quarta-feira, 31 de outubro de 2018

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO 8 – COMO A CRIANÇA NO COLO DA MÃE

 Senhor, meu coração não se orgulha e meu olhar não é soberbo… Eu me acalmo e tranquilizo como criança desmamada no colo da mãe, como uma criancinha é a minha alma (Salmo 131,1-2).
  • Ao escrever essas palavras, o salmista sente-se em paz, porque confia no amor de Deus como um bebê que adormece aconchegado pelo carinho da mãe. E nós igualmente podemos confiar tanto ou mais do que ele, porque Deus nos prometeu um amor maior que o de todas as mães:
─ Ainda que o pai e a mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá (Salmo 27,10).
─ Sobre os joelhos sereis acariciados. Qual mãe que acaricia os filhos assim vou dar-vos meu carinho (Is 66,12-13).
  • Essa promessa de amor, Deus levou-a ao cume com a vinda de Cristo:
─ Vede com que amor nos amou o Pai, ao querer que fôssemos chamados filhos de Deus. E nós o somos! ( 1 Jo 3,1).
─ Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como é que, com ele, não nos dará tudo?(Rm 8,31-32).
Seremos bons cristãos na medida em que a nossa alma ficar impregnada do sentido da nossa filiação divina: de um amor filial a Deus, confiante, abandonado e agradecido, capaz de exclamar em todo momento, como São João: Nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele! (1 Jo 4,16).
A melhor maneira de viver esse amor filial é esforçar-nos por pensar, sentir e agir como filhos muito amados (Ef 5,1); melhor ainda se nos relacionamos com Deus como filhos pequenos, como crianças simples e humildes, que acreditam no carinho inabalável do Pai (pense no pai do filho pródigo); que confiam nele e se deixam querer; e que, por isso mesmo, se deixam cuidar e guiar pelo Pai com alegria.
Certa vez os discípulos perguntaram a Jesus: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” O Senhor deu-lhes a resposta com um gesto e umas palavras: Jesus chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes e tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus (Mt 18, 1-4).
Isso é poesia? Não. «Não é ingenuidade, mas forte e sólida vida cristã»[1], que só podemos viver se nos deixamos conduzir pelo Espírito Santo, como diz São Paulo (Rm 8,14).
Grandes santos aprofundaram maravilhosamente nesse espírito de infância espiritual. Este foi o pequeno caminho que Deus inspirou a Santa Teresinha e que tem suscitado tantos frutos na Igreja. É também um caminho feliz pelo qual Deus guiou São Josemaria até as alturas de santidade no meio das trabalhos e deveres cotidianos.
Penso que, para esta meditação, poderão ajudar-nos alguns traços do espírito de infância que São Josemaria praticou e ensinou. São os que pessoalmente eu pude contemplar nele, e entendi que eram lições que convinha guardar. Vamos, pois, ver um pequeno caleidoscópio dessas luzes da infância espiritual.
─ Pedir a lua. «Ser pequeno. As grandes audácias são sempre das crianças. – Quem pede a lua?…»[2]. A alma de criança sabe sonhar, sabe pedir a lua  e as estrelas. Por outras palavras, o filho de Deus que se faz criança diante de Nosso Senhor sabe ter sempre grandes metas e grandes ideais, e não desiste delas por se ver pequeno e incapaz. Nunca se sente fracassado. Você já imaginou uma coisa mais ridícula que um garotinho dizendo “eu sou um fracassado”?
─ Bater à porta. «Perseverar. – Uma criança que bate à uma porta, bate uma e duas vezes, e muitas vezes…, com força e demoradamente, sem se envergonhar! E quem vai abrir, ofendido, é desarmado pela simplicidade da criaturinha inoportuna… – Assim tu com Deus». Se formos humildes, confiantes e agradecidos, saberemos pedir e obter o que precisamos sem cansar-nos, tal como Jesus nos ensinou: Convém orar sempre e não desfalecer…Se vós, maus como sois, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lhe pedem (Lc  11,13 e 18,1).
─ Subir a escada. Uma comparação de que Santa Teresinha gostava, e que São Josemaria explanava poeticamente: «Manifestemos a Jesus que somos crianças. E as crianças, as crianças pequeninas e simples, quanto não sofrem para subir um degrau! Parece que estão ali perdendo o tempo. Finalmente, subiram. Agora, outro degrau. Com as mãos e os pés, e com o impulso de todo o corpo, conseguem um novo triunfo: mais um degrau. E volta a começar. Que esforços! Já faltam poucos…, mas então um tropeção… e zás!… lá em baixo. Toda machucada, inundada de lágrimas, a pobre criança começa, recomeça a subida.
»Assim nós, Jesus, quando estamos sós. Toma-nos Tu em teus braços amáveis, como um Amigo grande e bom da criança simples; não nos soltes até que estejamos lá em cima; e então – oh, então! – saberemos corresponder ao teu Amor Misericordioso, com audácias infantis, dizendo-te, doce Senhor, que, a não ser Maria e José, não houve nem haverá mortal algum – e os tem havido muito loucos –- que te ame como eu te amo»[3].
─ Escrever juntos. «Quando queres fazer as coisas bem, muito bem, é que as fazes pior. – Humilha-te diante de Jesus, dizendo-lhe: – Viste como faço tudo mal? Pois olha: se não me ajudas muito, ainda farei pior! – »Tem compaixão do teu menino; olha que quero escrever todos os dias uma página grande no livro da minha vida… Mas sou tão rude!, que se o Mestre não me pega na mão, em vez de letras esbeltas, saem da minha pena coisas tortas e borrões, que não se podem mostrar a ninguém. – »De agora em diante, Jesus, escreveremos sempre juntos os dois»[4].
─ Crianças de borracha. «Se bem repararmos, existe uma grande diferença entre uma criança e uma pessoa mais velha, quando caem. Para as crianças, a queda geralmente não tem importância: tropeçam com tanta frequência! E, se por acaso lhes escapam umas lágrimas grandes, o pai explica-lhes; os homens não choram. Assim se encerra o incidente, com o garoto empenhado em contentar o pai…
»Na vida interior, a todos nos convém ser quasi modo geniti infantes, como crianças recém-nascidas, como esses pequeninos que parecem de borracha, que até se divertem com os seus tombos, porque logo se põe de pé e continuam com as suas correrias; e porque também não lhes falta – quando necessário – o consolo de seus pais.
»Se procurarmos comportar-nos como eles, os tropeções e os fracassos na vida interior – alias, inevitáveis – nunca desembocarão na amargura. Reagiremos com dor, mas sem desânimo e com um sorriso que brota, como água límpida, da alegria da nossa condição de filhos desse Amor, dessa grandeza, dessa sabedoria infinita, dessa misericórdia que é o nosso Pai»[5].
─ A sabedoria dos pequeninos. Há umas palavras de Jesus que tocam o coração: Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes as pequeninos! Quantas vezes pessoas simples, velhinhas fiéis e devotas que mal sabem ler, entendem mais das grandezas de Deus do que alguns teólogos sem fé e amor.
«Há um saber – dizia São Josemaria –a que só se chega com santidade: e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso… É um sentido sobrenatural que não raramente falta nas disquisições arrogantes de pretensos sábios: Extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato (Rm 1,21-22). Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos»[6].
─ Entre os braços da Mãe. «Não estás só… – Não sentes na tua mão, pobre criança, a mão de tua Mãe: é verdade. – Mas… não tens visto as mães da terra, de braços estendidos, seguirem os seus meninos quando se aventuram, temerosos, a dar os primeiros passos sem ajuda de ninguém? – Não estás só; Maria está junto de ti»[7].
[rascunhos de um livro em elaboração]

[1] Cf. São Josemaria Escrivá, Caminho, nn. 852-853
[2] Caminho, n. 857
[3] São Josemaria, Forja n. 346
[4] Caminho n. 882
[5] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 146
[6] Idem, En diálogo con el Señor, pág.
[7] Caminho, n. 900

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO – SE O SENHOR NÃO EDIFICA A CASA…


─ Se o Senhor não edificar a casa, é inútil que trabalhem os que a constroem. Se o Senhor não guarda a cidade, em vão vigia a sentinela(Salmo 127,1).
─ Porque tu és, ó Deus, a minha fortaleza (Salmo 43,2). 
Esses dois versículos são um facho de luz. Eles nos transmitem uma verdade fundamental, que todos os santos compreenderam e experimentaram.  Sem a graça de Deus, não podemos conseguir nenhum bem sobrenatural, nada que tenha valor cristão.
São Paulo, depois da conversão, olhava para trás e considerava que, antes de que Cristo o conquistasse, ele era como um aborto, pois nem “vivia”, não tinha renascido ainda  pelo batismo (cf. 1 Cor 15,8).
Uma vez convertido, pelo contrário exclamava: Para mim o viver é Cristo! Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim! (cf. Fl 1,21 e Gl 2,).
Firme nessa convicção, dava graças Deus com umas belas palavras que talvez alguns não entendam bem (1 Cor 15,8-10).  Falava aos fiéis de Corinto das aparições de Jesus ressuscitado, e dizia: Por último, apareceu também a mim, que sou como um aborto. Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem mereço o nome de apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. É pela graça de Deus que sou o que sou.
É um grande ato de humildade. Mas logo depois dessa confissão humilde, acrescenta: E a graça que Deus reservou para mim não foi estéril; a prova disso é que tenho trabalhado mais do que todos eles.
Como se entende isso? Não é vanglória? Diz que é o menor dos apóstolos e, ao mesmo tempo, afirma ter trabalhado mais do que todos eles.
Não há contradição. Tão humilde é essa segunda afirmação como a primeira, por duas razões: primeiro, porque a humildade é a verdade, e Deus se serviu de Paulo para converter milhares de almas em muitos lugares; depois porque reconhece que foi Deus quem lhe concedeu essa eficácia assombrosa: Tenho trabalhado mais do que todos eles, não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo.
Assim, ele nos ensina que, na vida cristã, deve haver sempre uma “simbiose” de suas virtudes:
─ Humildade. “Eu, só com minhas forças, sem a graça de Deus, nada conseguirei”
─ Confiança.”Com a graça, meu nada poderá tudo”.
Humildade e confiança. Humildade e coração grande, cheio de esperança.
Depois disso, pense um pouco e verá que o que esteriliza a nossa vida de filhos de Deus é a autossuficiência arrogante: “Com a minha cabeça, com os meus planos, com a minha força de vontade, com o meu esforço, eu vou conseguir …”. Esquecemos que Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes (1 Pdr 5,5).
São Paulo, antes de ser conquistado por Cristo (Fl 3,12) experimentou o sofrimento da alma privada da graça divina: Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero… Infeliz que eu sou! Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor! (Rm 7, 19.24-25).
Depois de se ter revestido de Cristo, pelo batismo, e de ter recebido o Espírito Santo, a perspectiva mudou cento e oitenta graus: Posso tudo naquele que ma dá forças (Fl 4, 13).
Quando captamos pela fé essas verdades, Deus cria em nós as “asas” de duas certezas indiscutíveis:
1ª) Sem estarmos unidos a Deus, sem recorrer às fontes da graça ( os Sacramentos, a oração, a mortificação, as virtudes…), a nossa vida cristã é um baldio estéril. Sem mim, nada podeis fazer, disse Jesus depois de se ter comparando a si mesmo com o pé da videira, que envia aos ramos a seiva que lhes dá vida e fruto (Jo 15, 1-8).
2ª) Contando com a “seiva” divina, isto é, com a graça, você nunca pode cair no pessimismo. Jamais deve admitir pensamentos como estes: “não consigo”, “não posso”, “já tentei”, “caio nos mesmo pecados uma e outra vez”, “mesmo que me confesse vinte vezes não me corrijo”, etc.
Confie! Ponha todo o seu esforço e boa vontade nas mãos de Jesus, e não renuncie a alcançar as virtudes, mesmo que demore anos e anos. Com a esperança em Deus, nunca pare de correr em direção à meta da santidade. Tudo poderá  naquele que nos dá forças (Fl 3,13-14 e 4,13).
«Não desanimes, escreve o Papa Francisco, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: “Senhor, sou um miserável! Mas vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor”. Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade» (Exortação apostólica Gaudete et exsultate, n. 13).
─ O Senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos. 

Os olhos de todos em ti esperam (Salmo 145,14-15).

NOSSO EGOCENTRISMO

“A frutificação da nossa vida depende, em grande parte, da habilidade em duvidar das nossas próprias palavras e em desconfiar do valor do nosso trabalho. O homem que confia inteiramente no conceito em que se tem é condenado à esterilidade. Só uma coisa ele exige a uma ação, que seja feita por ele. Se é ele quem a pratica, deve ser boa. Suas palavras devem ser infalíveis. O carro que acabou de comprar é o melhor desse preço. E isso exclusivamente porque foi ele quem o comprou. Não querendo outros frutos, ele não obtém geralmente senão estes.”

Homem algum é uma ilha
(Agir 6ªEd. 1976) pág. 116

A SEMPRE REPETIDA MESMIDADE

“Aqui devemos fazer uma pequena pausa para considerar a diferença entre uma visão secular e uma visão sagrada da vida. A expressão ‘o mundo’ é talvez muito vaga. Não se refere simplesmente a ‘tudo que está em torno de nós’ ou ao universo criado. O universo não é mau, é bom. O ‘mundo’, no mau sentido, certamente não é o cosmos, embora escritos de alguns autores cristãos neoplatônicos surgiram este significado para expressão. Para eles saeculorum é o que é temporal, o que muda, da volta e retorna ao ponto de partida. Isso se deve a influências gnósticas e platônicas que se infiltraram no cristianismo, persuadindo os homens de que o universo é regido por anjos mais ou menos caídos (‘as potências dos ares’). Nosso adjetivo ‘secular’ é proveniente do latim saeculum, que significa tanto ‘mundo’ quanto ‘século’. A etimologia da palavra é incerta. Talvez esteja relacionada ao grego kuklon, ‘roda’, do qual tiramos ‘ciclo’. Portanto, originariamente, o ‘secular’ era o que percorre, interminavelmente ciclos sempre recorrentes. Isto é o que faz ‘a sociedade mundana’ cujos horizontes são de uma sempre repetida mesmidade:
               Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O Sol se levanta, o Sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas (...) o que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do Sol! (...) Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. (Ecl 1).”

(Martins Fontes, 2007) Pág. 72

sábado, 27 de outubro de 2018

A lista dos pecados – Seriedade do segredo de Confissão



Naquele tempo em que não se podia fazer a Primeira Comunhão antes dos 10 anos,  um  rapazinho  chamado  Pedro  ia confessar-se a fim  de  se  preparar  para   o primeiro  encontro  com  Jesus  na  Eucaristia. Era também  o  dia  da  sua  primeira Confissão. Fez o exame de consciência, e para não esquecer nenhum pecado, escreveu-os  todos num papel, cuidadosamente.
Era uma lista comprida que aumentava com qualquer nova falta que lhe viesse ao pensamento.
“Roubei duas maçãs no mercado… Puxei pelo rabo o gato da professora… Bati na cabeça do irmãozinho Luiz e ele se pôs a chorar…Coloquei uma rã na cama da minha irmã Margarida… Joguei tinta na pia de água benta e ri quando as pessoas manchavam a testa ao fazer o sinal da cruz…Tirei os ovos do ninho dos pardais…Chamei os colegas por nomes feios e… e…”
— Você não acaba mais com esse exame de consciência? – perguntou a mãe.
— Sim – respondeu Pedro. Já estão escritos todos os pecados.
— Muito bem, filho!  Agora é preciso você confessar tudo sem esconder nada, arrepender-se e fazer o propósito de emendar-se dessas faltas. Entendeu ?
— Sim, mãe. Entendi.
E  lá foi  o menino para a igreja, junto com outros que também  iam fazer a Primeira Comunhão. No confessionário o miúdo leu a lista completa, muito sério. O senhor padre ouviu-o com paternalidade. E tinha o lenço diante do rosto. O pequenito pensava  que ele  chorava pelos seus  pecados, mas parece que estava rindo. Quando Pedro acabou a Confissão o sacerdote murmurou:
– Que lista tão completa!  Meu filho, você não quer mais tornar a pecar?
— Não, senhor padre. Nunca mais!
Depois de alguns conselhos, o bondoso sacerdote concluiu:
— Muito bem!  Por penitência reze três Pai-Nosso ao Coração de Jesus e três Ave-Maria ao Coração de Maria. E agora reze o Ato de Contrição.
E deu-lhe  a absolvição. Pedrito saiu do confessionário, rezou piedosamente a penitência no banco e foi para casa muito contente.
Era quinta-feira, e o dia da Primeira Eucaristia seria na Missa das 8 horas de Domingo.
Ao chegar na manhã seguinte à escola, já no portão os colegas começaram a escarnecer (debochar) dele  maliciosamente:
— Olha aquele que puxou pelo rabo o gato da senhora professora! – exclamou a Luísa.
— É aquele que pôs a tinta na pia da água-benta! – ajuntou o Frederico.
— Ele roubou os ovos dos ninhos dos pardais! – declarou o Gonçalo.
— E a rã que escondeu na cama da irmã dele! – Riu-se o Carlito.
— Caramba, será que o padre contou os meus pecados para eles? – pensou o pequeno, enquanto olhava para o Pároco que chegava para a aula de Religião.
Quando entraram todos para a sala de aula, levantando-se da carteira, Pedrinho tomou coragem e perguntou:
— Padre, o senhor contou os meus pecados aos outros?
— Não, meu filho. De jeito  nenhum. Que tal coisa nem passe pela sua cabeça. Você não sabe que nem eu, e nenhum outro padre, pode dizer qualquer pecado ouvido na Confissão? Por que você está me perguntando tal absurdo?
— É que os  meus colegas  estão  falando  dos  pecados  que  confessei ontem para o senhor.
— Que coisa mais rara! – exclamou o sacerdote.
E dirigindo-se aos alunos, perguntou muito sério:
— Como é que vocês souberam dos pecados do Pedro?
— É que a Luísa encontrou na  igreja o papel em que  ele  tinha escrito os pecados! – exclamou a menina Rosa.
— Ó Luísa, foi você que encontrou o papel do exame de consciência dele? – perguntou o Padre com severidade.
— Sim, fui eu, senhor padre. Desculpa! – respondeu timidamente a pequena.
— Você nem devia ter lido o que estava escrito no papel. E devia ter rasgado ou entregado ao Pedro, sem dizer nada!
A menina Luísa baixou envergonhada a cabeça, consciente de sua culpa.
— Meus meninos – continuou o sacerdote – a Confissão é coisa muito séria. O padre está obrigado ao mais absoluto segredo. Se dissesse o nome da pessoa e qualquer dos seus pecados, cometeria um pecado tão grave que só o Papa o poderia absolver. E quem ouvir  qualquer  pecado, confessado  pelos  outros, também  tem  obrigação  de  se calar.
Reinava profundo silêncio na sala.
— E você, Pedro, não volte a  pensar que um sacerdote seja capaz de faltar ao segredo a que está obrigado. Se quiser pode escrever os pecados num papel e entregá-lo ao confessor.  Como também  pode  ler  diante  dele. No fim  da Confissão  rasga-se ou queima-se  imediatamente o papel. E  assim fica  o  segredo  entre  o  penitente  e Deus Nosso Senhor.
Pe. Fernando Leite, S.J.
Revista Cruzada – Braga – Portugal

A confissão tira e sara toda fealdade e podridão do pecado


Sim, tantos encantos tem a confissão e tantos perfumes exala para o céu e a terra que tira e sara toda fealdade e podridão do pecado. Simão, o leproso, dizia que Madalena era uma pecadora; mas Nosso Senhor dizia que não, e já só falava do perfume que ela tinha espalhado por toda a sala do fariseu e já só considerava o seu imenso amor. Se somos verdadeiramente humildes, nossos pecados forçosamente nos desagradarão muitíssimo, porque são ofensas a Deus; ao contrário, a confissão de nossos pecados se tornará suave e consoladora, pela honra que com isso damos a Deus. É um consolo semelhante ao do doente que revela ao médico tudo o que sente. Estando ajoelhado aos pés do teu pai espiritual, pensa que estás no Calvário. Aos pés de Jesus crucifica-  do, e que seu sangue precioso se derrama de suas feridas e, caindo tua alma, a lava de suas iniquidades; que é, na verdade, a aplicação dos merecimentos do sangue de Cristo derramado na cruz que significa os penitentes. Manifesta, pois, inteiramente o teu coração ao confessor, para que o alivie dos teus pecados, e o encherás ao mesmo tempo de bênçãos pelos merecimentos da Paixão de Jesus. E, além disso, praticarás nesse ato a humildade, a obediência, a simplicidade e o amor de Deus — numa palavra: mais virtudes que em nenhum outro ato de religião.
Fonte: A arte de se aproveitar das próprias faltas segundo São Francisco de Sales. Pe. José Tissot. Editora Vozes LTDA, 1964. Petrópolis, RJ.


O pecado, convertido em confissão e penitência, traz-nos a saúde



O escorpião é venenoso; mas, se o reduzirmos a óleo, esse óleo é um antídoto eficaz contra a própria mordedura; o pecado é vergonhoso tão somente quando o praticamos; convertido em confissão e penitência, traz-nos a saúde. Sim, tantos encantos tem a confissão e tantos perfumes exala para o céu e a terra que tira e sara toda a fealdade e podridão do pecado. Simão, o leproso, dizia que Madalena era urna pecadora; mas Nosso Senhor dizia que não, e já só falava do perfume que ela tinha espalhado por toda a sala do fariseu e já só considerava o seu imenso amor. Se somos verdadeiramente humildes, nossos pecados forçosamente nos desagradarão muitíssimo, porque são ofensas a Deus; ao contrário, a confissão de nossos pecados se tornará suave e consoladora, pela honra que com isso damos a Deus.
Fonte: A arte de se aproveitar das próprias faltas segundo São Francisco de Sales. Pe. José Tissot. Editora Vozes LTDA, 1964. Petrópolis, RJ.