sábado, 8 de novembro de 2014

Coração de Jesus

Coração de Jesus, propiciação pelos nossos pecados, ante as vossas lágrimas eu só vos peço pedir humildemente que me purifiques nelas das minhas faltas. Tamanha é a minha insensibilidade, que, sendo eu o culpado, ainda assim não sei derramar lágrimas de arrependimento. Jesus torne o meu coração sensível, semelhante ao vosso, para que convosco me possa imolar sempre como vítima ao vosso Pai. Amém.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um espinho na carne

É em nossa fraqueza que Deus vem em nosso auxilio com a sua graça. Basta-te a minha graça!
São Paulo teve uma experiência impressionante com Jesus. Ele relata na segunda Carta aos coríntios. Primeiro começa dizendo que “foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir”. Depois, relata o seguinte: “para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo”. (2 Cor 12,4-10).
Ninguém sabe ao certo o que era “esse espinho na carne” de São Paulo, mas certamente era algo que muito o incomodava. Alguns dizem que era uma doença nas vistas, outros dizem que ele tinha contraído malária; enfim, era algo que o fazia sofrer.
O mais interessante é que Paulo pediu a Jesus que retirasse dele esse espinho, mas o Senhor disse: Não! E ele entendeu porquê: para que “a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho”, uma vez que ele tinha sido “arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir”. Paulo podia ficar vaidoso, então o Senhor o impedia com o espinho na carne. Conosco também acontece o mesmo, especialmente quem se destaca.
Certamente cada um de nós tem esse espinho na carne, que pode ser de fundo físico ou espiritual. Certa vez eu experimentei um espinho desses, na alma, é pior do que no corpo. Sentia-me com uma brasa na alma ou uma flecha no coração. Roguei também ao Senhor, insistentemente, que me livrasse daquele espinho, mas Ele não me livrou. Então comecei a procurar a causa do Senhor me manter naquela situação. Deixei minha alma em silêncio, para tentar ouvir a Sua voz.
No silêncio da dor da alma, parece que uma voz falava no meu intimo: “Quanto maior for o sofrimento oferecido a Deus, com amor, mais nós o agradamos, mais temos méritos diante Dele e mais se apressa a nossa santificação”. Então entendi que o Senhor providenciava a minha salvação. Deixava-me naquele purgatório terreno, o tempo que for necessário, para me purificar. Lembrei-me do Eclesiástico: “prepara a tua alma para a provação, humilha teu coração, espera com paciência, sofre as demoras de Deus, não te perturbes no tempo da infelicidade. Na dor permanece firme, na humilhação tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata e os homens agradáveis a Deus pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2,1-6).
E a voz continuava a me dizer: “A prata e o ouro só ficam purificados no fogo quando começam a refletir neles o Rosto do ourives”.
Entendi que nossa purificação só termina quando o Rosto de Deus brilha em nossa alma; antes as escórias têm de serem queimadas.
Mas, muitas delas não as vemos; e por isso achamos que não as temos, mas Deus as vê, e quer remove-las de nós. Paciência!
São Paulo disse aos romanos que “Deus nos predestinou para sermos conforme a imagem do Seu Filho” (Rom 8,29). É a meta de Deus para cada filho, ver o Rosto de Jesus em nós. Então, nossa purificação só terminará – como o ouro e a prata – quando Jesus estiver formado em nós. Isto começa aqui e pode ser concluído na eternidade, no Purgatório.
Não desanimemos e nem desesperemos, é uma grande e bela obra de Deus. Todos os santos passaram por isso para chegar ao céu. No silêncio da meditação Deus me ensinava que é na paciência com este espinho na carne que temos a oportunidade de rezar mais.
Como disse João Paulo II, “quanto mais se sofre, mais é necessário rezar”. Além disso, é uma grande oportunidade de oferecer a dor pelos outros: a saúde e a salvação dos entes queridos, o sufrágio das almas do Purgatório, as lutas da Igreja, a santificação do clero, etc. É nisso que Deus nos liberta de nós mesmos, de nossos egoísmos, vanglória, apegos desordenados, busca de prazeres, maledicências, iras, invejas…
Entendendo a importância disso, São Paulo disse aos coríntios: “de mim mesmo não me gloriarei, a não ser das minhas fraquezas. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,5).
É em nossa fraqueza que Deus vem em nosso auxilio com a sua graça. Basta-te a minha graça! Não entendemos bem porque Ele permite esse espinho em nossa carne; mas Ele nos conhece e nos ama, sabe qual é o remédio que nossa alma precisa.
É o Médico que deve prescrever o remédio, e não o doente.
Prof. Felipe Aquino
http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2014/11/06/um-espinho-na-carne-2/

Cuidemos daqueles que estão longe da presença de Deus

Que tal, no dia de hoje, você visitar alguém que há tempos está afastado da Igreja? Deus ficará muito mais feliz se você for capaz de sair de si para buscar um único irmão, um único filho, porque grande é o tamanho e a importância dele para o Senhor.
Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lucas 15,7).
Nós, hoje, começamos a meditar o “Evangelho da Misericórdia”, é assim que compreendemos o capítulo quinze do Evangelho de Lucas, a manifestação extrema da misericórdia de Deus. Hoje, ela é comparada com o pastor que têm noventa e nove ovelhas e perde uma delas, ou ainda, com a mulher que têm dez moedas de prata e perde apenas uma.
Sabe, meus irmãos, Deus não nos olha no atacado nem no varejo. Ele nos vê de forma única, pessoal e individual. Não pense que você é menos importante, porque já têm uma multidão seguindo o Senhor, muita gente a serviço d’Ele. Não é verdade! Assim como o pastor não quer que nenhuma de suas ovelhas se extravie, o nosso Pai não quer perder nenhum de Seus filhos. Por isso, cada um, em particular, é muito importante aos olhos de Deus Nosso Pai!
Somos chamados, muitas vezes, a deixar de lado o que já temos para ir em busca daquilo que não temos. Que tal, no dia de hoje, você visitar alguém que há tempos está afastado da Igreja? Por um motivo ou outro, essa pessoa se decepcionou, não alimentou a sua fé, deixou falar mais alto a preguiça ou qualquer outra coisa e se afastou da casa do Pai.
Nós, que estamos na caminhada, não podemos nos deixar levar pela indiferença, precisamos ir atrás daquela pessoa, bater à porta dela. Mas não precisamos ser chatos, inconvenientes, mas ser uma presença amiga, amorosa e fraterna na vida do irmão e da irmã, do amigo e da amiga que, por alguma razão, está longe de Deus.
O Senhor precisa de nós para irmos em busca da ovelha e da moeda que está perdida! Nós precisamos, muitas vezes, deixar o que já fazemos, aqueles que nós já temos para Deus,  para irmos em busca daquele filho único. Às vezes, achamos que o trabalho mais importante é só aquele de falar com muita gente, com aqueles que estão no grupo que participamos, mas Deus ficará muito mais feliz se você for capaz de sair de si para buscar um único irmão, um único filho, porque grande é o tamanho e a importância dele para o Pai!
Cuidemos uns dos outros, mas não nos esqueçamos daqueles que estão afastados e longe da casa do Senhor.
Deus abençoe você!
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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Como se não Deus existisse

Somente por meio de homens que tenham sido tocados por Deus é que o Senhor pode retornar para perto dos homens
Na minha qualidade de crente, quero fazer uma proposta aos laicistas. Na época do iluminismo, tentou-se entender e definir as normas morais essenciais dizendo-se que elas seriam válidas etsi Deus non daretur, ou seja, mesmo no caso de Deus não existir. Na contraposição das confissões religiosas e na iminente crise da imagem de Deus, tentou-se manter os valores essenciais da moral por cima das contradições e buscar uma evidência que os tornasse independentes das múltiplas divisões e incertezas das diferentes filosofias e confissões. Deste modo, pretendia-se assegurar os fundamentos da convivência e, de uma forma mais geral, os fundamentos da humanidade. Naquele momento da história, pareceu que isso era possível, porque as grandes convicções de fundo, surgidas no Cristianismo em grande parte, resistiam e pareciam inegáveis. Mas agora já não é assim.
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A busca de tal certeza tranquilizadora, que pudesse permanecer incontestada independentemente de todas as diferenças, falhou. Nem sequer o esforço realmente grandioso de Kant foi capaz de criar a necessária certeza compartilhada por todos. Kant havia negado que Deus pudesse ser conhecido no âmbito da razão pura, mas, ao mesmo tempo, colocou o Senhor, a liberdade e a imortalidade como postulados da razão prática, sem a qual, coerentemente, para ele não era possível a ação moral.
A situação atual do mundo não nos leva talvez a pensar de novo que ele possa ter razão? Digo-o com outras palavras: a tentativa, levada ao extremo, de plasmar as coisas humanas menosprezando Deus completamente nos leva cada vez mais ao abismo, ao isolamento total do homem. Deveríamos, então, voltar ao axioma dos iluministas e dizer: mesmo quem não consiga encontrar o caminho da aceitação de Deus deveria buscar viver e dirigir sua vida Veluti si Deus daretur, ou seja, como se Deus existisse. Este é o conselho que dava Pascal a seus amigos não crentes; é o conselho que queríamos também dar a nossos amigos que não creem. Deste modo, ninguém fica limitado em sua liberdade, mas todas as nossas preocupações encontram um sustentáculo e um critério cuja necessidade é urgente.
O que mais necessitamos nesse momento da história são homens que, através de uma fé iluminada e vivida, façam que Deus seja crível neste mundo. O testemunho negativo de cristãos que falavam de Deus e viviam de costas para Ele, obscureceu a imagem do Senhor e abriu a porta à incredulidade. Necessitamos de homens que tenham o olhar fixo no Senhor, aprendendo d’Ele a verdadeira humanidade. Necessitamos de homens cujo intelecto seja iluminado pela Luz de Cristo e a quem Ele abra o coração, de maneira que seu intelecto possa falar ao intelecto dos demais e seu coração possa abrir o coração dos demais.
Somente por meio de homens que tenham sido tocados por Deus é que Ele pode retornar para perto dos homens. Necessitamos de pessoas como Bento de Nursia, que, em um tempo de dissipação e decadência, penetrou na solidão mais profunda e, depois de todas as purificações que deveria padecer, conseguiu se erguer até a luz, regressar e fundar Monte Cassino, a cidade sobre o monte que, com tantas ruínas, reuniu as forças das quais se formou um mundo novo.
Deste modo, como Abraão, Bento tornou-se pai de muitos povos. As recomendações a seus monges apresentadas no final de sua “regra” são indicações que nos mostram o caminho que conduz para o alto, além da crise e das ruínas.
“Assim como há um mau zelo de amargura que separa de Deus e leva ao inferno, há também um zelo bom que separa dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna. Pratiquem, pois, os monges este zelo com a mais ardente caridade, isto é, adiantando-se para honrar uns aos outros; tolerem com suma paciência suas debilidades, tanto corporais como morais (…); pratiquem a caridade fraterna castamente; temam a Deus com amor; (…) e absolutamente nada anteponham a Cristo, que nos poderá conduzir todos juntos à vida eterna” (capítulo 72).
(*) O Discurso de Subiaco, proferido pelo Cardeal Ratzinger, em 1 de abril de 2005, no Mosteiro de Santa Escolástica, em Subiaco.

Padre Inácio José do Vale

Padre Inácio José do Vale é professor de História da Igreja no Instituto de Teologia Bento XVI (Cachoeira Paulista). Também é sociólogo em Ciência da Religião.
http://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/como-se-deus-existisse/

Faça todo esforço possível para entrar pela porta estreita

Nós não podemos relaxar, nós precisamos com todo o nosso coração nos entregar, para valer, para que o Reino de Deus aconteça entre nós, para que possamos passar por essa porta, que é estreita, mas é a porta que nos salva!
“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” (Lucas 13, 24).
A pergunta que foi feita hoje a Jesus é: Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (Lucas 13, 23), o Senhor não respondeu nem que “sim” nem que “não”, mas apenas deu a deixa e o recado: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita” (Lucas 13, 24).
Não é que no Reino do Céus caiba pouca gente. Lá cabe o mundo inteiro, o universo, mas a porta de entrada para esse Reino não é larga, não está aberta para todo o mundo passar! É preciso fazer um esforço para poder se encaixar, para não ficar preso na porta ou então ser barrado e ficar do lado de fora.
Deixe-me dizer a você: a primeira coisa é que a palavra “esforço” já nos diz muito bem o que nós precisamos, de fato, fazer. Esforço quer dizer: se esforçar, ter uma força de vontade muito grande. O esforço é o contrário da mediocridade, porque o medíocre simplesmente fica paralisado e é paralisado pela vida, não se esforça, para no que não dá conta, naquilo que não consegue e diz: “Ah, está bom! É assim mesmo! Eu não posso mais!”.
Não, meus irmãos, nós precisamos de pulso, de firmeza e, muitas vezes, apertar o cerco com nós mesmos. Primeiro com a nossa vontade. Como precisamos disciplinar a nossa vontade, e a primeira coisa para é não fazermos tudo o que temos vontade, porque, frequentemente, a nossa vontade é enganosa, é rebelde e nos conduz pelos maus caminhos da vida, nos conduz a dizermos o que não deveria ser dito, a fazer o que não deveria ser feito e deixar de fazer o que era necessário.
Precisamos, muitas vezes, contrariar a nossa vontade para que ela seja disciplinada, guiada e orientada para o bem. Não há dificuldade para entrar no Reino dos Céus. É preciso apenas que nos coloquemos à disposição de fazer bem todas as coisas, amar a Deus sobre todas as coisas. Assim, percebemos que: “amar a Deus sobre todas as coisas” não é uma coisa simples, é preciso dar o melhor de si, é preciso um esforço. Nós, muitas vezes, queremos que a igreja venha à nossa casa, mas não queremos ir até ela. Nós nos acomodamos, esperamos que Deus venha bater à nossa porta. Deus já bateu à porta, agora somos nós quem precisamos abrir as portas do nosso coração para que o Pai more nele!
É preciso penitência e sacrifícios; é preciso lutar contra nós mesmos para que as nossas pernas, para que o nosso coração e para que a nossa vontade caminhem em direção ao Reino dos Céus. Nós não podemos relaxar, nós precisamos, com todo o nosso coração, nos entregar, para valer, para que o Reino de Deus já aconteça entre nós e para que possamos passar por essa porta.
Apenas uma coisa: não permitamos que o mundo nos iluda, nos engane, nos seduza, nos tire da porta da vida e nos leve para as portas largas da vida perdida, mundana, da vida que não nos leva para Deus. É apertada, mas é a porta da vida, é a porta que nos salva!
Que por essa porta possamos passar a cada dia, até definitivamente entrarmos pela única porta que jamais cessará: a porta da eternidade!
Deus abençoe você!
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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Santificado seja o vosso nome

Pior do que feministas que invadem catedrais são católicos que banalizam o próprio pecado em nome da misericórdia de Deus
Na oração do Pai-nosso, após manifestar seu afeto filial, Jesus faz um primeiro pedido a Deus-Pai: Santificado seja o vosso nome. Esse pedido remete diretamente para o segundo preceito do Decálogo. Trata-se de honrar a Revelação de Deus ao homem. Ora, informar o nome a alguém significa tornar-se acessível. Antes da Revelação, os pagãos utilizavam-se dos nomes das divindades de forma deliberada. Acreditavam que os deuses estavam submetidos à vontade do homem; eram-lhes subordinados. Por outro lado, Deus, quando se revela, obriga a humanidade a contentar-se com esta afirmação: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3, 14). Deus é desde sempre e para a eternidade. Não está submetido à vontade humana.
Na encarnação de Cristo, porém, o nome de Deus é manifestado mais diretamente, de maneira que já é possível instrumentalizá-lO. O nome de Jesus pode ser usado para justificar atrocidades e extorsões. É justamente o que comenta Bento XVI na primeira parte do famoso livro Jesus de Nazaré: “Agora o nome de Deus pode ser abusado e Deus ser desonrado. O nome de Deus pode ser instrumentalizado para nossos objetivos e assim deformada a sua imagem” [1]. Como não pensar no uso indiscriminado do nome de Deus para justificar atos terroristas, contrários à vida e à dignidade da pessoa humana?
A honra ao nome do pai expressa de maneira concreta o amor filial. Nada é mais gratificante a um filho que um elogio a seus pais. A blasfêmia, não obstante, é o típico pecado do Diabo. Basta lembrar que, por serem criaturas puramente espirituais, os anjos não podem fornicar. Por isso, o ataque demoníaco a Deus faz-se pelo orgulho. Dizia Santo Tomás de Aquino: “O orgulho é por natureza o pior de todos os pecados, mais grave que a infidelidade, o desespero, o homicídio, a luxúria etc” [2]. A blasfêmia, por conseguinte, nada mais é do que um meio para Satanás desonrar a essência divina, parodiando-a impunemente, a fim de que o homem tenha de Deus somente uma caricatura. Foi pensando nisso que, certa vez, Santa Teresinha pediu permissão a Jesus para amá-lO no inferno [3]:
[...] Uma tarde não sabendo como dizer a Jesus que o amava e quanto desejava que Ele fosse por toda parte amado e glorificado, eu pensava com dor que Ele nunca poderia receber no inferno um só ato de amor, então disse a Deus que para lhe dar prazer eu consentiria em ver-me aí mergulhada, a fim de que Ele seja amado eternamente nesse lugar de blasfêmia.
A blasfêmia significa um esquecimento da filiação divina e um esquecimento de si mesmo. É um atentado ao próprio homem. Tamanha é a gravidade desse pecado, que o Cura d’Ars perguntava-se espantado: “Não é um milagre extraordinário que a casa onde se acha um blasfemo não seja destruída por um raio ou cumulada com toda sorte de desgraças?” [4]. Em síntese, a agressão ao nome de Deus esconde em seu seio uma revolta contra o plano divino. Desse modo, o pecado contra o segundo mandamento não se traduz somente em ridicularizações hediondas - embora sejam elas as mais comuns, como se costuma apresentar em programas humorísticos, filmes, revistas, etc - às vezes, trata-se de algo muito mais sutil e, por essa razão, muito mais nocivo.
Em nome de um falso conceito de “misericórdia”, inúmeras pessoas têm caído na presunção da tibieza, recusando-se a buscar a santidade pessoal. Essa é, sem dúvida, a pior de todas as blasfêmias, pois nessa atitude não só se espezinha o conteúdo das Tábuas da Lei, a pretexto de uma época que segue a regra materialista do laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même(deixe fazer, deixe passar, o mundo vai por si mesmo), como também se deturpa a natureza do nome de Deus ao utilizá-lO para justificar posições morais claramente pecaminosas. É como dizer que a crucifixão de Cristo não teve nenhum valor. Não significou a purificação de nossos pecados. Ora, Jesus verteu sangue do alto do madeiro justamente para assumir a nossa culpa. Com efeito, quando a misericórdia é utilizada para a banalização do mal, aí já não há mais misericórdia. Pior do que feministas que invadem catedrais são católicos que banalizam o próprio pecado em nome da misericórdia de Deus.
Sobre essa tendência pouco cristã de se aceitar somente a face misericordiosa de Cristo, criticava o então Cardeal Joseph Ratzinger, na Via-Sacra de 2005 [5]:
Apesar de todas as nossas palavras de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de Deus e de Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável, enquanto tranquilamente cancelamos o aspecto do juízo? Como poderia Deus fazer-Se um drama com a nossa fragilidade — pensamos cá conosco —, não passamos de simples homens?! Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até ao fim para poder ser superado. Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre. Também a nós, diz Ele: Não choreis por Mim, chorai por vós próprios... porque se tratam assim o madeiro verde, que será do madeiro seco?
“Toda a santidade, toda a perfeição de nossa alma consiste em amar a Jesus Cristo nosso Deus, nosso Sumo Bem e Salvador” [6]. Por esta sentença, Santo Afonso de Ligório introduzia seus discípulos à escola de perfeição cristã. Essa perfeição é atingida no louvor ao nome de Nosso Senhor, tornando-O conhecido entre todos os povos e nações. Ainda mais: traduz-se no amor àqueles que são queridos por Deus, a saber, a Virgem Maria e os santos. A forma mais eficaz de santificar o nome de Deus, por conseguinte, é fazendo que cada vez mais pessoas aproximem-se d’Ele com devoção e piedade. Nisto consiste o amor cristão.
Por Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007, pág. 113.
  2. TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas — São Paulo: Quadrante, 2003, pág. 59.
  3. Teresa de Lisieux, Manuscrito A 52r.
  4. TROCHU, Fracis. O Santo Cura d’Ars.
  5. Meditações do Cardeal Joseph Ratzinger para a Via-Sacra. Oitava Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele.
  6. Santo Afonso de Ligório, Escola de Perfeição Cristã.

sábado, 25 de outubro de 2014

Devemos ter cuidado e vigilância com a nossa vida

Devemos ter cuidado e vigilância com a nossa vida. Pior do que as tragédias e do que os acidentes é não estarmos preparados para o nosso encontro com Deus!
“Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lucas 13, 5).
Meus amados irmãos e irmãs, ao escutarmos o Evangelho de hoje, vamos deparar com situações bem cotidianas em nossas vidas: as tragédias e as fatalidades. Quantas pessoas morrem em acidentes de forma brusca, inesperada, seja na estrada, seja em construções e nas mais diversas situações da vida. Pessoas que passam por dramas em suas vidas; algumas pensam, questionam e até afirmam: “Será castigo de Deus!? Será que isso é culpa por eu não ter vivido de acordo com a vontade de Deus?”. Dizem ainda: “Fulano está pagando pelo pecado de outro!” E “Será que a culpa é dos pais? Será que a culpa foi da mãe, dos antepassados?”.
No Evangelho de hoje, Jesus nos esclarece que os acidentes e os incidentes da vida não são por culpa do passado de ninguém. É óbvio que há circunstâncias da vida que, às vezes, herdamos coisas do passado, mas o que sofremos hoje, frequentemente, são, de fato, coisas acidentais. A tragédia que ocorreu não foi porque Deus quis que isso acontecesse. Não, Deus não quer a morte de ninguém, Nosso Senhor é o Deus da vida!
Pior do que as tragédias e do que os acidentes é não estarmos preparados para a nossa hora! Assim como aquele que foi vítima de um acidente e não esperava que acontecesse com ele, nenhum de nós sabe qual será o nosso dia e a nossa hora. Por isso nós precisamos estar preparados, porque, na hora em que a “irmã morte” vier ao nosso encontro ela vai nos pegar do jeito que estivermos, não vamos poder dar um jeitinho – “Deixe-me preparar, e encontrar com um padre para me confessar. Deixe-me reconciliar com minha esposa primeiro. Deixe-me pedir perdão aos meus filhos, aos meus amigos”. Não! A cada hora, a cada dia da nossa vida, vamos morrendo mais um pouco, a nossa vida vai diminuindo. É claro que isso não é motivo de tristeza, porque nós vamos diminuindo os dias de nossa vida aqui na Terra e nos aproximando da nossa entrada no Reino de Deus.
É para isso que devemos nos preparar e, a cada dia, ter cuidado e vigilância com a nossa vida e estar preparados para as surpresas da vida, – sobretudo para essa grande surpresa, que é o nosso encontro definitivo com Deus – que será a realização mais plena de toda a nossa vida humana.
No entanto, nós não podemos ser surpreendidos – no sentido negativo da palavra – estando despreparados e não sendo vigilantes e, assim, ser excluídos do prêmio da vida. Essa tragédia é grande! Mas se nós não nos convertermos, vamos morrer assim como muitos morreram (cf. Lc 13, 5). Não é que teremos o mesmo fim que eles, mas assim como foi inesperado para eles, será uma coisa muito inesperada o nosso encontro com Deus se não estivermos devidamente preparados.
Que Deus prepare o nosso coração, que Ele abra o nosso coração para nos convertermos a cada dia. Assim, quando a “irmã morte” vier ao nosso encontro essa não será uma desagradável surpresa, mas a melhor de todas: aquela que nos abrirá as portas do céu!
Deus abençoe você!
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