sábado, 21 de abril de 2018

DESCULPAR E ESPERAR


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É impossível existir bondade sem compreensão. E é impossível existir verdadeira compreensão sem a disposição de desculpar.
Todas as vezes que julgamos uma pessoa e concluímos, como quem dita uma sentença: “Ela é assim”, “é insuportável”, “é maçante”, “é preguiçoso”, etc., estamos a condená-la. Ao fazer tais juízos, colocamos nos outros uma etiqueta, como se faz num frasco ou num inseto colecionado, e os fechamos nessa definição. Dizer de uma pessoa: “Ela é assim” equivale a perder a esperança de que venha a mudar. Como se partíssemos da base de que vai ser assim para sempre e de que o máximo de bondade que lhe podemos dedicar é apenas sermos pacientes, suportando-a tal como é.
Mas essa apreciação é falsa, está viciada na raiz, porque todo o ser humano tem na alma “sementes de bondade”, latentes mas reais, que podem ser desenvolvidas. Nenhuma pessoa consiste apenas nos defeitos que denota exteriormente. Todas têm infinitas possibilidades de bem que – com a graça de Deus, o seu esforço e a nossa ajuda – um dia podem vir a ser belas realidades. Por isso, Cristo nos manda não condenar ninguém (cfr. Lc 6, 37), como se já estivesse “acabado”.
O contrário de condenar é desculpar e esperar. O coração do homem bom está sempre inclinado a desculpar. Ao julgar os outros, evita usar o verbo “ser” – Fulano é assim –, e prefere empregar o verbo “ter”: essa pessoa, que – como todos os filhos de Deus – é potencialmente santa, agora, por uma série de circunstâncias, tem tal ou qual defeito, mas isso não quer dizer que sempre deva tê-lo. É muito provável que uma série de dificuldades a levem a comportar-se assim. É justo tê-las em conta. Talvez seja grosseira porque não recebeu uma educação esmerada, ou arrogante porque foi humilhada e sente necessidade de se afirmar, ou impaciente porque lhe dói o fígado… Sempre há uma desculpa, afetuosa, que os “bons olhos” da bondade detectam, uma desculpa com fundamento objetivo, real, que impede que julguemos esta ou aquela pessoa com dureza e, ainda mais, que a desclassifiquemos.
Certamente os outros têm defeitos, como nós os temos, mas felizmente não estão acorrentados por eles como um sentenciado a prisão perpétua. Está nas nossas mãos – está nas mãos da nossa bondade – desamarrar-lhes esses grilhões. Esta é uma das mais delicadas tarefas do amor benigno: não deixar ninguém de lado por impossível, antes dar-lhe a mão, ajudá-lo incansavelmente – com infinita compreensão e paciência – a soltar um a um os elos dos defeitos que compõem essas suas correntes.
Naturalmente, isto pressupõe que saibamos confiar – como víamos – na capacidade de bondade das pessoas, e portanto na sua possibilidade de mudar. Já foi dito alguma vez que perder a confiança em alguém é matá-lo. Também é verdadeira a afirmação contrária: confiar em alguém é dar-lhe a vida.
É claro que essa confiança não se confunde com a credulidade ingênua, que fecha os olhos e julga que, afinal, todo o mundo é bom. A verdadeira confiança é outra coisa. O homem bom não é cego nem insensível aos valores. Não deixa de ver o mal, em toda a sua dimensão perniciosa, e chama erro ao erro, e pecado ao pecado. Mas, ao mesmo tempo, acredita que aquelas “sementes de bondade” que dormem em cada coração humano podem ser ativadas, podem ser cultivadas. Por isso, arregaça as mangas e, sem reclamar dos espinhos dos outros, trabalha para que neles desabrochem as rosas. Voltaremos a esse tema.

Trecho do livro de F.F O homem bom-Reflexões sobre a bondade

Verdades e mentiras


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Honra à verdade
Desta vez, vamos meditar sobre as mentiras, grandes e pequenas, da nossa vida cotidiana: «a nossa mentira de cada dia…».
Alguém, com humor pessimista, dizia que a mentira é um esporte tão amplamente praticado que bate de longe todos os demais e cada dia adquire técnicas e requintes de maior quilate.
Opinião semelhante era a do escritor que há anos deixou estampados estes comentários:
«Mente-se por palavras, mente-se por atos, mente-se por atitudes, mente-se por escrito, mente-se pelo silêncio, mente-se pelas curvaturas da espinha dorsal, mente-se pelo olhar, mente-se nas ruas, nas vitrines, nos negócios, nas escolas, nas assembléias, nas reuniões, mente-se despudoradamente” (Gladstone Chaves de Melo, O reino da mentira, na revista A Ordem, vol. XLIII, n. 6, junho, 1950).
Uma repulsa como esta, acre e forte, manifesta “em negativo” um sentimento que está arraigado no fundo da alma de todos: o amor à verdade, o mal-estar que causa ver a verdade ofendida. Poucas coisas nos revoltam tanto como sermos vítimas de um engano, cair numa armadilha, sofrer uma fraude, ser feitos de bobos. Sim, a mentira dos outros causa-nos repugnância (ainda que nem sempre, infelizmente, nos causem o mesmo sentimento as nossas próprias mentiras).
É natural que isso aconteça, pois a mentira “é uma profanação da palavra que tem por finalidade comunicar a outros a verdade conhecida. O propósito deliberado de induzir o próximo em erro por palavras contrárias à verdade constitui uma falta à justiça e à caridade” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2485).
Todo o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, que é Luz e Verdade, “tende naturalmente para a verdade. É obrigado a honrá-la e testemunhá-la” (ibid., n. 2467).
Quem foge da mentira, além de amar e honrar a verdade, honra e ama com isso o seu próximo. “Os homens – diz São Tomás de Aquino – não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, quer dizer, se não manifestassem a verdade uns aos outros […]. Um homem deve honestamente a um outro a manifestação da verdade” (cf. ibid., n. 2469). Um ambiente em que não se sabe que terreno se está pisando, em que é preciso adivinhar sempre segundas intenções, em que só o esperto é que singra, torna-se irrespirável, um verdadeiro inferno.
Daí a importância que a doutrina cristã atribuiu, em todas as épocas, à virtude da sinceridade ou veracidade, “que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar – como define o Catecismo –, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia” (n. 2468). Esta bela virtude, que Deus preceitua no oitavo mandamento da sua Lei – não levantar falso testemunho nem mentir –, apresenta, como uma alta montanha, duas vertentes: “A veracidade observa um justo meio entre o que deve ser expresso e o segredo que deve ser guardado; implica a honestidade e a discrição” (ibid., n. 2469). Se falamos, falemos unicamente a verdade. Mas, quando o amor ou a justiça assim o exigirem, protejamos então a verdade com o silêncio. Nesta meditação focalizaremos apenas a primeira vertente; a segunda é tema de outra meditação, intitulada Segredos e Silêncios, que também está incluída neste site.
Desonrar a verdade
A veracidade é uma peça mestra da vida moral e do convívio humano. É lógico, por isso, que a Bíblia afirme que o Senhor odeia a língua mentirosa (Prov 6, 17), e, em geral, a duplicidade, a simulação e a hipocrisia. (cf. Ecli 5, 11; Sl 4, 3; Mt 23, 13 e segs.; Apoc 21, 27 e 22, 15).
A mentira é muito mais do que um simples engano, ou um lapso do pensamento ou das palavras. Pertence à sua essência um ingrediente perverso, que é a “intenção de enganar”. Assim definia essa filha espúria da língua Santo Agostinho: “A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar” (De mendacio, 4, 5).
A língua mentirosa quer deliberadamente despejar névoa escura na mente do próximo para ocultar ou deformar assim a verdade. É uma névoa que surge sempre dos fundões sujos do coração.
“Há as mentiras de conveniência, as mentiras diplomáticas, as mentiras administrativas, as mentiras de defesa, as mentiras profissionais, as mentiras engenhosas, as mentiras oficiais, as mentiras vitais” (G. Chaves de Melo, op. cit., pág. 68).
E, no bojo de todas elas, está quase sempre:
– a covardia, o medo de enfrentar a verdade, para não ter de arcar corajosamente com as suas conseqüências ou para não precisar defendê-la;
– a vaidade, que nos leva a mentir, enfeitando os acontecimentos e atuações, para sairmos engrandecidos; ou a desculpar-nos das falhas, e até mesmo a fazer recair sobre um inocente a responsabilidade das mesmas, a fim de não prejudicarmos a nossa “imagem”;
– o interesse egoísta, pai de inúmeras mentiras, pois para o egoísta “vale tudo” quando se trata de obter vantagens, estreitar relações convenientes, galgar posições, lucrar nos negócios ou fugir aos deveres penosos.
Não existe – não pode existir – uma fonte limpa de mentiras, e é por isso que a mentira não se justifica por motivo algum. “A mentira é condenável pela sua própria natureza […]. O propósito deliberado de induzir o próximo em erro por palavras contrárias à verdade constitui (já o lembrávamos acima) uma falta à justiça e à caridade” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2485).
As três espécies de mentira
Dizíamos que a mentira é como a névoa. E, como a neblina, é mutável, variando constantemente os seus formatos. Neste sentido, é clássica a distinção das três principais espécies de mentiras:
1) Em primeiro lugar, encontra-se – quase intocada pelo mal – a mentira jocosa. Como indica o nome, é a mentira bem-humorada, proferida com a finalidade de brincar, por divertimento e sem intenção de ofender ninguém. Neste capítulo podem ser incluídas tanto as lorotas de 1º de abril como a sorridente afirmação da simpática velhinha nonagenária de que só tem trinta e cinco anos.
Dizíamos que é uma mentira praticamente inocente, ainda que as brincadeiras possam proceder, às vezes, de sentimentos muito maldosos, e constituir por isso um pecado, até mesmo grave, contra a caridade: por exemplo, se se mente brincando para humilhar em público, ridicularizando-a, uma pessoa inocente, defeituosa ou pouco inteligente.
Mas, se não existe essa conotação maldosa, essas mentiras, ainda que literalmente digam “o que é falso”, não mentem, porque nem pretendem nem conseguem “induzir em erro” ninguém. Portanto, em si, não constituem pecado algum.
2) Numa segunda categoria enquadram-se as mentiras oficiosas. O nome é clássico, técnico, na teologia moral, para designar a mentira “que tende a favorecer uma pessoa, grupo ou ideologia” (R. Sada e A. Monroy, Curso de Teologia Moral, Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 1989, pág. 232). É a mentira proferida em proveito próprio, da pessoa ou do grupo.
Essa é uma das primeiras mentiras que aprendemos em crianças: “Não fui eu que fiz”, “não tinha ouvido”, “perdi o dinheiro que o papai me deu” (gasto no carrinho da esquina do colégio). As mais comuns, dentre as desta categoria, são as mentiras forjadas para evitar um castigo, um desgosto, um dever custoso, ou para furtar-se a um favor ou a um serviço que não temos vontade de prestar. Aí entra a série interminável de falsas “explicações” e “desculpas” que a nossa fraqueza nos leva a dizer para evitar maus bocados: “Não tive tempo”, “perdi o ônibus”, “fiquei doente” (talvez com atestado médico anexo, tão falso quanto a escusa), “o chefe pediu-me que ficasse trabalhando até tarde”… E mais a prática estudantil da cola (que é mentirosa quando não se estudou e, portanto, se finge um saber que não se tem), bem como tantas outras mentiras e mentirinhas lançadas como névoa perfumada para “ficar bem”.
Este tipo de enganos são verdadeiras mentiras, e por isso mesmo constituem sempre uma falta, um pecado, ainda que geralmente – como lembra o Catecismo da Igreja – não passem de pecado venial (n. 2484). Contudo, podem revestir-se de uma gravidade maior, e até muito grande, em diversas ocasiões: basta pensar no filho – mentiroso quanto à assistência às aulas – que defrauda a confiança e o sacrifício investido nele pelos pais; ou, num outro terreno, na força da mentira empregada na propaganda e nas pesquisas de opinião dirigidas a aliciar, com falsidade, o favor do público, mesmo que com essas mentiras não se chegue a causar um sério prejuízo aos iludidos, nem se prejudiquem terceiros, coisa de resto difícil de imaginar.
3) Mas, falando em prejuízos, já estamos entrando no campo do terceiro tipo de mentira, o pior deles: a mentira danosa ou prejudicial. O seu próprio nome a explica: mente-se, nestes casos, querendo causar um dano ou um prejuízo a alguém; ou então – mesmo que não haja intenção de prejudicar –, quando se sabe ou, pelo menos, se prevê que a mentira poderá causar um dano.
Não é preciso espremer muito os miolos para perceber as inúmeras faces desta mentira: baste lembrar as fraudes nos negócios, as concorrências desleais, as licitações com cartas marcadas, as “recomendações” (“pistolões”) que guindam incapazes a funções de que ficam excluídos os que as merecem; as mentiras políticas ou administrativas de todo o gênero, que causam enormes danos à nação, e com freqüência aos mais desprotegidos; a falsidade de colégios que se apresentam como “católicos” e ensinam doutrinas contrárias à doutrina da Igreja; as desorientações morais de um mau conselheiro espiritual; as mentiras nos termos ou nos dados dos contratos; a ocultação de defeitos na máquina vendida; as falsificações, as vigarices e trapaças de toda a espécie.
A pior das mentiras danosas
Mas um espécime particularmente venenoso de mentira danosa é a calúnia, que consiste em atribuir falsamente a uma pessoa ou entidade, ou sugerir insidiosamente a respeito dela, crimes ou faltas morais graves das quais essa pessoa é inocente. Caluniar é falar mal dos outros, mas acrescentando à crítica uma grave mentira: “Por palavras contrárias à verdade, prejudica a reputação dos outros e dá ocasião a falsos juízos a respeito deles” (Catecismo da Igreja, n. 2477).
Toda a calúnia é uma infâmia e traz a marca infame da injustiça.
Se qualquer agressão verbal mostra o que há no coração de quem fala, a calúnia denota uma alma especialmente sórdida: porque a calúnia, ou é filha da frivolidade irresponsável, que repete falsidades sem apurá-las, pelo prazer de falar mal; ou visa maldosamente destruir, afundar, denegrir, causar o mal. Entram aí na dança as paixões mais repulsivas, e especialmente o ódio e a inveja se mexem no campo da calúnia como no seu “habitat” predileto.
Infelizmente, caluniar transformou-se num “esporte social”, que com demasiada freqüência é praticado nas conversas privadas e nos meios de comunicação. Há como que uma espécie de compulsão de servir a toda a hora, de bandeja, reputações honestas decapitadas, como Salomé “serviu” a Herodes a cabeça de São João Batista; com a mesma futilidade e o mesmo sorriso desavergonhado (cf. Mc 6, 28).
Dizem-se e escrevem-se autênticas aberrações sem fundamento, baseadas muitas vezes numa simples suspeita, no que “se diz” (isto é, no que alguma pessoa ou algum grupo de pessoas mal intencionadas, ressentidas ou vingativas comentaram), no que aparece na televisão ou “é publicado” em reportagens escandalosas. Desta forma, por razões de ódio ou rivalidade pessoal, ou por motivos fanaticamente ideológicos, soterram-se pessoas e instituições debaixo de toneladas de lama, e se lhes envenena, com dente de cobra peçonhenta, o sangue limpo da reputação.
E o mais grave é que a superficialidade de muitos telespectadores e leitores, que não terão tempo nem vontade de apurar os fatos, engole a mentira hedionda como se bebesse um copo d’água. E então essa “opinião pública” forjada, falsificada, acaba tendo conseqüências funestas para muitas pessoas e instituições inocentes que, no mínimo, merecem o respeito e a estima devidas a quem se comporta com lisura e retidão, e procura trabalhar honestamente, fazendo o bem.
Os mais cínicos tentarão justificar-se dizendo que não “afirmaram”, apenas levantaram uma hipótese com base em indícios e no “dever de informar”, pois se trata de coisas muito comentadas por aí. São conhecidos, nos manuais de Ética jornalística, exemplos de desonestidade caluniosa, como os destas hipotéticas manchetes sensacionalistas: “Nada indica que o Cardeal de Paris esteja envolvido no crime sexual do Bois de Boulogne”, ou “Não há indícios da participação ativa do Primeiro Ministro de tal país no affaire das drogas”. Maneiras indiretas – ou diretíssimas? – de caluniar inocentes, ligando os seus nomes a crimes com os quais nem remotamente têm nada a ver.
Os caluniadores e os “mercadores da suspeita” (cf. É Cristo que passa, n. 69) pecam, quase sempre gravemente, contra a justiça, e fica-lhes na consciência uma obrigação estrita, sem a qual não podem esperar o perdão de Deus nem nesta vida nem na outra: a obrigação de reparar, de retificar, de restituir a fama injustamente lesada. “Toda falta cometida contra a justiça e a verdade – ensina o catecismo da Igreja – impõe o dever de reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando se torna impossível reparar um erro publicamente, deve-se fazê-lo secretamente; se aquele que sofreu o prejuízo não pode ser diretamente indenizado, deve-se dar-lhe satisfação moralmente, em nome da caridade. Esse dever de reparação se refere também às faltas cometidas contra a reputação de alguém. Essa reparação, moral e às vezes material, será avaliada na proporção do dano causado e obriga em consciência” (n. 2487).
E a mentira social?
Uma vez terminado o comentário sobre as três espécies de mentira, parece-nos ouvir a voz de um leitor ou leitora que pergunta:
– E a mentira social? Não vai falar dela?
A esse hipotético leitor responderíamos que a expressão “mentira social” é muito ambígua, e que, por isso, gostaríamos que tivesse a amabilidade de nos esclarecer.
– Ora – poderia retrucar –, eu me refiro sobretudo à mentira telefônica e à mentira gentil, que não entraram na sua classificação. Por exemplo, ao caso do empresário que manda a secretária dizer que “está em reunião”, simplesmente porque está ocupado… Ou à senhora que diz que o marido “não está aqui no momento” quando liga alguém num momento muito inoportuno… Ou a qualquer um de nós, que, quando vê uma criança nada agraciada, coitadinha, diz à mãe: “Que gracinha, é linda!”; e, igualmente, após um almoço de gosto que é preferível não tentar definir, diz à anfitriã: “Estava uma delícia”…
Realmente, essa dúvida do leitor ou leitora não pode ser mais clara. Acontece, porém, que o esclarecimento também é claro.
Toda pessoa culta entende que a linguagem é simbólica, ou seja, que a palavra é “símbolo” que exprime algo que se quer comunicar, como o exprime um ícone ou uma expressão facial. Quando o símbolo é equívoco ou “induz em erro”, temos uma mentira. Quando é inequívoco, porque já se tornou uma forma de linguagem habitual, empregada constantemente para evitar expressões que poderiam ser indelicadas, ofensivas ou mal interpretadas, já não induz em erro, porque o “símbolo” é transparente para todos.
Quer dizer que, em muitos desses casos, não há de fato uma “mentira”, não existe a falta moral chamada “mentira”, porque ninguém quer enganar nem, de fato, engana. Por isso, a “mentira social e gentil” não entra em nenhuma das três classificações das verdadeiras mentiras. É lógico que, para manter-se na linha correta, deve limitar-se ao estritamente necessário e ser praticada amavelmente, usando das formas sociais já conhecidas aceitas no ambiente, formas que qualquer pessoa minimamente inteligente e com experiência da vida poderá compreender. Acrescentaria apenas que, quando se fecha uma porta com fórmula social, por motivos justificados, é preciso facilitar que essa porta se abra quando esses motivos cessam: por exemplo, tomando atenciosamente o recado, anotando um telefone com o qual seja possível comunicar-se, etc.
(Adaptação de trechos do livro de F. Faus: A língua)

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (2)

Recapitulando
Na palestra anterior – “Formação da consciência (1) -, vimos o que é a consciência: «A  consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou» (CCE, n. 1778).
Dizíamos que a consciência é um juízo da razão com base na verdade e no bem objetivos, que a Lei de Deus nos mostra. E lembrávamos que a Lei eterna é a própria Sabedoria divina, inseparável do Amor com que Deus cria o homem, Sabedoria da qual participa a razão do homem, feito à imagem de Deus: essa participação é a “lei natural”,  quaedam participatio legis aeternae in creatura rationali – uma certa participação da lei eterna na criatura racional (S. Tomás, S. Th. I-II, q.91, a.2).
Com a obra da Redenção realizada por Cristo, e o envio do Espírito Santo, Deus revela plenamente qual é o verdadeiro bem do homem, elevado à ordem da graça, e transformado em filho de Deus.
Qualidades objetivas da consciência
Já sabemos que a consciência não é infalível, não é uma espécie de oráculo divino incontestável. «Posta diante de uma escolha moral, a consciência pode emitir um julgamento correto, de acordo com a razão e a lei divina, ou, ao contrário, um julgamento errôneo que se afasta da razão e a lei divina» (CCE, n. 1786).
“Emitir um julgamento correto” não é fácil. «Às vezes − diz também o Catecismo da Igreja −, o homem depara com situações que tornam o juízo moral menos seguro e a decisão difícil. Mas ele deverá procurar sempre o que é justo e bom e discernir a vontade de Deus expressa na lei divina» (n. 1787).
Esta última frase indica uma das primeiras qualidades que deve ter a consciência do cristão: a procura do que é objetivamente bom, do que Deus quer.
  • Chama-se consciência reta a que procura conhecer a lei divina, para depois agir conforme com o querer de Deus. Jesus ilustra essa busca sincera com estas palavras: Aquele que pratica a verdade vem para a luz (Jo 3, 21).
Santo Tomás, com sua característica sobriedade, explica: «A razão do homem será reta na medida em que se deixar dirigir pela vontade divina, que é a regra primeira e suprema» (Suma Teológica, 1-2, a. 154, a. 2).
Essa qualidade da consciência é descrita assim na Encíclica Veritatis splendor: «Sem dúvida, o homem, para ter uma “boa consciência” (1 Tim 1, 5), deve procurar a verdade e julgar segundo esta mesma verdade. Como diz o apóstolo Paulo, a consciência deve ser iluminada pelo Espírito Santo (cf. Rm 9, 1), deve ser “pura” (2 Tim 1, 3), não deve com astúcia adulterar a palavra de Deus, mas manifestar claramente a verdade (cf. 2 Cor 4, 2). Por outro lado, o mesmo Apóstolo adverte os cristãos, dizendo: “Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito” (Rm 12, 2)» (n. 62).
Para um cristão, a “retidão” vem principalmente da fidelidade à Lei Nova, à “lei evangélica”, como consequência da vida nova em Cristo. E uma prova de retidão será a existência de uma verdadeira luta ascética para alcançar a santidade (cf. Aurelio Fernández, Compendio de Teología Moral, ed. Palabra, Madri 1995, p. 178).
  • Quando a consciência reta julga de modo certeiro, de acordo com «a verdade do bem» (Ibidem, n. 61), chama-se consciência verdadeira.
Mas a consciência «não está isenta da possibilidade de erro» (cf  Veritatis splendor, n. 62). Como dizíamos, não é infalível, da mesma forma que o juízo prudencial sobre o melhor modo de encarar qualquer assunto humano, pode errar.
Temos então a consciência errônea (contrária à verdade).
Há dois tipos de erro de consciência:
a) O erro inculpado. «Não raro acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade» (Gaudium et spes, n. 16, e Veritatis splendor, n. 62). A ignorância invencível é aquela «de que o sujeito não é consciente e de onde não pode sair sozinho» (V. Spl., n. 62). Portanto, quem comete uma falta com essa ignorância, não peca.
Isso, porém , não quer dizer que o ato cometido seja bom. Ele é objetivamente mau, é um mal, mesmo que por ele sujeito não incorra em culpa. A Veritatis splendor comenta a esse respeito: « O mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou de um erro de juízo não culpável, pode não ser imputado à pessoa que o realiza; mas, também neste caso, aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face à verdade do bem. Além disso, o bem não reconhecido não contribui para o crescimento moral da pessoa que o cumpre: não a aperfeiçoa nem serve para encaminhá-la ao supremo bem. Assim, antes de nos sentirmos facilmente justificados em nome da nossa consciência, deveríamos meditar nas palavras do Salmo: «Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas» (Sal 19, 13)» (n. 63).
b) O erro culpado, ou ignorância vencível. A consciência – dizíamos − pode errar por ignorância invencível, e então está isenta de culpa.. «Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem, e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado» (Gaudium et spes, 16). Com estas breves palavras, o Concílio Vaticano II oferece uma síntese da doutrina que a Igreja, ao longo dos séculos, elaborou sobre a consciência errônea» (Veritatis splendor, n. 62).
Somos responsáveis pela ignorância culpável. «Existem faltas que não conseguimos ver e que, não obstante, permanecem culpáveis, porque nos recusamos a caminhar para a luz (cf. Jo 9, 39-41). A consciência, como juízo último concreto, compromete a sua dignidade quando é culpavelmente errônea, ou seja, “quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem, e quando a consciência se torna quase cega em consequência do hábito do pecado” (Veritatis splendor, n. 63, com citação de Gaudium et spes, n. 16).
(continua)

http://www.padrefaus.org/2018/02/15/formacao-da-consciencia-2/

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (1)

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Consciência, o que é?
Hoje há confusão e ambiguidade:
  • valoriza-se a consciência moral como guia de uma vida individual, vida autônoma e independente. “Minha” consciência é minha”, e intocável.
  • mas se tem um conceito equívoco, confuso, de consciência moral: dizem-se sobre ela verdades misturadas com erros, e nada fica claro, de modo que o mundo se enfraquece desorientado pela falta de “valores” . Vejamos algumas afirmações, em si válidas, mas muito mal entendidas na sociedade materialista:
– a) Cada qual dever seguir a sua consciência. Também a Igreja diz: «A dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria consciência» (Gaudium et spes, 17).
– b) Ninguém pode me forçar a agir contra a minha consciência. Também a Igreja diz que cada qual deve proceder de acordo com a sua consciência «por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa» (Ibidem e Veritatis Splendor, n. 42).
Tudo isso é completado pelo CCE, quando diz: «O homem tem direito de agir com consciência e liberdade e fim de tomar  pessoalmente as decisões morais. “O homem não pode ser forçado a agir contra a própria consciência. Mas também não há de ser impedido de proceder segundo a consciência, sobretudo em matéria religiosa» (n. 1782 e Dignitatis Humanae, n. 3). (aqui entrariam os temas da objeção de consciência, e da coação do governo que impõe ideias opináveis  e ideologias como dogmas).
= Essa “concordância” entre a opinião geral e a moral cristã transforma-se em profunda discordância, conforme o que cada um dos lados entende por consciência.
Que entendemos por “consciência”?
 A) = A maioria confunde consciência com opinião subjetiva, inclinação instintiva, sentimento espontâneo ou simples preferência. Não teria relação com nenhuma realidade ou verdade objetiva. A consciência seria só uma opi9nião subjetiva e, portanto, “relativa” conforme o sentimento, o desejo ou a convicção de cada um. É o relativismo moral absoluto, hoje imperante (ideologia de gênero, aborto, drogas…), um subjetivismo que tem como única barreira os limites que a legislação do momento impõe.
Excetuando as “imposições coativas” da legislação e a pressão social do  “politicamente correto”, a consciência (na realidade, o “palpite” de cada um), seria, para ele, o referencial único do bem e do mal. Com isso, faz-se da opinião (por mais superficial, absurda e interesseira que seja) um oráculo. Não há nenhuma referência à Verdade e ao Bem, nenhuma luz clara que nos indique os valores objetivos, nenhum o sentido de verdade e de bem. Ficam eliminados os “transcendentais” (ens, unum, bonum, verum, pulchrum).
Como diz Bento XVI na Encíclica Spe salvi, , «o encontro com Deus desperta a minha consciência, para que deixe de fornecer-me uma autojustificação, cesse de ser um reflexo de mim mesmo e dos contemporâneos que me condicionam, mas se torne capacidade de escuta do mesmo Bem» (n. 33).
= B) Em coerência com a razão e a fé, a Igreja ensina que a consciência é, acima de tudo, um “juízo da razão”, que avalia a moralidade (a bondade ou malícia moral) à luz da verdade e do bem objetivos, que têm Deus como fonte. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica:
«Na intimidade da consciência [ver n. 1778], o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar e fazer o bem e evitar o mal, no momento oportuno a voz desta lei soa aos ouvidos do coração… É uma lei inscrita por Deus no coração do homem» (CCE n. 1776 e Gaudium  et Spes 16).
E, de modo claríssimo: «A  consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou» (n. 1778). Não cria nem inventa essa “qualidade moral”, mas a conhece, a “reconhece”.
O juízo da consciência, na perspectiva da Criação e a Redenção 
            = O ponto crucial, nessas questões, consiste na convicção de que existe um Bem e um Mal objetivos, que não são camaleônicos, relativos e mutantes. Existe um Norte da vida moral, uma estrela que guia o homem em todas as épocas, lugares e circunstâncias, e que está fora e acima do indivíduo, como a estrela que guiou os Magos.
Essa “estrela” é a Lei de Deus. A palavra Lei pode sugerir uma imposição legal, fria e até arbitrária, uma norma legal externa a nós (G. Ockham). Não é assim. A teologia católica define a Lei de Deus como «a razão da sabedoria divina,que conduz tudo ao seu devido fim» (S. Tomás de Aquino). De maneira simples, entenderemos isso fazendo duas considerações:
  • Deus é o criador do mundo, e do homem. Com linguagem expressiva, o livro do Gênesis diz que Deus, após a criação, viu tudo quanto tinha feito e achou que era muito bom (Gn 1, 31).
Deus, que é Amor, e cria e redime o homem por amor, e toda a criação é boa, é um bem (cf. 1 Jo 4,8, Jo 3,16). Ora, o Amor não cria sem sentido, nem joga sua criação como uma folha perdida ao vento. Ele é bom, a criação é boa, e o homem  e a mulher, imagem de Deus, estão destinados a uma bondade que participa da bondade de Deus, que é orientada por Deus, prevista e ensinada por Deus. Como diz São João Paulo II, «Deus, que é o único bom (cf Mt 19,17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos» (Veritatis splendor , n. 35).
«O homem não só não é fruto do acaso, como é o fruto de um pensamento e de um querer divinos. Para expressá-lo com a nossa linguagem comum: o homem – como, de resto, toda a criação – é um projeto idealizado por Deus. Desde sempre, esteve na mente de Deus o modelo ideal do ser humano e, ao mesmo tempo, a ideia exata daquilo que é a verdade e o bem do homem, daquilo que o pode levar à plenitude e à felicidade. Essa ideia do bem do homem, concebida pela Sabedoria de Deus, é precisamente a lei moral, que a teologia cristã chama lei eterna (porque existe eternamente em Deus e é válida eternamente, para todos os seres humanos)» (F. Faus, A voz da consciência, p.38).
Chama-se lei natural  à «participação da lei eterna na criatura racional», como diz S. Tomás, e explica que é a própria inteligência dada por Deus, que permite ao homem (embora com sombras e confusões após o pecado original) sintonizar com a sabedoria de Deus, com o “projeto” de Deus.
Com a vinda de Cristo e o envio do Espírito Santo, Deus revela plenamente qual é o verdadeiro bem do homem, elevado à ordem da graça, e transformado em filho de Deus, chamado a um destino eterno. O homem conta agora com a plenitude da revelação divina (da verdade), levada a cabo por Cristo (o “evangelho”, a Boa Nova) e com a luz interior do Espírito Santo, que é o Amor de Deus em pessoa.

(continua)

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (3)

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Dever de formar a consciência
             Do que víamos no post anterior  – “Formação da consciência” (2) -, deduz-se a grave responsabilidade que temos de formar bem a consciência.
«A consciência deve ser educada e o juízo moral, esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica […]. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos a influências negativas e tentados pelo pecado a preferir seu julgamento próprio e a recusar os ensinamentos autorizados» (CCE n. 1783). «A educação da consciência é tarefa para toda a vida» (Idem, n. 1784).
Como se educa a consciência?
1º)  = Com o conhecimento da Palavra de Deus, «luz para o nosso caminho», que deve ser assimilada na fé e na oração. = Com o exame da nossa consciência, confrontado com Cristo, seu amor, sua Cruz. = Tomando como guia o ensinamento autorizado da Igreja. = Acolhendo o exemplo e os conselhos de outros. = E invocando a assistência do Espírito Santo (cf. CCE n. 1785).
A consciência erra «quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem» (Const. Gaudium et spes, n. 16).
2º) Com a luta ascética para avançar nas virtudes, especialmente na virtude da caridade. Não é suficiente o conhecimento. Santo Tomás diz que é indispensável uma espécie de «conaturalidade [sintonia experimental] entre o homem e o verdadeiro bem» (S.Th. II-II, q.45, a.2; e VS n. 64). O que Camões chamaria “saber de experiência feito”. O Bem só pode ser bem “conhecido” quando praticado e saboreado: então a alma abre-se aos dons do Espírito Santo, que iluminam e aquecem.
«Se não se é humilde – dizia são Josemaria – é fácil chegar a deformar a consciência».
3º) Lutando seriamente contra as justificativas, que o orgulho sempre quer apresentar;  = contra a falta de sinceridade com quem pode nos orientar, = contra a vergonha de abrir-nos na confissão, etc.
4º) Lutando contra a cegueira causada pela tibieza e o hábito do pecado. Não sabes que és cego…, diz Cristo ao tíbio, no Apocalipse (Ap 3,17). A consciência erra – diz também a Const. Gaudium et spes –  «quando a consciência se torna quase cega em consequência do hábito do pecado»  (n. 16). E o Catecismo desenvolve esse pensamento: «O servilismo às paixões, a pretensão de uma mal entendida autonomia da consciência [orgulho]…, a falta de conversão ou de caridade podem estar na origem dos desvios do julgamento na conduta moral» (n. 1792).

As dúvidas de consciência 
A consciência, além de ser reta, deve ser certa.
Consciência duvidosa é a que não sabe escolher, distinguir entre o que é bom e o que não é: vacila perante a liceidade de fazer ou omitir alguma ação.
Chama-se dúvida positiva à que aparece porque se dão razões serias para duvidar. Dúvida negativa é a que se baseia em razões inconsistentes (deve ser simplesmente rejeitada).
Quando há uma dúvida positiva (p.e. sobre licitude de alguns meios de regular a natalidade), não é lícito agir sem antes esclarecê-la. Deve-se fazer o possível para sair da dúvida (o contrário seria desprezar a possibilidade de praticar um ato gravemente culpável contra a “lei” de Deus).
Meios? Consultar, estudar o assunto, refletir sinceramente na oração… Se a dúvida persiste, os moralistas aconselham a seguir a opinião mais segura ou, pelo menos, a solução mais provavelmente certa. Se existe um conflito de deveres, deve-se escolher o que traz consigo um mal menor.
= Uma dúvida doentia é a que padece a consciência escrupulosa. É escrupulosa a pessoa que vê ou teme pecado em tudo, que vê pecado onde não há, ou pecado mortal onde há só uma falta venial. Além da oração, o modo de superar essa dúvidas enfermiças é:
= Guiar-se pela doutrina sobre os pecado e as condições objetivas para que exista ou seja grave, procurando não se deixar arrastar por um falso peso psicológico da consciência. Precisa de matéria grave, plena advertência e consentimento deliberado.
= agir com a cabeça e não com o sentimento.
obedecer o confessor ou diretor espiritual criteriosos.
= procurar assistência médica, pois muitas vezes o escrúpulo é um tipo de patologia psíquica, que não se dá apenas no campo moral.
Às vezes, esse afã de segurança próprio do escrupuloso, pode levar a outro erro de consciência, o chamado tuciorismo. É o caso da pessoa que, para se sentir segura, opta sempre pelo mais seguro e garantido, ainda que seja absurdo e exagerado. Por exemplo, se confessa de uma falta duvidosa apresentando-a como pecado grave, para “garantir” que não vai fazer uma confissão sacrílega.
A melhor solução é sempre obedecer a um diretor espiritual ou confessor piedoso e de reta doutrina.


Amor no Céu e missão na terra

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Um olhar para o futuro
No final do seu Evangelho, São João transcreve o diálogo tocante que Cristo manteve com Pedro:
– Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?
– Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo!
Repetindo três vezes a sua declaração de amor, Pedro reparou as suas três negações. Depois disso, Jesus confirmou-o na sua missão de pastor supremo da Igreja e continuou caminhando e conversando com ele pela margem do lago de Genesaré.
Num dado momento, inesperadamente, o Senhor parou e fitou Pedro nos olhos. Antecipando a perspectiva do seu futuro, disse-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais jovem, cingias-te e ias para onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. Por estas palavras, indicava o gênero de morte com que ele havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: “Segue-me!” (Jo 21, 15-19).
Assim foi. Durante a perseguição do imperador Nero, Pedro foi preso em Roma pelo ”crime” de ser cristão, e, amarrado como um bandido, levaram-no ao patíbulo, onde o crucificaram. O Apóstolo, cheio da fé e da fortaleza que o Espírito Santo lhe infundia, padeceu e morreu serenamente, e – segundo a tradição – teve o detalhe delicado de pedir que o crucificassem de cabeça para baixo, pois se considerava indigno de morrer como o seu Senhor Jesus.
Uma primeira mensagem
Prestando atenção a essa profecia de Jesus, reparamos que nela há duas mensagens. Uma encerra-se no modo em que Jesus alude à morte. A outra, no É modo como alude ao sofrimento, à Cruz. Detenhamo-nos um pouco em ambas. Desde já, é importante perceber que Jesus fala da morte e da dor com tanta naturalidade que é evidente que não pensa que nenhuma das duas seja uma coisa terrível, ruim. Isso faz pensar.
Mensagem sobre a morte. A própria naturalidade – naturalidade séria e grave, mas serena – com que Jesus fala da morte revela que, para Nosso Senhor, a morte não é nem uma tragédia nem o fim de tudo. Ele mesmo dissera que morrer é chegar passar para a casa do Pai (Cf. Jo 14,2). Quer dizer que a vida nesta terra é apenas um caminho – bem curto, por sinal – ; deve ser uma passagem que encaminha para a meta definitiva, que é o Céu, a união plena e feliz com Deus e o convívio com os amigos de Deus por toda a eternidade. Este é o verdadeiro fim e destino do homem.
Isso é algo que Pedro, sob a luz da fé e a graça do Espírito Santo, compreendeu muito bem, como se reflete nesse trecho da sua primeira carta aos fiéis cristãos: Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia, ele fez-nos renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcessível, reservada para vós nos céus. (1 Pedr 1,3-4).
E, na segunda carta, falando da vocação cristã, diz com serena clareza: Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais de assegurar a vossa vocação […]. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedr 1,10-11).
O triunfo, a realização autêntica da vida é a salvação eterna, é ser santo, é ir para o Céu. Que adianta – dizia Jesus – alguém ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma (Mat 16,26).
Sem olhar para a vida eterna, todas as grandezas e conquistas deste mundo são pó e vento que passa. Mais ainda, uma vida carregada de “realizações”, mas virada de costas para Deus, é como um navio ricamente equipado, que navega com cargas valiosíssimas, mas não tem destino, não chegará a porto algum; seu destino consistirá em girar no redemoinho e afundar no abismo.
Uma segunda mensagem
A segunda mensagem é a serenidade com que Jesus fala da dor – do martírio de Pedro – como de um bem, considerando-o como um modo de amar e de glorificar a Deus (Cf. Jo 21, 19).
O próprio Pedro chegará a ver o sofrimento, sob a luz poderosa da fé e do amor, como um verdadeiro tesouro. Àqueles cristãos do século primeiro, perseguidos de morte pelo Imperador (muitos foram queimados vivos como tochas, quando Nero incendiou Roma), escrevia-lhes dizendo que seus padecimentos eram a prova a que é submetida a vossa fé, mais preciosa do que o ouro perecível (1 Ped 1,7). E exortava-os deste modo: Alegrai-vos de ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada a sua glória (1 Ped 4,13). Referindo-se ainda a Jesus, acrescentava com palavras tocantes: Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa (1 Ped 1,8).
Ao meditar nessa fé dos que conheceram Cristo e os Apóstolos, causam-nos imensa pena aqueles que são incapazes de entender a grandeza do fim sobrenatural da nossa vida – Deus, o amor que dá sentido a tudo, o Céu – e vivem exclusivamente atrás do prazer, da ambição e da vaidade: balões ocos, furados, que a morte vai queimar. Só a alma iluminada pela luz do Espírito Santo pode compreender o paradoxo, incompreensível para um materialista, de que amar a Cruz – a Cruz-amor de Cristo e do cristão – é o segredo para se ser feliz, não só no Céu, mas já antes na terra. Mas este é um tema bem profundo, que agora ultrapassa a nossa reflexão 1. Falta-nos ainda acompanhar a parte final do diálogo entre Cristo e Pedro que estamos meditando.
Uma passagem alegre e fecunda
Depois das palavras sobre o futuro de Pedro, houve mais um diálogo interessantíssimo. O apóstolo Pedro, voltando-se para trás, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava – João, o narrador destas cenas – . Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, e este? Que será dele?” Jesus não lhe quis satisfazer a curiosidade, e respondeu-lhe de um modo aparentemente seco: “Que te importa…? Tu, segue-me!” (Jo 21,20-22).
Digo que é aparentemente seco, porque, entre Pedro e Jesus, havia uma confiança grande e afetuosa, difícil para nós de calibrar. Podemos, contudo, imaginar Nosso Senhor com um sorriso meio brincalhão, dizendo a Pedro algo assim: “Estamos falando agora é da tua vida, da tua missão e da tua entrada no Céu, não da vida dos outros. Cada filho de Deus tem a sua tarefa, a sua vocação própria. Deixa João tranqüilo. É claro que também tenho uma missão reservada para ele, e não é nada pequena (de fato João viveu até cerca dos cem anos, cuidou de Nossa Senhora, difundiu a fé entre milhares de pessoas, escreveu o quarto Evangelho e três Epístolas que fazem parte da Bíblia… Nada menos!). Mas o que interessa é que tu, Pedro, cumpras a tua missão pessoal. Por isso, te digo: Tu segue-me!
Com certeza, estas palavras – Tu, segue-me! – provocaram um sobressalto no coração de Pedro, pois fora com esses mesmos termos que Jesus o chamara, três anos antes, à beira do mesmo lago onde agora estavam, para se tornar o seu apóstolo. O coração de Pedro deve ter acelerado. As lembranças do dia da vocação devem ter-lhe voltado à memória, rodando com a nitidez de um filme colorido.
Na realidade, havia uma correspondência significativa – querida por Cristo – entre aquele dia, já remoto, do primeiro chamado e esse dia do encontro com o Ressuscitado. No dia da sua vocação, Jesus, antes de comunicar-lhe a chamada, fez o prodígio da primeira pesca milagrosa, que São Lucas descreve no capítulo quinto, e à qual já nos referimos. Naquele dia, após o milagre, Pedro jogou-se aos pés do Senhor, e este disse-lhe: “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (Lc 5, 10). Era uma definição simbólica da vocação do apóstolo, e é também uma definição da vocação apostólica do cristão: Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens (Mat 4,19).
A Igreja nos ensina que todos os batizados temos uma vocação divina e uma missão a realizar no mundo. Deus chama-nos a todos para sermos pescadores de homens. Não podemos ficar pensando apenas na nossa santificação, na nossa salvação. Não é cristão ficar fechado nas preocupações e sonhos pessoais. Estamos chamados por Deus a envolver afetuosamente os outros – respeitando-lhes sempre a liberdade – nas “redes” da nossa caridade, do nosso amor fraterno, desse amor que deseja para todos o maior bem, isto é, trazê-los para junto de Cristo, tal como os Apóstolos puseram aos pés de Jesus os cento e cinqüenta e três peixes grandes. Peixes que o próprio Jesus fez questão de que simbolizassem as almas: farei de vós pescadores de homens!
Perguntemo-nos, à vista disso, quantos parentes, amigos, colegas, conhecidos já levamos nós aos pés de Cristo, à alegria de se encontrarem com o olhar de Cristo, com a palavra de Cristo, com o Coração de Cristo; à felicidade de descobrirem junto de Jesus o amor que não acaba e que dá o sentido à vida?
O mar da Galiléia, para nós, é o mundo, e o “Pedro” atual, o Papa, no caso João Paulo II, posto ao leme da barca da Igreja, nos deu como lema – para o novo milênio – as mesmas palavras com que Jesus mandou Pedro pescar, naquele encontro do dia da vocação: -Duc in altum! – Mar adentro! Deus quer que recristianizemos o mundo!
Por incrível que pareça, Deus, que é tudo e fez tudo , quer contar conosco para estender pelo mundo os frutos da Redenção que Cristo conquistou para nós na Cruz, ao preço do seu Sangue. Ele quer que o Reino de Deus também “dependa de nós”: do nosso exemplo, do nosso empenho em difundir a doutrina cristã, do nosso apostolado pessoal, feito com a palavra compreensiva, com a confidência amiga, com o conselho leal.
“Mar adentro! Sigamos em frente, com esperança! – escreveu João Paulo II na Carta sobre o novo milênio – Diante da Igreja – dizia – abre-se um novo milênio como um vasto oceano onde aventurar-se com a ajuda de Cristo […]. O mandato missionário introduz-nos no terceiro milênio, convidando-nos a ter o mesmo entusiasmo dos cristãos da primeira hora; podemos contar com a força do mesmo Espírito que foi derramado no Pentecostes e nos impele hoje a partir de novo sustentados pela esperança que não nos deixa confundidos (Rom 5,5)”.
Cheio de um santo otimismo, o mesmo Papa, na sua Carta sobre o Rosário, escrevia que o Cristianismo, “passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a “fazer-se ao largo” – mar adentro! – para reafirmar, melhor, para “gritar” Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como “caminho, verdade e vida” , como “o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização”.
Concluamos esta reflexão. A vida tem como meta, certamente, o Céu. Mas, antes de chegarmos ao Céu, é preciso que arregacemos as mangas e realizemos muitas coisas na terra. Sobretudo, é preciso que ajudemos muitos a encontrarem e amarem a Deus, porque Cristo nos deu essa missão no mundo e confia em nós.
(Adaptação de um capítulo do livro de F.Faus: Cristo, minha esperança)
1 Cf. F.Faus: A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001

ALEGRIA E BOM HUMOR


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A alegria cristã

Ha umas palavras muito bonitas no livro de Nehemias, que se leem com frequência na Liturgia das Horas: A alegria do Senhor será a vossa força (Ne 8,10).
─ A tristeza enfraquece, a nós e aos que nos cercam. Faz-nos murchar, enfraquece o ânimo e as forças e desperta o mau humor. Uma pessoa triste cria um ambiente desanimado. Já dizia, no século II, um dos mais antigos escritores cristãos: «Afasta de ti a tristeza. Não entendes que a tristeza é pior do que qualquer outro estado de ânimo, que é a coisa que mais desanima e que repele o Espírito Santo? Uma pessoa alegre pratica o bem, gosta das coisas boas e agrada a Deus. O triste, pelo contrário, sempre age errado (Pastor de Hermas, Mand. 10,1.1; 3.1).
─ A alegria, antítese da tristeza, enche-nos de vitalidade e desperta vitalidade nos outros . É dinâmica e amável. Pode-se dizer que uma pessoa alegre – alegre de coração – faz sair o sol em qualquer lugar onde se encontra.
Mas, talvez nos perguntemos: “É possível a alegria como um bem estável da alma, como algo permanente? Não é, na realidade, como um vagalume, uma luzinha efêmera que pisca só uns instantes na escuridão da noite?”
Deus nos responde que não.
─ Escute Jesus, falando as Apóstolos na Última Ceia, pouco antes da Paixão: Vós, sem dúvida, agora estais tristes. Mas hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria (Jn 16,22).
─ Escute São Paulo, falando aos primeiros cristãos que acabavam de abraçar a fé: Nós estamos sempre contentes! (2 Cor 6,10).
─ E ouça-o ainda dando o “mandamento da alegria” aos filipenses: Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! … O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma!  (Fl 4,4-6).
Será possível essa alegria?
Essa é a pergunta que se fazia Bento XVI, ao iniciar, com uma meditação, o Sínodo dos Bispos de 2005. Acabava de ler as palavras com que Paulo termina sua segunda carta aos coríntios: Por fim, irmãos, vivei com alegria…, animai-vos…, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco (2 Cor 13,11), e fazia o seguinte comentário:
– «É possível ordenar, mandar desta forma a alegria? A alegria, poderíamos dizer, vem ou não vem, mas não pode ser imposta como um dever. Neste ponto, ajuda-nos a pensar o texto mais conhecido sobre a alegria das cartas paulinas: Alegrai-vos sempre no Senhor. O Senhor está perto” [refere-se a Fl 4,4, acima citado]…
»Se a pessoa amada, se o amor, o maior dom da minha vida, estiver próximo de mim, se eu puder ter a certeza de que aquele que me ama – Deus – está perto de mim, também nos momentos de tribulação, então poderá manter-se firme no meu coração uma alegria maior do que todos os sofrimentos» (Meditação, 3/10/2005).
No mesmo sentido, o Papa Francisco afirma, com a leveza jovial de quem habitualmente está de bom humor: «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus […]. O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria […] Reconheço que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de que, não obstante as aparências contrárias, somos infinitamente amados» (Encíclica Evangelii Gaudium nn. 1.5.6).
Deus nos ama. Somos seus filhos muito amados (Ef  5,1). Ele está sempre perto de nós. Nós é que podemos afastar-nos dele, e então baixa a tristeza ao nosso coração. Como dizia São Josemaria [sem se referir, como é lógico, à tristeza patológica que procede da depressão]: «A alegria é um bem cristão. Só desaparece coma ofensa a Deus, porque o pecado é fruto do egoísmo e o egoísmo é causa de tristeza» (É Cristo que passa, n. 178).
E convidava a fazer um exame: «Não há alegria? – Então pensa: há um obstáculo entre Deus e mim. – Quase sempre acertarás» (Caminho, n. 662).
Quer dizer que, para estarmos alegres e alegrar os demais, é preciso que aumente o nosso amor a Deus – a nossa vida de oração, o nosso amor à Eucaristia, a nossa mortificação por amor, a nossa luta pelas virtudes –, e que vençamos o egoísmo, correspondendo generosamente ao amor que o Espírito Santo derrama em nossos corações (cf. Rm 5,5 e Gl 5,22).
O bom humor
Que tem alegria, tem bom humor. «Onde quer que a alegria esteja ausente, onde quer que desapareça o senso do humor, com certeza ali não estará o espírito de Jesus» (J. Ratzinger, Princípios teológicos). Não se trata do humorismo sarcástico, irônico, que agride e humilha os outros. Mas do bom humor amável, que faz bem, como um bálsamo que suaviza e perfuma as asperezas da vida.
Como andamos de sadio bom humor lá em casa? E no ambiente de trabalho, entre colegas e amigos? E, em geral, com todas as pessoas com quem temos contato, mesmo que seja ocasional. Ficamos de cara fechada, com reações bruscas, queixas, gestos antipáticos e respostas ríspidas?  Ou temos uma amabilidade sorridente, como a de Cristo ressuscitado: Alegraram-se os discípulos ao ver o Senhor (Jn 20,20)?
O papa Francisco, usando uma expressão popular, tem repetido que o cristão não pode ter «cara de vinagre». Se tivermos vinagre no coração precisamos limpá-lo e enxugá-lo bem, sobretudo conversando com Deus, como dizia Santo Agostinho e o Papa Bento lembrava na sua encíclica sobre a esperança (Spe salvi, n. 33).
Quem é que tem vinagre no coração? Aquele que vive como descrevem estas palavras: «Não és feliz porque ficas ruminando tudo como se sempre fosses tu o centro: é que te dói o estômago, é que te cansas, é que te disseram isto ou aquilo… – Já experimentaste pensar nEle e, por Ele, nos outros? » (Sulco, n. 74).
Quem limpa o vinagre? Aquele que descobriu o que se lê em outro pensamento do mesmo livro: «Talvez ontem fosses uma dessas pessoas amarguradas nos seus sonhos, decepcionadas nas suas ambições humanas. Hoje, desde que Ele se meteu na tua vida – obrigado, meu Deus! –, ris e cantas e levas o sorriso, o Amor e a felicidade aonde quer que vás» (n. 81).
As almas cristãs, sobretudo os santos, nos dão exemplos maravilhosos desse bom humor que procede da caridade e da luta espiritual. Não veja os exemplos que vou mencionar a seguir como legendas áureas, só dignas de admiração, mas como lampejos, como mensagens que batem no seu coração, e lhe dizem: “E você…, com que fé e amor vive a alegria diante de situações muito menos difíceis?”.
Exemplos de santos
─ São Filipe Neri, Pippo il buono, que muitos veneravam como santo ainda em vida, sabia fazer ingênuas palhaçadas «para sabotar em si  – como diz um escritor[1] – a tentação do orgulho, pois o riso, às custas de si mesmo, libera do inchaço da vaidade e atrai alegremente todos para Deus». Como é bom saber rir de si mesmo, sem dar importância aos nossos “méritos”, nem aos nossos “dramas” e “tragédias”cotidianos.
─ São Josemaria Escrivá referiu certa vez o que lhe aconteceu quando ainda era um jovem padre. Por causa de uma contrariedade forte, «irritei-me… e depois me irritei por ter-me irritado». Nesse estado de ânimo, indo pelas ruas de Madrid, passou por uma daquelas máquinas que faziam seis fotografias rápidas por quatro tostões, e Deus lhe inspirou uma ideia. Entrou na cabine e tirou as fotografias. Dizia que olhou para elas, e  «estava engraçadíssimo com a cara de irritação!». Rasgou cinco das fotos e guardou a sexta na carteira durante um certo tempo. «De vez em quando – comentava –, olhava-a para ver a cara de irritação, humilhar-me diante do Senhor e rir-me de mim mesmo: «Por bobo!, dizia para mim»[2].
─ É célebre o impressionante exemplo de humor de São Thomas More, chanceler da Inglaterra, quando ia ser decapitado por ter-se oposto a aderir ao cisma religioso provocado pelo rei Henrique VIII. Quando inclinava a cabeça sobre o talho, olhou para o carrasco e disse-lhe: «Ânimo, rapaz! Não tenhas medo de cumprir o teu dever. O meu pescoço é muito curto. Cuida, pois de não cortá-lo de lado, para que não fique abalado o teu prestígio» E após isso acrescentou: «Deixa-me ajeitar a barba, não aconteça que também a cortes. Ela nada tem nada a ver com isso»[3].
Um precedente muito mais antigo que esse de Sir Thomas é o do diácono de Roma São Lourenço, martirizado no ano de 285. Segundo conta Santo Ambrósio, foi queimado a fogo lento, deitado numa grelha. Brincando com os verdugos, disse em certo momento: “Este lado já está assado, podem virar-me para o outro”[4].
Após refletir sobre esses exemplos – quatro entre muitos – talvez seja bom terminar este capítulo transcrevendo uma oração “para pedir o bom humor” – que tanta falta nos faz –, composta por São Thomas More. Diz-se que a rezava todos os dias:
─ «Dai-me, Senhor a saúde do corpo e, com ela, o bom senso pra conservá-la o melhor possível. Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir. Dai-me uma alma santa, Senhor, que mantenha diante dos meus olhos tudo o que é bom e puro. Dai-me uma alma afastada do tédio e da tristeza, que não conheça os resmungos, as caras fechadas, nem os suspiros melancólicos… E não permitais que essa coisa que se chama o “eu”, e que sempre tende a dilatar-se, me preocupe demasiado. Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Dai-me a graça de compreender uma piada, uma brincadeira, para conseguir um pouco de felicidade e para dá-la de presente aos outros. Amém».



[1] Carlos Pujol, La casa de los santos, Ed. Rialp, Madrid 1991, p. 185
[2] José Luís Soria, Mestre de bom humor, Ed. Quadrante, São Paulo 2002, p. 95.
[3] A. Vázquez de Prada: Sir Thomas More, p. 18
[4] Carlos Pujol, obra citada, pág. 269