domingo, 23 de setembro de 2018

Qual a sua “desculpa esfarrapada” para viver no pecado?


Só pode reclamar o direito de seguir a própria consciência quem primeiro se submeteu ao dever de formá-la retamente

A encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, que condenava como imorais os métodos de contracepção artificial — preservativos e pílulas anticoncepcionais, por exemplo —, completou seu cinquentenário no último dia 25 de julho e, até hoje, a onda de contestação a seu conteúdo não cessou.
Em nossos dias, porém, em vez de uma oposição aberta, o que parece estar se delineando é uma tentativa de reinterpretar o documento à luz de teorias morais já condenadas pelo Magistério, a fim de invalidar, na prática, tudo o que a Igreja sempre ensinou a esse respeito.
Não há nada de novo debaixo do sol, é preciso dizer. A título de exemplo, vejamos o que um dos contestadores da Humanae Vitae — e, infelizmente, perito do Concílio Vaticano II — disse sobre a encíclica, tão logo ela foi publicada:
Se um cristão católico, após provar suficientemente sua consciência, acredita ter chegado, após completa reflexão e autocrítica, a uma posição que dissente da norma papal, e a segue em sua vida matrimonial sob a observância desses princípios aos quais já se aludiu frequentemente como sendo comumente cristãos, então esse católico não precisa temer qualquer culpa subjetiva ou considerar a si mesmo formalmente desobediente à autoridade da Igreja. [1]
Para dizer de maneira mais clara: se uma pessoa casada chegasse à conclusão de que deveria usar camisinha ou tomar a pílula, e efetivamente o fizesse em seu relacionamento conjugal, não deveria considerar-se “desobediente” por isso. Pela mesma lógica, um marido que, “após provar suficientemente sua consciência”, “após completa reflexão e autocrítica”, decidisse trair a própria esposa, e realmente o fizesse, nem por isso deveria considerar-se um adúltero; um bandido que decidisse roubar um carro de alguém, e realmente o roubasse, não deveria considerar-se um ladrão, e por aí vai.
A manifestação acima é de ninguém menos que Karl Rahner e, como se vê, seu argumento traz dentro de si o poder de derrubar não só a moral sexual da Igreja, mas todo o edifício doutrinário católico. Afinal de contas, “se tais princípios podem ser aplicados à questão da contracepção”, pergunta-se um estudioso da história da Igreja, “então por que não aplicá-los a outros aspectos da moralidade tradicional católica” [2]? Ora, se a consciência possui um papel assim criativo, que dogma e que preceito moral não poderia ser derrubado por sua atuação?
A contestação à Humanae Vitae precisa ser lida, portanto, em um contexto mais amplo: não se trata de minar simplesmente uma parte do ensinamento da Igreja, mas de relativizar todo o Magistério. A esse propósito o próprio Paulo VI havia respondido em sua encíclica, lembrando que:
Na missão de transmitir a vida, eles [os esposos] não são, portanto,livres para procederem a seu próprio bel-prazer, como se pudessem determinar, de maneira absolutamente autônoma, as vias honestas a seguir, mas devem, sim, conformar o seu agir com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e dos seus atos e manifestada pelo ensino constante da Igreja. [3]
É da máxima importância, para a paz das consciências e para a unidade do povo cristão, que, tanto no campo da moral como no do dogma, todos se atenham ao Magistério da Igreja e falem a mesma linguagem. [4]
A proibição de um “livre exame” do ensinamento contido na Humanae Vitae provinha, portanto, da simples leitura de suas letras. Não há desculpas.
Mas o argumento da consciência, aludido acima por Karl Rahner, ainda tem seus simpatizantes em nossos dias. Sob o pretexto de recorrer a ela, tudo se justifica, tudo se desculpa, até mesmo o pecado mortal.
Por isso, como complemento da Humanae Vitae, é preciso ter sempre à mão um outro documento pontifício, tão ou até mais importante para os nossos dias do que a encíclica de Paulo VI: seu nome é Veritatis Splendor, seu autor é São João Paulo II e, coincidência ou não, seu 25.º aniversário se recordou no último dia 6 de agosto de 2018.

Os deveres da consciência

Nesta encíclica, dedicada a uma defesa geral de toda a doutrina moral cristã, encontramos ensinamentos fundamentais para resolver o aparente choque entre lei e consciênciaverdade divina e liberdade humana. O Papa S. João Paulo II aí ensina, por exemplo, que:
Se existe o direito de ser respeitado no próprio caminho em busca da verdade, há ainda antes a obrigação moral grave para cada um de procurar a verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida. Neste sentido, afirmava com decisão o Cardeal John Henry Newman, eminente defensor dos direitos da consciência: “A consciência tem direitos, porque tem deveres”. [5]
Só neste simples parágrafo já é possível identificar o problema do pensamento de Karl Rahner, exposto mais acima. O direito a ser respeitado “no próprio caminho em busca da verdade” deve andar junto com a responsabilidade “de aderir a ela, uma vez conhecida”. Em outras palavras, a consciência não cria a lei que deve seguir, mas simplesmente se submete àquilo que encontra inscrito na própria natureza das coisas e revelado por Deus ao longo da história da salvação. Nas palavras do teólogo dominicano espanhol Pe. Royo Marín,
A consciência supõe verdadeiros os princípios morais da fé e da razão natural e aplica-os a um caso particular. Não julga de modo algum os princípios da lei natural ou divina, mas unicamente se o ato que vamos realizar se ajusta ou não àqueles princípios. Donde se segue que a consciência de modo nenhum é autônoma (como querem Kant e seus sequazes) e que é falsa aquela liberdade de consciência proclamada por muitos racionalistas, que consideram a própria consciência como o árbitro supremo e independente do bem e do mal. [6]
Saiamos um pouco da teoria e sejamos práticos. O que isso significa de modo bem concreto?
Significa simplesmente que a Verdade não é uma ficção que nós inventamos, mas um dom que nós recebemos. Se Deus revelou e a Igreja ensina, na linha de uma tradição constante, o que é certo e errado, não resta ao ser humano outra alternativa senão submeter-se humildemente a essa verdade e procurar conformar a ela sua conduta. Nós não somos senhores do bem e do mal; a verdade não é relativa, como pregam muitos de nossos contemporâneos. O que é certo, é certo; o que é errado, é errado, independentemente do que achemos ou deixemos de achar.
Mas talvez estejamos excessivamente apegados ao nosso pecado. Quando as pessoas repetem muitas vezes um ato mau, pouco a pouco vão perdendo a noção da gravidade do que fazem, podendo até mesmo achar que aquilo que as está destruindo, na verdade, é um bem. Assim o dependente químico com as drogas; assim o jovem obstinado na masturbação e na pornografia, ou no sexo desregrado; assim o marido infiel; assim o ladrão que não se arrepende do que faz etc. É o fenômeno da chamada “consciência culpavelmente errônea”:
A consciência, como juízo último concreto, compromete a sua dignidade quando é culpavelmente errônea, ou seja, quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem, e quando a consciência se torna quase cega em consequência do hábito ao pecado. Jesus alude aos perigos da deformação da consciência, quando admoesta: “A lâmpada do corpo é o olho; se o teu olho estiver são, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, o teu olho for mau, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas!” (Mt 6, 22-23).
Nas palavras de Jesus agora referidas, encontramos também o apelo para formar a consciência, fazendo-a objeto de contínua conversão à verdade e ao bem. Análoga é a exortação do Apóstolo a não se conformar com a mentalidade deste mundo, mas a transformar-se pela renovação da própria mente (cf. Rm 12, 2). Na verdade, o “coração” convertido ao Senhor e ao amor do bem é a fonte dos juízos verdadeiros da consciência. [7]
A consciência deve ser, portanto, um “santuário” onde o ser humano “se encontra a sós com Deus” [8], não uma rave onde dá ouvidos tão-somente a suas paixões desordenadas. Só pode reclamar o direito de seguir a própria consciência quem primeiro se submeteu ao dever de formá-la retamente, de acordo com os Mandamentos, com a verdade divinamente revelada, com a doutrina moral da Santa Igreja. Caso contrário, o “argumento” da consciência não passará de uma desculpa esfarrapada para satisfazer caprichos e desejos irracionais.

Consequências práticas do abandono da moral católica

Vejam-se, por exemplo, todas as tentativas recentes de minar a doutrina católica tradicional com a velha “moral de situação”.
A Igreja sempre ensinou que, quando uma pessoa comete consciente e deliberadamente — isto é, “sabendo e querendo” [9] — um pecado de matéria grave, ela perde a graça de Deus, só a recuperando, via de regra, pelo sacramento da Penitência. É o pecado mortal, que mata a vida sobrenatural na alma.
Assim, um casal de namorados que tem relações sexuais fora do casamento, se deseja aproximar-se da mesa da Comunhão, precisa arrepender-se de tal pecado, fazer o propósito de nunca mais o cometer e confessar-se primeiro a um sacerdote; um esposo infiel, se deseja salvar-se, precisa romper seus casos extraconjugais e fazer penitência por sua infidelidade; saindo do sexto para o quinto Mandamento, uma mãe que tenha praticado um aborto só pode voltar a receber os sacramentos se trilhar, também ela, o caminho da conversão. Foi assim que a Igreja sempre e em todos os lugares creu e ensinou, mantendo-se fiel ao Evangelho.
Hoje, ao contrário, há uma tendência generalizada a relativizar o mal, diminuir a gravidade do pecado, em um discurso mais parecido com as máximas do mundo que com a verdadeira doutrina do Evangelho.
A grande tragédia dessa verdadeira “mudança de rota” é que ela simplesmente frustra toda a possibilidade de as pessoas terem uma vida espiritual, uma relação de amizade e intimidade com Deus. Ao invés de reconhecer o próprio pecado, arrepender-se e confessá-lo, o que se busca é apelar a toda sorte de “argumentos” para justificá-lo: o ladrão que rouba pode não estar em pecado mortal, dizem; o marido que não é fiel à esposa pode não estar em pecado mortal; o jovem que se masturba ou tem relações com a namorada pode não estar em pecado mortal… Talvez em um futuro não muito distante certos teólogos cheguem a descobrir que a humanidade inteira foi concebida sem pecado original!
Ora, não seria muito mais fácil, mais simples, mais condizente com o que diz Nosso Senhor nos Evangelhos que ensinássemos às pessoas o que elas devem e o que não devem fazer, sabendo que contam com a graça de Deus para realizá-lo, e reforçássemos a importância dos sacramentos para recuperar a graça de Deus? Que parássemos de inventar todo tipo de pretextos para continuarmos a viver em pecado?
O que nossa época precisa é de menos “argumentações” e mais obediência, mais arrependimento, mais humildade. Quem seríamos nós, por exemplo, na parábola do fariseu e o publicano (cf. Lc 18, 9-14)? Queremos defender-nos diante de Deus, arrumando toda sorte de justificativas para viver no pecado, ou reconheceremos humildemente nossas faltas diante dEle, pedindo perdão por nossas culpas e fazendo o firme propósito de não mais incorrer nelas?
É hora de renunciarmos de vez ao pecado e às “estruturas de pecado” que infelizmente se têm montado dentro de nossas próprias casas. Ouçamos as duras, porém libertadoras, palavras de Cristo ecoando através dos séculos: “Não é possível servir a dois senhores” (Mt 6, 24). Não é possível estar ao mesmo tempo na graça de Deus e no pecado mortal. Não é possível ser ao mesmo tempo amigo de Deus e amigo do mundo (cf. Tg 4, 4). Não é possível acender uma vela para Deus e outra para o diabo.
Procuremos, pois, a salvação com sinceridade e humildade, bem como o perdão de nossos pecados. “Se dissermos que não temos pecado, estamos enganando a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos nossos pecados, então Deus se mostra fiel e justo, para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1, 8-9).

Referências

  1. National Catholic Register, 18 de setembro de 1968, p. 7, apudMichael T. Davies, O Concílio de João XXIII. Trad. port. de Fabiano Rollim. Niterói: Permanência, 2018, p. 70.
  2. Michael T. Davies, op. cit., Niterói: Permanência, 2018, p. 70.
  3. Papa Paulo VI, Carta Encíclica Humanae Vitae (25 de julho de 1968), n. 10.
  4. Ibid., n. 28.
  5. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 34.
  6. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, 4.ª ed., Madri: BAC, 1973, p. 130.
  7. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 63-64.
  8. Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965), n. 16.
  9. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 70.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

UMA MENSAGEM DE PODER TRANSFORMADOR

“A Palavra de Deus é (...) capaz de dar provas de autenticidade pelo seu poder transformador que opera uma invasão de amor, unidade, paz, compreensão mútua e liberdade, onde havia antes preconceito, conflito, ódio, divisão e ganância.

A mensagem da Bíblia consiste, então, em que, na plena confusão do mundo do homem com suas divisões e seus ódios, penetrou uma mensagem de poder transformador e aqueles que nela creem haverão de experimentar e reconhecer em si o amor que opera a reconciliação e a paz no mundo.”

(Vega, 1975) pág. 11

TORNAR A PECAR MORTALMENTE! DIFICULTOSO É O REMÉDIO PARA O PECADO NAS PESSOAS ESPIRITUAIS


O pecado nas pessoas espirituais é gravíssimo!
Depois de uma confissão geral…
Depois de frequentar muito a oração e os sacramentos…
Depois de muitas instruções, desenganos e conselhos…
Depois de muitas luzes e benefícios divinos…
Tornar a cair em algum pecado mortal, de propósito e com plena advertência, este pecado, meus irmãos, é gravíssimo e de todos o mais agravante, o seu perdão é moralmente impossível!
O perdão deste pecado é mais dificultoso do que o de cem mil pecados mortais na primeira confissão geral!! Não vos admireis desta doutrina, nem vos pareça rigorosa, porque é de Jesus Cristo e do Apóstolo.
Que diz Jesus Cristo? Falando de uma pessoa espiritual, diz:
“Se os meus inimigos me ofendessem, alguma razão teria de os sofrer; porém que me ofendas tu, que professas estar unido comigo por espírito! Tu, que me conheces com a luz da fé; Tu, a quem sustento à minha mesa com a doce iguaria do sacramento; eis o que mais agrava a tua culpa e provoca a minha justiça. E é o que não posso sofrer”.
E o que diz mais?
“Quem lança mão não arado, e torna a olhar para trás, não é apto para o Reino de Deus”.
Logo perde-se. E o que diz o Apóstolo, falando também das pessoas espirituais?
Diz ele:
“Aqueles que uma vez já foram alumiados, e provaram a doçura dos dons de Deus, participando do Espírito Santo, e provando a suavidade das virtudes, e contudo tornaram a cair, é impossível que outra vez se renovem com a verdadeira penitência”!!
“É impossível”, quer dizer, é moralmente impossível, isto é, muito e muito dificultoso!!
Muitos santos venera a Santa Igreja, que primeiro foram pecadores e bem escandalosos; mas depois de convertidos, quantos tornaram a se desconverter? Poucos haveis de citar.
Agora, tudo são conversões e confissões gerais pelas missões, na quaresma…; e daqui por um ano, ou ainda menos, tudo serão pessoas desconvertidas e ainda mais obstinadas. Ó almas infelizes, que assim o tendes experimentado, ou se assim vos acontecer, desenganai-vos, a vossa salvação é moralmente impossível, diz o Apóstolo; é muito e muito dificultosa!!
Uma culpa em uma pessoa espiritual é a mais agravante e abominável, porque esta pessoa devia amar e honrar a Deus mais que as outras pessoas; porque Deus mais que outras a tinha já honrado e amado. Ó quantas vezes Deus já a teria visitado pela sagrada comunhão, e posto à sua mesa! Que graças lhe teria dado, e que benefícios lhe teria concedido! O Padre Eterno a tratava por sua filha; o Divino Verbo por sua esposa; O Divino Espírito Santo habitava nela; finalmente, ela era um santuário de Deus vivo.
Mas que mudança a mais fatal! Tornou a pecar mortalmente; crucificou de novo a Jesus Cristo seu Divino esposo, que tanto a amava; é outra vez com o demônio, é mesmo a casa dos demônios, e anda em guerra com o mesmo Cristo! Que ingratidão a mais feia! Que sentidas lágrimas não deve chorar esta alma pecadora por ter perdido a joia da divina graça, e a amizade do seu Deus; por se ver outra vez com o demônio, e os seus trabalhos todos perdidos!!
Isto mesmo aconteceu ao Rei David; porém depois as suas lágrimas lhe serviam de pão de dia e de noite; e falando com a sua alma, dizia: “Aonde está o teu Deus? Alma minha, aonde está o teu Deus?”
E vós, ó almas infelizes, vós que já fostes justas, mas agora andais outra vez com o demônio, que me dizeis? Onde está o vosso Deus? Ai que fugiu de vós; fugiu do vosso coração para dar lugar ao demônio! Deus já não é convosco, porque vós já sois com o demônio!
Onde estão as vossas boas obras? Perdeste tudo, as vossas confissões, as vossas comunhões, as vossas orações, missas, esmolas, penitências, merecimentos, alegrias, consolações do céu, perdeste tudo; o demônio, que entrou na vossa alma quando caístes no pecado, matou a mesma alma, e roubou-lhe tudo; tudo quanto tínheis lucrado talvez em vinte, trinta ou mais anos!!
E agora que remédio? Que o diga o Apóstolo; “é moralmente impossível.” E na verdade quem dará tempo para lucrar outra tanta riqueza espiritual? Desenganai-vos, meus irmãos; andar a coxear na vida espiritual, ora na graça, ora no pecado; hoje com Deus, amanhã com o demônio; esta vida é vida de condenados e o caminho do inferno!!
É para Deus, e para sempre; eu antes quero absolver na primeira confissão geral trinta milheiros de pecados mortais, do que depois um só cometido de propósito, e com plena advertência. Tais pecados em pessoas espirituais não se perdoam sem muitas penitencias e grandes arrependimentos; para assim dizer é necessário um fervor extraordinário para recuperar o que está perdido, e também desagravar sua Majestade Divina tão enormemente ofendida.
Portanto, temei e tremei vós, ó almas justas, não torneis a cair, porque depois com dificuldade se dá o remédio, e é moralmente impossível.
Padre Manoel José Gonçalves Couto, no livro “Missão Abreviada”.

MARAVILHAR-SE COM DEUS

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OS SALMOS, NOSSO ESPELHO-3

MARAVILHAR-SE COM DEUS

― Vinde e, prostrados, adoremos diante do Senhor que nos criou, pois Ele é o nosso Deus (Salmo 95, 6-7)

― Feliz o povo que te aclama e caminha, Senhor, ao fulgor do teu rosto. Em teu Nome se alegrarão todos os dias (Salmo89, 16-17). 

Muitos textos da Sagrada Escritura falam da alegria, o júbilo, de adorar a Deus. Que, nunca sentiu essa alegria é que não captou a beleza de seu “rosto”.

Acolhamos a pergunta – e a resposta – do Papa Francisco, em 14 de abril de 2013: «Você e eu adoramos o Senhor? … O que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas …, e dar-lhe o lugar que Ele deve ter».

Acreditamos em Deus, mas não ficamos assombrados porque Ele existe, não irradiamos a felicidade por tê-lo junto de nós, na nossa alma (a Trindade na alma em graça do cristão!). É incrível…!

Melhor…, é crível. Porque o conhecemos pouco, porque não o “descobrimos” ainda, porque fazemos teorias em vez de deixar-nos inundar por sua Luz e por seu Amor, porque ignoramos o que é ter intimidade com Ele.

«A adoração é o primeiro ato da virtude da religião. Adorar a Deus é reconhecê-lo como Deus…». Assim começa a falar da adoração o Catecismo (n. 2096).

Vamos, então. Procure-o com todo o coração. Leia e medite a Bíblia, sobretudo os Evangelhos. Reze, ainda que ache que o faz sem fé e que não sente nada… Peça a fé, como os Apóstolos – Aumenta-nos a fé! E nunca esqueça o que Cristo disse na Última Ceia: Quem me vê, vê o Pai – vê Deus (João, 14,9).

Quem procurou Deus com todo o coração, compreende o que a bem-aventurada Isabel da Trindade anotava no seu último retiro: «A adoração! Ah! É uma palavra do Céu. Parece-me que se poderia definir assim: o êxtase do amor. É o amor “esmagado” pela beleza, a força, a imensa grandeza de Deus, o Objeto amado».

Não demore em procurá-lo… Tomara que, mesmo que o faça com atraso, possa ter a felicidade de dizer como Santo Agostinho: «Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! (…). Chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste, e a tua luz afugentou a minha cegueira; exalaste o teu perfume e respirei, suspirei por ti; saboreei-te, e agora tenho fome e sede de ti; Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo da tua paz» 

(Confissões, Liv. 10, 27).

sábado, 15 de setembro de 2018

A dor da alma

LONELY MAN,BEACH

Se você tem ou conhece alguém que tenha depressão, é importante ler isso

Em alguma ocasião, alguém já recebeu um diagnóstico com a seguinte indicação: “Você tem andado muito deprimido; isto não tem nenhum remédio. Sugiro que você continue a viver e que resolva os seus problemas o mais rápido possível.”
Você pode imaginar as consequências que uma frase como esta causam na mente de uma pessoa que não consegue sair do fundo do poço onde ela se encontra?
Ao quebrar uma perna, ninguém iria recorrer ao vizinho para ver se ele a cura; procuraria um ortopedista. Em um caso como este, ninguém pode nos culpar por sermos tão distraídos, por não olharmos para o que estava no chão ou por não nos segurarmos bem ao descermos as escadas.
No geral, nós não pensamos assim. Se nós quebramos a nossa perna por uma distração nossa, o lógico seria nós mesmos solucionáramos o problema, uma vez que teríamos sido nós os responsáveis pelo que aconteceu.
Se no fim consultássemos um médico, ele não pediria que explicássemos as razões que causaram o erro que levou à quebra de nossos ossos, e também não nos recriminaria por nossa falta de atenção. Ele se limitaria a agir sobre o mal e procuraria maneiras de resolvê-lo da forma mais adequada e mais rápida possível.
Mas se o que se quebrou em pedaços foi a alma, qual o sentido de tudo isso? Podemos recorrer a qualquer um para consertá-la? Alguém iria nos culpar, mesmo sendo esta situação tão desconfortável?
Provavelmente nós próprios nos culparíamos por não termos sido mais prudentes, por termos permitido que muitos danos fossem causados dentro do nosso ser. Nós iríamos exigir muito de nós mesmos sem saber se é possível sairmos sozinhos desta situação.
A dor psíquica
Diante da doença física, nos preocupamos em cuidar dos doentes e fornecer todos os cuidados, mas quando o mal é psíquico e a dor é da alma, tudo muda radicalmente. Penso que a razão disso reside em não sabermos muito bem o que fazer, como agir, como ajudar o doente. Ninguém nos ensinou nada sobre os cuidados adequados para os problemas que nos fazem nos sentir tão mal emocionalmente. A dor da alma é extremamente intensa.
Ao mesmo tempo, ver alguém de quem gostamos desanimado ou deprimido, tão diferente de como ele se comportava antes, nos desconcerta e aumenta a nossa inquietação.
Isto faz com que, às vezes, as pessoas vivam com esse mal sem procurar pelas soluções externas, acreditando que elas devam agir sozinhas. Talvez pensem que é algo que não tem nenhum remédio, que é algo com o qual terão que aprender a conviver.
E não é assim. Não estou dizendo que há uma solução para todos os males psíquicos, mas também não há para todos os males físicos e isso não nos impede de procurar a ajuda de profissionais adequados.
Há uma série de alternativas para ajudar a encontrar um caminho mais saudável do que o do sofrimento. Quando a dor é da alma, também há ataduras e remédios; se você não os conhece, um profissional poderá lhe fornecer a resposta que você tanto precisa, e se este profissional não tem a resposta, procure outro. Se uma pessoa não pode resolver um problema, não significa que essa solução não exista; ela apenas não a conhece.
Persista até encontrar a solução para o seu problema, porque ela existe.

Filáucia: a mãe de todas as doenças espirituais

WOMAN,SAD,DEPRESSED


Entenda o que significa esta expressão e como a filáucia pode se tornar doentia

    É próprio do homem amar, como é próprio da luz iluminar. Essa verdade ressoa em nossos corações como algo evidente e, ao mesmo tempo, difícil de acreditar. Ao ouvi-la, sentimos um forte apelo para alçar voo na arriscada aventura de amar. Dentro de nós – melhor ainda, diante dos nossos olhos –, encontramos a evidência patente de nossa fragilidade: uma espécie de força que nos leva a chafurdar na lama. A grandeza de nosso chamado contrasta clamorosamente com a miséria de nossa situação.
    Desde os séculos mais remotos, a humanidade perplexa percebe essas duas tendências contraditórias, mas não consegue as explicar. Nós, cristãos, no entanto, aprendemos a origem dessa contradição por meio da única realidade que poderia esclarecê-la: a Revelação.
    A Revelação nos ensina: o homem é bom, mas está mal, ou seja, o homem não é uma doença, mas está doente. E seu estado de doença espiritual requer uma cura.
    Qual seria então a primeira consequência deste estado doentio? Qual é a mãe de todas as nossas doenças espirituais? Segundo os Santos Padres, especialmente São Máximo o Confessor (580-662), na raiz de todos os pecados está uma doença espiritual chamada filáucia.

    Significado da palavra filáucia

    De origem grega (philía + autós), a palavra filáucia designa o amor que uma pessoa tem por si mesma, o amor-próprio. A definição etimológica, no entanto, não é suficiente. Ao afirmarmos que a filáucia é sinônimo de amor-próprio, algumas pessoas poderiam ser induzidas a pensar erroneamente que se trata, necessariamente, de uma espécie de egoísmo, mas não é assim.
    O significado originário da palavra filáucia é positivo e trata-se de uma virtude. O amor-próprio não é uma invenção malévola do demônio ou do homem pecador. É isso mesmo: o amor-próprio foi criado por Deus e pertence à natureza sadia do homem, como Deus a sonhou.
    Por isso, não é de se espantar que o próprio Jesus (cf. Mt 22,37-39), depois de apresentar o mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas (cf. Dt 6,5), faça questão de acrescentar o preceito de amar ao próximo tendo como medida o amor por si mesmo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18).
    Ora, Nosso Senhor não canonizaria o egoísmo. É verdade que existe uma forma doentia de a pessoa amar a si mesma e é a respeito deste amor desordenado que trataremos neste capítulo. Antes de falarmos da doença do egoísmo, porém, precisamos reconhecer que existe uma forma sadia de o homem se amar.

    Filáucia virtuosa

    Como então funcionaria o coração de um homem sadio? Como é possível ter um amor-próprio adequado e belo? Antes de tudo, o que se deve constatar é que o amor de si não é o primeiro passo. Se pensarmos em nossa história pessoal, com sinceridade e profundidade, concordaremos com São João: antes de qualquer amor surgir em nosso coração, nós fomos amados (cf. 1Jo 4,10). Deus nos amou primeiro e o nosso amor será sempre uma resposta, um segundo passo. Disso se compreende por que, no coração de um homem sadio, não pode faltar essa resposta. O amor a Deus não é apenas uma das tantas qualidades do coração do homem: é a primeira e mais importante de todas as qualidades, pois é a primeira verdade que Deus revela a nosso respeito. Santo Agostinho (354-430) nos recorda que o ser do homem foi feito para responder ao amor de Deus, quando diz: “Senhor, fizestes-nos para vós e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em vós”.
    Por isso, amar a Deus não é um luxo, um acessório dispensável, mas a realização de nosso próprio ser. Assim como é natural que uma videira dê fruto ou que uma abelha produza mel, é natural que um homem saudável ame a Deus. O primeiro mandamento – “amar a Deus sobre todas as coisas […]” – não é uma exigência de um Deus ciumento e caprichoso. É o conselho de um Pai amoroso que nos ensina o caminho da felicidade.
    A consequência é lógica: se amarmos a Deus de todo o nosso coração, estaremos, de modo indireto, amando a nós mesmos, visto que não é possível uma pessoa amar a si mesma e odiar a fonte do seu próprio ser. Seria um contra-senso; uma atitude semelhante a meter a enxada nos próprios pés, ou cortar o galho sobre o qual se está sentado. Ao amar a Deus, a pessoa demonstra que ama a si mesma.

    Filáucia doente

    A partir desse quadro positivo, compreendemos o que há de errado conosco, uma vez que a doença é sempre a desordem de algo positivo, ou seja, uma disfunção do organismo saudável. É muito importante, ao longo de todo esse livro, nunca perdermos de vista o fato de que a doença é sempre uma perversão da saúde. Por trás do pecado sempre existe uma realidade positiva, um dom de Deus, que está sendo usado de forma prejudicial e destruidora. O mal é sempre a perversão de um bem.
    O diabo não tem o poder de criar. Ele sabe apenas arremedar o Deus Criador, e, ao perverter as coisas criadas, como uma espécie de “macaco de Deus”, imita grotescamente as obras de Nosso Senhor. O egoísmo, a filáucia doentia, é um arremedo da filáucia virtuosa.
    O livro do Gênesis nos recorda que, por sedução da serpente, o homem começa a amar a si mesmo de forma desordenada. “Sereis como Deus” – promete o pai da mentira. E a partir do momento em que o homem se deixa enganar por esta falsa promessa, ele entra numa rivalidade invejosa com Deus, como se Ele fosse um inimigo, o obstáculo para sua felicidade. Movido por este amor-próprio equivocado, o homem se revolta contra sua própria fonte. Começa a tratar Deus como seu inimigo e dele se esconde por trás dos arbustos (cf. Gn 3,8).
    São Máximo descreve a forma como a filáucia doentia afetou nossos primeiros pais. O homem volta suas costas para Deus, para sua luz, e mergulha na matéria em busca de uma felicidade sem Deus. O primeiro pai, Adão, cego por não ter dirigido o olhar para a luz divina com o olho da alma, afundando as duas mãos na lama da matéria, nas trevas de sua ignorância, voltou-se completamente para as coisas sensíveis e a elas se dedicou inteiramente.
    Trecho extraído do livro “Um olhar que cura“, de padre Paulo Ricardo, via Canção Nova

    Uma falsa noção de santidade

    SUNSET GIRL PRAYER

    "Àquela altura, eu quase pulei pra fora do carro em movimento. Nunca tinha ouvido narração tão macabra"

    Ope. José Eduardo de Oliveira se tornou especialmente conhecido no Brasil após defender com brilhantismo a vida do nascituro na audiência pública do Supremo Tribunal Federal a respeito da descriminalização do aborto no país (veja link recomendado ao final deste artigo).
    No último fim de semana, o sacerdote abordou outro tema, de grande importância espiritual, publicando em seu perfil no Facebook o seguinte texto sobre a noção de santidade:

    Uma falsa noção de santidade

    Certa vez, estava com um grupo, de carona num carro. De repente, um rapaz disparou a contar com euforia uma história; pelos modos e pela tonalidade, parecia algo maravilhoso, como um grande feito: “esses dias sonhei que estava casado e chegava com minha esposa para a lua-de-mel. Quando entramos no quarto, pensei comigo: ‘meu Deus!, eu vou perder no céu a coroa da castidade da qual falava Santo Afonso!’ Então, eu peguei uma faca e comecei a matá-la, mas com tanta, com tanta felicidade que eu acordei rindo! Nossa! Ainda bem que foi só um sonho”, e disparava a rir.
    Àquela altura, eu quase pulei pra fora do carro em movimento. Nunca tinha ouvido narração tão macabra, mas o que mais me impressionou foram as reações espontâneas de alegria. Tenho pra mim que aquela boa alma não se dava conta do disparate escandaloso que dizia e talvez hoje nem pense mais naquele assunto.
    Contudo, coisas do tipo acontecem com frequência. Um colega padre me disse que, quando precisa dar os avisos paroquiais no fim da missa, uma alma muito “devota” que está em ação de graças após a comunhão, costuma levantar a cabeça e fulminá-lo com um olhar de raiva. Decerto não entende a necessidade pastoral de dar um aviso antes que o povo se disperse e pensa apenas em sua própria edificação pessoal. Mas, sendo a Eucaristia o Sacramento da caridade, como se justifica que alguém possa querer fazer atos de amor a Cristo e lançar um olhar de ódio no mesmo instante? Há algo de errado nisso!
    Quando vejo pessoas maníacas por vasculhar pecados no lixo do passado ou inventar-se uma centena deles desde os últimos dias, é indissimulável que elas jamais conseguirão crescer no caminho de santidade antes de abaterem esse tipo de espiritualidade narcisista, em que o olhar do indivíduo está demasiadamente concentrado sobre si mesmo.
    É evidente que todos devemos lutar contra o pecado, mas isso em função de um bem infinitamente maior: desenvolvermos em nossa alma a fé, pela qual nos unimos a Jesus Cristo, a quem amamos, juntando, assim, à fé a caridade.
    Em alguns casos, a ênfase em limpar-se de pecados é similar à compulsão de algumas pessoas por lavar as mãos. O transtorno higiênico não é fruto de uma verdadeira sujeira, mas da sensação de sentir-se sujo e precisar lavar-se a cada cinco minutos. São casos psiquiátricos, tratados com medicação e psicoterapia.
    O mais habitual, porém, é a velha vaidade de quem se considera importante ao ficar verificando no espelho de suas próprias ações se usar uma camisa com a gola aberta seja pecado mortal ou se assistir um jogo da copa também o seja. O olhar permanece concentrado sobre o próprio eu, não há o sacrifício do amor próprio, o egoísmo ainda prevalece e, com ele, aquela trava que nos impede de crescer na contemplação.
    Frequentemente, essas pessoas começam a estudar tratados de mística e se embriagam com uma linguagem espiritual. Contudo, não praticam as virtudes verdadeiramente, não se mortificam com verdadeira humildade, não servem os outros com espírito de abnegação e, por isso, adquirem apenas uma santidade aparente, um disfarce de caridade sobre a bruteza dos próprios vícios não superados.
    Eles não entendem que moral, ascética e mística não são assuntos teóricos, em que basta ler alguns textos profundos para deslanchar na oração contemplativa. São práticos! É preciso viver e sofrer uma adaptação psicológica para que a mente seja suscetível à psicologia da graça. Isso demora, leva anos de perseverança, até que a fé desponte em nós e percebamos a ação divina movendo o nosso ser até assumi-lo por completo.
    Isso não depende tampouco de cumprirmos freneticamente uma agenda de práticas de devoção, se, com isso, queremos apenas nos “livrar” logo das obrigações contraídas com Deus. Também não se evapora numa espécie de recomendação genérica à oração, ao modo pietista, em que o empenho por rezar se perde num oceano de indefinições.
    É a junção da doutrina espiritual e da prática da mesma, numa mescla de oração mental e orações vocais, exames e leituras, realizados com humilde simplicidade, com perseverança heróica e paciente, com amor intenso à cruz, que vagarosamente nos vai levando à união divina, deixando para trás o nosso eu, como um barco que se afasta progressivamente do cais.
    A moral cristã não é como uma clínica de estética em que a pessoa vai para sentir-se mais bonita. Ao contrário, é o único meio para nos esvaziarmos de nós mesmos e nos enchermos da beleza de Deus, de sermos fascinados por ele.
    Do outro lado, porém, os pseudo-escrupulosos lêem tratados de moral como doentes mentais que se dedicam à leitura de bulas de psicotrópicos: além das próprias doenças, acabam desenvolvendo sintomas por puro reflexo; a criatividade do pecado se aguça e, porque não têm o devido preparo, acabam se tornando obsessivos e, pior!, acabam tornando outros vítimas de sua própria obsessão. Certa vez, um rapaz me disse que nunca teve problemas com a guarda da vista, até assistir uma aula de moral em que se detalhou de tal modo os problemas de castidade, que ele passou a ver o que não via e a pensar no que não pensava…
    A formação da consciência moral é arte muito delicada. Causa medo ver tanta gente enlouquecendo a si mesmo e aos outros por se comportarem como cirurgiões pelo único motivo de portarem um bisturi. Muita informação sem bom senso apenas é ferramenta de desorientação. De pouco vale muita lei sem prudência e muita mística sem ascética, é como entregar a constituição nas mãos de um juiz louco ou como tratar um canceroso com maquiagens.
    A preocupação obsessiva por apresentar listas exaustivamente minuciosas de pecados esconde, muitas vezes, um arrependimento pouco teologal. Em outras palavras, o remorso causado pelo orgulho ferido é muito diferente da contrição por ter ferido o amor divino fluente em nossa alma. Confessar-se para apenas declarar maus atos como quem passa por um pedágio para comungar é muito diferente de confessar-se para uma genuína e profunda conversão.
    Quantas pessoas pecam em previsão de uma confissão no dia seguinte? Quantos comungam prevendo o pecado que cometerão daqui a pouco? Quantos se confessam de picuinhas estúpidas e escondem faltas de caridade gigantescas, folga com as pessoas de sua casa, descuido por uma oração profunda e constante, vaidade imensamente manifestada na incapacidade de reconhecer os próprios erros, insensibilidade com quem sofre e verdadeiros e graves descuidos na castidade? Há muitas pessoas preocupadas com erudições morais e o que deveriam fazer é parar de ver pornografias e outros que sabem tudo sobre as “Moradas” e nem rezam direito o terço.
    O pior de todos os pecados capitais é a soberba, ao menos segundo as Sagradas Escrituras e a Doutrina da Igreja. Assim como as monjas de Port Royal, das quais se dizia que “eram puras como os anjos e soberbas como os demônios”, há muitos desses pseudo-escrupulosos cujo eu está entronizado devidamente no altar de sua própria devoção, como um bezerro de outro, como um ídolo que precisa ser pulverizado para tornar-se pó, terra, o húmus da humildade.
    Esses breves artigos sobre os pseudo-escrupulosos são uma tentativa de devolver o bom senso e aliviar a perturbação mental com a qual tantos têm sofrido. Nesses dias, uma pessoa escreveu-me em privado que a leitura de um desses textos impediu-a de suicidar-se por causa do desespero moral. É nesse nível que estamos! Isso não é uma brincadeira, não é um mero debate…
    Encerro essa série por aqui, lembrando a todos que o estudo da Teologia Moral é sempre muito salutar, desde que tenhamos equilíbrio psíquico e nos preparemos para ele conhecendo intimamente o Catecismo da Igreja, integralmente a filosofia e a teologia de São Tomás em sua inteireza, todos os documentos magisteriais, inclusive aqueles mais atuais, especialmente os sobre a doutrina moral e os que modificam leis eclesiásticas, sem descurar a própria metodologia prática dessa disciplina, pois uma coisa é estudar receitas de pão e outra, completamente diferente, trabalhar numa padaria.
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    Pe. José Eduardo de Oliveiravia Facebook