domingo, 6 de março de 2016

O verdadeiro recolhimento quaresmal

“O verdadeiro recolhimento conhece-se pelos efeitos: paz, silêncio interior, tranquilidade de coração. O espírito recolhido é quieto e desprendido, ao menos em suas profundezas. É impassível, com as paixões momentâneas em repouso. (...) Mas como os frutos do recolhimento vêm da humildade e da caridade, e de outras virtudes cristãs fundamentais, é claro que não pode haver recolhimento genuíno senão quando essas virtudes concorrem para dar-lhe substância e realidade.
(...)
O recolhimento é mais do que entrar dentro de nós mesmos, e nem significa necessariamente a recusa ou a expulsão do mundo exterior.
(...)
Outro resultado do recolhimento é fazer-nos presentes a Deus e a nós mesmos em Deus.(...) E é só na presença de Deus que nos revelamos em toda a verdade. Porque é então que, vendo a Deus em sua luz, vinda na obscuridade da fé, também vemos, à mesma claridade, como somos diferentes do que pensamos ser em nossa ambição e vaidade.

Aqui o recolhimento colore-se de compunção e daquilo que os Padres chama de ‘santo temor’. Temor é o conhecimento de nós mesmos em presença da santidade de Deus. É o conhecimento que temos de nós diante do seu amor, ao ver como estamos longe do que esse amor queria.
(...)
Esse temor é absolutamente necessário para que se preserve o nosso recolhimento de degradar-se numa falsa doçura e presunção, que se supõe segura da graça, e cessa de temer a ilusão, comprazendo-se com o pensamento da sua virtude e alto grau de oração. Tal complacência cai imperceptivelmente, como uma cortina impenetrável, entre nós e Deus, que se vai, deixando conosco uma terrível ilusão.

Quanto mais intenso, forte e prolongado o nosso recolhimento, tanto maior o perigo de cair nessa ilusão. Com o tempo vai-se tornando fácil recolher-nos sem, de fato, entrarmos em contato com Deus. Esse recolhimento não passa de um artifício psicológico. É um ato de introspecção, que se aprende sem esforço. Ele abre para um sombrio, confortável e silencioso quarto interior, onde nada acontece, nada perturba, porque se conseguiu achar a chave que desliga, em sua origem, toda a atividade intelectual. Isto não é oração, e embora possa ser coisa tranquila e benéfica por um pouco de tempo, causará o maior dano, se nos apegamos e o levamos longe demais.

Recolhimento sem fé confina o espírito numa prisão privada de luz e de ar. Um ascetismo interior não deve terminar por fechar-nos em tal cárcere. Só faria, com isto, anular os fins da graça divina. Não é pondo limites à atividade da alma que a fé nos estabelece em recolhimento, mas na remoção de todas as limitações da nossa inteligência e vontade, livrando a mente da dúvida e a vontade da hesitação, de modo que o espírito, livrado por Deus, mergulha nas profundezas da sua invisível liberdade”.
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 5ª Ed. 1968, pág. 180, 181 e 185 a 187

http://reflexoes-merton.blogspot.com.br/2016/02/o-verdadeiro-recolhimento-quaresmal_88.html#more

A CRUZ DA ABNEGAÇÃO

Mais uma vez vamos meditar no convite de Cristo a tomarmos a Cruz: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mat 16, 24). Deixa-nos pensativos o fato de que essas breves palavras programáticas sobre a Cruz comecem  falando da abnegação: negue-se a si mesmo.
Bem sabemos que o caminho de Cristo é um caminho de Amor. Tudo o que Deus nos pede resume-se, de fato, no mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mat. 22,37-40).
“Caríssimos – insistia São João –, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (…). E nós temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão” (I Jo 4, 7-8.21).
Nestas palavras, sentimos bater o próprio coração de Cristo. Parece-nos ouvi-lo, na Última Ceia, a falar da sua próxima Paixão e a encarecer-nos: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,12-13).
Dá a sua vida, dar-se aos outros. Isto é a abnegação: renunciar à força centrípeta do egoísmo e abrir-se à força centrifuga da caridade. Estamos aqui, talvez, no ponto mais alto da cruz voluntária: no amor sacrificado e generoso, que se esquece de si mesmo, que prescinde dos “direitos” que o egoísmo justiceiro anda sempre exigindo, e que sabe viver todo voltado para os outros, disposto a sacrificar-se para fazê-los felizes – na terra e depois no Céu -, sem cálculos nem cobranças.
Glosando a parábola do bom samaritano, figura-tipo da caridade cristã (Lc 10,25-37), são João Paulo II escrevia: «O bom samaritano da parábola de Cristo não se limita à simples comoção e compaixão. Estas transformam-se para ele num estímulo para ações que tendem a prestar ajuda ao homem ferido. Bom samaritano, portanto, é afinal todo aquele que presta ajuda no sofrimento, seja qual for a sua espécie; uma ajuda, quanto possível, eficaz. Nela põe todo o seu coração, sem poupar nada, nem sequer os meios materiais. Pode-se dizer mesmo que se dá a si próprio, o seu próprio eu, ao outro. Tocamos aqui num dos pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo. Bom samaritano é o homem capaz, exatamente, de um tal dom de si mesmo»[1].
A abnegação cristã não se limita a fazer sacrifícios, mas é um espírito de sacrifício habitual. Não são abnegados os que fazem algumas mortificações e, ao mesmo tempo, se queixam da dureza da vida, dizem que não têm tempo de pensar nos outros e amargam as renúncias que são obrigados a fazer. São abnegados os que se entregam ao próximo com alegria, sem dar  importância à sua dedicação.
Este é o espírito de Cristo. Essas almas, que refletem de um modo especial a Cristo, vão espalhando pelo mundo a fecundidade do amor cristão. A elas pode-se aplicar o que Jesus dizia de si mesmo no Domingo de Ramos: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não se enterra e morre, fica só; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24).
Como é grande o campo da abnegação cristã! Abnegação na família, abnegação no trabalho; dedicação generosa aos doentes, aos anciãos, aos necessitados; idealismo prático e atuante, que contribua para a solução dos problemas educacionais, habitacionais, sociais… São tantas coisas! Não queiramos ficar na teoria neste ponto –em nenhum ponto de vida cristã-, e concretizemos, da forma que seja mais adequada às circunstâncias e capacidades de cada um, os modos práticos de entrar na aventura da abnegação.
Não seríamos cristãos se nos omitíssemos, se não nos movesse, como um fogo interior, o desejo de servir a todos. Numa homilia sobre o Coração de Jesus, são Josemaria lançava esta mensagem vibrante: «Um homem, uma sociedade que não reajam perante as tribulações ou as injustiças, e não se esforcem por aliviá-las, não são nem homem nem sociedade à medida do Coração de Cristo. Os cristãos –conservando sempre a mais ampla liberdade à hora de estudar e de aplicar as diversas soluções, e, portanto, com um lógico pluralismo – devem identificar-se no mesmo empenho em servir à humanidade. De outro modo, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus»[2].
“Se alguém quer me servir –dizia Cristo-, que me siga; e, onde eu estiver, também ali estará o meu servidor” (Jo 12, 26). Ele nos precedeu e nos marca o caminho com os seus passos.
Este caminho, em todo o seu percurso, passa pela Cruz, faz-se autêntico quando o percorremos abraçados à Cruz. E essa Cruz, que parece aos olhos humanos o símbolo de destruição, de fracasso e de morte, na realidade é o símbolo do amor, da vitória e da vida eterna.
Adaptação de um trecho do livro de F. Faus A sabedoria da Cruz, Quadrante 2001, pp. 54-56.
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Ano da misericórdia:
«Abramos os nossos olhos  – diz o Papa Francisco – para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.
É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos (BulaMisericordiae vultus sobre o Jubileu da Misericórdia, n. 12).


[1] Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 28
[2] É Cristo que passa, Quadrante, São Paulo 1975, pág. 220
http://www.padrefaus.org/archives/2334?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+padrefaus+%28F%C3%A9%2C+Verdade+e+Caridade%29

sábado, 5 de março de 2016

Orações de São José para o mês de Março

3
Invocação do Espírito Santo

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.

V – Enviai o vosso Espírito, Senhor, e tudo será criado.

V – E renovareis a face da terra.

Oração

Deus, que esclarecestes os corações de vossos fiéis com as luzes do Espírito Santo, concedei-nos por esse mesmo Espírito conhecer e amar o bem, e gozar sempre de suas divinas consolações. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.

Oração Preparatória

Com humildade e respeito aqui nos reunimos. Ó Divino Jesus, para oferecer, todos os dias deste mês, as homenagens de nossa devoção ao glorioso Patriarca São José. Vós nos animais a recorrer com toda a confiança aos vossos benditos Santos, pois que as honras que lhes tributamos revertem em vossa própria glória. Com justos motivos, portanto, esperamos vos seja agradável o tributo quotidiano que vimos prestar ao Esposo castíssimo de Maria, vossa divina Mãe a José, vosso amado Pai adotivo. Ó meu Deus, concedei-nos a graça de amar e honrar a José como o amastes na terra e o honrais no céu. E vós, ó glorioso Patriarca, pela vossa estreita união com Jesus e Maria; vós que, à custa de vossas abençoadas fadigas e suores, nutristes a um e outro, desempenhando neste mundo o papel do Divino Padre Eterno; alcançai-nos luz e graça para terminar com fruto este devoto exercício que em vosso louvor alegremente começamos. Amém.

Lê-se a Meditação e o exemplo próprios do dia e depois rezam-se três Pai Nosso, Ave Maria e Glória.

ORAÇÃO

Ó glorioso São José, a bondade de vosso coração é sem limites e indizível, e neste mês que a piedade dos fiéis vos consagrou, mais generosas do que nunca se abrem as vossas mãos benfazejas. Distribui entre nós, ó nosso amado Pai, os dons preciosíssimos da graça celestial da qual sois ecônomo e tesoureiro; Deus vos criou para seu primeiro esmoler. Ah! Que nem um só de vossos servos possa dizer que vos invocou em vão nestes dias.

Que todos venham, que tosos se apresentem ante vosso trono e invoquem vossa intercessão, a fim de viverem e morrerem santamente, a vosso exemplo nos graços de Jesus e no ósculo beatíssimo de Maria. Amém.

LADAINHA DE SÃO JOSÉ

Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, escutai-nos.

Pai Celestial, que sois Deus, tende piedade de nós.

Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.

Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, rogai por nós.

São José, rogai por nós.

Ilustre Filho de Davi, rogai por nós.

Luz dos Patriarcas, rogai por nós.

Esposo da Mãe de Deus, rogai por nós.

Guarda da puríssima Virgem, rogai por nós.

Sustentador do Filho de Deus, rogai por nós.

Estrênuo defensor de Jesus Cristo, rogai por nós.

Chefe da Sagrada Família, rogai por nós.

José justíssimo, rogai por nós.

José castíssimo, rogai por nós.

José prudentíssimo, rogai por nós.

José fortíssimo, rogai por nós.

José obedientíssimo, rogai por nós.

José fidelíssimo, rogai por nós.

Espelho de paciência, rogai por nós.

Amante da pobreza, rogai por nós.

Modelo dos operários, rogai por nós.

Honra da vida de família, rogai por nós.

Guarda das virgens, rogai por nós.

Sustentáculo das famílias, rogai por nós.

Alívio dos miseráveis, rogai por nós.

Esperança dos doentes, rogai por nós.

Patrono dos moribundos, rogai por nós.

Terror dos demônios, rogai por nós.

Protetor da Santa Igreja, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

V – O Senhor o constituiu dono de sua casa.

R – E fê-lo príncipe de todas as suas possessões.

ORAÇÃO

Deus, que por vossa inefável Providência vos dignastes eleger o bem-aventurado São José para Esposo de vossa Mãe Santíssima, concedei-nos, nós vos pedimos, que mereçamos ter como intercessor no céu aquele a quem veneramos na terra como nosso Protetor. Vós que viveis e reinais com Deus Padre na unidade do Espírito Santo. Amém.

JACULATÓRIAS

Amado Jesus, José e Maria, eu vos dou meu coração, alma e vida minha.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.

Amado Jesus, José e Maria, asssisti-me na hora da agonia.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.

Amado Jesus, José e Maria, fazei que em paz expire na vossa companhia.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.

Obs.: Trecho retirado do livro “Mês de São José” do Mons. José Basílio Pereira, 1948. O livro pode ser baixado no blog alexandriacatólica.

https://aformacaodamocacatolica.wordpress.com/

quarta-feira, 2 de março de 2016

“Tarde Te amei!” De Santo Agostinho, uma das mais arrebatadoras orações de todos os tempos

"Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam..."

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1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.
2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…
3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.
4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.
5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.
6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!
7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…
8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!

Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O SACRIFÍCIO VOLUNTÁRIO

 

Se alguém quiser

Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mat 16,24). Ao dirigir essas palavras aos discípulos, Jesus fala de algo que depende de nós. Algo que podemos fazer ou não -Se alguém quiser…-, algo que pertence, portanto, à nossa livre iniciativa.
Sempre a Cruz – a mortificação pequena ou grande – deve ser tomada livremente: só se nós queremos, é que sacrificamos um fim de semana para dar assistência aos pobres; se nós queremos, deixamos de ir ao cinema para visitar um doente; se nós queremos, assumimos em casa os trabalhos mais sacrificados; se nós queremos, mortificamos a curiosidade, a gula, a destemperança no falar, etc.
Sacrifícios voluntários? Mortificação? Meter na nossa vida mais “cruzes”, quando a vida já traz tantas sem procurá-las? Por quê?
O Espírito Santo  nos responderá pela boca de São Paulo.
Este Apóstolo usa com frequência de uma comparação: a imagem dos dois homens que estão sempre brigando dentro de nós: o homem velho e o homem novo. Poderíamos traduzir por “homem modelado pelos parâmetros mundanos, pagãos” e “homem modelado – conforme a imagem de Cristo – pelo amor, pela graça do Espírito Santo”.
Assim, escrevendo aos Efésios, São Paulo pede-lhes: Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê das suas ideias frívolas [...]. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em justiça e santidade verdadeiras (Ef 4,17.22-24). É claro que lhes está propondo uma luta constante, mediante a qual deverão arrancar – como se arrancam no jardim as ervas daninhas – o homem velho, para revestir-se do homem novo.
As mesmas ideias, mais sinteticamente expostas, encontramo-las na Carta aos Colossenses: Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem dAquele que o criou (Cl 3,9-10).
Um terceiro texto, dirigido aos Gálatas, completa os anteriores: Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências (Gl 5,24). Para entender o que quer dizer, é preciso ter presente que, na mesma carta, havia explicado o que é a carne e as suas concupiscências (palavra que literalmente significa maus desejos), mostrando que por carne entende – como é comum em textos bíblicos – a vida egoísta, afastada da graça de Deus e mergulhada no materialismo, cujo deus é o ventre [...] e só tem prazer no que é terreno (Fil 3,19).
Característica típica do homem velho é a de se deixar dominar pelos desejos da carne, que – como explica detalhadamente o Apóstolo – são fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdia, bandos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes (Gál 5,19,21).
Esta é a carne que deve ser crucificada, ou seja, mortificada, dominada e vencida com a renúncia, com a luta, com a Cruz.
Purificação voluntária
A mortificação voluntária – que faz parte essencial da luta do cristão – é um meio necessário de purificação.
Santo Agostinho tem um pensamento muito profundo a esse respeito. Lembra que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e que o pecado “deformou” essa imagem e apagou a semelhança. A graça de Deus, recebida no Batismo, fez-nos renascer para uma vida nova, dando-nos a graça. É tarefa nossa colaborar com a graça para limpar os males que nos deformam; só assim a graça nos devolverá à “forma” primeira, que é a imagem do ser de Deus [1], a autêntica personalidade dos filhos de Deus.
Como é sugestiva essa ideia, para nos ajudar a compreender que a formação cristã não se limita ao conhecimento da verdade, da doutrina – a ler, estudar, aprender- , mas exige um trabalho de purificação –de limpar, de extirpar, de endireitar, de podar o que procede do egoísmo–, para podermos “arrancar a triste máscara que forjamos com as nossas misérias[2]”, e estarmos em condições de ir reproduzindo fielmente em nós os traços do nosso modelo, Jesus Cristo.
Pensemos seriamente, nestes dias, qual é o nosso homem velho, quais são as nossas paixões e concupiscências, para assim podermos descobrir as mortificações que precisamos fazer para arrancar de nós as máscaras deformantes. Não é muito difícil adivinhar. Difícil é concretizar… e fazer.
Na realidade, todos notamos em nós mesmos defeitos que nos prejudicam, hábitos, vícios de diversas espécies, que nos dominam; falhas de caráter que atrapalham o nosso trabalho; atitudes desagradáveis ou omissões no nosso relacionamento com os outros… Pois bem, aí é que deve entrar a nossa cruz, ou seja, os sacrifícios necessários para corrigir tais defeitos e revestir-nos do homem novo.
Adaptação de um trecho do livro de F.Faus, A sabedoria da Cruz
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Ano da Misericórdia:
Quantas páginas da Sagrada Escritura – diz o Papa Francisco – se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! [...]. As páginas do profeta Isaías poderão ser meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de oração, jejum e caridade. «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente …, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. [...]

»Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos teus ossos. Serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas inesgotáveis » (cf. 58, 6-11).
(Bula Misericordiae vultus, sobre o Jubileu da Misericórdia, n. 17).


[1] Cfr. Sermão 125,4. Patrologia Latina 38,962.
[2] Cfr. Josemaría Escrivá: Via Sacra, sexta estação

http://www.padrefaus.org/archives/2326

AS CRUZES QUE NÓS “INVENTAMOS”

Não é raro que alguns cristãos se lamentem das “muitas cruzes” que – segundo eles – Deus lhes envia.
Mas, antes de meditarmos nas cruzes que talvez Deus nos envie para o nosso bem, nos convém pensar nas “falsas cruzes” que nós mesmos “fabricamos”, e que nunca deveriam ter existido: cruzes absurdas ,que Deus não nos mandou nem quer mandar. Essas cruzes é que nos fazem mal.
De que cruzes se trata? Daquelas que aparecem só como consequência da nossa mesquinhez e dos nossos defeitos. A pessoa egoísta, ciumenta, invejosa, teimosa…, sofre muito e faz sofrer os outros. Mas esses sofrimentos não são cruzes, no sentido cristão da palavra. São apenas a secreção ácida do nosso egoísmo; trata-se de faltas mais ou menos graves, que evidentemente Deus não quer.
Se fôssemos fazer as contas, veríamos que a maioria dessas dores ruins procedem de uma dupla fonte: a fonte do amor-próprio e a fonte do amor-pequeno.
A fonte do amor-próprio
O amor-próprio é uma fonte de péssimas cruzes. Como o orgulho nos faz sofrer! Que feridas infeccionadas não provoca! Basta uma lufada de ar – uma pequena desconsideração ou indelicadeza –, e o amor-próprio se sente atingido como por um estilete.
Uma pessoa orgulhosa é incapaz de tolerar, sem ficar magoada – sem se meter num calvário de sofrimentos íntimos –, a menor humilhação, mesmo causada involuntariamente. Fica alterada, abatida; grava a mágoa na memória e a vai remoendo lá dentro; cultiva-a na imaginação, aquece-a ao fogo da autocompaixão, vai engrossando-a à força de lhe dar importância, e termina fazendo dela uma tortura insuportável. Sofre, e julga-se vítima. Escorrem-lhe pelas faces lágrimas de tragicomédia.
Bastava que fosse um pouco mais humilde, que soubesse relevar minúcias, que se esforçasse um pouco por compreender, por desculpar, por oferecer a Deus as pequenas contradições, para não ter sequer um miligrama dessa cruz inútil, que não é a cruz de Cristo.
Se a pessoa orgulhosa sofre com tormentos fabricados pelo orgulho, que dizer da invejosa? Sempre comparando-se com os outros, sente subirem-lhe no coração ondas de melancolia, depressões enciumadas, revoltas contra a sorte e até clamores íntimos – ensopados de lágrimas de revolta – contra a Providência de Deus. Essa pessoa invejosa, que chora frustrações, foi ela própria a criadora da sua falsa “cruz”. Tivesse um coração mais generoso, enxergaria, feliz e agradecida – na mesma situação em que só vê infortúnios e injustiças da vida –, dez mil bondades de Deus e motivos de ação de graças, um panorama de miúdas e saborosas alegrias, que em vez de queixas lhe poriam canções dentro da alma.
A fonte do amor pequeno
Vejamos agora a segunda fonte das falsas cruzes: a do amor-pequeno.
Já de início, poderíamos dizer que existe um sinal infalível de que o nosso amor é pequeno: o mau humor. Para quem ama pouco, toda dedicação, toda paciência, toda compreensão solicitada pelo próximo é excessiva e aborrecida, qualquer sacrifício causa revolta ou malestar.
O amor grande leva a generosidades grandes e faz com que nem se perceba o sacrifício. Como dizia Santo Agostinho: “Quando se ama, ou não se experimenta trabalho, ou o próprio trabalho é amado”. Pelo contrário, o amor-pequeno transforma uma palha numa “cruz” insuportável. Então, um sacrifício que caberia “dentro de um sorriso, esboçado por amor” 2, não cabe na vida e gera mau humor. Este humor soturno vai configurando um tipo de personalidade que se caracteriza pelos contínuos resmungos, queixas constantes e incessantes protestos. A “reclamação” é a sombra do amor-pequeno, o sinal que o dá a conhecer.
Se olharmos de perto o que há por trás dessas reclamações, veremos que, em noventa por cento dos casos, é apenas a pura e simples realidade da vida, com as suas normais incidências, lutas e esforços. Por outras palavras, o que há na raiz do mau humor é apenas a falta de aceitação da vontade de Deus no dia-a-dia.
É triste lamentar, como se fossem coisa do outro mundo, dificuldades que são normais. Não é nenhuma contrariedade inesperada o fato de que os outros tenham asperezas de caráter, de que o cumprimento do dever canse, de que alcançar metas profissionais ou melhoras nos que nos cercam – especialmente no marido, mulher, filhos – e nem digamos a correção dos nossos próprios defeitos, seja algo lento e demorado.
No entanto, é muito comum que, ao constatá-lo, nos sintamos indispostos, nos deixemos levar pelo aborrecimento, pela impaciência, pelo protesto, e percamos o bom humor. Reações de todo desproporcionadas e ridículas, pois lá onde nós imaginamos grandes “cruzes” está apenas a vida, a vida que, com um pouco mais de amor, ficaria pontilhada de alegrias e coroada de ações de graças.
Cristo pede-nos que tomemos com amor a cruz de cada dia (Lc 9, 23), é certo, mas – lembrando o que dizia João Paulo I – essa cruz deveria ser carregada com o “sorriso cotidiano” e não fazendo dela a “tragédia cotidiana”. No entanto, muitos conseguem perder o sorriso e ficar com a tragédia.
Bastam-lhes para isso duas coisas: em primeiro lugar, amar pouco. Em segundo lugar, viver num mundo de fugas imaginativas e sonhos irreais. Muitos são os que reclamam do real – que é a vida, sempre rica em possibilidades de amar, que Deus nos dá – e passam a instalar-se, esterilmente, no mundo irreal das hipóteses: se eu tivesse essas outras condições pessoais, essa sorte, essa oportunidade profissional…; se a minha mulher fosse mais bonita, pacífica e econômica…; se o meu marido desse mais atenção à família…; se o meu país tivesse uma economia estável… E, assim, enquanto vivem no mundo do “tomara que”, atolam-se no que São Josemaria chamava a “mística do oxalá”. Desse modo, estragam a realidade, que é a única que existe e que a cada instante nos oferece ocasiões de amar e de servir e, como consequência, de sermos felizes.
Quem chora injustamente por causa da cruz cotidiana perde a cruz de Deus e encontra a “cruz” do diabo. São cheias de sabedoria aquelas palavras da Imitação de Cristo que dizem: “Se levas com gosto a cruz, ela te levará. Se a levas a contragosto, acabas por torná-la mais pesada para ti e a ti mesmo te sobrecarregas. Se rejeitas uma cruz, sem dúvida encontrarás outra, e possivelmente mais pesada” (II, 12).
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Ano da misericórdia:
Misericórdia –diz o Papa Francisco – é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado (Bula Misericordiae vultus, sobre o Jubileu da Misericórdia, n. 2).

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

SEM CRUZ HÁ FRUSTRAÇÃO

Foi-se triste
Lembra da cena do encontro do jovem rico com Jesus? O rapaz foi correndo, cheio de entusiasmo ao encontro de Cristo. Aos pés do Senhor mostrou-se disposto a fazer tudo o que Deus lhe pedisse. Mas, quando Jesus concretizou, falando de entregar-se a Deus e segui-lo, o jovem abaixou a cabeça e foi-se embora triste (cf. Mc 10, 17-22).
Pensemos agora em nós e na razão das nossa tristezas.
Contava São Josemaría Escrivá que conhecera um menino a quem a mãe havia ensinado, desde pequeno, a rezar de manhã e à noite. Ao acordar, recitava juntamente com ela o ato de consagração a Nossa Senhora: “Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, vos consagro neste dia meus olhos, meus ouvidos, minha boca…” Não terminava, porém, a enumeração, porque – como quem quer prevenir equívocos – intercalava com veemência: “menos o meu coelhinho”. Tudo estava ele disposto a oferecer a Nossa Senhora…, menos o seu coelhinho. São Josemaria, ao narrar esse episódio, dizia aos que tínhamos a fortuna de ouvi-lo que pensássemos também se não teríamos o nosso “coelhinho”.
Será que não temos mesmo? Seja qual for a nossa idade – ainda que já estejamos descendo a última ladeira da vida –, o “coelhinho” é todo e qualquer “menos isto” que nós opomos a Deus, ou seja, toda e qualquer reserva ou condição intocável.
Para o jovem rico, o problema residia nas riquezas. Para nós, onde está? Qual é a nossa ressalva, o nosso “menos isto”?
Uns colocam o rótulo de intocável no seu comodismo burguês: vida cristã, sim, mas sem falar muito em sacrifícios nem renúncias. Outros desconversam quando Deus, de algum modo, lhes pede que vivam bem a castidade: parecem-se com o governador romano Félix, que gostava de ouvir São Paulo, prisioneiro em Cesareia, até o dia em que o Apóstolo começou a falar-lhe sobre a castidade e o juízo futuro. Félix, então, todo atemorizado, disse-lhe: “Por ora podes retirar-te; mandar-te-ei chamar em outra ocasião” (At 24, 25).
Há outros, casados, que talvez tenham o seu “menos isto” no filho que demoram a ter por comodismo; outros fecham os ouvidos à sua própria consciência, quando lhes diz que a honestidade nos negócios está acima da ganância; outros ainda querem ser bons cristãos, mas sem combater os defeitos que mais os dominam e lhes estão deteriorando o convívio familiar, prejudicando o trabalho ou congelando o crescimento espiritual: tudo menos renunciar à prepotência, ao comodismo, à inconstância, à crítica, ao excesso nos “aperitivos”, à desordem nos horários, etc.
E, dentro deste triste campo das recusas, é amargamente penoso – deploravelmente melancólico – o caso dos que chegam à beira de uma entrega total, para a qual Deus os escolheu desde toda a eternidade; dos que enxergam uma vocação divina que com a sua claridade os deslumbra e, na hora decisiva, se encolhem por medo e se “retiram tristes”, escondendo-se sob o manto cinzento do medo, como o jovem rico.
Seja qual for o caso, existe em todos um denominador comum: a recusa a corresponder ao amor de Deus.
Importa gravar bem este ensinamento do Evangelho. Ver claramente que não é só a rejeição radical de Deus que leva a vida ao fracasso; é também a rejeição do plano de Deus a nosso respeito, ou de algum aspecto importante do mesmo.
Cada ser humano veio ao mundo para ser o protagonista de um programa divino. Deus não nos lançou à toa na vida, mas tem um projeto para cada um de nós, que nos vai dando a conhecer – de muitos modos – com a sua graça. Depende da nossa liberdade aceitá-lo, dizendo “sim” a cada apelo divino, ou recusá-lo. Se o aceitarmos, nos encontraremos a nós mesmos, acharemos a plenitude da nossa realização. Se o recusarmos, afundaremos na frustração.
Comentando este vazio árido de uma vida frustrada, escreve poeticamente Saint-Exupéry que, num oásis do deserto africano, «junto da fonte, uma mocinha chorava, com a fronte oculta no cotovelo. Pousei-lhe docemente a mão nos cabelos e virei para mim aquele rosto. Não lhe perguntei a causa do desgosto, por saber perfeitamente que ela estava muito longe de o conhecer. A mágoa é sempre feita do tempo que corre e não formou o seu fruto” 1.

Adaptação de um trecho do livro de F.Faus, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens.
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Ano da Misericórdia. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona – diz oPapa Francisco –. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado (Bula Misericordiae vultus, sobre o Jubileu da Misericórdia e a Indulgência do Jubileu, n. 22).
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