segunda-feira, 16 de julho de 2018

PELA PALAVRA

MAR E DESERTO
Minha oração hoje é para você que tem andado por desertos de incertezas, de inseguranças, que não vê à frente possibilidades de melhora, de mudança de situação, dado as circunstâncias que se apresentaram, pelas tentativas fracassadas ou se acostumou a colecionar fracassos.
Talvez seja necessário as vezes esse tempo de deserto para aí sim você entender que o mar da misericórdia e amor de Deus não tem largura, não tem altura, muito menos profundidade. 
Somos convidados a experimentar esse amor. Amor que não se explica e se você se der a chance de experimentar, então você será mergulhado nesse mar de encontro consigo mesmo, com a Verdade, com novas possibilidades. 
Um mar onde dá a você uma identidade, identidade perdida, descaracterizada. 


Que pela riqueza da glória, vós sejais fortalecidos em poder pelo seu Espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé em vossos corações e que sejais arraigados e fundados no amor.


Com base em Efésios 3, 14-21
Bíblia de Jerusalém 

Marcelo Mattityahu
Filhos Espirituais de Pe. Pio 



By Marcelo Mattityahu

COMO PROCEDER NA TENTAÇÃO [PARTE II]: RESISTIR À TENTAÇÃO


Por Adolph Tanquerey
Esta resistência será diversa conforme a natureza das tentações. Há umas que são frequentes, mas pouco graves. Para essas a melhor tática é o desprezo, como tão bem explica São Francisco de Sales: “Quanto a essas pequenas tentações de vaidade, suspeita, tristeza, ciúme, inveja, afeiçõezinhas e outras semelhantes ninharias, que, como moscas e mosquitos nos andam passando por diante dos olhos, e umas vezes nos picam nas faces, outras no nariz… a melhor resistência que lhes podemos fazer é não nos afligirmos, porque nada disto nos pode causar dano, ainda que nos pode enfadar, contanto que tenhamos firme resolução de querer servir a Deus. Desprezai, pois, estes pequenos assaltos e não vos ponhais nem sequer a considerar o que querem dizer. Deixai-os zunir à roda dos ouvidos, quanto quiserem… como se faz com as moscas.
Aqui ocupamo-nos sobretudo das tentações graves: é preciso combate-las prontamente, energicamente, com constância e humildade.
PRONTAMENTE: Sem discutir com o inimigo, sem hesitação alguma ao princípio, como a tentação não firmou ainda o pé solidamente em nossa alma, é bastante fácil rechaça-la. Se esperarmos que lance raízes na alma, será muito mais difícil. Por conseguinte, nada de parlamentar com o tentador. Associemos a ideia de prazer ilícito a tudo quanto há de mais repugnante, a uma serpente, a um traidor que nos quer apanhar de sobressalto, e lembremo-nos da palavra dos nossos Livros Santos: “Foge dos pecados como da vista duma cobra, porque se te aproximares deles, apoderar-se-ão de ti”. E foge-se orando e aplicando o espírito a qualquer outro assunto.
ENERGICAMENTE: não com moleza e como de má vontade, o que pareceria convidar a tentação a voltar, mas com força e vigor, testemunhando o horror que tal proposição nos causa: “arreda, satanás, vade satana”. É, porém, diversa a tática que se deve empregar segundo o gênero das tentações. Se se trata de prazeres atraentes, é necessário afastar-se e fugir, aplicando fortemente a atenção a um assunto diferente que nos possa absorver o espírito. A resistência direta não faria geralmente senão aumentar o perigo. Se a tentação é repugnância em cumprir o próprio dever, antipatia, ódio, respeito humano, o melhor é, muitas vezes, afrontar a tentação, considerar francamente a dificuldade de rosto e apelar para os princípios da fé, para dela triunfar.
COM CONSTÂNCIA: é que às vezes a tentação, vencida por um instante, volta com novo furor, e o demônio reconduz do deserto sete espíritos piores do que ele. A esta pertinácia do inimigo é mister opor resistência não menos tenaz: quem combate até o fim é que ganha a vitória. Mas então, para haver maior segurança de triunfar, importa dar a conhecer a tentação ao diretor espiritual.
É este o conselho que dão os Santos, em particular Santo Inácio e São Francisco de Sales: “porque notai, diz este último, que a primeira condição que o maligno propõe à alma que quer enganar, é o silêncio, como fazem aqueles que querem seduzir as mulheres e as donzelas, que por entrada proíbem que elas comuniquem as propostas aos pais ou maridos. Pelo contrário, Deus, em suas inspirações, requer sobre todas as coisas que as façamos reconhecer pelos nossos superiores e diretores”. E, na verdade, parece que anda vinculada uma graça especial a esta manifestação da consciência: tentação descoberta é tentação meio vencida.
COM HUMILDADE: é ela, efetivamente, que atrai a graça, e a graça é que nos dá a vitória. O demônio, que pecou por orgulho, foge diante dum ato sincero de humildade, e a tríplice concupiscência, que tira a sua força da soberba, é facilmente vencida, quando por assim dizer, a decapitamos pela humildade.
Da obra “A vida espiritual explicada e comentada”.
https://capelasantoagostinho.com/2018/03/15/como-proceder-na-tentacao-parte-ii-resistir-a-tentacao/

domingo, 15 de julho de 2018

COMO PROCEDER NA TENTAÇÃO [PARTE I]: PREVENIR A TENTAÇÃO

Por Adolph Tanquerey
Para triunfar das tentações e fazê-las servir ao bem espiritual da nossa alma, três coisas principais se devem observar: 1º Prevenir a tentação; 2º Combatê-la vigorosamente; 3º Agradecer a Deus depois da vitória, ou levantar-se após a queda.
Trata-se especificamente de cada um destas três coisas em três postagens distintas. Nesta primeira postagem da série aborda-se a questão de como prevenir a tentação
Prevenir a tentação
Conhecemos o provérbio: Mais vale prevenir que remediar. É também o que aconselha a sabedoria cristã. Quando Cristo Senhor Nosso conduziu os três apóstolos ao jardim da Oliveiras, disse-lhes: “Vigiai e orai, para não entrardes em tentações”(Mt 26, 41). Vigilância e oração, eis pois, os dois grandes meios de prevenir a tentação.
Vigiar é estar de atalaia em torno da própria alma, para não se deixar colher de sobressalto. E é tão fácil sucumbir num momento de surpresa! Esta vigilância implica duas disposições principais: desconfiança de si mesmo e confiança em Deus.
É, pois, necessário evitar a presunção orgulhosa que nos lança para o meio dos perigos, a pretexto de que somos assaz fortes para deles triunfar. Foi o pecado de São Pedro que, no momento em que Jesus predizia a fuga dos apóstolos, exclamava: “Ainda quando sejais para todos uma ocasião de queda, para mim nunca o sereis” (Mc 14,29). Reflitamos, pelo contrário, que aquele que julga estar de pé deve ter cuidado, não vá cair”(ICor 10, 12); porque, se o espírito está pronto, a carne é fraca, e segurança não se encontra senão na desconfiança humilde da própria fraqueza.
Mas devem-se evitar igualmente esses vãos terrores que não fazem senão aumentar o perigo. É bem verdade que somos fracos por nós mesmos, mas invencíveis naquele que nos conforta: “Deus que é fiel não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças. Antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar”(ICor 10, 13).
Esta justa desconfiança de nós mesmos faz-nos evitar ocasiões perigosas, tal companhia, tal divertimento, etc., em que a nossa experiência nos mostrou que nos vimos expostos a cair. Combate a ociosidade, que é uma das ocasiões mais perigosas, bem como essa moleza habitual, que afrouxa as energias da vontade e a prepara a todas as capitulações. Tem horror desses fúteis devaneios que povoam a alma de fantasmas que não tardam a tornar-se perigosos. Numa palavra, pratica a mortificação sob as diferentes formas e aplica-se aos deveres de estado, à vida interior e ao apostolado. E, então, no meio desta vida intensa, resta pouco lugar para tentações.
A vigilância deve exercer-se especialmente sobre o ponto fraco da alma, visto ser geralmente desse lado que vem o assalto. Para fortificar esse ponto vulnerável, é lançar mão do exame particular, que por tempo notável concentra a atenção sobre esse defeito, ou melhor ainda sobre a virtude contrária.
À vigilância é preciso ajuntar a oração, que, colocando a Deus do nosso lado, nos torna invencíveis. Afinal, Deus acha-se interessado em nossa vitória, porque é a Ele que o demônio quer atingir em nossa pessoa, é a sua obra que ele quer destruir em nós. Podemos invoca-lo com santa confiança, seguros de que Ele nada mais deseja que socorrer-nos. Contra a tentação é boa toda a oração: vocal ou mental, privada ou pública, sob forma de adoração ou de petição. É bom, sobretudo nas horas de paz, orar para o tempo de tentação. No momento em que esta se apresenta, não há mais tempo senão para elevar rapidamente o coração a Deus, para resistirmos com mais vigor.
Continua em outra postagem com a segunda parte com o tema Resistir à tentação.
Da obra A vida espiritual. Explicada e comentada.

POR QUE OS SANTOS SE CONSIDERAVAM GRANDES PECADORES

Lemos nas vidas dos santos que eles se consideravam como grandes pecadores. Alguns não compreendiam como Deus os deixava viver neste mundo, como lhes concedia a luz do sol e os bens da terra. Entre eles alguns havia que costumavam firmar as suas cartas com a assinatura: “Fulano, o pecador”. São João Batista, intimado a batizar a Jesus, disse que nem era digno de lhe desatar as correias dos sapatos. Por outro lado, há tantos homens mundanos que se julgam isentos de toda culpa e imperfeição moral.
Por que esta diferença? Será que os Santos eram de fato tão grandes pecadores, e que certas outras pessoas se dizem prodígios de virtude e santidade?
Reparemos o que acontece quando uma réstia de sol penetra num quarto escuro, formando uma faixa luminosa no ar. É interessante observar como neste traço de luz volita uma infinidade de átomos de pó, subindo, descendo, girando, redemoinhando, enovelando-se de mil maneiras com o discreto perpassar das aragens. Apaga-se o raio solar – e tudo desapareceu! Já não se vê nem um só destes grânulos de poeira. Aonde foram? Não existem mais? Certo que sim. Ainda se acham suspensos no ambiente como antes. Mas, com a extinção da luz, tornaram-se invisíveis.
É fácil atinar com o sentido da comparação.
Este último estado corresponde ao da alma que se julga isenta de faltas, quando de fato as faltas aí estão, embora invisíveis, devido à ausência de luzes celestes, à falta de conhecimento próprio. O pecador não gosta de olhar para o interior da sua consciência, com medo de encontrar o que possa melindrar o seu amor-próprio e a vã complacência das supostas virtudes.
A alma do Santo, ao invés disso, é como um templo arraiado de luz, iluminado pelo facho da atenta reflexão sobre si mesma, e pelos raios vindos de cima. Não que ele tenha mais pecados do que o mundano. A diferença está em que tem luz mais abundante e o olhar mais afeito a descobrir os argueiros das imperfeições de cada dia, ao passo que o profano nem dá pelas trancas de faltas gravíssimas.
Não é, pois, nada estranhável o estarmos cheios de defeitos, desde que os tinham também os próprios Santos. No entanto, neles se observava uma nota característica e essencial. Muito embora enxergassem em suas almas inundadas de luz celestial os numerosos e até os menores resquícios de pó, eles não se admiravam e não desanimavam. À força de um trabalho contínuo, sereno e permanente, procuravam limpar-se de todas as manchas e ainda dos grãozinhos miúdos de areia e pó. Pediam a Deus constantemente lhes desvendasse os próprios defeitos para se emendarem e se humilharem. E de fato, ao dar-nos Deus a conhecer as nossas faltas, já significa uma graça bem importante. E Deus no-la dá não a fim de nos exacerbarmos e amofinarmos, mas para que reconheçamos humildemente a nossa extrema fraqueza, a nossa mísera condição e, dominados de uma grande e imperturbável confiança e calma, trabalhemos em nosso constante aperfeiçoamento, tarefa para muitos anos.
(por Pe. José Tissot)

Cristo: amor de amizade


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Eu vos chamei amigos 

Na Santa Ceia, Jesus, depois de dizer aos apóstolos como a Pai me ama, assim também eu vos amo, esclarece o tipo de amor que deseja. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai (Jo 15, 9.15).
Jesus “abriu-se” totalmente a nós (até mesmo seu coração chagado ficou fisicamente aberto na Cruz), e deseja achar em nós corações totalmente abertos a Ele, ou seja, achar em nós amigos, com todas as qualidades da amizade: amor, confiança, sinceridade, sacrifício, lealdade…
Você se lembra dos fatos que precederam a ressurreição de Lázaro? Lázaro, Marta e Maria eram três irmãos da cidadezinha de Betânia, próxima de Jerusalém, em cuja casa Jesus se hospedava habitualmente quando subia à cidade santa. Naquela casa, junto desses três amigos, Ele achava um lar.
São Lucas expressa a bem a familiaridade que reinava naquela família. Focaliza Jesus que fala, Maria que o escuta sentada a seus pés e Marta, nervosa com a lida da casa, reclamando com Jesus: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço (Lc 10, 38-42). Que confiança!
Passado um tempo, Lázaro ─ provavelmente o caçula ─ adoeceu gravemente. Imediatamente, as irmãs enviaram um mensageiro a Jesus, que se achava longe dali, com o seguinte recado: Senhor, aquele que tu amas está doente (Jo 11, 3).
Acho esse brevíssimo recado comovente. Não explicam nada, não pedem nada, basta-lhes dizer a Jesus que aquele tu que amas está doente. Estava tudo dito. Que certeza tinham da amizade de Cristo!
Poucos dias depois, Jesus realizou seu maior milagre: a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 17-44).
Na Missa do início do seu pontificado, em 24 de abril de 2005, Bento XVI dizia: «Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida… Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário. Não há nada mais belo do que ser alcançados, surpreendidos por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade»…
»Quem faz entrar Cristo em si nada perde, nada absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande. Não! Só nesta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só nesta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nesta amizade experimentamos o que é belo e o que liberta».
Está compreendendo por que dizemos que ser cristão é acima de tudo ser amigo de Cristo? Da parte dele, a amizade está garantida. Isso permitia a santa Teresa de Ávila definir, com toda a simplicidade, que «a oração mental não é, em meu entender, senão uma relação íntima de amizade, em que muitas vezes nos entretemos a sós com aquele que sabemos que nos ama»[1].
Essa certeza de ser amada, essa confiança, levava santa Teresa a familiaridades que, para nós, seriam chocantes. Assim aconteceu, por exemplo, que, quando num certo dia se queixava a Jesus de ter que padecer tantas dificuldades, Ele lhe teria respondido: «Teresa, é assim que eu trato meus amigos». E ela, com a franqueza da amizade: «Por isso tens tão poucos!».
Quando nos esforçamos por viver vida de fé e de oração, quando procuramos Jesus e o encontramos, como lembrávamos acima, o dia inteiro pode se transformar num diálogo de amigos entre Ele e nós.
Lembro que me contaram, há tempo, o caso de um menino de nove ou dez anos, que passando férias na praia, depois da Missa e do café da manhã, foi nadar, e falou assim com Jesus, que acabava de receber na comunhão: «Olha, Jesus, agora nós dois vamos mergulhar no mar, você irá comigo, e será como se fosse num submarino».
Quantas mulheres e homens comuns, cristãos com defeitos como nós, mas cheios de fé e amor, não falam muitas vezes ao dia com «o Grande Amigo que nunca atraiçoa»[2]: «Jesus ─ dizem-lhe ─, agora nós dois vamos sair à rua e pegaremos juntos o ônibus», «Jesus, vamos começar a trabalhar; me ajuda a fazer um trabalho bem feito, que te agrade», «Jesus, ajuda essa pobre menina, que está sofrendo com a doença da mãe», «Jesus, dá-me paciência para não me irritar com o chefe», «Jesus, faz com que esqueça o mau humor ao chegar em casa e dá-me um belo sorriso para a minha mulher – para o meu marido».
Quando você estiver confuso, quando duvidar da Providência de Deus, quando se sentir incapaz de vencer as tentações, quando reclamar de que ser cristão é só questão de imposições e obrigações, lembre-se destas palavras: «Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… − E, tanto como Lázaro, te ama a ti»[3].
E diga-lhe então: «Como te fazes compreender, Senhor! Como te fazes amar! Tu te mostras como nós, em tudo menos no pecado, para que saibamos palpavelmente que contigo podemos vencer as nossas más inclinações, as nossas culpas. Que importância tem o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas?… Cristo cansou-se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a luta – uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre ao nosso lado – para cumprir a vontade do Pai que está nos Céus» (Cf. Jo 4, 34)[4].

Do livro Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018
____________________
[1] Livro da Vida, cap. 8
[2] Caminho, n. 88
[3] Ibidem, n. 422
[4] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 201

“Que ames a Cristo”


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Ele nos amou primeiro

Há umas palavras de são Josemaria que eu desejaria manter sempre gravadas no meu coração, e gostaria que se gravassem na alma de muitos cristãos:
«Estar com Cristo é estar seguro.
»Poder-se olhar em Cristo é poder ser cada dia melhor.
»Tratar Cristo é necessariamente amar a Cristo.
»E amar a Cristo é garantir a felicidade» [1].
Nos textos anteriores refletimos sobre as frases «Que procures Cristo» e «Que encontres Cristo». Restam-nos umas últimas considerações a fazer sobre o terceiro item da trilogia que orienta estas reflexões: «Que ames a Cristo»[2].
Muito sobre o amor a Cristo já foi visto nas anteriores meditações. Mas há um ponto que é preciso colocar em destaque, e é este: O mais importante no amor de Cristo, não é o amor que nós lhe damos, mas o que Ele nos dá.
Nas palavras da despedida de Jesus, conversando com os Apóstolos na Última Ceia, há muitas frases impagáveis. Jesus despede-se deles e fala claramente de que será entregue, esquecido, abandonado, traído, torturado e morto. Mas, em vez de se queixar, desdobra-se em manifestações de afeto e de ânimo. Creio que lhe dou um conselho muito bom se lhe sugiro que leia e medite com frequência os capítulos 13 a 17 do Evangelho de são João.
Uma dessas frases impagáveis é a seguinte: Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor (Jo 15,9).
Você se dá conta do que Ele nos diz aqui? Antes de exigir-nos nada, pede-nos que permaneçamos na convicção, no calor, na gratidão, na certeza de seu amor por nós.
São João, que sabia disso, começa seu relato da Última Ceia com estas palavras: Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo (Jo 13, 1).
Até que extremo? Jesus o explica: Ninguém  tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos (Jo 15,13).
Dá-nos a sua vida é a dá na Cruz! Dá por você e por mim, fracos como os apóstolos, cheios de covardias e traições como eles. Quando pensamos nisso, entendemos o que afirmava um pregador: «Nós, com Cristo, podemos fazer o que quisermos: esquecê-lo, ofendê-lo, renegá-lo, crucificá-lo de novo. Mas há uma única coisa que não podemos fazer: conseguir que Ele não nos ame».
Os primeiros cristãos tinham viva consciência disso. Veja, se não, as seguintes expressões com que o manifestam:
  • São Paulo: A minha vida presente na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2, 20).
  • São João: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado primeiro, e enviado seu Filho para expiar nossos pecados (1 Jo 4, 8.10).
  • São Pedro, escrevendo aos fiéis perseguidos, depois de louvar a alegria que eles mantêm apesar das aflições, fala de Cristo. A esse Jesus ─ diz ─ vós o amais sem o terdes visto; credes nele sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa (1 Pd 1, 6-8).
Aí está o verdadeiro “motor” da vida cristã, das nossas lutas, das nossas boas ações, da nossa fortaleza, do nosso arrependimento, da nossa confiança. O único motor é o amor. São Paulo o resume assim: O amor de Cristo nos constrange, é ele que nos impele (2 Cor 5, 14).
Diante disso, que faremos nós para sermos menos indignos desse amor? Há duas respostas importantes, que Cristo nos dá na Última Ceia:  Ele espera de nós que sejamos seus amigos, e que façamos a vontade de Deus. Meditaremos sobre cada uma dessas respostas.

Do livro de F.Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018
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[1] São Josemaria Escrivá, En diálogo con el Señor, Edição crítico-histórica. Ed. Rialp, Madrid 2017
[2] Cf. Caminho, n. 382

sábado, 14 de julho de 2018

Uma oração esquecida



Humildade para ser o que Deus quer, nada mais.

A humildade é artigo raro entre nós. Somos orgulhosos, condicionados a ser o melhor, a ter o que há de melhor, a ser o campeão, o vencedor. Nossas orações dizem muito mais a respeito do que queremos, mas buscamos pouco o que Deus quer. Queremos ter status, o oposto do que teve Jesus, o oposto de uma antiga litania que já foi muito utilizada no culto cristão, mas depois da Reforma Protestante parece que foi esquecida, pelo menos pelos protestantes.


E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. — Mateus 6:7

Entendo que não precisamos decorar uma oração e repeti-la infinitas vezes na intenção de sermos ouvidos, mas o conteúdo de certas orações podem nos revelar verdadeiros tesouros e trazer grandes lições sobre o que ocupava a mente e o coração dos antigos cristãos.

Este é o caso da oração a seguir, chamada de “oração do cristão medieval” ou “oração do cristão anônimo”:


Ó Jesus, manso e humilde de coração, ouve-me. 

Livra-me, Jesus, 

do desejo de ser estimado,
do desejo de ser amado,
do desejo de ser exaltado,
do desejo de ser honrado,
do desejo de ser louvado,
do desejo de ser preferido a outros,
do desejo de ser consultado,
do desejo de ser aprovado, 

do medo de ser humilhado,
do medo de ser desprezado,
do medo de ser repreendido,
do medo de ser esquecido,
do medo de ser ridicularizado,
do medo de ser prejudicado,
do medo de ser alvo de suspeitas. 

E, Jesus, concede-me a graça de desejar 

que outros possam ser mais amados que eu,
que outros possam ser mais estimados que eu,
que na opinião do mundo outros possam crescer e eu diminuir,
que outros possam ser escolhidos e eu posto de parte,
que outros possam ser louvados e eu passe despercebido,
que outros possam ser preferidos a mim em tudo,
que outros possam tornar-se mais santos do que eu, 

contanto que eu me torne tão santo quanto devo ser.


Amém!

http://www.fesimples.com.br/2013/07/10/uma-oracao-esquecida/