domingo, 27 de março de 2016

Oração de entrega total a Jesus

Uma das orações mais poderosas da Igreja

Silhouette of Jesus with Cross over sunset concept for religion, worship, prayer and praise.

Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade,
minha memória,
minha inteligência
e toda a minha vontade.
Tudo o que tenho e possuo
de vós recebi;
a vós, Senhor o restituo.
Tudo é vosso;
disponde de tudo inteiramente,
segundo a vossa vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta.

(Santo Inácio de Loyola)

Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais


Irmãos: 3Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados?4Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova. 5Pois, se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição. 6Sabemos que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo de pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado. 7Com efeito, aquele que morreu está livre do pecado.  
8Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. 10Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive, é para Deus que vive. 11Asim, vós também considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo.

http://liturgiadashoras.org/oficiodasleituras.html

sexta-feira, 18 de março de 2016

A CRUZ QUE NOS INTERPELA

A Cruz que Deus nos envia
A maior parte das “cruzes” da vida aparece sem nós as termos procurado. São as moléstias físicas ou psíquicas; são os aborrecimentos que surgem no mundo do nosso trabalho; são as dificuldades e aflições econômicas, o desemprego, a insegurança…; ou então os sofrimentos que experimentamos no convívio habitual com a família: asperezas de caráter do marido ou da mulher, desgostos com os filhos, parentes desabusados ou intrometidos, indelicadezas, ofensas…
Pense que todo o tipo de sofrimento nos interpela: Deus nos fala através dele. Que resposta lhe damos? Não poucas vezes, a nossa reação espontânea é a irritação, o protesto, ou a aflição, a tristeza, o desânimo, a queixa. Há corações que não sabem sofrer, ficam perdidos diante dos sofrimentos cotidianos, e sucumbem esmagados por umas “cruzes” que sentem como se fossem uma laje que os asfixia, quando Deus as oferece como asas para voar.
Deveriam lembrar-se do mau ladrão. Junto de Jesus crucificado, deixou-se arrastar pelo ódio à Cruz. Morreu contorcendo-se e espumando de raiva na sua cruz inútil. Pelo contrário, o bom ladrão soube descobrir na sua cruz uma escada que lhe serviu para chegar a Cristo e subir ao Céu (Cf. Luc 23,39-43).
Não vale a pena contorcer-se e protestar. Assim, Deus não nos poderá “trabalhar”. “Sofreremos mais e inutilmente”[1], e nenhum proveito tiraremos da dor.
Qualquer sofrimento nos interpela, dizíamos. Também Cristo foi interpelado, na Cruz, por todo tipo de sofrimento, por cada um daqueles padecimentos com que foi ferido pelos nossos pecados. E como respondeu? De cada ferida que recebia, brotava um ato de amor e uma virtude. Esse é o exemplo para o qual devemos olhar.
Acusado com mentiras revoltantes, responde com mansidão. Provocado maldosamente, responde com o silêncio. A cada chicotada, a cada espinho que lhe fere a cabeça, a cada prego que lhe atravessa as mãos e os pés, responde com a paciência; a cada ofensa, responde com o perdão; a cada escarro, a cada bofetada, responde com a humildade; a cada bem  que lhe tiram (sangue, pele, honra, roupas) responde dando; à rejeição dos homens, responde entregando-se totalmente por eles.
A cruz que ensina a amar
Sim, cada uma das nossas dores traz uma mensagem de «Cristo que pergunta por nós»[2]. Do alto da Cruz, Ele olha-nos pessoalmente, chama-nos pelo nosso nome e nos pergunta: “Não queres aprender a sofrer comigo? Não queres transformar a tua dor em amor? Não queres ter um sofrimento santificador?”
Quando nos decidiremos a isso? Quando perceberemos estas interrogações afetuosas, estas sugestões da graça de Deus? “Perante esse pequeno desaforo – Deus nos diz –, por que não respondes com um silêncio paciente e humilde como o meu, sem ódio nem discussões? Se te custa aguentar o caráter daquela pessoa, por que não te esforças por viver melhor a compreensão e a desculpa amável? Quando alguém te ofende, por que  – sem deixares de defender serenamente o que é justo – não te esforças por perdoar, como Deus te perdoa?”
E, assim, quando as dores físicas ou morais –os desgostos, as decepções, os fracassos, os fastios, o tédio, a solidão, a depressão…– nos acabrunham, a voz cálida de Cristo crucificado convida-nos a ser generosos e a subir um degrau na escada do amor: a crescer na  mansidão, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos, bem-estar e posses materiais; sobretudo, a meter-nos mais decididamente na fogueira de amor que é o coração de Cristo, com desejos inflamados de corresponder, de desagravá-lo, de imitá-lo, de unir-nos ao seu Sacrifício redentor. Todos esses sentimentos fazem grande a alma cristã.
Queremos fazer este aprendizado cada vez melhor? Meditemos com frequência a Paixão de Jesus. É uma prática espiritual que, ao longo dos séculos, alimentou o amor e a generosidade de milhões de cristãos. Peguemos muitas vezes os relatos detalhados da Paixão, que os quatro Evangelhos conservam como um tesouro; ou livros que comentem piedosamente a Paixão e Morte de Cristo; e fiquemos contemplando, representando as cenas com a imaginação, “metendo-nos” nelas, e dialogando com o Senhor.
«Queres acompanhar Jesus de perto, muito de perto?… Abre o Santo Evangelho e lê a Paixão do Senhor. Mas ler só, não: viver. A diferença é grande. Ler é recordar uma coisa que passou; viver é achar-se presente num acontecimento que está ocorrendo agora mesmo, ser mais um naquelas cenas. Deixa, pois, que teu coração se expanda, que se coloque junto do Senhor…»[3]
Procuremos proceder assim, porque, então, choraremos os nossos pecados, que tão dolorosamente rasgaram o corpo e a alma de Cristo; teremos ânsias de reparar esses nossos males, oferecendo ao Senhor os nossos sofrimentos com espírito de penitência; e as nossas dores nos parecerão pequenas em comparação com as de Jesus: «O que vale, Jesus, diante da tua Cruz, a minha; diante das tuas feridas, os meus arranhões? O que vale, diante do teu Amor imenso, puro e infinito, esse pesadume de nada que me puseste às costas?» [4]

Trecho do livro de F. Faus A sabedoria da Cruz

domingo, 13 de março de 2016

Parábola dos dois lobos

Uma lição de vida

Wolf

Um indiano muito sábio estava ensinando ao seu neto importantes lições de vida:
— Existe uma luta dentro de cada um de nós que se assemelha muito a uma luta entre dois lobos. Um deles representa a maldade: inveja, ciúmes, remorso, egoísmo, ambições, mentiras… o outro lobo é a personificação do bem: paz, amor, esperança, verdade, bondade, fidelidade.
A criança, comovida com as palavras de seu avô, ficou pensando por alguns instantes, e depois perguntou:
— E qual dos dois lobos costuma vencer no final?
O sábio sorriu ligeiramente e respondeu:
— Ganha sempre o lobo que você alimenta.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Como o sagrado entra na vida cotidiana?

Conheça os 4 efeitos dos sacramentais e como você pode aproveitá-los em sua vida diária

agua-benta-vimeo

Quando entramos em uma igreja e impulsionados pelos imponderáveis do ambiente, nos ajoelhamos diante do Sacrário, rezamos o Pai-Nosso, ou quando fazemos uso da água benta, temos uma noção bem exata desse ato que praticamos?
Muito ao nosso alcance e de grande benefício espiritual, está a riqueza dos sacramentais.
“Chamam-se sacramentais os sinais sagrados instituídos pela Igreja cuja finalidade é preparar os homens para receberem os frutos dos sacramentos e santificarem as diferentes circunstâncias da vida” (CEC 1677).
“Os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos, mas oferecem aos fiéis bem-dispostos a possibilidade de santificarem quase todos os acontecimentos da vida por meio da graça divina que deriva do mistério pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo” (CEC 1670).
Diferenças entre os Sacramentos e os Sacramentais
Há distinções substanciais entre o sacramento e o sacramental.
Os sacramentos produzem seu efeito ex opere operato (“pela obra realizada”) por sua própria virtude, quando devidamente ministrados e recebidos ; a eficácia dos sacramentais, ex opere operantis (“pela ação daquele que opera”) pela disposição dos que os recebem. Assim, para que haja um frutuoso efeito das graças dos sacramentais, são necessárias também nossa plena consciência e boa disposição ao recebê-los.
Os sacramentos contêm e conferem a graça habitual ou santificante que é a graça que nos dá uma verdadeira e real participação na vida do próprio Deus; os sacramentais nos preparam para receber e cooperar com as graças atuais as quais, como o próprio nome indica, são atos fugazes e transitórios e, não hábitos permanentes como o é a graça santificante.
Os sacramentos foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, e são apenas sete (batismo, crisma, eucaristia, confissão, unção dos enfermos, ordem e matrimônio) Já os sacramentais são instituídos pela Igreja, que pode aumentar o seu número, se julgar conveniente para o bem das almas.
Mas, quais são os sacramentais ?
Por serem numerosos, muitos teólogos reduzem a seis grupos:
a) Orans (Orante): algumas orações, tais como o Pai-Nosso e as orações que, publicamente, costuma rezar a Igreja: as Ladainhas, por exemplo.
b) Tinctus (Molhado): o uso da água benta; certas unções que se usam na administração de alguns sacramentos e que não pertencem à sua essência.
c) Edens (Comido); indica o uso do pão bento ou outros alimentos santificados pela bênção de um Sacerdote.
d) Confessus (Confessado): quando se reza o Confiteor, individual ou publicamente. – Ou seja, rezando o Confiteor para pedir perdão a Nosso Senhor por tantas falhas que cometemos , sem lembrar-Se mais da falta, Ele, já neste ato, nos cumula de graças.
e) Dans (Dado): esmolas espirituais ou corporais, bem como os atos de misericórdia, prescritos pela Igreja. – Acima das esmolas que possamos dar, está o bem espiritual que possamos fazer ao próximo. Além desse ato ser um sacramental, adquirimos uma série de méritos pela caridade fraterna e pelas outras virtudes que a acompanham.
f) Benedicens (Bendizente): as bênçãos que dão o Papa, os Bispos e os sacerdotes; os exorcismos; a bênção de reis, abades ou virgens e, em geral, todas as bênçãos sobre coisas santas.
Quantas graças, quantas dádivas da Santa Igreja à nossa disposição!
Os efeitos que produzem ou podem produzir os sacramentais dignamente recebidos são muitos. Em geral:
I. Obtêm graças atuais, com especial eficácia, pela intervenção da Igreja (ex opere operandis Ecclesiae).
II. Perdoam os pecados veniais por via de impetração, enquanto que, pelas boas obras que fazem praticar e pela virtude das orações da Igreja, excitam-nos aos sentimentos de contrição e atos de caridade.
III. Às vezes, perdoam toda pena temporal, atinente aos pecados passados, em virtude das indulgências que costumam acompanhar o uso dos sacramentais. Por exemplo, a água benta.
IV. Obtêm-nos graças temporais, se convenientes para nossa salvação. Por exemplo, saúde corporal, defesa contra as tempestades, uma viagem bem-sucedida, etc.
Embora os efeitos dos sacramentais não dependam, principalmente, da disposição com que são administrados ou recebidos, é necessário estar na graça de Deus para receber as graças atuais dos sacramentais com maior eficácia.
Dentro desta perspectiva, “não há uso honesto das coisas materiais que não possa ser dirigido à santificação dos homens e o louvor a Deus.”(II Concílio do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 61: AAS 56 (1964) 116-117)
Sacramentais: a entrada do sagrado a todas dimensões da vida
O ser humano, obra predileta de Deus em sua criação, não somente recebe o poder de administrar os bens materiais criados por Deus, mas um chamado especial a dirigi-los novamente até Ele. A vida terrena é para o homem uma plataforma até o Céu, através da qual deve aprender a transcender, a qual deve administrar para fazer o bem e ainda oferecê-la e consagrá-la novamente no serviço de Deus.
Apesar desta missão ocorrer de maneira plena no Santo Sacrifício da Eucaristia, esta missão do homem se estende a todos os aspectos de sua vida e é apoiada notavelmente pelo recurso dos Sacramentais da Igreja, destacados recentemente pelo informativo National Catholic Register. “Os Sacramentais são extensões dos sete sacramentos e trazem a graça de Deus a tudo o que fazemos”, recordou o autor Philip Kosloski em um artigo para esse meio. Nas palavras do Bendicionário do Ritual Romano, são “irradiações dos sacramentos. Ambos são fonte de vida divina e ambos tem um idêntico propósito: a vida divina”.
A doutrina sobre os sacramentais, que se estende muito além das imagens religiosas, a água benta ou os rosários (alguns dos sacramentais mais conhecidos), foi reiterada pelo Concílio Vaticano II. “Para os membros bem dispostos dos fiéis, a liturgia dos sacramentos e os sacramentais santifica quase todos os eventos em suas vidas”, destaca a Sacrosanctum Concilium. “A eles se dá o acesso à corrente da divina graça que flui do mistério pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, a fonte da qual todos os sacramentos e sacramentais obtêm seu poder”.
Os objetos que podem se abençoados segundo o Ritual Romano anterior incluem pessoas, comidas, objetos e lugares, como o pão, o vinho, a manteiga, a cerveja, o azeite, o fogo, as ferramentas de alpinismo. O Novo Ritual Romano inclui uma ampla gama de objetos e lugares modernos como os lares, bibliotecas, oficinas, lojas comerciais, fábricas e estúdios de comunicação como a rádio e a televisão. Além disso os objetos incluem instrumentos de pesca, ferramentas de trabalho, campos de semear, gado, alimentos e animais, além dos objetos de arte sacra, devocionais e de uso litúrgico.
“Ambos livros rituais são aprovados pela Igreja e podem ser empregados por qualquer sacerdote”, recordou Koloski. “Juntos fazem eco de uma só voz que diz que tudo deve ser levado sob o domínio de Cristo. Isto é algo profundo e aos poucos perdemos isto de vista”. A realidade dos sacramentais recorda que para o cristão não existe uma vida dupla e que Deus está presente em todos os aspectos da vida.

(via Gaudium Press)

domingo, 6 de março de 2016

O verdadeiro recolhimento quaresmal

“O verdadeiro recolhimento conhece-se pelos efeitos: paz, silêncio interior, tranquilidade de coração. O espírito recolhido é quieto e desprendido, ao menos em suas profundezas. É impassível, com as paixões momentâneas em repouso. (...) Mas como os frutos do recolhimento vêm da humildade e da caridade, e de outras virtudes cristãs fundamentais, é claro que não pode haver recolhimento genuíno senão quando essas virtudes concorrem para dar-lhe substância e realidade.
(...)
O recolhimento é mais do que entrar dentro de nós mesmos, e nem significa necessariamente a recusa ou a expulsão do mundo exterior.
(...)
Outro resultado do recolhimento é fazer-nos presentes a Deus e a nós mesmos em Deus.(...) E é só na presença de Deus que nos revelamos em toda a verdade. Porque é então que, vendo a Deus em sua luz, vinda na obscuridade da fé, também vemos, à mesma claridade, como somos diferentes do que pensamos ser em nossa ambição e vaidade.

Aqui o recolhimento colore-se de compunção e daquilo que os Padres chama de ‘santo temor’. Temor é o conhecimento de nós mesmos em presença da santidade de Deus. É o conhecimento que temos de nós diante do seu amor, ao ver como estamos longe do que esse amor queria.
(...)
Esse temor é absolutamente necessário para que se preserve o nosso recolhimento de degradar-se numa falsa doçura e presunção, que se supõe segura da graça, e cessa de temer a ilusão, comprazendo-se com o pensamento da sua virtude e alto grau de oração. Tal complacência cai imperceptivelmente, como uma cortina impenetrável, entre nós e Deus, que se vai, deixando conosco uma terrível ilusão.

Quanto mais intenso, forte e prolongado o nosso recolhimento, tanto maior o perigo de cair nessa ilusão. Com o tempo vai-se tornando fácil recolher-nos sem, de fato, entrarmos em contato com Deus. Esse recolhimento não passa de um artifício psicológico. É um ato de introspecção, que se aprende sem esforço. Ele abre para um sombrio, confortável e silencioso quarto interior, onde nada acontece, nada perturba, porque se conseguiu achar a chave que desliga, em sua origem, toda a atividade intelectual. Isto não é oração, e embora possa ser coisa tranquila e benéfica por um pouco de tempo, causará o maior dano, se nos apegamos e o levamos longe demais.

Recolhimento sem fé confina o espírito numa prisão privada de luz e de ar. Um ascetismo interior não deve terminar por fechar-nos em tal cárcere. Só faria, com isto, anular os fins da graça divina. Não é pondo limites à atividade da alma que a fé nos estabelece em recolhimento, mas na remoção de todas as limitações da nossa inteligência e vontade, livrando a mente da dúvida e a vontade da hesitação, de modo que o espírito, livrado por Deus, mergulha nas profundezas da sua invisível liberdade”.
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 5ª Ed. 1968, pág. 180, 181 e 185 a 187

http://reflexoes-merton.blogspot.com.br/2016/02/o-verdadeiro-recolhimento-quaresmal_88.html#more

A CRUZ DA ABNEGAÇÃO

Mais uma vez vamos meditar no convite de Cristo a tomarmos a Cruz: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mat 16, 24). Deixa-nos pensativos o fato de que essas breves palavras programáticas sobre a Cruz comecem  falando da abnegação: negue-se a si mesmo.
Bem sabemos que o caminho de Cristo é um caminho de Amor. Tudo o que Deus nos pede resume-se, de fato, no mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mat. 22,37-40).
“Caríssimos – insistia São João –, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (…). E nós temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão” (I Jo 4, 7-8.21).
Nestas palavras, sentimos bater o próprio coração de Cristo. Parece-nos ouvi-lo, na Última Ceia, a falar da sua próxima Paixão e a encarecer-nos: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,12-13).
Dá a sua vida, dar-se aos outros. Isto é a abnegação: renunciar à força centrípeta do egoísmo e abrir-se à força centrifuga da caridade. Estamos aqui, talvez, no ponto mais alto da cruz voluntária: no amor sacrificado e generoso, que se esquece de si mesmo, que prescinde dos “direitos” que o egoísmo justiceiro anda sempre exigindo, e que sabe viver todo voltado para os outros, disposto a sacrificar-se para fazê-los felizes – na terra e depois no Céu -, sem cálculos nem cobranças.
Glosando a parábola do bom samaritano, figura-tipo da caridade cristã (Lc 10,25-37), são João Paulo II escrevia: «O bom samaritano da parábola de Cristo não se limita à simples comoção e compaixão. Estas transformam-se para ele num estímulo para ações que tendem a prestar ajuda ao homem ferido. Bom samaritano, portanto, é afinal todo aquele que presta ajuda no sofrimento, seja qual for a sua espécie; uma ajuda, quanto possível, eficaz. Nela põe todo o seu coração, sem poupar nada, nem sequer os meios materiais. Pode-se dizer mesmo que se dá a si próprio, o seu próprio eu, ao outro. Tocamos aqui num dos pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo. Bom samaritano é o homem capaz, exatamente, de um tal dom de si mesmo»[1].
A abnegação cristã não se limita a fazer sacrifícios, mas é um espírito de sacrifício habitual. Não são abnegados os que fazem algumas mortificações e, ao mesmo tempo, se queixam da dureza da vida, dizem que não têm tempo de pensar nos outros e amargam as renúncias que são obrigados a fazer. São abnegados os que se entregam ao próximo com alegria, sem dar  importância à sua dedicação.
Este é o espírito de Cristo. Essas almas, que refletem de um modo especial a Cristo, vão espalhando pelo mundo a fecundidade do amor cristão. A elas pode-se aplicar o que Jesus dizia de si mesmo no Domingo de Ramos: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não se enterra e morre, fica só; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24).
Como é grande o campo da abnegação cristã! Abnegação na família, abnegação no trabalho; dedicação generosa aos doentes, aos anciãos, aos necessitados; idealismo prático e atuante, que contribua para a solução dos problemas educacionais, habitacionais, sociais… São tantas coisas! Não queiramos ficar na teoria neste ponto –em nenhum ponto de vida cristã-, e concretizemos, da forma que seja mais adequada às circunstâncias e capacidades de cada um, os modos práticos de entrar na aventura da abnegação.
Não seríamos cristãos se nos omitíssemos, se não nos movesse, como um fogo interior, o desejo de servir a todos. Numa homilia sobre o Coração de Jesus, são Josemaria lançava esta mensagem vibrante: «Um homem, uma sociedade que não reajam perante as tribulações ou as injustiças, e não se esforcem por aliviá-las, não são nem homem nem sociedade à medida do Coração de Cristo. Os cristãos –conservando sempre a mais ampla liberdade à hora de estudar e de aplicar as diversas soluções, e, portanto, com um lógico pluralismo – devem identificar-se no mesmo empenho em servir à humanidade. De outro modo, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus»[2].
“Se alguém quer me servir –dizia Cristo-, que me siga; e, onde eu estiver, também ali estará o meu servidor” (Jo 12, 26). Ele nos precedeu e nos marca o caminho com os seus passos.
Este caminho, em todo o seu percurso, passa pela Cruz, faz-se autêntico quando o percorremos abraçados à Cruz. E essa Cruz, que parece aos olhos humanos o símbolo de destruição, de fracasso e de morte, na realidade é o símbolo do amor, da vitória e da vida eterna.
Adaptação de um trecho do livro de F. Faus A sabedoria da Cruz, Quadrante 2001, pp. 54-56.
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Ano da misericórdia:
«Abramos os nossos olhos  – diz o Papa Francisco – para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.
É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos (BulaMisericordiae vultus sobre o Jubileu da Misericórdia, n. 12).


[1] Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 28
[2] É Cristo que passa, Quadrante, São Paulo 1975, pág. 220
http://www.padrefaus.org/archives/2334?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+padrefaus+%28F%C3%A9%2C+Verdade+e+Caridade%29