eles dedicado, um convite particular para saberem acolher a nova primavera que, em nossos dias, o Espírito está a suscitar na Igreja, através nomeadamente dos Movimentos Eclesiais e das novas Comunidades. "O Espírito é multiforme nos seus dons. [...] Ele sopra onde quer. E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e segundo formas precedentemente inimagináveis [...]; mas demonstra-nos também que Ele age em vista do único Corpo e na unidade do único Corpo".

A propósito disto, vale a indicação do decreto Presbyterorum ordinis: "Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência 
os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais altos". Estes dons, que impelem não poucos para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos, mas também para os próprios ministros. Com efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar "um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os recantos do mundo".

"Forma comunitária" do ministério ordenado

Queria ainda acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores dabo vobisdo Papa João Paulo II, que o ministério ordenado tem uma radical "forma comunitária" e pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu Bispo. É preciso que esta comunhão entre os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no Sacramento da Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efetiva e afetiva. Só deste modo é que os sacerdotes poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da primeira pregação do Evangelho. [...]

"Eu venci o mundo"

À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a ação do Santo Cura d'Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus Crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua cotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos, que é tão necessário hoje, como o foi sempre.

Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre atual a palavra de Cristo aos Seus Apóstolos, no Cenáculo: "No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo" (Jo 16, 33). A Fé no Divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro.

Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d'Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo atual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2009, n. 92, p. 6 à 9)


fonte: arautos.org

São João Maria Vianney

“Por onde passam os Santos, Deus com eles passa”. Foi no ano de 1772, que um santo mendigo, Bento José Labre, passando por Dardilly, se hospedou na humilde casa dos Vianney. A benção de Deus entrou com ele naquela mansão; pois poucos anos depois, nasceu lá aquele que no mundo inteiro é conhecido por João Vianney – o santo Cura d’Ars. Que eficácia maravilhosa da esmola! Deus dá a pobres camponeses um filho, que vem a ser um dos seus grandes servidores, recompensando assim uma obra de caridade, que dispensaram a um pobre mendigo.

João Batista Maria Vianney nasceu e foi batizado em 8 de maio de 1786. Desde a infância, manifestava uma forte inclinação à oração e um grande amor ao recolhimento. Muitas vezes era encontrado num canto da casa, jardim ou no estábulo, rezando, de joelhos, as orações que lhe tinham ensinado: o Padre-Nosso, a Ave-Maria, etc. Os pais, principalmente a piedosa mãe, Maria Belusa, cultivavam no filho esse espírito de religião e de piedade.

A França achava-se agitadíssima com os horrores da revolução e como os sacerdotes estivessem exilados ou encarcerados, não foi possível a João Vianney encontrar um mestre, que lhe desse algumas instruções sobre as ciências elementares. Era natural, pois, que passasse a mocidade entregue aos trabalhos do campo. Entretanto João continuava as práticas de piedade com todo fervor e o pecado era para ele coisa conhecida só de nome. Fez a primeira Comunhão numa granja, sendo que a perseguição religiosa não permitia o culto público nas igrejas.

Amainado o temporal da revolução, Vianney achou um grande amigo e protetor, na pessoa do Padre M. Balley, vigário de Ecully, que descobrira na alma de João qualidades superiores, que deviam ser aproveitadas e cultivadas, para a maior glória de Deus. Se era grande o fervor, admirável a virtude do jovem Vianney, se melhor mestre não podia haver do que o Padre Balley, tudo parecia desfazer-se diante de uma barreira, que se levantava insuportável: a falta de inteligência do estudante. Não fora a persistência imperturbável do santo sacerdote, Vianney teria desanimado, diante das dificuldades, que se lhe afiguravam invencíveis. Com as orações e a caridade redobrada que dispensava aos pobres, Vianney alcançou a graça de poder continuar os estudos com algum proveito. Quando estava prestes a ser recebido no seminário, veio-lhe ordem de apresentar-se à autoridade militar de Bayonne. Foram baldados os esforços do Padre Balley para obter isenção do serviço militar, para o protegido e pareciam aniquiladas de vez todas as esperanças. Vianney, caiu doente e passou quatorze meses nos hospitais de Lyon e de Roanne.

Passado esse tempo, ninguém mais se lembrou dele para o serviço militar e só assim pode matricular-se no pequeno Seminário de Verrières e mais tarde no grande Seminário de Santo Irineu. Mestres e alunos eram unânimes em conceder a Vianney a palma quanto à virtude e santidade entre os condiscípulos. O preparo intelectual do jovem, porém, era tão deficiente, que os mestres não se viram com coragem de apresentá-lo para a ordenação.

O vigário geral do Cardeal Fesch, Mons. Courbon, que em última instância devia decidir a questão, deu consentimento para que Vianney fosse admitido ao sacerdócio e o jovem, teólogo recebeu as santas Ordens a 9 de agosto de 1815. Vianney, contava já 29 anos.

Os primeiros três anos do sacerdócio passou-os na companhia e sob a direção do primeiro mestre e amigo, Padre Balley. Este faleceu e a Cúria episcopal nomeou Vianney Cura d’Ars. O novo campo de ação era o mais ingrato possível. Ars era um lugar sem religião. A Igreja deserta, os sacramentos não eram freqüentados, o trabalho no domingo, a freqüência de bailes e cabarés estavam na ordem do dia. Vianney, vendo o estado das coisas, teve ímpetos de abandonar tudo. “Que vou fazer aqui?” – exclamou. – Neste meio nada farei e tenho medo até de perder-me”. Mas logo o seu zelo se lhe reanimou. Fixou residência na matriz e sua primeira ocupação era rezar pela conversão dos paroquianos. Desde a manhã à noite, com pequenas interrupções, ficava de joelhos diante do altar do Santíssimo Sacramento. As frugalíssimas refeições ele mesmo as preparava.

Depois começou a procurar as famílias. Nas visitas lhes falava de Deus, dos Santos, das coisas da religião. Se bem que a maior parte não lhe ligasse importância, um ou outro reparava na batina rota e velha, na modéstia e piedade, no aspecto austero e mortificado do vigário. Pouco a pouco o povo ficou conhecendo o pároco, cujas orações e mais ainda o exemplo, acabaram por franquear-lhe o caminho aos corações de todos. Alguns começaram a freqüentar a santa Missa.

O número daqueles que acompanhavam o piedoso Cura na recitação do rosário, todas as tardes, crescia de dia para dia e depois de algum tempo, o Santíssimo não ficava nenhuma hora durante o dia, sem adorador. A Comunhão freqüente foi pelo Santo Cura introduzida na paróquia, com muita felicidade. Para as senhoras se fundou a Confraria do Rosário e para os homens a Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Tendo assim elevado a certa altura a vida religiosa na paróquia, Vianney passou a combater os abusos. O zelo de pastor dirigiu-se principalmente contra os cabarés, as danças e a profanação do domingo. Sem recorrer a meios rigorosos e ameaças, fazendo, pelo contrário, prevalecer a caridade, Vianney conseguiu que um cabaré após outro, se fechasse. Quanto à dança, os espíritos se dividiram em duas correntes: uma a favor da campanha do vigário e outra contra. Veio a festa de São Sixto, padroeiro do lugar. O baile fazia parte integrante do programa dos festejos profanos. Fizeram-se os convites do costume. Mas a decepção dos moços foi grande, quando à hora do baile, nenhuma moça lá apareceu. E o baile não se realizou.

Restava ainda restabelecer o domingo, em toda a sua dignidade. Tão freqüentes, tão insistentes e persuasivas eram as exortações do vigário, a respeito do trabalho no domingo, que determinaram mudança completa no pensamento do povo, que em seguida, passou a observar, com todo o rigor, o descanso dominical.

Ars estava renovada. Os vícios já não existiam. Abusos foram extirpados. Todos queriam ser bons cristãos. Respeito humano era coisa desconhecida em Ars. Incorreria na censura pública quem não quisesse praticar a religião. Não se ouvia mais nenhuma blasfêmia; não existia inimizade alguma em Ars. Ao toque do Ângelus os homens se descobriam e interrompiam o trabalho, para rezar as Ave-Marias. O confessionário se via assediado, até altas horas da noite. Aos domingos a igreja estava sempre repleta, por ocasião das missas, das vésperas, do catecismo e do terço. Foi preciso o vigário alargar a matriz e construir novas capelas, como as de São João Batista, de Santa Filomena, de Ecce Homo e a dos Santos Anjos.

Conhecendo a grande miséria das almas e os perigos em que se achavam as pobres órfãs, Vianney fundou na paróquia um asilo, a que deu o nome de “Providência”. Para as asiladas era um pai que sacrifícios não media, para que nada lhes faltasse. Essa fundação, em si tão útil e boa, foi para Vianney uma fonte de desgostos. Mais de uma vez lhe sobreveio o desânimo e profundamente desgostoso, exclamava: “Ah ! se tivesse sabido o que quer se dizer ser sacerdote, eu teria procurado a minha salvação na Cartuxa ou na Trappa”. Por duas vezes tentou fugir de Ars para ver-se livre do pesado fardo do ministério pastoral.

O segredo dos grandes resultados espirituais, na paróquia de Ars, estava unicamente na santidade do Cura. Vianney era homem da oração e da penitência. A um colega que o visitou e dolorosamente se queixou do triste estado em que se achava, perguntou: “Rezastes entre lágrimas? Não é bastante. Jejuastes já? Deitastes-vos sobre o chão duro e tomastes a disciplina? Se ainda não o fizestes, não penseis ter feito tudo”. O que a outros aconselhava ele o praticava. Levava vida de extrema pobreza. Dos pobres da paróquia era Vianney o mais pobre. Possuía uma só batina e esta cheia de remendos. O estado do chapéu era tal, que provocava o riso dos colegas. Vianney não possuía nada e nada guardava. E quanto bem não fez às órfãs, e aos pobres! A vida austeridade, em nada difere da vida Cura d’Ars, com a dos grandes eremitas do deserto do Egito. Quando muito, tomava três refeições cheias por semana, e que refeições! O “cardápio” não constava senão dumas ervas cruas, pão seco e água. O sono era um repouso de duas horas apenas. Quando se tratava da conversão dum pecador, mais apertava o jejum, e a cama trocada pelo chão. A saúde de Vianney era fraquíssima. O Santo sofria cruciantes dores nos intestinos, dores de cabeça violentas. Vinte vezes esteve doente e vinte vezes se curou subitamente, fato que grande admiração causou aos médicos. Houve quem lhe dissesse que suas penitências excediam os limites do lícito e Vianney respondeu-lhe: “O Senhor não sabe que meus pecados exigem um tratamento como este”. Além destas práticas comuns de penitência, Vianney usava ainda outras como: a flagelação, o cilício, etc.

Se com aquela santa vida agradava a Deus, tanto mais provocava as iras do inimigo, que o perseguia com toda a sorte de malefícios, chegando a ponto de fisicamente o maltratar. As influências diabólicas devem ser atribuídas também às calúnias, de que Vianney foi vítima. Tudo isso, porém, não conseguia roubar-lhe o contentamento íntimo e a alegria da alma.

Nos últimos anos o organismo lhe denunciava um estado de fraqueza extraordinário. Quando rezava o terço na igreja, sua voz era quase imperceptível. No mês de maio de 1843 lhe sobreveio uma forte pneumonia, que lhe pôs em grande perigo a vida. Vianney pediu que lhe administrassem os santos Sacramentos do Viático e da extrema Unção. Aprovado pela expectativa da morte, o Santo invocou uma grande Padroeira Santa Filomena pedindo que o curasse, ainda que fosse necessário um milagre. Santa Filomena, curou-o e consolou-o com sua aparição.

Vianney possuía um grande amor ao Santíssimo Sacramento. Este amor, este fogo se manifestava nas visitas que fazia a Jesus na Eucaristia, nas alocuções e principalmente na Santa Missa. Quem o via celebrar, tinha a impressão do celebrante ver o próprio Nosso Senhor. Deste amor lhe brotava o culto aos grandes amigos de Deus: a São João Batista, a São José, a Santa Filomena, sua padroeira por excelência e à Santíssima Virgem. Daí também o zelo infatigável pela conversão dos pecadores.

Vianney não era só pastor das almas de Ars. Deus quis que o pobre Cura fosse o Apóstolo universal do século. A santidade do pobre Vianney atraía as almas, que nas suas necessidades o procuravam, para a ele se confessar e dele receber conselhos e conforto. Esta afluência durou trinta anos e só por uma intervenção sobrenatural pode ser explicada. As peregrinações a Ars começaram em1826. De 1835 em diante, o número anual de peregrinos que procuravam o Cura d’Ars, excedia a 80.000. Eram leigos e sacerdotes, bispos e cardeais, sábios e ignorantes, que vinham ajoelhar-se-lhes aos pés. Em 1843 recebeu um coadjutor e os missionários diocesanos vinham de vez em quando lhe prestar serviços também. Inúmeros eram os milagres que se operaram na humilde casa do Cura d’Ars. Tão numerosas eram as curas, devidas à intervenção de Vianney, que alguém um dia lhe disse: “Senhor Cura, basta que digais apenas: quero que estejas curado e a cura está feita”. Vianney ouvia os doentes em confissão e dirigia-os à capela de Santa Filomena. Era lá que os milagres se efetuavam. Só Deus sabe quantas conversões se realizaram em Ars, quantas almas lá encontraram a paz desejada.

Vianney morreu a 4 de agosto de 1859, mas a sua memória ainda está viva e glorioso se lhe tornou o túmulo. Declarado “venerável” por Pio IX, em 1925 lhe foi conferida a honra dos altares, pela solene canonização proferida pelo Papa Pio XI.

Reflexões:

E’ o imortal merecimento do Pe. Balley, ter descoberto e cultivado a vocação sacerdotal de seu pequeno paroquial João Batista Vianney. Não fossem o zelo e o interesse verdadeiramente paternais desse sacerdote, a Igreja não teria talvez o grande Santo d’Ars, padroeiro dos párocos. A bibliografia conta-nos as dificuldades insuperáveis quase com que o estudante Vianney tinha que lutar, para chegar ao sacerdócio. A boa vontade, o trabalho esforçado, a oração, tiveram como recompensa o apoio da divina graça, que fez do pobre menino de Dardilly um grande Santo, glória da sua terra e da Igreja de Deus.

Conta-se Ainda que ao aproximar-se a sua ordenação, o vigário geral reunido com alguns padres, ponderaram a inconveniência em lhe conceder o sacramento da Ordem, porque João Batista “era muito burro”, conforme comentaram entre si num momento de reunião, não com maldade, mas com a sinceridade de quem estava convencido da incapacidade intelectual de quem iria assumir tão elevado cargo. Nesse momento, João Batista estava chegando e ouviu ainda na ante-sala o constrangedor comentário. Ali ele aguardou a saída dos padres, e foi ter com o vigário. Antes de iniciar a conversação, o santo lhe pediu licença e disse: “Padre, se com uma atiradeira feita da mandíbula de um burro, Davi conseguiu derrubar Golias, imagine o que o senhor poderá fazer tendo nas mãos um burro inteiro!” Estas palavras foram suficientes para revogar a intenção do vigário que, logo em seguida, o enviaria à comunidade de Ars.

De fato, mais que Davi diante de Golias, nosso santo assumiu a paróquia com número ínfimo de católicos, sendo o restante do povo, pagão e completamente entregue aos divertimentos profanos e toda espécie de imundícies e vícios. Na fraqueza do santo, Deus manifestou a força, na limitação intelectual, sabedoria. A pregação, o apostolado, os milagres resultaram em sucessivas conversões. As árvores secas esverdearam e belos frutos de santidade multiplicaram extraordinariamente no campo do Senhor. Pouco antes de morrer, o Cura D’Ars pôde contemplar o resultado: Praticamente toda a cidade convertida.

Boas vocações vem do céu; é Deus que as dá. “Grande é a messe, diz Nosso Senhor, e poucos são os operários; pedi, pois ao Senhor da messe, para que mande operários para a sua messe”. Grande é a messe do Senhor e poucos são os Padres. São as famílias que devem fornecer as vocações; é das famílias que Deus, o Senhor da messe quer escolher seus operários. Trabalhemos, pois, cada um no lugar que Deus lhe determinou na sociedade, pela santificação da família, pela compreensão da sublimidade do sacerdócio; rezemos, para que o reino de Cristo se firme cada vez mais nas famílias; o reino de Cristo com seu espírito de sacrifício e de oração; rezemos pela santificação dos pais, das mães; pais santos, mães santas, que não deixam a Igreja sem sacerdotes. Da árvore do matrimônio virá o fruto santo do sacerdócio.

De São João Batista Vianney são as seguintes considerações, apropriadas aos nossos tempos:

1. “Devemos trabalhar para tornar-nos merecedores de receber a Santíssima Eucaristia todos os dias. Se não nos é possível comungar diariamente substituamos a Comunhão real pela espiritual, que pode ser feita a cada instante; e nós devemos ter o desejo ardente de receber Deus Nosso Senhor.

A Comunhão é para a alma o que o sopro é para o fogo, que está para apagar-se. – Ide à Comunhão, ide a Jesus! Ide viver dele para viver com Ele. Não digais que tendes muito que fazer. Não disse Nosso Senhor: Vinde a mim: vós que trabalhais e vos achais sobrecarregados? Não digais que não sois dignos. Tendes razão, mas é verdade também que d’Ele precisais. Se Nosso Senhor tivesse tido em vista a vossa dignidade, jamais teria instituído o belo sacramento do amor. Não digais que sois tão miseráveis. Gostaria mais de vos ouvir dizer que estais muito doentes e por isso deixais de chamar o médico. – Todos os seres necessitam do alimento para viver.

O alimento da alma é Deus. A alma só de Deus pode viver e nada mais a satisfaz, senão Deus”.

2. Sobre as danças dizia Vianney: “Vede meus irmãos, as pessoas que vão ao baile, deixam o Anjo da Guarda na porta e é um demônio que lhe toma o lugar, de modo que há no salão tantos demônios, quantos são os dançarinos”.- Se no tempo de Vianney assim já era, o que diria ele, se visse determinadas danças de hoje, que são a vergonha do nosso século? Especialmente em bailes onde a impureza jorra, a pancadaria impera, a violência produz desgraça? Isto bem conhecemos pela imprensa que, diariamente noticia consumo de drogas, brigas intensas, assassinatos fúteis em boates movidas por músicas frenéticas, embalos alucinantes e letras escandalosamente malignas.

3. A respeito da santidade do domingo, ouviu-se Vianney muitas vezes dizer: “Vós trabalhais, mas o ganho arruína o vosso corpo e a vossa alma. Se perguntasse àqueles que no domingo trabalham: Que estais a fazer? Eles poderiam responder: Estou vendendo a minha alma ao demônio; Estou crucificando Nosso Senhor; estou renegando o meu batismo!... Oh! Como se engana aquele que aproveita do domingo, pensando que ganha mais dinheiro! Vós tendes a convicção de que tudo depende do vosso trabalho; é engano. Ora vem uma doença, um acidente... é preciso tão pouca coisa... uma tempestade, uma chuva... Deus tem tudo na mão; ele pode vingar-se quando e como quer... Conheço dois meios para empobrecer: “Trabalhar no domingo e roubar bens alheios”.


http://www.paginaoriente.com/santosdaigreja/ago/joaomariavianei0408.htm

São João Maria Vianney O Santo Cura d´Ars

Pouco dotado intelectualmente, atingiu esse santo vigário alto grau de santidade. Seu êxito foi tão grande, que atraiu multidões de todas as partes da França e de vários países europeus

· Plínio Maria Solimeo
O futuro Cura d’Ars nasceu na pequena localidade de Dardilly, perto de Lyon, na França, no dia 8 de maio de 1786, de família de agricultores piedosos. Foi consagrado a Nossa Senhora no próprio dia do nascimento, data em que foi também batizado.

Sua instrução foi precária, pois passou a infância em pleno Terror da Revolução Francesa, com os sacerdotes perseguidos e as escolas fechadas. João Maria tinha 13 anos quando recebeu a Primeira Comunhão das mãos de um sacerdote “refratário” (que não tinha jurado a ímpia Constituição do Clero), durante o segundo Terror, em 1799.(1)

Com a subida de Napoleão e a Concordata com a Santa Sé, foi possível a João Maria iniciar seus estudos eclesiásticos aos 20 anos, terminando-os aos 29, depois de mil e uma contrariedades.

É impossível, nos limites de um artigo, abranger toda a vida apostólica do Cura d’Ars. Por isso limitar-me-ei a abordar um aspecto dela, que foi como transformou a pequena localidade de Ars de modo a tornar-se ponto de admiração de toda a França.

Ars ao tempo da chegada do santo

Quando o jovem sacerdote chegou a Ars, esta era um pequeno aglomerado de casas, contando apenas 250 habitantes, quase todos agricultores. Como a maior parte das localidades rurais da França, sacudidas durante 10 anos pelos vendavais da Revolução Francesa, encontrava-se em plena decadência religiosa. Vivia-se um paganismo prático formado de negligência, indiferentismo e esquecimento das práticas religiosas.

A cidadezinha de Ars assemelhava-se às paróquias vizinhas, não sendo nem melhor nem pior que elas. Havia nela um certo fundo religioso, mas com muito pouca piedade.

Como transformá-la num modelo de vida católica, ambição de São João Batista Vianney?

Santificando-se para santificar os outros

Primeiro, pela oração e pelos sacrifícios do vigário por suas ovelhas. Já no dia de sua chegada, o Padre Vianney deu o colchão a um pobre e deitou-se sobre uns sarmentos junto à parede, com um pedaço de madeira como travesseiro. Como a parede e o chão eram úmidos, contraiu de imediato uma nevralgia, que durou 15 anos. Seu jejum era permanente, habitualmente passando três dias sem comer; e quando o fazia, alimentava-se somente de batatas cozidas no início da semana e já emboloradas. Mas ele sobretudo passava horas e horas ajoelhado diante do Santíssimo Sacramento, implorando a conversão de seus paroquianos.

Uma de suas primeiras medidas práticas foi reformar a igreja que, por respeito ao Santíssimo Sacramento, desejava que fosse a melhor possível.

“Esforcemo-nos para ir para o Céu”

Confessionário onde o Santo Cura d‘Ars atendia fiéis diariamente
Outra de suas solicitudes foi para com a juventude. Atraía todos para o catecismo. Exigia que este fosse aprendido de cor, palavra por palavra, e só admitia à Primeira Comunhão quem estivesse assim devidamente preparado. Instava com os meninos e adolescentes para que cada um levasse sempre consigo o Rosário, e tinha no bolso alguns extras para aqueles que houvessem perdido o seu.

Paulatinamente os esforços do santo foram sendo coroados de êxito, de maneira que os jovens de Ars chegaram a ser os mais bem instruídos da comarca.

Nas missas dominicais, pregava sobre os deveres de cada um para consigo, para com o próximo e para com Deus. Falava constantemente do inferno e do que precisamos fazer para evitá-lo: “Ó, meus queridos paroquianos, esforcemo-nos para ir para o Céu. Lá havemos de ver a Deus. Como seremos felizes! Que desgraça se algum de vós se perder eternamente!”

Ele exigia a devida compostura e atitude própria a bons católicos na igreja, por respeito à Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.

“Arruinados todos aqueles que abrirem tabernas”

A guerra que moveu contra as tabernas também foi bem sucedida. Aos que a elas iam, em vez de comparecer à missa no domingo, dizia: “Pobre gente, como sois infelizes. Segui vosso caminho rotineiro; segui-o, que o inferno vos espera”. Ameaçava-os de não só perderem os bens eternos, mas também os terrenos.

Aos poucos, por falta de fregueses, as tabernas foram se fechando. Outros tentaram abri-las, mas eram obrigados a cerrá-las. A maldição de um santo pesava sobre eles: “Vós vereis arruinados todos aqueles que aqui abrirem tabernas”, disse no púlpito. E assim foi. Quando elas se fecharam, o número de indigentes diminuiu, pois suprimiu-se a causa principal da miséria, que era moral.

Luta contra blasfêmias e trabalho aos domingos

Quarto do santo Cura d'Ars
“Blasfêmias e trabalhos nos domingos, bailes, cabarés, serões nas vivendas e conversas obscenas, englobava tudo numa comum maldição”. Por anos a fio pregou contra isso, exortando no confessionário, no púlpito e nas visitas que fazia às famílias. Dizia: “Se um pastor quiser se salvar, precisa, quando encontrar alguma desordem na paróquia, saber calcar aos pés o respeito humano, o temor de ser desprezado e o ódio dos paroquianos [e denunciar o mal]”.

A guerra do santo cura contra as blasfêmias, juramentos, imprecações e expressões grosseiras foi sem quartel; e tão bem sucedida, que desapareceram de Ars. Em vez delas passou-se a ouvir entre os camponeses expressões como Deus seja bendito! Como Deus é bom! Em vez das cançõezinhas chulas da época, hinos e cânticos religiosos.

A luta contra o trabalho nos domingos foi também tenaz e durou quase oito anos. “A primeira vez que do púlpito abordou o tema, fê-lo com tantas lágrimas, tais acentos de indignação, com tal comoção de todo o seu ser que, passado meio século, os velhos que o ouviram ainda se lembravam com emoção. [...] Vós trabalhais, dizia ele, mas o que ganhais é a ruína para a vossa alma e para o vosso corpo. Se perguntássemos aos que trabalham nos domingos 'que acabais de fazer?’, bem poderiam responder: ‘Acabamos de vender a nossa alma ao demônio e de crucificar Nosso Senhor. Estamos no caminho do inferno’”. Depois de muita insistência, em Ars o domingo tornou-se verdadeiramente o Dia do Senhor.

Combate aos bailes durante 25 anos

Ars era o lugar predileto dos jovens dançarinos das vizinhanças. Tudo era pretexto para um baile. Para acabar com eles, o Santo Cura d’Ars levou 25 anos de combate renhido.

Explicava que não basta evitar o pecado, mas deve-se fugir também das ocasiões. Por isso, abrangia no mesmo anátema o pecado e a ocasião de pecado. Atacava assim ao mesmo tempo a dança e a paixão impura por ela alimentada: “Não há um só mandamento da Lei de Deus que o baile não transgrida. [...] Meu Deus, poderão ter olhos tão cegos a ponto de crerem que não há mal na dança, quando ela é a corda com que o demônio arrasta mais almas para o inferno? O demônio rodeia um baile como um muro cerca um jardim. As pessoas que entram num salão de baile deixam na porta o seu Anjo da Guarda e o demônio o substitui, de sorte que há tantos demônios quantos são os que dançam”.
O Santo era inexorável não só com quem dançasse, mas também com os que fossem somente “assistir” ao baile, pois a sensualidade também entra pelos olhos. Negava-lhes também a absolvição, a menos que prometessem nunca mais fazê-lo. Ao reformar a igreja, erigiu um altar em honra de São João Batista, e em seu arco mandou esculpir a frase: Sua cabeça foi o preço de uma dança!... É de ressaltar-se que os bailes da época, em comparação com os de hoje, sobretudo do pula-pula frenético e imoral do carnaval e as novas danças modernas, eram como que inocentes. Mas era o começo que desfechou nos bailes atuais.

A vitória do Pe. Vianney neste campo foi total. Os bailes desapareceram de Ars. E não só os bailes, mas até alguns divertimentos inofensivos que ele julgava indignos de bons católicos.

Junto a eles combateu também as modas que julgava indecentes na época (e que, perto do quase nudismo atual, poderiam ser consideradas recatadas!). As moças, dizia, “com seus atrativos rebuscados e indecentes, logo darão a entender que são um instrumento de que se serve o inferno para perder as almas. Só no tribunal de Deus saber-se-á o número de pecados de que foram causa”. Na igreja jamais tolerou decotes ou braços nus.

Ars transformada pelo santo

Altar com o corpo do santo Cura d‘Ars
Um sacerdote santo torna piedosos seus paroquianos. Assim, apenas três anos e meio depois de sua chegada, o santo Cura já podia escrever: “Encontro-me numa paróquia de muito fervor religioso e que serve a Deus de todo o seu coração”. Em 1827 (seis anos depois), exclamava entusiasmado do púlpito: “Meus irmãos, Ars não é mais a mesma! Tenho confessado e pregado em missões e jubileus. Nada encontrei como aqui”.

É que, ao mesmo tempo em que reprimia os abusos, semeava também a boa semente. E ele aspirava, para seus paroquianos, ao ideal de perfeição do qual os cria capazes. Recomendava-lhes que rezassem antes e depois das refeições, recitassem o Ângelus três vezes ao dia onde quer que estivessem; e que, ao levantar e deitar, fizessem a oração da manhã e a da noite. Esta passou a ser feita também em comum na igreja ao toque do sino. Os que ficavam em casa ajoelhavam-se diante de algum quadro ou imagem religiosa, ali fazendo suas orações.

Com o tempo passou-se a dizer que em Ars o respeito humano fora invertido: tinha-se vergonha de não fazer o bem e de não praticar a Religião. O que é um auge de vitória da Igreja! Ars tornou-se também um centro de piedade e religiosidade.

Por isso, os peregrinos admiravam nas ruas da cidade a serenidade de certos semblantes, reflexo da paz perfeita de almas que vivem constantemente unidas a Deus.

Notas:

1. Francis Trochu, O Santo Cura d’Ars, Editora Littera Maciel Ltda., Contagem, MG, 1997, p. 27. Todos os textos citados sem mencionar a fonte foram extraídos desta obra.

Outras obras consultadas:

– Edelvives, El Santo de cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1948, tomo 4, pp. 403 e ss.


– Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo 3, pp. 313 e ss.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=AD59E81E-D9EC-1A31-248EEA840880192A&mes=Agosto2005

São João Maria Vianney - Cura d'Ars - Legendado

domingo, 3 de agosto de 2014

Dai-lhes vós de comer

O evangelho deste domingo vem logo após a morte de João Batista, quando Herodes, num banquete, decreta a morte do profeta dos pobres e das esperanças do ovo. Jesus, em contraste com o banquete da morte, propõe o banquete da vida, no qual os pobres e famintos são saciados.
Jesus sai do ambiente de morte e se dirige ao deserto, seguido pela multidão. O deserto recorda o êxodo e a missão libertadora de Moisés. Nesse ambiente, Jesus inaugura um mundo novo, tendo compaixão da multidão e conclamando todos para construir o projeto alternativo: uma sociedade sem fome e sem miséria.
Os discípulos tentaram "tirar o corpo fora", pensando não ser problema deles. Jesus os instiga a não fugir do compromisso. Da mesma forma, embora hoje muitos pensem que os problemas da humanidade não devem preocupar a igreja envolvida com as "coisas do espirito", ela também deve empenhar-se na solução dos problemas do povo e comprometer-se com os projetos que promovem a dignidade da pessoa. Cada cristão é responsável pela fome do outro: fome de pão, de amor, de justiça, de carinho, de compreensão, de escuta... O cristão não é aquele que despede, mas o que acolhe. Virando as costas aos famintos, perde-se a identidade cristã.
A solução proposta pelos discípulos é cômoda e descomprometida. Eles seguem a lógica do mercado, que manda comprar, algo que poucos tinham condições de fazer. A proposta de Jesus é outra: "Dai-lhes vós mesmos de comer". A solução, portanto, não está em projetos mirabolantes, mas na partilha do "pouco": cinco pães e dois peixes, somando sete, símbolo de plenitude e totalidade.
Após a organização do povo, Jesus pronuncia a benção, como qualquer pai israelita antes das refeições em família. Em seguida distribui os pães e os peixes. Aí acontece os milagres: quando há a partilha. Milhões de pessoas passam fome no mundo porque a humanidade ainda não aprendeu a partilhar, a destruir o que ela própria produz. Não podemos comer tranquilamente "nosso pão" se ao nosso lado há pessoas passando fome.

Pe. Nilo Luza, ssp sobre o evangelho deste domingo 03/08/2014