sábado, 20 de fevereiro de 2016

NOVENA DO TRABALHO a São Josemaría Escrivá

Autor: Francisco Faus Autorização eclesiástica: + D. Benedito Beni dos Santos, Bispo Auxiliar de São Paulo. São Paulo, 8 de abril de 2003

PRIMEIRO DIA 
Trabalho, caminho de santidade Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá Viemos chamar de novo a atenção para o exemplo de Jesus que, durante trinta anos, permaneceu em Nazaré trabalhando, desempenhando um ofício. Nas mãos de Jesus, o trabalho, e um trabalho profissional semelhante àquele que desenvolvem milhões de homens no mundo, converte-se em tarefa divina, em trabalho redentor, em caminho de salvação.(Questões atuais do Cristianismo, n. 55). Aí onde estão os nossos irmãos, os homens, aí onde estão as nossas aspirações, o nosso trabalho, os nossos amores, aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho (Homilia Amar o mundo apaixonadamente). Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que Deus Nosso Senhor me oriente no esforço de procurar trabalho, e me abençoe fazendo-me conseguir um emprego honesto, digno e estável; e que me ajude, depois, a olhar para a minha tarefa profissional como um caminho de santificação e de serviço aos outros, onde o meu Pai Deus me espera a toda a hora e me pede que imite Jesus quando trabalhava como carpinteiro em Nazaré. B- Para que Deus Nosso Senhor me ajude a olhar para a minha tarefa profissional como um caminho de santificação e de serviço aos outros, onde Ele me espera a toda a hora, e me pede, em todas as circunstâncias, que imite Jesus quando trabalhava como carpinteiro em Nazaré. Oração a São Josemaría Ó Deus, que por mediação da Santíssima Virgem Maria, concedestes inumeráveis graças a São Josemaría, sacerdote, escolhendo-o como instrumento fidelíssimo para fundar o Opus Dei, caminho de santificação no trabalho profissional e no cumprimento dos deveres cotidianos do cristão, fazei que eu saiba também converter todos os momentos e circunstâncias da minha vida em ocasião de Vos amar, e de servir com alegria e com simplicidade a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, iluminando os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor. Concedei-me por intercessão de São Josemaría o favor que vos peço. Assim seja. Pai Nosso, Ave-Maria, Glória. 

SEGUNDO DIA 
Trabalhar por amor a Deus Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá A dignidade do trabalho se baseia no Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efêmero e transitório (É Cristo que passa, n. 48). Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo (Caminho, n. 813). Na simplicidade do teu trabalho habitual, nos detalhes monótonos de cada dia, tens que descobrir o segredo – para tantos escondido – da grandeza e da novidade: o Amor (Sulco, n. 489). Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que Deus me conceda a graça de conseguir logo um trabalho, que proporcione segurança à minha família. E para que, ao mesmo tempo, Ele me ajude a compreender que o que dá valor a qualquer trabalho honesto é o amor com que o fazemos: em primeiro lugar, amor a Deus, a quem oferecemos o trabalho; e amor ao próximo, a quem queremos servir e ser úteis. B- Para que Deus me ajude a compreender que o que dá valor a qualquer trabalho honesto é o amor com que o fazemos: em primeiro lugar, amor a Deus, a quem oferecemos o trabalho; e amor ao próximo, a quem queremos servir e ser úteis. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

TERCEIRO DIA 
Trabalhar com ordem e constância Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá Como é breve a duração da nossa passagem pela terra! ... Verdadeiramente é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos... Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós (Amigos de Deus, n. 39). Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar mais glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço (Caminho, n. 80). Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que, com o auxílio de Maria Santíssima, consiga um trabalho estável e apropriado. E que, quando - por bondade de Deus - já estiver trabalhando, saiba aproveitar o tempo como um tesouro que é; e me esmere em aprimorar a virtude da ordem, de modo que consiga fazer tudo com pontualidade, intensidade e constância, sem confusões nem atrasos, seguindo um plano bem estruturado, que me permita dedicar, de modo equilibrado, os horários convenientes a cada um dos meus deveres: vida espiritual, família, profissão e relações sociais. B- Para que, com o auxílio de Maria Santíssima, saiba aproveitar o tempo como um tesouro que é; e que me esmere em aprimorar a virtude da ordem, de modo que consiga fazer tudo com pontualidade, intensidade e constância, sem confusões nem atrasos, seguindo um plano bem estruturado, que me permita dedicar, de modo equilibrado, os horários convenientes a cada um dos meus deveres: vida espiritual, família, profissão e relações sociais. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

QUARTO DIA 
Trabalho bem acabado Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá Não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem mancha, realizada com atenção até nos mínimos detalhes: Deus não aceita trabalhos “marretados”. Por isso o trabalho de cada qual – essa atividade que ocupa as nossas jornadas e energias – há de ser uma oferenda digna aos olhos do Criador; numa palavra, uma tarefa acabada, impecável (Amigos de Deus, n. 55). Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que tem que ser o centro do nosso dia. Se a vivermos bem, como não havemos de continuar depois com o pensamento no Senhor, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como Ele amava? (Cfr. É Cristo que passa, n. 154) Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que, com o auxílio de Nossa Senhora, não demore a resolver-se o problema do meu desemprego. E para que, ao iniciar o novo trabalho, Deus me ajude a colocar todo o empenho em realizá-lo com categoria, com a maior perfeição possível, sem fazer as tarefas de qualquer maneira - convencido de que um trabalho mal feito não pode ser santificado, porque lhe falta amor, que é a condição imprescindível para que qualquer atividade humana possa ser agradável a Deus. B- Para que Deus me ajude a colocar todo o empenho em realizar o meu trabalho com categoria, com a maior perfeição possível, sem fazer as tarefas de qualquer maneira - convencido de que um trabalho mal feito não pode ser santificado, porque lhe falta amor, que é a condição imprescindível para que qualquer atividade humana possa ser agradável a Deus. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

QUINTO DIA 
Todos os trabalhos honestos são dignos Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras. O trabalho, todo trabalho, é testemunho da dignidade do homem (É Cristo que passa, n. 47). Diante de Deus, nenhuma ocupação é em si grande ou pequena. Tudo adquire o valor do Amor com que se realiza (Sulco, n. 487). Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que Deus me conceda a alegria de conseguir trabalho, uma tarefa em que eu possa ser útil e desenvolver as minhas capacidades. E que se, no momento, esse trabalho estiver por baixo do meu preparo e das minhas legítimas aspirações, eu não o despreze, mas – enquanto não achar um trabalho mais apropriado – o realize com toda a responsabilidade, fazendo com que tenha a categoria do trabalho que Jesus realizou na oficina de Nazaré. B- Para que se, atualmente, o meu trabalho está por baixo do meu preparo e das minhas legítimas aspirações, Deus me ajude a não desprezá-lo, mas – enquanto não achar um trabalho mais apropriado – a realizá-lo com toda a responsabilidade, fazendo com que tenha a categoria do trabalho que Jesus realizou na oficina de Nazaré. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

SEXTO DIA 
Trabalhar em companhia de Deus e com reta intenção Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá Deves manter – ao longo do dia – uma constante conversa com o Senhor, que se alimente também das próprias incidências da tua tarefa profissional (Forja, n. 745) Como cristão, deverias trazer sempre contigo o teu Crucifixo. E colocá-lo sobre a tua mesa de trabalho. E beijá-lo antes de te entregares ao descanso e ao acordar (Caminho, n. 302). Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira..., uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-lhe o olhar ao começares a tua tarefa, enquanto a realizas e ao terminá-la. Ela te alcançará – garanto! – a força necessária para fazeres, da tua ocupação, um diálogo amoroso com Deus (Sulco, n. 531). Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que Deus me conceda um emprego honesto e digno, e me abra os olhos da alma para compreender que Ele está sempre ao meu lado. Que, para não perder de vista esta maravilhosa realidade, eu me esforce em ter presença de Deus durante o trabalho, servindo-me discretamente - como de um “lembrete” - de um pequeno crucifixo, de uma estampa de Nossa Senhora, da efígie de outro santo da minha devoção...; “lembretes” colocados onde eu os possa ver com freqüência, sem exibicionismo nem alarde. B- Para que Deus me faça compreender que Ele está sempre ao meu lado, enquanto estou trabalhando. E que, para não perder de vista esta maravilhosa realidade, eu me esforce em ter presença de Deus durante o trabalho, servindo-me discretamente - como de um “lembrete” - de um pequeno crucifixo, de uma estampa de Nossa Senhora, da efígie de outro santo da minha devoção...; “lembretes” colocados onde eu os possa ver com freqüência, sem exibicionismo nem alarde. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

SÉTIMO DIA 
Amadurecer nas virtudes através do trabalho Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá Tudo aquilo em que intervimos os pobrezinhos dos homens – mesmo a santidade – é um tecido de pequenas insignificâncias que, conforme a intenção com que se fazem, podem formar uma tapeçaria esplêndida de heroísmo ou de baixeza, de virtudes ou de pecados (Caminho, n. 826). É toda uma trama de virtudes que se põe em jogo quando exercemos o nosso ofício com o propósito de santificá-lo: a fortaleza, para perseverarmos no trabalho, apesar das naturais dificuldades; a temperança, para superarmos o comodismo e o egoísmo; a justiça, para cumprirmos os nossos deveres para com Deus, para com a sociedade, para com a família, para com os colegas; a prudência, para sabermos em cada caso o que convém fazer e nos lançarmos à obra sem dilações... E tudo por Amor... (Amigos de Deus, n. 72) Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que, com a ajuda de Nossa Senhora, ache o trabalho que venho procurando. E que, ao meter-me em cheio nesse novo trabalho, Deus me ajude a desenvolver por meio dele as virtudes cristãs e a amadurecer espiritualmente. Que eu procure ser paciente e compreensivo, tanto com os chefes como com os colegas e subordinados, que seja simples e humilde, fugindo da vaidade e do exibicionismo, que faça tudo, em suma, com pureza de coração. B- Para que Deus me ajude a desenvolver por meio do trabalho as virtudes cristãs e a amadurecer espiritualmente. Que eu procure ser paciente e compreensivo, tanto com os chefes como com os colegas e subordinados, que seja simples e humilde, fugindo da vaidade e do exibicionismo, que faça tudo, em suma, com pureza de coração. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

OITAVO DIA 
Trabalhar é servir, ajudar os outros Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá Pensai que através dos vossos afazeres profissionais, realizados com responsabilidade, além de vos sustentardes economicamente, prestais um serviço diretíssimo ao desenvolvimento da sociedade, aliviais também as cargas dos outros e mantendes muitas obras assistenciais – em nível local e universal – em prol dos indivíduos e dos povos menos favorecidos (Amigos de Deus, n. 120) Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que Deus Nosso Senhor me conceda o trabalho que lhe peço com tanta fé. E para que infunda na minha alma o desejo de fazer do meu trabalho, não uma atividade egoísta, fechada nos meus interesses, mas um serviço aberto ao bem e à utilidade de muitos, realizado com a certeza de que esse ideal de serviço aos outros dará um novo sentido, mais elevado e alegre, à minha vida. B- Para que Deus infunda na minha alma o desejo de fazer do meu trabalho, não uma atividade egoísta, fechada nos meus interesses, mas um serviço aberto ao bem e à utilidade de muitos, realizado com a certeza de que esse ideal de serviço aos outros dará um novo sentido, mais elevado e alegre, à minha vida. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia) 

NONO DIA 
Fazer apostolado com o nosso trabalho Reflexão: Palavras de São Josemaría Escrivá O trabalho profissional é também apostolado, ocasião de entrega aos outros homens; o momento de lhes revelar Cristo e levá-los a Deus Pai (É Cristo que passa, n. 49). Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado. E, sem saberes por quê, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples – à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio em qualquer parte -, falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério (Amigos de Deus, n. 273) Intenções [ A- para encontrar trabalho; B- para fazer um bom trabalho] A- Para que Deus, por mediação de Nossa Senhora, me faça encontrar um bom trabalho, no qual possa crescer profissionalmente e dar o melhor de mim mesmo. E que me ajude a ver, no meu ambiente profissional, um campo aberto para a realização da missão apostólica que Deus confia a todos os batizados, aproveitando as oportunidades que Ele me dá para ajudar colegas, amigos, colaboradores, clientes..., a descobrirem as maravilhas da fé cristã. B- Para que Deus me ajude a ver, no meu ambiente de trabalho, um campo aberto para a realização da missão apostólica que Deus confia a todos os batizados, aproveitando as oportunidades que Ele me dá para ajudar colegas, amigos, colaboradores, clientes..., a descobrirem as maravilhas da fé cristã. Oração a São Josemaría (como no primeiro dia)

http://www.padrefaus.org/wp-content/uploads/2011/04/novenadotrabalho.pdf

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Explicação do brasão do Ano Jubilar da Misericórdia

Católico, fique por dentro

Ano-santo-misericordia
“Que as palavras e os gestos  digam a mesma coisa”
O DESENHO símbolo do Jubileu da Misericórdia parte do Evangelho de Lucas (6,36) em que Jesus nos convida a sermos “misericordiosos como o Pai“.
O padre jesuíta Marko Rupnik preparou esta imagem trazendo uma das primeiras representações de Jesus, o Bom Pastor. Ao invés de uma ovelha nos ombros, Jesus traz uma pessoa. O Bom Pastor da humanidade carrega sobre Seus ombros o ser humano e, assim, conhecemos o mistério de Sua Encarnação e de nossa Redenção.
O olhar de Cristo
O Papa Francisco conclamou o Ano Jubilar afirmando, na bula intitulada “Rosto da Misericórdia”, que Jesus é o rosto vivo da misericórdia do Pai. Por isso, o centro da imagem é o olhar. A figura que representa Jesus carrega aos ombros uma figura alusiva a Adão e a toda humanidade. O olho esquerdo de Cristo e o direito de Adão são um só, mostrando que Deus é capaz de ver como que com nossos olhos as situações em que vivemos. E também que o homem pode ver o caminho da vida iluminado pelo olhar de Deus.
As cores
Os tons utilizados se referem ao significado milenar dado pelos artistas cristãos. O vermelho é a cor de Deus e simboliza a vida; o azul, a cor do homem, daquele que é capaz de olhar para o céu; o branco é a cor do Espírito Santo e representa a Ressurreição de Jesus; o dourado, de Adão, lembra que o homem caminha para a perfeição.
O estilo medieval foi escolhido pelo Padre Rupnik por dar ênfase na cultura simbólica, poética e metafórica. É algo que contrasta com o modelo pós-moderno que é crítico e racional.
As palavras
O lema do Ano Jubilar faz parte do desenho da mesma forma que na arte medieval as palavras e as imagens não se separam. Esta também é a proposta do Papa Francisco: que as palavras e os gestos digam a mesma coisa, que os discursos sobre a misericórdia sejam acompanhados por atitudes.
No Jubileu da Misericórdia, a principal linguagem será a simbólica. Os gestos vão transmitir a mensagem da Igreja. A figura de Jesus com o rosto rente ao de Adão, por exemplo, expressam o desejo do Papa Francisco de uma Igreja mais próxima das pessoas.

Lutero e o demônio da contestação



Em 2017 completam-se 500 anos desde que o monge apóstata Martinho Lutero afixou suas 95 Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, início simbólico da heresia protestante, que quebrou a unidade da Cristandade.
Hoje em dia, a decadência moral e religiosa chegou a tal ponto, que até nos meios católicos já há quem fale em comemorar essa abominação. Mas não é esse, por agora, o nosso tema.
Também não pretendemos aqui insistir sobre a personalidade desse heresiarca, fautor de blasfêmias contra Nosso Senhor Jesus Cristo, contra a Igreja e o Papado, nem sobre seus incitamentos a práticas pecaminosas, nem sobre sua vida pessoal, pois era tido como bêbado, impuro, juntado com uma freira apóstata etc.
Ao leitor desejoso de inteirar-se sobre esses e outros aspectos da vida de Lutero, sugiro vivamente que leia os documentados artigos que Plinio Corrêa de Oliveira escreveu a respeito.(1)
Meu tema hoje é outro e muito específico. Trata-se de entender Lutero enquanto contestatário da autoridade do Papa e da Igreja. Desse espírito contestatário quis Plinio Corrêa de Oliveira distanciar-se explicitamente quando, em seu famoso Manifesto da Resistência, hoje mais atual do que nunca, declarou expressamente: “jamais empregaremos os recursos indignos da contestação”.(2)
A vida esclarece a História
Ficou famoso o dito de Cícero, Historia Magistra Vitae. Sim, a História é mestra da vida, pois pelo estudo da História temos elementos preciosos para interpretar muita coisa do mundo que nos cerca.
Mas também é verdade, dizia Plinio Corrêa de Oliveira, que a vida nos ensina a interpretar a História. Pois sendo a natureza humana substancialmente a mesma em todas as épocas e latitudes, com suas paixões, seus problemas e seus anseios, se compreendermos como se desenvolve a vida dos homens que caminham sob nossos olhos, teremos mais facilidade para entender os acontecimentos que se desenrolaram no passado.
Assim sendo, compreenderemos mais facilmente no que consistiu a contestação de Lutero, se entendermos os fenômenos de contestação que presenciamos durante esta nossa vida.
Para quem já vai adiantado em anos, como é o meu caso, o problema se esclarece tendo por base um conjunto de observações e análises que tive oportunidade de fazer, nos moldes da admirável escola de pensamento e estudos legada por Plinio Corrêa de Oliveira.
Entro pois diretamente no tema.
Argumentos não demovem o contestatário
 Assim como os demônios da luxúria, da inveja, da preguiça e tantos outros podem instalar-se numa alma, existe também um demônio da contestação com poderes análogos.
É de conhecimento comum que o corpo humano está sujeito a ser invadido por vários tipos de vírus que, cada um conforme sua natureza, sabem onde instalar-se — nos pulmões, no intestino, na garganta ou onde for. Assim também na alma humana, cada demônio sabe por onde entrar e onde agir. E o demônio da contestação às autoridades legítimas ― é pelo menos essa a minha observação ― costuma aninhar-se numa região muito profunda da alma, que não é alcançável por argumentos lógicos nem explicações de ordem natural.
Em outras palavras, não se queira convencer um contestatário inveterado de que ele está errado, pois os argumentos, por melhores e mais bem dados que sejam, batem contra uma muralha de proteção construída por esse demônio, que isola o contestatário e o torna infenso a qualquer argumento razoável ou de bom senso.
Um outro aspecto da contestação que é necessário ter e vista, é seu caráter obsessivo, pois a vítima como que não consegue pensar em outra coisa, nem deslindar-se da situação em que se colocou.
O pretexto: falhas e defeitos da autoridade
Mas o demônio da contestação desenvolve ainda outras atividades. Ele procura cuidadosamente, na autoridade legítima que ele quer contestar, possíveis falhas ou defeitos, que podem até ser muito reais, pois neste vale de lágrimas todos estamos sujeitos a falhas e defeitos. E tais falhas e defeitos são usados pelo contestatário como sendo a razão (de fato, são o pretexto) para contestar a própria legitimidade da autoridade.
Esse aspecto da atividade diabólica é muito insidioso, pois além de ajudar o objetante a “justificar” para si mesmo o fato de se ter tornado um contestatário, lhe dá direito de cidadania junto aos outros da mesma nação, região ou grupo em que ele se insere. Pois o contestatário sempre poderá alegar que sua posição é de zelo pelo bem e pela virtude, em face dos erros e falhas da autoridade.
Foi o que fez Lutero, atacando a venda de indulgências (real ou imaginada) por Leão X, e outras alegações do gênero, como razões para contestar em princípio a autoridade do Papa e portanto da Santa Igreja.
A frente ampla contestatária
Mas há mais. O demônio da contestação não é um ser isolado. Ele pertence a uma família de espíritos contestatários que, todos eles, possuem umas como que antenas de transmissão e recepção, por onde uns aos outros se localizam, se comunicam e se unem, com o fim de constituir uma frente ampla contestatária.
Note-se bem. Como todos os demônios do inferno, estes também estão divididos entre si e se odeiam mutuamente. Mas em face de sua finalidade contestatária, deixam de lado, põem entre parênteses, suas divergências, para melhor unir-se e fortalecer a contestação, que é sua finalidade primordial.
Lutero conseguiu alianças com numerosos príncipes alemães e boa parte do Clero, o que lhe deu uma força extraordinária para avançar contra a Roma dos Papas.
Se os impugnadores da autoridade legítima chegam a constituir uma rede suficientemente forte, os demônios da contestação podem conseguir derrubar a autoridade visada, além de, evidentemente, perderem as almas daqueles que lhes deram acolhida e se tornaram seus instrumentos. A História nos apresenta alguns casos paradigmáticos, como os da Revolução Francesa e da Revolução bolchevique.
No caso de Lutero, porém, ele não conseguiu obter seu objetivo último, que era a destruição da Igreja, porque esta tinha a seu favor a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt 16,18), e que Ele a defende mesmo nas situações mais calamitosas (como por exemplo a atual).
Pode o contestatário livrar-se do demônio da contestação?
Sem querer fazer um tratado sobre a contestação, tarefa para a qual seriam necessárias outras luzes e outros estudos, e que, em todo caso, nos levaria muito longe, é preciso entretanto dizer ainda uma palavra sobre o seguinte ponto: pode uma pessoa, na qual se aninhou o demônio da contestação, livrar-se dele? Pode essa pessoa arrepender-se de ter dado guarida a esse demônio, arrepender-se, bater no peito, expulsá-lo de si e voltar a uma situação normal? Sobretudo tendo em vista que argumentos e bom senso não são eficazes para demovê-la?
Não pretendo referir-me às vias expressas postas ao alcance dos fiéis pela Igreja, como são os exorcismos, pois esta é uma matéria muito complexa, que exige especialistas para ser tratada. Não nego que o exorcismo possa ser um meio adequado, apenas não é meu objetivo aqui tratar dele.
Meu propósito é mais singelo. Dentro das vias habituais e conhecidas da graça, pode uma pessoa livrar-se do demônio da contestação, depois de lhe ter dado guarida?
Tanto quanto consigo ver, pode. E por dois meios. O primeiro é uma ação fulminante da graça na alma, que se exerce a rogos de Nossa Senhora, e que num instante livra a vítima do demônio, e a faz como que acordar do pesadelo para a vida real.
O outro caminho, mais comum, é pavimentado pelas graças que vão sendo dadas com alguma frequência, para ir alertando a pessoa-vítima sobre a situação em que se encontra. Pois Deus não quer a morte do ímpio,“mas que se converta e viva” (Ez 33,11). Essas graças fazem com que a pessoa pergunte a si mesma: será que estou certo? Estarei no bom caminho? Eu não deveria mudar minha posição e pedir perdão? Será muito duro fazer isso, mas não está em jogo a minha salvação? São problemas de consciência que o contestatário se põe.
Se a pessoa, assim solicitada pela graça, fechar seu coração a essas perguntas, melhor se diria a essas inspirações do Espírito Santo, pouco se pode esperar de sua conversão. É o caso de Lutero, que a beata Sóror Maria Serafina Micheli viu no inferno, atormentado pelos demônios.(3)
Mas se o contestatário, pelo contrário, for obediente à voz da graça, rezar pedindo clareza, suplicar a Nossa Senhora que o conduza, renunciar a deixar-se guiar por seu egoísmo, pedir forças para fazer a imolação interior da própria vontade e o sacrifício das próprias vistas equivocadas, então tudo se pode esperar. Nossa Senhora não rejeita um coração contrito e humilhado (Sl 50,19) que sinceramente busca servi-La em todas as coisas.
Foi o que faltou a Lutero fazer. Como, pois, comemorar sua revolta?
(*) Gregorio Vivanco Lopes é advogado e colaborador da ABIM

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domingo, 14 de fevereiro de 2016

A gula


A gula muitas vezes é tratada como um “pecadinho”, um pecado venial, que a maioria das vezes não é confessado, por ser identificado como um pecado comum.
Assim estimamos a Gula, e por conseqüência muitos os outros pecados que se deriva deste. São João Clímaco chega a dizer que a Gula é porta para todos os pecados, – isto é questionado por outros Santos Padres – e enumera uma lista de filhas destes pecados. O primeiro e a fornicação (Luxuria), segundo a dureza de coração, e ai vão, maus pensamentos, preguiça, fofoca, familiaridade excessiva (famoso abelhudo), vontade de fazer rir, brincadeira jocosidade, contestação, obstinação, desobediência, soberba, etc.
Gula não necessariamente significa comer demais, existem dois tipos de gula, que são nomeadas como Gastrimargia e Laimargia. Margia que dizer em grego loucura, gastri estomago, portando a Gastrimargia é a loucura do estomago, que se dá no consumir o alimento se preocupando com a quantidade. Enquanto a Laimargia quer dizer loucura da boca, que se dá em consumir o alimento só se preocupando com o saborear.
Portanto a Gula é uma atitude doentia diante da comida, mesmo que se coma pouco. Para ser mais claro, a gula é toda vez que se aproximamos do alimento esquecendo que este é dom de Deus para nossa vida. 
Santo Agostinho usa uma comparação, dizendo que muitas vezes somos como uma noiva que ganha um presente (um anel de brilhante) do seu noivo, se apaixona pelo presente e esquece-se do noivo.
Vivemos uma paixão intensa pelo alimento que temos, e deixamos de perceber que o alimento é um Sacramento de Amor de Deus para nós. E nem se quer agradecemos, e quando agradecemos dizemos “Obrigado Senhor pelo alimento de hoje.” E deixamos Deus de lado como se tivéssemos cumprindo um quesito. Não é por ai! A refeição tem que ser ação de graças e a oração tem que ser constante durante toda a refeição de forma contemplativa, apreciando em cada sabor o Dom de Deus.

Mas a gula está presente no homem desde sua criação. Não é fácil tomar um copo de água com uma tremenda sede, e antes olhar para ele e dizer “Como Deus é bom, está na água que mata a minha sede” e enxergar na água o sacramento do Amor Divino. Tomamos água com tanta voracidade, que é como se fosse encontrar a felicidade no fundo do copo, apenas saciamos um prazer do nosso corpo.
Isso não quer dizer que Deus abomina o prazer, se fosse assim não nos daria um paladar tão apurado. O paladar também é um Dom Deus, de forma que temos que usá-lo para darmos Graças ao saborear um alimento.
Na carta de São Paulo aos Filipenses capitulo 3 diz: ”Há muitos entre vós que se tornaram inimigos da cruz de Cristo... O Deus deles é o ventre”. São Paulo diz que o que acontece conosco é que vivemos para comer e não comemos para viver.
O Jejum é uma ferramenta para nós controlarmos esse espírito de consumismo pelo prazer de comer, e deve ser feito como uma prática de louvor e gratidão que abstende dos prazeres do corpo para uma real felicidade da alma. O sentido do jejum é fugir da lógica, de que a comida e fonte de alegria.
Portanto este pode ser de diversas formas, deixarem de lado comidas corriqueiras, ou comidas que despertam certos prazeres (doces, certos temperos...), não é necessário que o jejum seja total, mas sim que seja real, com um valor espiritual de contemplação.
Jejuar não é se punir ou punir o corpo, e sim quietá-lo, diante das vontades prazerosas. Quando se fala em jejum é possível ouvir os tremores e as inquietações do corpo, isto quer dizer que ainda o prazer pelo comer fala mais alto dentro de si, assim pode se dizer que está precisando do jejum.
São João Cassiano (360-435) diz: “Não devemos comer até a saciedade”, isto quer dizer que devemos levantar da mesa com um pouco de fome, este conselho espiritual hoje é confirmado pela medicina que diz que o estomago demora um certo tempo para enviar a mensagem de saciedade para o nosso cérebro. Por este atrasado de informação, na hora que pensamos que estamos saciados, quer dizer que já estávamos saciados há certo tempo atrás, e logo em seguida vem o sentido de estarmos empanturrados.
temperança que é elencada como a virtude para a gula, deve ser preservada conosco, pois ela permite que controlemos no limite de saciedade. E nos coloca de acordo com o verdadeiro sentido da alimentação e bem estar: o comer pela utilidade e não pelo prazer proporcionado. Escolher os alimentos de acordo com seus valores nutritivos e não pelo prazer. O alimento deve ser meio e não finalidade.
A finalidade de comer é a nutrição, mas gera uma conseqüência agradável que é o prazer e a saciedade. Na Gula há uma inversão onde a conseqüência se torna finalidade e vice-versa. O prazer e a saciedade é a primeira busca e por conseqüência vem à nutrição, e muitas vezes não.
E este mal também é encontrado na sexualidade do mundo atual.
Outro contemplativo da alimentação é verificar a historicidade do alimento que está à mesa. Antes de chegar até a mesa, ele teve que passar por ricos processos, alguém o plantou alguém o colheu. Quanto tempo ela passou num descanso? Quanto tempo ele percorreu para chegar até a mesa? Quanto tempo ele demorou a ser preparado? Quantas pessoas tiveram acesso a ele? Quantas histórias ele fez parte? E por ai vai.
E finalizo ressaltando: o alimento é fonte do Amor de Deus! Contemple Deus na alimentação.

Subsidio oficial elaborado por Rafael Costa para o Seminário sobre os pecados capitais realizado em Março de 2010.

http://fernandomontanheiro.blogspot.com.br/2010/03/gula.html

sábado, 13 de fevereiro de 2016

VOCÊ JEJUA?

Você jejua? Dê-me prova disto por suas obras.
Se você vê um homem pobre, tenha piedade dele.
Se você vê um amigo sendo honrado, não o inveje.
Não deixe que somente a sua boca jejue, mas também o olho e o ouvido e o pé e as mãos e todos os membros de nossos corpos.
Que as mãos jejuem, sendo livres de avareza.
Que os pés jejuem, cessando de correr atrás do pecado.
Que os olhos jejuem, disciplinando-os a não fitarem o que é pecaminoso.
Que os ouvidos jejuem, não ouvindo conversas más e fofocas.
Que a boca jejue de palavras vis e de criticismo injusto.
Porque, qual é o proveito se nos abstemos de aves e peixes, mas mordemos e devoramos os nossos irmãos?
Possa Aquele que veio ao mundo para salvar pecadores nos fortalecer para completarmos o jejum com humildade, tendo misericórdia de nós e nos salvando.

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São João Crisóstomo

https://vidacontemplativa.wordpress.com/2009/12/15/voce-jejua/

« FRANCISCO, UMA ARTE DE VIVER * JEJUM: DE QUE ADIANTA NÃO COMER CARNE, SE VOCÊ DEVORA SEU IRMÃO?

jejum
São João Crisóstomo ensina:
“A honra do jejum consiste não na abstinência da comida, mas em evitar as ações pecaminosas; quem limita o seu jejum apenas à abstinência de carnes o desonra. Praticas o jejum? Prova-me por tuas obras! Perguntas que tipo de obras?
Se vires um inimigo, reconcilia-te com ele!
Se vires um amigo tendo sucesso, não o inveje!
Se vires uma mulher bonita, passe sem olhar!
Que não apenas a boca jejue, mas também os olhos, e os ouvidos, e os pés, e as mãos, e todos os membros de nossos corpos.
Que as mãos jejuem sendo puras da avareza e da rapina.
Que os pés jejuem, deixando de caminhar para espetáculos imorais.
Que os olhos jejuem, não se detendo sobre feições belas, ou se ocupando de belezas exóticas.
Pois o que é visto é a comida dos olhos, mas se o que for visto for imoral ou proibido, macula-se o jejum e perturba toda a segurança da alma;ma se for moral e seguro, o que é visto adorna o jejum. Pois seria absurdo abster-se da comida permitida por causa do jejum, mas devem os olhos absterem-se até de tocar o que é proibido. Não comes carne? Então não se alimente de luxúria através dos olhos.
Que também os ouvidos jejuem. O jejum dos ouvidos consiste em recusar-se a ouvir assuntos perversos e calúnias. ‘Não receberás notícias falsas’, já foi dito.
Que a boca também jejue de falar coisas vergonhosas e de ficar reclamando. Pois que ganhas se te absténs de pássaros e peixes, e mesmo assim mordes e devoras teu próximo? O que tem fala maligna come a carne de seu irmão, e morde o corpo de seu próximo.”
O que São João Crisóstomo nos diz com esta reflexão?
Que os dias de jejum devem ser especialmente dias para evitarmos o uso desordenado ou inclusive exagerado dos outros sentidos: evitar o que não devo fazer, falar, ouvir, desejar; não buscar satisfazer todas as minhas necessidades emocionais e espirituais; não buscar a todo custo saciar minha solidão; não querer saber tudo; não exigir respostas imediatas a tudo o que vier à minha mente etc.
Nós jejuamos buscando a conversão. Portanto, jejuemos de todas estas atitudes contrárias à virtude. Talvez o seu jejum consista em ser mais serviçal (jejum da sua preguiça e comodidade), pois, assim como precisamos rezar com o coração, também precisamos jejuar com o coração.
Talvez você tenha de jejuar da sua ira, sendo mais amável, mais dócil. Ou jejuar da sua soberba, buscando ativamente viver a humildade em atos concretos.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A cor púrpura da quaresma

É Quaresma. Um novo jeito de ser, de entender, de crer. De que a fé nasce da dúvida, disto estou certo. Agora, saber como vivenciar os desertos áridos do meu seco interior é o que me preocupa. Para evidenciar o invisível de nosso interior quaresmal, a Igreja nos veste de roxo. Os paramentos, as toalhas, os véus, as capas: tudo na liturgia deste período penitencial nos fala do sofrimento, propriamente da paixão, das dores. Noutro dia, ao entrar na Igreja, fui impactado pelo vazio do templo e uma coisa me chamou a atenção: a cor púrpura. Logo me veio à mente, estremecendo meu coração, o filme de Spielberg, “A cor púrpura”. Então me pus a meditar sobre este ‘insight’ (ou seria mesmo inspiração?).

Esta película, de 1985, é uma adaptação do livro amônimo de Alice Walker. A história se passa na Geórgia preconceituosa e desumana de 1909. A personagem Celie, protagonista, é estuprada pelo próprio pai, de quem tem dois filhos. É “comprada” por Mister (sinhô), que a trata simultaneamente como escrava e companheira. Separada ainda nova de sua melhor amiga e protetora, sua irmã Nettie, Celie fica muito solitária e compartilha sua tristeza em cartas (a única forma de manter a sanidade em um mundo onde poucos a ouvem), primeiramente com Deus e depois com a irmã.

Celie nos ensina a compreender o eterno na finitude e na dor do instante. Para ela: “A vida é curta. O Paraíso é que é eterno”. Creio que este período da Quaresma nos propõe justamente a experiência da transcendência; enxergar suas próprias dores e as dores do outro como uma janela para o céu. A vida passa, e isto é bom! Quebra a nossa indiferença. Se sei que algo bom, que me apraz, está fadado a terminar, à exemplo que um show, uma peça teatral, um balett, então tento absorve-lo ao máximo, tendo extrair o maravilhoso que me é oferecido. Ora, a vida com tudo o que nela há passa, inclusive minhas involuções, meus pecados, minha liquidez. A Quaresma tem esse poder de me fazer compreender que meu deserto e tentações não vão durar para sempre... e é por isto mesmo que presto-lhe devotada atenção. 

  A trama revela o tempo todo, a orfandade de Celie. Ela é mãe órfã, irmã órfã, mulher órfã, pessoa órfã de si. Celie aprende com a solidão que lhe é imposta a desconstruir, construir e reconstruir sua identidade e amor próprio. Muitas pessoas passam por nossas vidas e nos levam de nós. Colocam-nos em suas masmorras, seus calabouços mais secretos e ardis, e nos sufocam. Triste de tudo é quando não percebemos que no fundo, fomos nós quem nos entregamos ao raptador. Não foi tanto o nosso pecado que nos fez pecadores, nem o diabo que nos diabolizou, muito menos o traidor que nos fez sucumbir, mas fui eu, foi você, exatamente e friamente fomos nós que unimos nossas vozes a de Celie e nos deferimos a sentença: “Eles não gostam de gente muito livre. (...) Sei como é querer cantar e levar uma surra por isso”. Esse tempo quaresmal me invade de uma lucidez púrpura e me permite entender que não preciso ficar acorrentado ao passado, ao que vivi até hoje, ao que pensava até agora, ao modo de vida como tenho vivido. Deus me fez para a liberdade! Ele quer me comunicar que é meu Pai e não preciso duvidar disto. Ele me diz: “Tu é meu filho muito amado em quem ponho todo meu amor!” (Mc 1,11). É uma tentação pavorosa o fato de tendermos a não acreditar nesta verdade e insistirmos em mendigar amor por aí. Parece que ouvimos mais a insistente voz do mundo que nos força a provarmos aos outros que merecemos ser amados, do que a amorosa voz do Pai. Será que ainda falta muito para cantarmos para o Senhor o refrão de Fábio Júnior: “E eu vou esquecer de tudo, das dores do mundo. Não quero saber quem fui mas sim quem sou. E vou esquecer de tudo, das dores do mundo. Só quero saber do seu do nosso amor” ?...

O tempo quaresmal nos faz questionar: Por que tenho apanhado tanto da vida? Por que tenho sofrido? Onde devo chegar? Estou quase convencido de que a raiz de tanta angústia, de tanto pecado, está no fato de nos compararmos. Adão e Eva se compararam a Deus e quiseram ser como Ele. Caim se comparou e se achou mais importante que seu irmão Abel. O inferno começa no se comparar! Foi isto que a personagem principal do filme me ensinou. Em um diálogo com a amante do marido, Celie abre seu coração: “Ele me bate porque eu não sou você. Nunca me pergunta como eu me sinto. Nunca me pergunta sobre eu mesma”. Nisto Sartre tinha razão: “O inferno são os outros”. Aqui vai minha confissão de Quaresma: espanco meu irmão por ele não ser eu. Eu infernizo sua vida porque não consigo me interessar despretensiosamente por ele. Projeto meus demônios interiores nele, e para mim, é ele quem não presta e me faz pecar... Meu Deus! Quanta crueldade! Eu acabo fazendo a profecia de Clarice Lispector cumprir-se: “O que de pior um ser pode fazer a outro ser é adulterar-lhe a essência a fim de usá-lo”. E mais, utilizar as suas vulnerabilidades para meu prazer. Isto é que é impor a alguém a Quaresma! Quaresma forçosa. Quaresma das dores. Quaresma da alma!

A Quaresma tinha mesmo que ser da cor púrpura. A púrpura, ou roxo, foi o corante de maior renome e mais caro de todos os corantes da antiguidade pela dificuldade na sua obtenção. Era um símbolo de riqueza e distinção. Na Roma antiga só o imperador tinha o direito de usá-la. Nero chegou a punir com a morte o seu uso. Por séculos a cor púrpura era obtida através de algumas espécies de molusco nativas do Mar Mediterrâneo, o que causou extinção de algumas delas. A secreção do molusco está contida dentro de uma pequena veia ou cisto que, quando partida, expele um fluido branco. Os tecidos eram banhados neste fluido branco e postos para secar ao sol que "revela" a tintura púrpura brilhante. E não é difícil encarar o roxeado que as pancadas da vida deixam na gente? Acho que ainda não consigo deixar o meu passado passar pelo meu presente e ir-se embora de vez... Cada cicatriz interior, cada soco de falsos amigos, cada tapa da família incompreensível e exigente, cada pontapé que a humilhação de não ser tratado como filho de Deus, pessoa humana me desferiu... O mais belo da Quaresma da vida, é saber que o brilho do Sol que nos veio visitar, numa explosão de luz, vai fazer revelar nas púrpuras de minha alma a claridade e o fulgor da vitória escondida. A Quaresma só tem sentido por causa da Páscoa. A penitência só será proveitosa se transforma tudo o que em nós há de mal.

Descobri que pecado tem cor. Não, não é preto. Ele é púrpuro: “Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã!” (Is 1,18).  Só Deus pode fazer que algo volte ao nada de onde veio! Se do visgo branco, ao sol, se obtinha a púrpura, nossos púrpuros pecados podem ser perdoados ao passarem pela forte Luz pascal de Cristo! Foi com este lindo diálogo que descobri o porquê de Deus gostar tanto do roxo a ponto de inspirar a sua Igreja, esposa de Cristo, a se ornar toda de púrpura enquanto espera Sua vinda gloriosa: 

“- Mais que tudo, Deus adora a contemplação.
- Deus é vaidoso?
- Vaidoso, não.
- Só gosta que admirem sua beleza.
- Deus deve ficar furioso quando você passa pela cor púrpura no campo, e nem se dá conta.
- Está dizendo que Ele só quer ser amado, como diz a Bíblia? 
- É, Celie. Tudo no mundo quer ser amado. A gente canta e dança e grita porque quer ser amada. Olha as árvores. Elas fazem tudo que a gente faz pra chamar a atenção... menos andar”.

Eu e você queremos ser amados, aceitos e compreendidos... acho que é por isso mesmo que nossa alma vai ficando roxinha, roxinha... só assim atraímos a atenção de Deus e Ele a nossa. Como é triste passar pelas dores do mundo, pelos sofrimentos que batem a nossa porta e nem dar atenção. É Deus que quer se mostrar a nós! Nem sempre é no monte Tabor, em meio a luzes translúcidas. Na ‘via crucis’ do mundo, nosso corpo é a montanha na qual Deus quer se comunicar. Já percebeu que as histórias mais bonitas e cheias de vida é a de quem mais sofreu? De quem mais traz em seu corpo dolorido as púrpuras da vida? Essa pessoa só pode ser sacramento da riqueza e distinção de Deus para com ela e o mundo. Acho que é uma forma de Deus nos atrair até Ele. Minha penitência, toda ascese que pratico e toda minha orfandade é uma forma de fazer com que o Senhor Deus volte seu compassivo olhar para mim. E se sou surpreendido pela morte, pela injustiça, pela deslealdade, pela hipocrisia é porque Deus está querendo que eu veja a vida, a mim e aos meus irmãos com outros olhos, e apesar de tudo, contemple Sua beleza em meio às mazelas do mundo. É na eucaristia do mundo que comungo do púrpuro corpo de Cristo crucificado. 

Minha Quaresma, definitivamente, é da cor púrpura. No fundo, a vida é desta mesma cor, já que é uma verdadeira e permanente Quaresma enquanto somos peregrinos neste mundo. Nossa Páscoa definitiva, a verdadeira libertação, só mesmo quando Cristo, nossa Luz, resplandecer eternamente na pátria definitiva, a Jerusalém celeste (Ap 21). “E quando amanhecer, o dia eterno, a plena visão, ressurgiremos por crer, nesta via escondida no Pão!”

PROMESSA DE CONSOLAÇÃO: “Vós sereis amamentados e ao colo carregados e afagados com carícias; como a mãe consola o filho, em Sião vou consolar-vos. Tudo isso vós vereis, e os vossos corações de alegria pulsarão; vossos membros, como plantas, tomarão novo vigor”. (Is 66, 12b-14a) 

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