terça-feira, 11 de outubro de 2016

O Pe. Gabriele Amorth, exorcista de Roma, partiu para a eternidade


O Pe. Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma
Em 16 de setembro [2016], aos 91 anos de idade faleceu o Exorcista da diocese de Roma, que sempre alertou a respeito do perigo da crescente ação diabólica na atualidade. 

Em memória do Revmo. Pe. Gabriele Amorth transcrevemos a seguir uma importante entrevista que ele concedeu com exclusividade para a revista Catolicismoe publicada em sua edição Nº 596, de agosto de 2000.

O Padre Gabriele Amorth, da Pia Sociedade de São Paulo é muito apreciado por seus livros sobre Nossa Senhora e sua atividade apostólica jornalística. Seu programa na Radio Maria peninsular contava com 1.700.000 ouvintes.

O Pe. Amorth tornou-se mundialmente conhecido com o lançamento de sua obra Um exorcista conta-nos, em 1990. Tal obra alcançou notável êxito editorial na Itália, tendo sua tradução portuguesa obtido várias edições. 

A partir de então, a mídia internacional vem focalizando a atuação desse sacerdote, nomeado Presidente da Associação Internacional dos Exorcistas.

Solicitadíssimo por inúmeras pessoas necessitadas de amparo contra as insídias diabólicas, o Pe. Amorth exerce intenso e extenuante trabalho apostólico.

Mesmo assim, marcou um horário para receber nosso enviado especial, Sr. Nestor Fonseca, a quem acolheu amavelmente, juntamente com o fotógrafo, Sr. Kenneth Drake, na Casa-Mãe da Pia Sociedade de São Paulo, na Cidade Eterna, no dia 26 de junho último.

E durante aproximadamente duas horas foi respondendo, com a segurança de um zeloso e experimentado exorcista, às múltiplas e complexas questões que lhe foram sendo apresentadas. Abaixo transcrevemos partes da substanciosa entrevista.


* * *


Catolicismo — Todas as pessoas sofrem as insídias e as tentações diabólicas, acontecendo de uma mesma tentação voltar a se repetir muitas vezes. Podemos dizer que tal tentação torna-se um estado de perseguição do demônio? 

Pe. Amorth — Devemos distinguir a ação ordinária da ação extraordinária do demônio. A ação ordinária é a de tentar-nos. Por conseguinte, todo o campo das tentações pertence à ação ordinária diabólica à qual todos somos sujeitos e o seremos até a morte. 

A tal ponto somos sujeitos a essas tentações, que Jesus Cristo, fazendo-se Homem, aceitou ser tentado por Satanás, não apenas nas três tentações do deserto, mas durante toda a sua vida, como também ocorreu com Maria Santíssima. 

Isto porque a tentação faz parte da condição humana. Esta é a ação ordinária do demônio, como dizia o Catecismo de São Pio X, “por ódio a Deus, [o demônio] tenta o homem ao mal”. Ou seja, por ódio a Deus, o demônio gostaria de arrastar-nos todos para o inferno.

A ação extraordinária, por sua vez, é uma ação rara. É aquela na qual o demônio causa distúrbios particulares. Portanto, não se trata de simples tentação. Distúrbios particulares que podem chegar à possessão diabólica.

Catolicismo — Que tipos de distúrbios podem ocorrer? V. Revma. poderia classificá-los e, ao mesmo tempo, dar as razões da existência de tais distúrbios? 

Pe. Amorth — Não existem dois casos iguais. Já fiz mais de 40 mil exorcismos. Entendamo-nos. Não a 40 mil pessoas, pois em muitas delas eu fiz centenas e centenas de exorcismos. Pois livrar uma pessoa do demônio, geralmente, constitui um trabalho MUITO lento.

Como escrevi em meu livro Um exorcista conta-nos, fico bastante contente quando uma pessoa se livra do demônio, após quatro ou cinco anos de exorcismos, com a média de um exorcismo por semana. 

Conheço pessoas que ficaram livres do demônio após 12 ou 14 anos de exorcismos seguidos. Portanto, muitos exorcismos feitos à mesma pessoa.

Uma pessoa pode levar vida normal com sofrimentos, de maneira que aqueles com os quais convive nem se dêem conta de que está possessa. Apenas quando sobrevêm os momentos de crise, então ela se comporta de uma maneira inteiramente anormal, não podendo cumprir seus deveres de trabalho, de família, sem excessiva dificuldade. 

Em alguns casos, a pessoa pode ser assaltada pelo demônio, digamos, 24 horas ao dia. Em tal caso, a pessoa não pode fazer nada. Mas são casos raríssimos.

Normalmente o demônio apenas em certos momentos investe contra a pessoa e se manifesta, sobretudo quando é obrigado a fazê-lo durante o exorcismo.

Catolicismo — E qual é a causa para que o demônio permaneça mais ou menos tempo na mesma pessoa? 

Pe. Amorth — A expulsão do demônio depende de uma intervenção extraordinária de Deus. Ou seja, cada expulsão do demônio constitui um verdadeiro milagre. E Deus pode praticá-lo a qualquer momento. 

Nós, exorcistas, podemos prever, através de algo que nos oriente, quanto tempo ser-nos-á necessário para expulsar o demônio de uma pessoa. Por exemplo, uma criança. 


A história do monge Teófilo que vendeu sua alma ao demônio
e foi liberado por Nossa Senhora se repete em nossos dias.
'The De Brailes Hours', Oxford 1240, British Library.

É mais fácil expulsar o diabo de uma criança que de um adulto. O mesmo passa-se em relação a uma pessoa que nos procura logo após ter sido possuída, uma vez que o demônio ainda não teve tempo de deitar raízes naquela pessoa. O primeiro exorcismo fala em “erradicar e expulsar o demônio”.

Ao contrário, torna-se muito mais difícil quando sou procurado por pessoas de 50, 60 anos, e ao fazer-lhes exorcismos falando com o demônio — pois eu falo diretamente com o demônio quando a pessoa está endemoninhada —, descubro que às vezes a pessoa era criança ou ainda se encontrava no próprio seio materno quando sofreu os primeiros ataques do Maligno.

Catolicismo — V. Revma., há pouco, referindo-se à expulsão do demônio de um possesso, disse que ela constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus… 

Pe. Amorth — Certo. A libertação de uma pessoa da ação do demônio constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus. Aliás, tenho disso um exemplo, ocorrido na semana passada. 

Um caso muito difícil de possessão diabólica e eu tinha razões suficientes que levavam a prever muitos anos de exorcismos para se libertar aquela alma das garras do demônio.

Acontece que tal pessoa foi ao Santuário de Lourdes, na França, tomou banho na piscina, acompanhou a procissão do Santíssimo Sacramento, rezou muito. Resultado: um milagre! Voltou para casa completamente livre da possessão.

Catolicismo — V. Revma. poderia dar uma explicação a nossos leitores, ainda que sucinta, da necessidade do exorcismo e dos exorcistas? 

Pe. Amorth — O exorcismo é constituído de várias orações oficiais feitas em nome da Igreja, e Deus ouve essas orações. Com efeito, existem tantas razões para isso! 

O exorcismo depende muito das causas que determinaram a possessão diabólica, uma vez que estas exercem muita influência sobre o possesso. Dou-lhe um exemplo simples.

Se uma pessoa se consagrou a Satanás e fez o pacto de sangue com ele, é fácil entender que ela praticou um ato voluntário de doação de si mesma ao Maligno. 

Então, libertar tal pessoa torna-se muito mais difícil, faz-se necessário muito mais tempo do que o empregado para libertar um inocente, que foi vítima de um malefício causado por outra pessoa.

Catolicismo — Pelo que V. Revma. afirmou acima, o exorcismo não constitui o único modo de uma pessoa fazer cessar a possessão. Haveria outras? Porque com a atual dificuldade em encontrar exorcistas…


Os demônios são puros espíritos que querem ver os homens gostando de coisas e nomes horrendos
Os demônios são puros espíritos que querem
ver os homens gostando de coisas e nomes horrendos

Pe. Amorth — Pode-se libertar da possessão com o exorcismo, que é uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos exorcistas — pouquíssimos, quase inencontráveis. 

Outra forma, aberta a todos, são as orações de libertação. No final de meus livros eu acrescento orações de libertação que sugiro. As orações mais eficazes são as de louvor, glória a Deus. 

Assim nós também muitas vezes, nos próprios exorcismos, recitamos o Credo, o Glória, o Magnificat, Salmos, trechos da Bíblia, o Evangelho em que Jesus liberta os endemoninhados. Elas têm grande eficácia.

Catolicismo — Os demônios têm nomes? 

Pe. Amorth — Quando constringidos pelo exorcista a dizer seus nomes, costumam apresentá-los. Os que têm nomes bíblicos ou de tradição bíblica, são demônios fortes e é muito mais trabalhoso exorcizá-los. 

Continuamente dão nomes como Satanás, Asmodeu, Lilite, denominações igualmente importantes. O nome Lúcifer é de tradição bíblica e não um nome bíblico. Ou seja, nós o atribuímos à Bíblia, mas esta não cita Lúcifer. 

Encontramos freqüentemente um demônio de nome Zabulom. O nome Zabulom, encontramo-lo na Bíblia, mas nunca como demônio. Zabulom é uma das 12 tribos de Israel. Há um demônio, porém, que tomou posse desse nome e é um demônio fortíssimo.

Encontramos nas Sagradas Escrituras o demônio Asmodeu. Deparo-me muitíssimas vezes com ele, porque é o demônio que destrói os casamentos. Ele rompe os matrimônios ou os impede. É tremendo!

Uma pessoa possuída ou possessa, in genere, pode estar dominada por muitos demônios. Temos um exemplo no Evangelho, quando Nosso Senhor interroga os endemoninhados de Gerasara e pergunta: “Como te chamas?” E o demônio responde: “legião”, porque são muitos.

Lembro o caso de um demônio fortíssimo que possuía uma freira, uma possessão tremenda (às vezes, são vítimas que se oferecem pela conversão dos pecadores e sofrem esta espécie de possessão). 

Quando eu lhe perguntava o número, respondia-me: “Milhares!” “Milhares!” “Milhares!”

Catolicismo — A TV, de um modo geral, com programas incentivadores de práticas de magia e espiritismo, bem como desagregadores das tradições cristãs e da família, têm colaborado ponderavelmente para o incremento do satanismo? E o rock satânico, tem concorrido para a disseminação do poder do demônio?

Pe. Amorth — Quando foi inventada a televisão, o Padre Pio ficou furioso. E a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: “Verá que uso farão dela!” 


A Internet é uma via fácil para o demônio entrar nos homens, diz o exorcista.
A Internet é uma via fácil para o demônio entrar nos homens, diz o exorcista.

Com efeito, a TV é corrupção da juventude e igualmente dos velhos! Ouso acrescentar: é também a corrupção dos padres, dos sacerdotes e das freiras. 

Com os espetáculos contínuos de sexo, de horror, de violência… A Internet é ainda pior, a Internet é ainda pior, repito.

Certa vez, ao fazer um exorcismo, falando com o demônio, ele dizia: “A televisão, fui eu que a inventei!” 

Eu afirmava: “Não! Tu és um mentiroso! A televisão é uma grandíssima invenção do homem. Tu inventaste o mau uso dela, a fim de corromper as pessoas”.

Todos sabemos que existe o nudismo. Todos sabemos que haverá [já houve, em Roma], dentro de alguns dias, uma manifestação de homossexuais! Uma demonstração do vício, o pecado que isso representa! Ali está, não há dúvida, a ação do demônio.

No caso acima, existe a atividade ordinária do demônio de tentar o homem, mas também a atividade extraordinária do demônio, que se serve da ocasião para possuir as pessoas que promovem essas coisas.

Quanto ao rock satânico, é tremendo. Pode conduzir à possessão diabólica porque ensina o culto a Satanás. 

E pouco a pouco, através do culto a Satanás, chega-se a ser possuído por ele. Satanás é esperto, introduz-se sem nunca fazer-se sentir. Pode-se começar com simples jogos de cartas, de tarôs, e, através dos jogos, saber se vai ganhar na loteria, adivinhar acontecimentos, doenças de amigos. 

E, pouco a pouco, vai-se sendo possuído pelo demônio. O diabo age assim: atua sem se fazer sentir…

Catolicismo — As doutrinas marxistas e sua aplicação concreta contribuem, de modo considerável, para a difusão do satanismo na sociedade contemporânea?

Pe. Amorth — Sim. Tenhamos presente que assim como o demônio pode possuir uma pessoa, pode igualmente possuir uma classe de pessoas, pode assumir o governo de uma nação.

Exemplifico. Estou convicto de que Hitler, Stalin, eram possuídos pelo demônio e que o nazismo — em massa — era possuído pelo Maligno. 

Auschwitz, Dachau: não podem ser explicadas as atrocidades cometidas nesses lugares sem se cogitar numa perfídia verdadeiramente diabólica. 

E não há nenhuma dúvida de que o demônio influiu muitíssimo no mundo cultural. O demônio quer distanciar o homem de Deus.

Por outro lado, tivemos pela primeira vez na História um fenômeno profetizado em Fátima — 1917, 13 de julho —, a aparição mais importante de Nossa Senhora em Fátima, aquela na qual encontram-se os segredos e em que Nossa Senhora fez ver o inferno.


Os grandes crimes políticos e sociais como o comunismo não teriam sido possíveis sem participação do demônio
Os grandes crimes políticos e sociais como o comunismo
não teriam sido possíveis sem participação do demônio

Nessa ocasião, entre outras coisas, profetizou: “Se não obedecerem minhas palavras, a Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. 

Nunca aconteceu que o povo tivesse sido instruído para o ateísmo. Em Moscou, entretanto, existia uma Universidade do ateísmo, na qual se formavam os participantes do Partido e se ensinava como atuar para destruir a religião em uma nação religiosa. 

Jamais, no passado da humanidade, ensinou-se o ateísmo. Foi uma novidade de nosso século, devido ao comunismo que espalhou o ateísmo por todo o mundo.

Catolicismo — A falta de fé seria a principal e mais profunda causa do aumento do poder satânico no mundo atual? 

Pe. Amorth — Sempre. É matemático. Examinando toda a história do Antigo Testamento, a história de Israel, quando esta abandona Deus, entrega-se à idolatria. 

É matemático, quando se abandona a Fé, entregamo-nos à superstição. Isto aplica-se, em nossos dias, a todos nós do mundo ocidental.

Tomem as velhas nações da Cristandade medieval. A católica Itália, a França, a Espanha, a Áustria, a Irlanda, que uma vez foram nações cujo catolicismo era forte. 

Agora o catolicismo tornou-se fraquíssimo. Na Itália, de 12 a 14 milhões de italianos freqüentam atualmente sessões de bruxaria e cartomantes. Há no país aproximadamente 65.000 bruxos e cartomantes, muito mais que o número de sacerdotes.

Existem também na Itália de 600 a 700 seitas satânicas. E 37% da juventude italiana participaram algumas vezes de sessões espíritas, acreditando ser um mero jogo…

Um movimento dirigido por um sacerdote ensina aos pais como falar com seus filhos falecidos… Isto é espiritismo puro. Em outros tempos o espiritismo exercia-se através de um médium em estado de transe, e o médium evocava a pessoa.

O espiritismo consiste em evocar um defunto para interrogá-lo e obter dele respostas. Agora não é mais necessária a presença do médium, pois pratica-se o espiritismo através do gravador, do televisor e da Internet…

Os dois meios mais usados são gravadores e escritura automática. A página mais lida dos jornais é o horóscopo… e os quotidianos não são comprados pelos analfabetos. 

São os industriais, os políticos, que não tomam decisões sem antes ouvir um bruxo. Ou seja, sempre que diminui a Fé, aumenta a superstição.


A crise da Igreja e as apostasías no clero e nos fiéis é o maior triunfo de Satanás
A crise da Igreja e as apostasías no clero e nos fiéis é o maior triunfo de Satanás

Por exemplo, faz-se um referendum na Itália para a defesa da família, vence o divórcio; faz-se um referendum em defesa da vida, vence o aborto. E isto na católica Itália… 

Não nos espantemos, Satanás é poderoso. Nosso Senhor o chama por duas vezes “Príncipe deste Mundo”. 

São Paulo o chama “Deus deste mundo”. São João diz: “Todo mundo jaz sob o poder do Maligno”. 

E quando o demônio tenta Nosso Senhor, leva-O ao alto do monte, fá-Lo ver os reinos da Terra, e diz: “São meus, e os dou a quem quero e se tu te ajoelhares diante de mim…” . 

Jesus não lhe responde: “Tu és um mentiroso, todos os reinos são de meu Pai. É Ele quem dá a quem quiser”. Não, não. A Escritura diz: “Tu ajoelhar-te-ás somente ante teu Deus”. Nosso Senhor não contradiz o demônio.

Hoje tantos ajoelham-se diante de Satanás para obter sucesso, prazer, riquezas —as três grandes paixões do homem! 

E o demônio oferece o sucesso, o prazer, a riqueza, mas sempre unidos a terríveis sofrimentos. 

Vemos o sucesso, vemos o dinheiro. Imaginamos que aquela pessoa é feliz. Não é verdade, pois o demônio só pode praticar o mal. 

Por conseguinte, as pessoas que se entregam ao demônio têm o inferno nesta vida e na outra. Aqui um inferno dourado, mascarado de sucesso, e depois… o fogo eterno!

Catolicismo — Qual a influência do chamado progressismo católico nessa decadência da virtude teologal da fé?

Pe. Amorth — Hoje, infelizmente, existem teólogos e exegetas que negam até mesmo os exorcismos de Nosso Senhor. No meu último livro — Exorcismos e Psiquiatras — dedico um capítulo aos exorcistas franceses; apenas cinco de um total de 105 crêem e fazem exorcismos, os outros… não crêem neles. 

Em um de seus congressos, convidaram para falar exegetas que negam os exorcismos de Nosso Senhor. Afirmam eles tratar-se de uma linguagem apenas cultural e que o Redentor adaptava-se à mentalidade da época, mas que, na verdade, aquelas pessoas eram apenas loucas e não possessas. 

Essas prédicas de exegetas influíram nos espíritos dos Bispos, dos padres etc.

Catolicismo — Quais as razões que levam Bispos católicos a se desinteressarem inteiramente da temática demônio, abandonando assim os fiéis à ação preternatural, crescente nos dias atuais?


São João diz: “Todo mundo jaz sob o poder do Maligno”
São João diz: “Todo mundo jaz sob o poder do Maligno”
Inferno, Hans Memling (1430/1440 — 1494), detalhe

Pe. Amorth — Não há razão para se impressionar com minha resposta. No Evangelho, Nosso Senhor diz: “O demônio é fortíssimo”. Isto está muito claro. É fortíssimo e conseguiu, com sua habilidade, fazer-nos crer que [ele] não existe, coisa que mais lhe agrada. 

Porque pôde realizar isso nestes séculos — pois já faz três séculos que faltam exorcistas. E isso explica meu combate aos Bispos, aos padres que não crêem na ação do demônio. Eu os critico fortemente.

Julgo que 90% dos padres e dos Bispos não crêem na ação extraordinária do demônio. Talvez existam alguns! TALVEZ, TALVEZ. 

No Concílio Vaticano II, alguns Bispos já afirmavam que não existia!… Durante o Concílio, hein! Diante da Assembléia Conciliar! 

Repito: tenho por certo que 90% dos Bispos e sacerdotes não crêem na ação extraordinária do demônio.

Razão pela qual há três séculos, na Igreja latina, verifica-se uma escassez espantosa de exorcistas. Na Alemanha, nenhum! Na Áustria, nenhum! Na Suíça, nenhum! Na Espanha, nenhum! Em Portugal, nenhum! 

Quando eu digo “nenhum”, não estou afirmando que não existam um, dois, mas de tal maneira não são encontrados, que os considero como inexistentes.

Em uma cidade européia, importante centro de peregrinação, temos uma livraria Paulina. 

Quando lá estive, dei-me conta, através de um livreiro amigo, que dispunham de meu livro na livraria, mas escondido. “Os Bispos disseram-nos para tê-lo escondido, e não expô-lo! De não expô-lo!”

Por outro lado, há muitos Bispos que não nomearam exorcistas. Um Prelado famoso — o Cardeal Todini, que foi Arcebispo de Ravena —, numa transmissão televisiva jactou-se de nunca ter nomeado exorcistas! Esta, infelizmente, é a situação na qual nos encontramos.

Catolicismo — V. Revma. baseia-se em alguma escola espiritual, em algum Santo, para tomar uma posição tão louvável quanto destemida?


Que desde o Céu, o Pe. Amorth continue intercedendo por nós contra as insídias do príncipe das trevas e de seus sequazes.
Que desde o Céu, o Pe. Amorth continue intercedendo por nós
contra as insídias do príncipe das trevas e de seus sequazes.

Pe. Amorth — Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX. 

Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas. Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto sequer foi levantado.

Catolicismo — Pe. Amorth, que conselho V. Revma. poderia dar-nos e a nossos caros leitores para nos precavermos contra eventuais malefícios (macumbas, por exemplo) que se queiram fazer para nos prejudicar?

Pe. Amorth — O conselho número um consiste em ter fé. Depois, viver na graça de Deus. Se se vive em estado de graça, está-se protegido, é mais difícil que a macumba nos atinja.

Porém, se se é realmente atingido, é necessário recorrer-se aos exorcismos, a muitas orações, a muitos sacramentos e, com a graça de Deus, se é libertado. 

Mas pode ser que Deus permita que se continue no estado de possessão, para o bem espiritual da própria pessoa. 

Assim, São João Crisóstomo afirma que o demônio, malgrado ele próprio, é o grande santificador das almas…

Viver e existir


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O que é existir? O que é viver? Viver não é apenas ter sangue circulando, ar nos pulmões, órgãos funcionando, olhos que enxergam, ouvidos que ouvem, etc. Isso é existir. Viver é muito mais. Viver é dar beleza e harmonia à existência. É escrever a história da vida com sons melodiosos e pintá-la com cores vivas e alegres, e não deixar que seja uma tela de natureza morta pintada em preto e branco.

VIVER E EXISTIR*
Eu vim para tenham vida e a tenham em abundância 
(Jo 10.10).


Viver é fazer com que a sinfonia da nossa vida se manifeste em belos acordes musicais, de lindos momentos de elevação espiritual, numa comunhão perfeita com a beleza e a majestade do Criador, e não em uma sucessão de dissonâncias. Jesus veio para nos dar vida abundante, diz o versículo em destaque, isto é, com qualidade, expressão, harmonia, alegria. Apesar de existirmos, estávamos mortos em nossos delitos e pecados, conforme lemos hoje. Mas Deus, em sua infinita graça, nos deu vida com Cristo.

Fomos transportados das trevas da mera existência para a plenitude da vida naquele que é a Luz do Mundo. Disse o Mestre: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8.12). Quem se deixa banhar na luz de Jesus experimenta a fascinante transformação de se livrar do sombrio casulo de apenas existir e, tal qual a borboleta, alça voo para a beleza do viver, trazendo em si, em vez da tediosa monocromia do existir, toda a exuberância policromática que o Criador lhe dá. Jesus, a luz do mundo, veio para nos dar vida, para refletirmos essa luz e brilharmos, e para sermos sal da terra, dando sabor à existência (M 5.13-16).

Como estamos escrevendo a nossa história? Com que cores estamos pintando? Não basta existir; é preciso viver. Existir é muito pouco para um ser criado à imagem do Criador (Gn 1.27) e que deve expressar ao longo de sua existência a beleza e o amor do Pai Eterno. 

*Jesus Cristo transforma nossa existência em verdadeira vida!*

domingo, 9 de outubro de 2016

PROFECIA DE SANTA ANA MARIA TAIGI (1830)

“Deus enviará ao mundo dois castigos: um virá dos homens, a saber, guerras, revoluções e outros males; o outro, virá do céu.”

Trevas excessivamente espessas se espalharão pelo mundo inteiro e envolverão a terra durante três dias e três noites. Durante estas trevas será absolutamente impossível distinguir-se qualquer coisa. O ar ficará empestado pelos demônios que aparecerão sob todas as formas as mais odiosas; essa pestilência arrastará não exclusivamente, mas principalmente, os inimigos da Religião, ocultos ou conhecidos, com exceção de alguns que Deus converterá logo depois.


“O flagelo sobre a terra será mitigado pelas orações, mas não o castigo do céu que será horrível, espantoso, universal. Enquanto durarem as trevas do céu será impossível a luz natural. Aquele que por curiosidade abrir a janela e olhar para fora ou sair pela porta, cairá morto instantaneamente. Durante esses três dias devemos ficar em casa rezando o rosário e invocando a misericórdia de Deus. As velas bentas preservarão da morte assim como a invocação à Maria e aos Anjos”.

“Os cristãos, porém de nome e não de fato, são piores que os animais. Não tem sido suficiente tantos avisos, tantas advertências, tantos acidentes funestos que Eu mandei ora de um modo, ora de outros.

“Não se pode medir quando tenham avançado as iniqüidades, tanto do homem quanto da mulher. Os demônios riem e festejam, porque não tem necessidade de provocar tentações, pois a malícia e a iniqüidade, tanto do homem quanto da mulher, supera suficientemente em muitos graus o demônio, pelas obscenidades de todos Gêneros que se cometem.

“Entende bem: deveríeis chegar a estes excessos porque o mundo todo se rebelou. Não há parte que não se encontre na amargura, porque os lobos vão todo dia dizimando as ovelhas… No mundo há uma grande luta, um grande pranto”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Você é a noiva ou a prostituta?

O problema não é a noiva de Cristo, ela é perfeita e imaculada. 
A questão é que estão chamando de noiva uma prostituta, e depois reclamam que foram enganados.

A Noiva serve incondicionalmente,
a prostituta coloca condições;
A Noiva deseja morar com o noivo,
a prostituta só fica por um tempo;
A Noiva quer o noivo pelo que ele é,
a prostituta deseja o que ele tem;
A Noiva adora em qualquer circunstância,
a prostituta adora por interesses;
A noiva quer o bem do noivo,
a prostituta quer os bens do noivo;
A Noiva busca a face do Noivo,
a prostituta busca as mãos do noivo;
A Noiva vive de fé;
a prostituta vive dos cachês.

Gilberto Chagas Jr. Reflexões

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5 motivos para nunca mais afastar o anjo da guarda da sua vida


O que você está esperando?

Statue of an angel in Rome, Italy

“A Igreja confessa sua fé no Anjo da Guarda, venerando-os na liturgia com uma festa especial e recomendando procurar a sua proteção com uma oração frequente”, assinalou uma vez São João Paulo II em uma das suas catequeses acerca dos anjos. Confira a seguir cinco coisas que talvez não sabia ou não lembrava do seu Anjo da Guarda:

1. Acompanha-nos desde a concepção
Cada ser humano, desde o momento de sua concepção, tem um Anjo da Guarda. Diz o Catecismo (336): “Desde o seu começo até a morte, a vida humana é acompanhada pela sua custódia e intercessão”. Do mesmo modo, acrescenta uma frase de São Basílio Magno: “Ninguém poderá negar que cada fiel tem ao seu lado um Anjo como protetor e pastor para conduzir sua vida”.
Com estas afirmações compreendemos que a missão do Anjo da Guarda é velar por cada pessoa, proteger dos perigos e guiar nossa vida a Cristo. Por isso, São João Maria Vianney (o Cura D’Ars) indicava: “Que feliz é esse Anjo da Guarda, pois acompanha a alma quando vai à Missa”.

2. Sua existência não é uma invenção nem um conto infantil, fundamenta-se na Bíblia
Na Bíblia, desde o Antigo Testamento existem várias passagens que mencionam a presença dos anjos que custodiam, como no Êxodo (23, 20-21): “Eu vou enviar um Anjo diante de ti, para que te proteja no caminho e te conduza até o lugar que te preparei. Respeita-o e escuta sua voz”.
Do mesmo modo, no Novo Testamento, Jesus diz (Mt 18,10): “Não desprezem a nenhum destes pequenos, porque lhes asseguro que seus Anjos no céu estão constantemente na presença do meu Pai celestial”.

3. São amigos próximos dos santos
Muitos santos deram testemunho da inseparável relação que tiveram com seus Anjos da Guarda. Entre eles, estão São Francisco de Sales, Santa Teresinha do Menino Jesus, São Pio de Pietrelcina, São Josemaria Escrivá, entre outros.
Dizem que Santa Francisca Romana (1384-1440), padroeira dos motoristas, teve a sorte de ver seu Anjo da Guarda, que velava por ela dia e noite. A Santa o descreve assim: “Era de uma beleza incrível, com uma pele mais branca que a neve e um rubor que superava a vermelhidão das rosas”.
“Seus olhos, sempre abertos olhando para o céu, o cabelo comprido e cacheado cor do ouro. Sua túnica era comprida até os pés e era branca um pouco azulada e, outras vezes, com brilhos avermelhados. Era tal a irradiação luminosa que o seu rosto emanava, que podia ler as matinas em plena meia-noite”.

4.- Protege-nos nos momentos difíceis
Em certa ocasião, São João Bosco narrou que no dia da festa do Anjo da Guarda, recomendou aos seus alunos que nos momentos de perigo invocassem o seu Anjo. Naquela semana, dois jovens trabalhadores estavam em um andaime muito alto alcançando materiais e de repente a tábua quebrou e ambos caíram no chão.
Um deles recordou o conselho do santo e exclamou: “Anjo da minha guarda!”. Caíram de repente e quando seus companheiros foram vê-los, um deles estava morto, mas o que tinha invocado o seu Anjo da Guarda ficou consciente e subiu a escada do andaime como se nada tivesse acontecido. Em seguida, o menino contou que ao invocar o seu anjo sentiu como se colocassem debaixo dele um lençol, que o abaixava devagar, e depois disso já não lembrava de mais nada.

5.- São poderosos servidores de Deus
São Bernardo Abade em um de seus sermões indicou: “Sejamos, pois, devotos e agradecidos àqueles guardiães tão exímios; correspondamos o seu amor, honremo-los quanto possamos e conforme devemos”.
“Eles nos guiam nos nossos caminhos, não podem ser vencidos nem enganados e menos ainda podem nos enganar. São fiéis, prudentes, poderosos: por que nos assustamos? Basta com que os sigamos, com que estejamos unidos a eles, e viveremos assim, à sombra do Onipotente”.
A tradição da Igreja recomenda saudar e invocar o Anjo da guarda durante o dia, especialmente com a seguinte oração:
Santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
se a ti me confiou
a piedade divina,
sempre me rege,
sempre me guarde,
sempre me governe e
sempre me ilumine.
Amém.

(via ACIdigital)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

MEDITAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS


 
São Francisco de Assis, estando em retiro no monte Alverne fez uma seríssima meditação: "O céu aberto em cima de minha cabeça. O inferno aberto sob meus pés. E o cristão no meio! Assim estou no mundo, sob um Céu que me espera e cujo pensamento me conforta e estimula na luta". Quando a cruz pesar demais sobre nossos ombros doloridos, olhemos para o Céu. Certo dia ouvindo São Francisco de Assis o tanger de uma corda da lira celeste nas mãos de um anjo, entrou em êxtase e desfaleceu de tanta alegria. Sua pobre natureza se sentiu aniquilada, ante a estupenda maravilha de tão deliciosa melodia. Que não será, ó meu Deus, ouvir os cânticos eternos! Santo Inácio dizia: "Como me parece pequena e desprezível esta terra, quando olho para o Céu!" O céu aberto! Eia! Confiança!Todo sofrimento é pouco para tamanha felicidade!


"O inferno aberto!" Meditemos um pouco. Pode-se comparar todo nosso martírio, toda a amargura da terra, a uma só das penas eternas? Então, por que não suportarmos hoje um castigo tão leve em reparação de nossos pecados, que, mil vezes, já mereceram a condenação eterna?
"O cristão no meio!" ... para a luta, para a escolha livre do seu destino! Oh! como a vida é séria e cheia de responsabilidades! No meio, entre o Céu e terra, o cristão luta! Oh! saibamos sofrer e, com o pobrezinho de Assis, meditemos o que somos, onde estamos e o que nos espera na Eternidade!" Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, Eu também me envergonharei dele no dia do juízo". 

http://zelozelatussum.blogspot.com.br/2014/10/meditacao-de-sao-francisco-de-assis.html

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Os anjos falam?



Sendo puros espíritos, os anjos não podem falar do mesmo modo que nós, por meio de 

sons e gestos. De que maneira, pois, se comunicam entre si e, inclusive, com Deus?

Angel with wings in front of heavenly light © Lane V. Erickson / Shutterstock - pt

Discorrer sobre anjos pareceria extravagante e pueril até alguns anos atrás. Não obstante, o tema está de volta com toda a força, em plena era do materialismo.
Junto com o renovado interesse pelas criaturas angélicas, muitas fantasias e erros se acrescentam àquilo que a Igreja ensina a respeito delas. Não é nossa intenção analisá-los aqui. Propomo-nos apenas investigar um tema que move em extremo nossa curiosidade, na tentativa de rasgar um pouco o véu que nos oculta o mundo dos puros espíritos: como eles se comunicam?
Seres imateriais, mas compostos
Que os anjos são seres imateriais é algo hoje aceito pacificamente, embora não seja fácil de compreender. Temos tendência a “antropomorfizar” sua vida, transpondo para o plano celeste as circunstâncias de nossa existência terrena. Entretanto, nada há de mais distante da realidade.
Por isso mesmo, nos primeiros séculos da Igreja, o debate sobre a existência de um “corpo angélico” causou controvérsias entre os entendidos, e mesmo entre santos. Uma corrente teológica muito numerosa – na qual se inclui São Boaventura – defendia a tese de que os entes angélicos têm, em sua composição, alguma “matéria espiritual”, um corpo etéreo, extremamente sutil. Pois, argumentavam os defensores dessa corrente, como explicar sua individuação, contingência, o fato de serem criaturas compostas e estarem delimitados?1 Mais ainda: se os anjos são puros espíritos, não seriam totalmente simples?2 Como distingui-los de Deus?
A questão veio a ser esclarecida por um dos maiores luminares do pensamento: São Tomás de Aquino. Com singeleza e objetividade, ele clarificou ideias abstrusas e precisou conceitos ambíguos – às vezes, quase diríamos, infantis.
Notemos de passagem que ele foi apropriadamente cognominado de Doutor Angélico, título utilizado pela primeira vez por Santo Antonino de Florença (1389-1459)3 e depois consagrado por São Pio V na bula Mirabilis Deus, de 1567, “talvez
pelas suas virtudes, de modo particular pela sublimidade do pensamento e pureza da vida”, como observa o Papa Bento XVI.4

Na Suma Teológica, São Tomás dedica todo um tratado ao tema dos anjos, discorre sobre eles também no tratado De Substantiis Separatis, no II Livro das Sentenças e em De Veritate, além de fazer esclarecedoras menções em várias outras obras.
De início, discordou da necessidade de haver um corpo angélico, assinalando que o conceito de “matéria espiritual” é de si contraditório e insustentável. Tal afirmação foi uma das que mais causaram polêmica no seu tempo e quase levou o Bispo de Paris, Étienne Tempier, a condená- lo como herege.
De outro lado, assinalou que todos os seres criados são necessariamente contingentes e compostos. No caso dos entes corporais, há uma composição de matéria e forma. Mas existe uma composição anterior, inerente a toda criatura, a de essência e ato de ser (ou existência). Uma está para o outro numa relação de potência e ato.5 Dessa maneira, embora nos anjos não haja matéria, são eles também compostos: sua essência se distingue realmente de seu ato de ser.
Ora, Deus é ato puro; n’Ele há identidade de essência e existência. Ele, explica o padre Bandera, “é absolutamente simples, e n’Ele não há nenhum tipo de composição. As criaturas não alcançam nunca a simplicidade própria de Deus e, consequentemente, implicam alguma composição. Mas para explicar esta composição não é necessário recorrer à matéria; a composição original, aquela inerente à criatura enquanto tal, é a de essência e existência”.6
Os anjos têm o ser por participação no Ser divino. Não existiam desde sempre, mas receberam em determinado momento o dom da existência, criados do nada. Isso, segundo a doutrina inovadora de São Tomás, já é suficiente para distinguir a criatura do Criador.7
Ficava assim resolvido por São Tomás o problema referente à natureza angélica: uma criatura, por mais excelente que seja, é composta pelo menos de essência e existência; no Criador, a existência é idêntica à essência.
Como os anjos chegam ao conhecimento das coisas?
Ensina a Escolástica que todo conhecimento nos vem através dos sentidos. Assim, antes de nosso intelecto formar uma ideia sobre um objeto, intermedeiam os sentidos internos – senso comum, imaginação, memória, cogitativa -, organizando e preparando os dados brutos percebidos pelos sentidos externos, em representações imaginárias. Por fim o intelecto abstrai as características individuais do objeto particular, apreendendo sua essência, com a qual trabalhará para chegar a conceitos, raciocínios e juízos universais.
No processo de conhecimento humano há, pois, uma passagem do objeto particular conhecido para as ideias universais. Assim, se alguém, caminhando por uma rua, encontra de repente um animal, mesmo sem conhecer detalhes sobre ele (por exemplo, quando nasceu e quem é seu dono), saberá de imediato que se trata de um cão ou de um gato, por exemplo.
Depois de havermos conhecido vários cães, a essência canina está bem determinada em nossa mente por certas características as quais, sendo universais, aplicam-se a todos entes daquela espécie. Por isso, a menos que haja alguma interferência (por exemplo, falta de boa iluminação no local), vendo um cão, saberemos que é um cão, quer se trate de um dálmata, um pastor alemão, um labrador ou um simples vira-latas, não importa seu tamanho, idade, cor ou outros traços individuais.
Nosso raciocínio trabalha, pois, com ideias universais. Por isso, entendemos perfeitamente uma notícia que diga: “Por determinação do Serviço Sanitário Estadual, todos os cães devem ser vacinados contra a raiva”. “Cães”, referindo-se à essência, designa todos os indivíduos da espécie canina. No entanto, com o anjo o processo de conhecimento não pode dar-se da mesma maneira, uma vez que ele não tem corpo e, assim, não possui sentidos que captem os particulares.
Como, então, chega ele ao conhecimento das coisas? Resumindo a doutrina de São Tomás a respeito, o professor Peter Kreeft afirma que “é próprio ao homem progredir na verdade por estágios, por meio de conceitos e de raciocínios até o conhecimento da verdade de um juízo”, enquanto que aos anjos é próprio conhecer “intuitiva e imediatamente, de uma vez, não por meio desse processo temporal”.8 Vejamos mais detidamente esses pontos
As espécies (ideias) pelas quais os anjos conhecem as coisas não lhes vêm destas últimas. Assim, por exemplo, um anjo não precisa conhecer vários gatos para, abstraindo as características particulares de cada um, concluir na ideia de “gato”. O espírito angélico não está sujeito a um desenvolvimento gradual, mas começou a existir na plenitude de seu conhecimento. Nunca teve de aprender, no sentido próprio da palavra.
Em outros termos, no momento em que criou os anjos, Deus infundiu- lhes as ideias ou conceitos abstratos de todas as coisas, sem os quais eles não seriam capazes de conhecer as coisas particulares ou individuais. Quando um anjo “vê”, ou seja, aplica sua inteligência a algo novo, não adquire alguma ideia; apenas confere com o conceito universal presente já em seu intelecto.
Hierarquia piramidal e vertical
Entre os homens existe uma hierarquia que poderíamos chamar de piramidal, em que muitos dependem de um ou de alguns. Assim se dá numa família, na qual os filhos estão sujeitos aos pais; ou num país, onde os súditos dependem do monarca ou do Chefe de Estado. Na hierarquia familiar, os filhos têm uma igualdade relativa, não dependendo uns dos outros para fazer chegar aos pais seus desejos e questões. Evidentemente, a igualdade absoluta não é sustentável, pois um filho será mais inteligente ou mais forte – e, nesse aspecto, superior – que os outros. Em um nível mais elevado, tal desigualdade é que torna possível a constituição de uma sociedade.
Entre os anjos isso se passa de maneira diferente. Como cada um constitui uma espécie única, quanto mais elevado é o anjo, mais ricas são as ideias ou conceitos que lhe foram infundidos por Deus, ao criá-lo.9 Poderíamos, talvez, imaginar que essa desigualdade fosse motivo de tristeza para os anjos inferiores. Entretanto, isso não se dá, pois as apetências, capacidades e glória de cada um são plenamente satisfeitas pelo próprio Criador, a partir do momento em que eles entraram na Visão Beatífica.10 Não têm, portanto, possibilidade de sentimento de infelicidade. Pelo contrário, as qualidades dos anjos que lhes são superiores, constituem para eles motivo de admiração.
Como falam os anjos?
Postos estes esclarecimentos, podemos nos perguntar como se dá a “fala” dos anjos, e é São Tomás quem novamente nos responde: dá- -se por iluminação e por locução. Denomina-se iluminação o ato pelo qual um anjo superior dá a conhecer a um inferior alguma verdade sobrenatural de que teve conhecimento, graças à imediata revelação de Deus. Por exemplo, Deus manifestou diretamente a todos os seres angélicos a futura Encarnação do Verbo, mas não de modo igual: a uns comunicou mais, a outros menos, deixando aos anjos superiores o encargo de iluminar os inferiores, de modo que estes progredissem no conhecimento desse mistério até o dia de sua realização.11
Conforme São Tomás, a iluminação é feita da seguinte maneira: em primeiro lugar, o anjo superior fortalece a capacidade de entender do anjo inferior; em segundo lugar, o superior propõe ao inferior aspectos particulares de verdades sobrenaturais que ele, anjo superior, “concebe de modo universal”.12
São Tomás ilustra esta doutrina dando o exemplo de um professor que, para ensinar uma matéria, divide-a em partes coerentes e ordenadas, acomodando-a à capacidade dos alunos. Evidentemente, estes terão um conhecimento fracionado, muito inferior ao do professor. Assim se passa com os anjos: “O anjo superior toma conhecimento da verdade segundo uma concepção universal, para cuja compreensão o intelecto do anjo inferior não seria suficiente”. 13 Para iluminar o inferior, o superior fragmenta e multiplica a verdade que ele próprio conhece de modo universal, tornando-a mais particular.
Esta forma de comunicação, por iluminação, só procede dos anjos superiores para os inferiores. Todavia, na locução, também os anjos inferiores falam aos superiores. Segundo o Doutor Angélico, a locução tem por finalidade manifestar algo interior àquele com quem se fala ou pedir-lhe alguma coisa: “Falar nada mais é do que manifestar a outro o próprio pensamento”.14 Não se trata aqui de apresentar uma verdade sobrenatural, pois neste caso, teríamos a iluminação. Em outras palavras, toda iluminação é locução, mas nem toda locução é iluminação. Evidentemente, a comunicação dos anjos entre si não se expressa com sons, gestos ou outro elemento material, pois sua natureza é só espiritual. Essa comunicação se dá por um ato de vontade, pelo qual um anjo dirige o pensamento ao outro, dando a conhecer conceitos que possui. Pode, inclusive, dar a conhecer algo a uns e não a outros, conforme queira.
Os anjos se comunicam também com Deus, nunca porém como o agente se dirige ao paciente ou, segundo a terminologia humana, o mestre ao discípulo. “O anjo fala a Deus – explica São Tomás -, seja consultando a divina vontade a respeito do que deve ser feito, seja admirando a excelência divina que ele nunca compreende a fundo”.15
O tema das conversas angélicas
Claro que o principal objeto de conversa dos anjos é Deus, pois toda criatura tende naturalmente a voltar-se para o Criador, sobretudo em se tratando de seres tão perfeitos como eles.16 Além do mais, estando na Visão Beatífica, estarão
sempre contemplando novos aspectos d’Ele durante toda a eternidade. Sendo Deus infinito, por mais que os anjos do Céu O vejam no seu todo, não O veem totalmente, o que é impossível a qualquer criatura.

Eles conversam também sobre os desígnios divinos a respeito do universo material, no qual o elemento mais importante é o homem. Não podem, pois, deixar de interessar-se enormemente pela ação divina na História; assim, os anjos superiores comunicam aos inferiores o que “veem” em Deus a tal propósito.
Poderíamos, pois, imaginar um diálogo no qual nosso anjo da guarda pergunta a um anjo mais elevado como compreender melhor nossa psicologia. Por exemplo, por que procedi de tal modo, por que deixei de agir em tal ou qual ocasião, etc.  O anjo superior, além de dar ao anjo da guarda as explicações, acrescentaria uma orientação sobre como guiar nossa alma da maneira mais conforme ao plano de Deus.
Uma coisa é certa: nossos anjos da guarda estão constantemente conversando sobre nós com os anjos que lhes são superiores, de maneira que existe uma “cascata”, ou “cadeia”, de anjos interessados na santificação e salvação de cada um de nós.
Que tal pensamento contribua para aumentar nossa devoção aos santos anjos, esses gloriosos intercessores celestes, dos quais muitas vezes nos esquecemos!


(Revista Arautos do Evangelho, Out/2010, n. 106, p. 32 a 36)