segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Cordel: Como cuidar de almas e corações feridos


Uma imprescindível (e bela) reflexão sobre a evangelização em um mundo doente

RETRATO DE UM MUNDO DOENTE
Olhando a atualidade, na bruta realidade, em que vive o ser humano,
Sem esforço percebemos que o planeta em que vivemos
Segue sem rumo e sem plano.
A inversão da consciência faz gerar a violência, que onde passa causa dano.
Vai semeando doença, idolatria, descrença, incerteza e desengano.

Deus fez tudo com bondade, “fez nascer a eternidade num momento de carinho”.
Nos fez dotados de fé, fez o homem e a mulher,
Pra ninguém viver sozinho.
Com o seu agir preciso, nos botou num paraíso e nos traçou um caminho.
Nos entregou o universo, mas o pecado perverso nos prendeu em seu domínio.

E foi assim que o pecado, virou mal estruturado e alastrou-se entre nós.
Virou praga matadeira, delinquência sem fronteira,
É o bicho mas feroz.
Esse jeito de ofender invadiu o nosso ser de forma triste e veloz,
Virou comunicação no mundo da relação e nos fez seu porta-voz.

Assim, toda a sociedade virou presa da maldade, que onde chega finca o pé,
Impõe suas condições, envenena as relações,
Sem escrúpulo qualquer.
Dissemina a violência, infecta com indecência, seja homem ou mulher.
Essa doença surgiu, se alastrou e invadiu e ‘salve-se quem puder’.

E essa selvageria deixa a humanidade fria, sem piedade e sem amor.
Grandes pisam nos pequenos, quem pode mais chora menos,
Só os grandes têm valor.
Nos palcos da impunidade desfila a banalidade, sem vergonha e sem pudor.
Quem devia governar, inventou de se aliar ao sistema malfeitor.

O mundo está revirado, religião virou mercado, a graça hoje tem preço.
Muitos fiéis iludidos, tantos milagres vendidos,
O céu já tem endereço.
Pilantragem vergonhosa, com pregações enganosas, coisa pior não conheço.
E acredite se quiser, é tudo em nome da fé. A terra virou do avesso.

Vejo que não tem mais jeito, ninguém se dá o respeito, já se foi a educação.
No universo do banal, o derrotismo cultural
Virou letra de canção.
A mensagem apelativa, com letra repetitiva já chegou lá no sertão.
Eu rezo horas inteiras: Deus, leve embora essas sujeiras e devolva o Gonzagão.

No espaço esportivo, eu reflito, apreensivo, vendo a coisa como é.
Um futebol feio e chato, em que só tem pé de rato
E cartolas de má fé.
Eles são ruins de bola, não conhecem a escola de Rivelino e Pelé.
Quando os vejo dando bico, sinto saudade do Zico e do eterno Mané.

No mundo da educação, vejo com apreensão o futuro do Brasil.
A burrice estrutural solapou nosso quintal
E o cenário estudantil.
Escolas são depredadas, as leis são desrespeitadas, a velha ordem sumiu.
Vendo tudo como está, nós podemos constatar que o mundo está doentio.

No tocante à saúde, só um tonto é que se ilude e acha que melhorou.
A coisa está piorando, hospitais estão fechando
E a pobreza aumentou.
Cada vez aumenta o tédio da espera por remédio que o governo não mandou.
Pobre sofre todo dia, esperando a cirurgia, mas o dinheiro acabou.

O pobre sofre amiúde, sem ter plano de saúde para ter atendimento.
O rico pode pagar, tem quarto particular,
Não sabe o que é sofrimento.
O País do carnaval é um País desigual, onde há pobre e avarento.
E essa desigualdade é uma enfermidade que causa dor e lamento.

No campo da moradia, até louco desconfia dos absurdos que há.
Lá tem gente sem escola, passa fome, pede esmola
E não tem casa pra morar.
Um pecado estrutural nega aos pobres um quintal e um espaço pra habitar.
Lá, um clamor indiscreto diz que nosso irmão sem teto merece ter o seu lar.

Na grande população existe uma danação que devia ser banida.
A maldita violência, que traz dura consequência
Aos que lutam pela vida.
As pessoas de bondade se escondem atrás da grade, pelo medo construída.
Nossa gente amedrontada, vive sempre apavorada e não encontra saída.

E falando em sofrimento, quem quer um atendimento não encontra um ombro amigo.
Se alguém quer desabafar, ser ouvido e até chorar,
É visto como um perigo.
Neste mundo desigual, em que tudo é pessoal, há um mal que é antigo:
Ninguém imita Jesus, cada um leva sua cruz e suporta o seu castigo.

Se alguém procura um irmão, pra falar de sua aflição, do seu mundo machucado,
Já se ouve a hipocrisia, indicando terapia
Com quem é qualificado.
Ele engole o seu lamento, esconde seu sofrimento e sai meio desolado,
Pois queria só bondade, amor na gratuidade, não amor terceirizado.

Pra curar um mal antigo, busca em outro ombro amigo o remédio pra sua dor.
E encontra atendimento, pois não foi com pagamento
Que ele recebeu amor.
Ali encontrou remédio, pra curar todo o seu tédio e todo aquele pavor.
Como uma ovelha ferida, ele encontrou acolhida no ombro de outro Pastor.

Nesta triste realidade, falta sensibilidade pra acudir quem está sofrendo.
No mundo do egoísmo, reina o individualismo;
Nosso amor está morrendo.
Cada um só quer ganhar, pra isso tem que lutar e o tempo está correndo.
Não é loucura, nem engano; nos falta um samaritano pra ouvir quem está gemendo.

Na opção que fizemos, muitas vezes nós sofremos com nossos próprios pecados.
Fazemos e desfazemos, e às vezes nos esquecemos
Que também somos julgados.
Tratamos com aspereza, sem bondade e com dureza nossos irmãos consagrados.
Agimos como leões, invadimos corações e os deixamos machucados.

Na convivência diária, uma lepra hereditária afeta o nosso agir.
A tal da maledicência, tem uma forte potência
Pra manchar e denegrir.
Com seu jeito ardiloso, faz comentário maldoso com força pra destruir
Tacha o nosso pobre irmão, que apesar da vocação, ele pensa em desistir.

A inveja destruidora, também é a causadora desse mal que nos afeta.
Ela provoca intriga, desconfiança e briga;
Sua maldade é discreta.
É uma praga perigosa, é serpente venenosa, sua ruindade é completa;
Puxar pessoas pra trás, sujar o que o outro faz é sua arma predileta.

O ciúme desmedido é outro mal embutido na consciência da gente.
É um sentimento feio, que se instala em nosso meio
Deixa a pessoa doente.
A doença do ciúme é algo que se resume como um ser deficiente
Quem tem ciúme tem medo, não sabe guardar segredo e é muito impertinente.

Há também a vaidade, que vem com tudo e invade nossos puros pensamentos
Chega impondo sua norma, nos envolve e nos transforma
Muda os nossos sentimentos.
A busca pelo poder e a ganância pelo ter são nossos contentamentos
Com isso nos esquecemos do lugar onde nascemos e ficamos avarentos.

Com o impulso da vaidade, se temos autoridade, somos diferenciados
Carro novo em nossa mão, dinheiro à disposição
E outros bens reservados.
Esses males perigosos, que nos deixam vaidosos, nos mantêm escravizados
A vaidade causa danos, nos faz viver de enganos e nos deixa enfeitiçados.

A maldita prepotência e a auto suficiência também causam danação.
Há elemento empinado, porque é mais estudado
Ofende sem compaixão.
Arrota sabedoria, não aceita companhia, vai sempre na contra mão
Esquece que algum dia vamos fazer moradia debaixo do mesmo chão.

A disputa vergonhosa é outra peste danosa que invadiu nosso meio.
Há sujeito à toda hora correndo sempre por fora
No embalo do devaneio.
Usa o fim como proposta, apunhala pelas costas e não tem nenhum receio
Vai sem ver o mal que faz, passando os outros pra trás e não acha isso feio.

A falta de humildade é outra triste verdade que temos que encarar.
Geralmente é quem foi pobre, que se reveste de nobre
Se camufla pra esnobar.
Usa seu potencial de ser sujeito do mal para ferir e pisar
Esse tipo de pessoa não pode ser coisa boa e nunca vai melhorar.

Outro veio da maldade chamada infidelidade, eu não posso esquecer
Esta age com lisura, deixa nossa estrada escura
Faz a gente se perder.
Nos coloca em confusão, provoca decepção, problemas pra resolver
Mancha nossa integridade, fere nossa identidade, nosso sim e o nosso ser.

Outro mal que causa arraso, é o chamado descaso, tenho que salientar.
É doença enraizada, é uma marca registrada
Ninguém pode duvidar.
A triste realidade apresenta propriedade começando a se estragar
Quem olha com mais cuidado percebe prédio estragado prestes a desmoronar.

Outro fruto da maldade, a danosa falsidade impregnou o nosso agir.
Essa gente causa medo, não sabe guardar segredo
E tem fama de fingir.
Não usa a consciência, ignora a confidência de alguém que quis se abrir
Aborta nossa esperança, não inspira confiança, é falso até no sorrir.

Em nossa sociedade, a ausência da verdade provoca destruição.
A pessoa mentirosa, é serpente perigosa
E mãe da corrupção.
A mentira causa briga, provoca ódio e intriga, faz surgir separação
Quem mente não tem moral, caminha num lamaçal, é estada de perdição.

Querer ser dono do alheio, esse é o vício mais feio que mancha o nosso ideal.
Numa atitude tão feia, mete a mão na coisa alheia
E acha tudo normal.
Essa coisa doentia, que é doença universal
Desvia o comportamento, causando constrangimento e mancha a nossa moral.

Nosso mundo está doente; é mundo feito de gente, é obra da criação.
Deus criou tudo perfeito, planejou com muito jeito
E indicou a direção.
Mas chegou o triste dia, em que o homem, sua cria, levado pela ilusão,
Com o apoio da mulher, desvirtuou sua fé, e assim nasceu a ambição.

A autossuficiência, mãe de toda violência, autora de todo mal,
Confundiu o ser humano, chegou ditando seu plano,
Fez ali o seu quintal.
Esbanjando competência, invadiu a consciência, sem precisar de aval.
Com seu jeito dominante, fez nascer, naquele instante, nossa doença moral.

Num momento inesperado, apareceu o pecado, pra trazer destruição.
Prontos pra fazer besteira, o homem e a companheira
Mancharam a reputação.
E o casal iludido, vendo o fruto proibido, cedeu à corrupção.
Hoje nos resta a esperança: para que haja mudança, tem que haver a Conversão.


Por Padre Anchieta Tavares, publicado originalmente em A12.com

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Jesus, que nada me separa de Ti


Jesus, que nada me separe de Ti.
Nem a vida, nem a morte.
Seguindo-Te em vida, ligado a ti com todo amor;
Seja-me concedido expirar Contigo no Calvário.
Para subir contigo a glória eterna.
Seguirei contigo nas tribulações e nas perseguições.
Para ser um dia digno de amar-Te na revelada glória do Céu.
Para cantar-Te um hino de agradecimento por todo o teu sofrimento por mim.
Jesus que eu enfrente também como Tu, com serena paz e tranquilidade.
Todas as penas e trabalhos que possa encontrar nessa terra.
Uno tudo a teus méritos, às Tuas penas às Tuas expiações, às Tuas lágrimas.
A fim de que colabore contigo para a minha salvação e para fugir de todo pecado.
Causa que Te faz suar sangue e Te seduziu á morte.
Destrói em mim tudo o que não seja do Teu agrado.
Com o fogo de Tua santa caridade, escreve em meu coração toas as Tuas dores.
Aperta-me fortemente a Ti, de maneira tão estreita e tão suave, que eu jamais Te abandone.
Nas Tuas dores,

Amém!

sábado, 1 de dezembro de 2018

6 breves conselhos de um santo do século XX para vencermos a nós mesmos

WOMAN

Um deles tem a ver com o "minuto heroico" - que pode parecer até fácil de conquistar, mas...

São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, propõe em seu livro “Caminho” diversas reflexões breves, mas certeiras, para quem quer mudar de vida mediante o domínio de si mesmo.
Aqui vão 6 delas:
1 – “Procura mortificações que não mortifiquem os outros” (179).
2 – “O mundo só admira o sacrifício com espetáculo porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso” (185).
3 – “Tudo o que não te leva a Deus é um estorvo. Arranca-o e atira-o para longe” (189).
4 – “Vence-te em cada dia desde o primeiro momento, levantando-te pontualmente a uma hora fixa, sem conceder um só minuto à preguiça. Se, com a ajuda de Deus, te venceres, muito terás adiantado para o resto do dia. Desmoraliza tanto sentir-se vencido na primeira escaramuça!” (191)
5 – “Estes são os saborosos frutos da alma mortificada: compreensão e transigência para as misérias alheias; intransigência para as próprias” (198).
6 – “O minuto heroico. É a hora exata de te levantares. Sem hesitar: um pensamento sobrenatural e… fora! O minuto heroico: aí tens uma mortificação que fortalece a tua vontade e não debilita a tua natureza” (206).
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A partir de seleção compartilhada pelo blog Senza Pagare

“O Senhor do Veneno”: uma surpreendente devoção

SENOR DEL VENENO

Um Cristo que, segundo a tradição, “absorve" o veneno dos pecados

Milhares de mexicanos chegam até a Catedral Metropolitana da Cidade do México, entram pela porta principal e, em vez de se dirigirem ao presbitério, caminham até o Altar do Perdão para pedir graças à milagrosa imagem do “Senhor do Veneno.”. 
Também chamada de “Cristo Negro”, a imagem foi restaurada recentemente. Ela é feita de pasta de cana –  uma antiga técnica indígena. No século XVIII, a estátua ficava na capela do Seminário Dominicano de Porta Coeli.
Porém, depois que o culto público foi proibido em 1926, a imagem foi trasladada para a Catedral do México. Desde então, milhares de fiéis sentem que o “Senhor do Veneno” absorve seus padecimentos, infecções e dores, como anteriormente fizera com os pecados de um homem. 

Os pés envenenados 

Em 18 de agosto de 1602, chegou ao México uma delegação da ordem dominicana. Os padres se instalaram na Cidade do México, onde fundaram um seminário católico, que chamaram de Porta Coeli. Lá, havia um crucifixo de tamanho natural, com a imagem de Jesus tão branca como se fosse um mármore. 
Conta a tradição que um sacerdote tinha o costume de fazer orações diárias diante da imagem e, ao final, beijar piedosamente seus pés. 
Um dia, um homem confessou a este padre que tinha matado cruelmente uma pessoa. O sacerdote disse, então, que Deus sempre estava disposto a perdoar, mas, para poder lhe dar a absolvição, era necessário que ele se entregasse à justiça. 
Cheio de fúria, o homem se retirou do confessionário e, temendo que o sacerdote o entregasse, procurou um jeito de acabar com ele. Escondido pelas sombras da noite, entrou na capela e ungiu os pés de Cristo com veneno. 
Como toda noite, o padre foi até a imagem para fazer a oração. Mas, no momento em que ia se aproximar para beijar os pés de Jesus, ficou impressionado, pois a imagem flexionava os joelhos e elevava os pés para eles não fossem beijados. Ao mesmo tempo, a escultura absorvia o veneno dos pés à cabeça, transformando-se em um Cristo negro. 
Segundo a tradição, o homem que queria matar o religioso foi testemunha deste maravilhoso milagre e se entregou à justiça para pagar pelo seu crime. Com lágrimas, ele pediu perdão a Cristo pelos seus delitos e obteve a graça de ter uma pena mais curta e de terminar a vida na graça de Deus. 

Outra versão 

Outra versão da história – esta sustentada pelo diretor de Arte Sacra da Arquidiocese de Primada, o padre José de Jesus Aguilar – diz que houve uma pessoa que tentou matar um fiel devoto “que costumava beijar os pés de Cristo”. Esta pessoa pensou que, “se colocasse o veneno nos pés de Jesus, o homem beijaria os pés da imagem e iria para casa, dormir. O veneno iria agir durante a noite e ele amanheceria morto, sem levantar suspeitas”. 
“Quando o homem se aproximou para beijar os pés de Cristo diante das pessoas, todos viram como Jesus flexionava os joelhos para que os pés não fossem beijados. A imagem também foi ficando negra, como se estivesse absorvendo o veneno”.

Oração 

Um fragmento da longa oração que os fiéis fazem diante da imagem dá conta que – ao menos na tradição popular – o que se salvou primeiro do veneno foi um sacerdote. Agora, por consequência, o Cristo absorve os pecados dos homens: 
“Eu te rogo, 
que, assim como salvaste a vida 
de Sua Senhoria ilustríssima
quando, por meio de teu sacratíssimo corpo
trataram de envenenar aquele que ia beijar teus Divinos Pés, 
te suplico, adorado Senhor, 
que o veneno do pecado 
não penetre mais em meu coração. 
Faz com que ele se purifique, 
exercitando todas as obras que sejam de teu agrado. 
É o que te peço em honra de 
tua admirável transfiguração, 
através da qual manifestas
o teu infinito poder. 
Assim seja.”

https://pt.aleteia.org/2018/11/27/o-senhor-do-veneno-uma-surpreendente-devocao/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

COMO UM CAVALO SEM FREIO

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OS SALMOS, NOSSO ESPELHO
13 –  COMO UM CAVALO SEM FREIO NEM RÉDEAS
─ Não sejas como o cavalo ou o jumento sem inteligência, cujo brio precisa ser domado com freio e rédeas… Eu te instruirei e te indicarei o caminho que deves seguir; com os olhos sobre ti, te darei conselho (Salmo 32,9.8).

Lembro-me De uma história real que me foi contada por um dos protagonistas. Aconteceu num acampamento, onde faziam o serviço militar, durante as férias, estudantes universitários. Um deles, que nunca tinha praticado equitação, decidiu arriscar-se e tentar. O cavalo escolhido, mal ele se encarapitou em cima da sela – sem dúvida o animal percebeu que carregava um “intruso” – desembestou sem rumo fixo.

Na correria desgovernada, o cavalo com cavaleiro abraçado a seu pescoço, passou por um grupo de jovens oficiais que, morrendo  de rir, perguntaram: “Aonde está indo com tanta pressa?” A resposta ofegante do mau cavaleiro foi: “Eu ia para tal lugar, mas não sei para onde é que este cavalo está me levando”.
A nossa vida pode ser, com facilidade, como um cavalo ou um jumento desgovernados, que nos conduzem aonde não sabemos e não desejávamos ir. Meditemos um pouco no cavalo e no jumento.
  • O cavalo desgovernado pode ser o símbolo da falta da uma das duas faces da virtude da ordem.
─ A primeira, a mais profunda, é a carência de uma íntima ordem de valores. Não sabemos qual deve ser o sentido da nossa vida, não temos ideais claros, afora o desejo de vencer e passar bem, que não é ideal nenhum. E, assim, vamos tocando tudo na confusão do coração, no impulso da hora, e no embalo da rotina.
Será que temos, nem que seja minimamente, uma escala ideal dos valores e prioridades da nossa vida? Pode ser que enxerguemos “teoricamente” que “isto” é o mais valioso, o mais importante; que “aquilo” outro é secundário; que a família deveria estar em primeiro lugar, acima do trabalho; que só com Deus se pode enxergar o autêntico sentido da vida e da morte…
Na prática, porém, essa ordem de valores não significa nada. Aquilo que, na teoria, é primeiro fica sendo o último; o que é “mais” fica sendo o “menos”… Acontece que, mesmo com boa vontade,  não conseguimos segurar as rédeas do cavalo da vida e dirigi-lo pelo caminho que deve seguir, como diz o Salmo.
Não temos forças para segurar as rédeas por duas razões: – Primeiro, porque não temos convicções, apenas teorias, mais ocas que uma laranja chupada.  – Segundo, porque temos a liberdade, ou seja, a capacidade de dominar o nosso “ querer”, prisioneira dos defeitos, caprichos e paixões que nos dominam.
Somos escravos dos defeitos que nos amarram: estes são o cavalo enlouquecido, que nos leva para parte nenhuma e nos faz falhar e fracassar em quase tudo: na família, na formação dos filhos, na vida espiritual, na profissão, nas amizades…
O cavalo sem freio pode se chamar preguiça, inconstância (incapacidade de sermos fiéis a nada, fora do time de futebol e dos vícios arraigados); pode se chamar ambição cega (que ofusca e não deixa ver nem Deus nem a família); pode se chamar intemperança na gula e na sensualidade…
«Eu estava acorrentado – dizia Santo Agostinho –, não por ferros alheios a mim, mas pelos do meu egoísmo agrilhoado… Quando se obedece aos desejos da carne, estes tornam-se costume; quando não se quebra esse costume, torna-se necessidade… Com tais elos fizera eu a corrente com que o demônio me mantinha amarrado à mais dura escravidão».
Você pede a Deus a graça de se libertar dessas correntes? Você se esforça por construir a estrutura sólida de todos os valores da vida, ou seja, das virtudes?[1].
  • E o jumento? Pode ser a imagem da “burrice” do tempo que se perde, como a água num recipiente furado, simplesmente pela falta de organização e previdência.
O tempo passa, foge rápido. Lembro-me de uma entrevista feita a Oscar Niemeyer, quando atingiu os cem anos de idade. O jornalista lhe perguntava como enxergava sua vida, nessa altura. E ele respondeu: “A vida é um sopro”.
Não vê que é asneira perdê-la, desperdiçá-la por falta de ordem, no sentido mais simples dessa palavra? Falta de horário, de previdência, falta de planejamento, falta da coragem de começar, falta de fortaleza para terminar.
Quando uma pessoa, ao enfrentar-se com seus deveres, diz “não tenho tempo”, deveria ouvir na hora um sinal de alarme que lhe diz: “Falta-te tempo, porque te sobra jumento”.
Qual jumento? –Primeiro, a falta de sinceridade no querer: sempre achamos tempo para as coisas que queremos “mesmo”; se não há tempo é porque não queremos. – Segundo, a preguiça de parar e se organizar, de preparar e anotar o que, em consciência, percebe que deve fazer em cada dia (desde assuntos profissionais e dedicação a problemas familiares, até a organização das horas em que vai abrir whats-apps e redes sociais, e da hora-limite em que o tablet, o celular e a tv “vão dormir”, porque você vai ter a firmeza do bom jerico para empacar e dizer não. Manter em dia a agenda e ter a determinação do jegue que finca as patas no chão, isso é que é uma “jumentalidade” sadia e santa.
[rascunhos de um futuro livro]
[1] Para maior aprofundamento, pode ser útil a leitura de dois livros: Autodomínio, elogio da temperança, Ed. Quadrante, 2ª edição; e A conquista das virtudes, Ed. Cultor de Livros, Cléofas, 2ª ed.

domingo, 25 de novembro de 2018

Como praticar o silêncio na vida cotidiana

O principal meio para uma ida mais contemplativa não é ter mais tempo, mas mais propósito

Três anos atrás, tive a oportunidade de fazer um retiro silencioso de 24 horas e experimentar a beleza e a calma da solidão e do silêncio prolongados. Foi repousante, senti-me mais ligada a mim mesma e a Deus, e voltei pronta para viver todos os dias com mais propósito. Mais notavelmente nas semanas seguintes, eu tinha mais energia para estar presente para as pessoas da minha vida.
O silêncio nos permite passar o tempo com nós mesmos; isso nos abre espaço para que nossos pensamentos cresçam em criatividade e se conectem com nossas emoções. O silêncio nos ajuda a diminuir a velocidade e reconhecer o que está acontecendo internamente, ao invés de responder continuamente ao estímulo externo. Isso nos oferece uma ruptura com a entrada constante de informações que vêm com a vida moderna.
Os benefícios do silêncio e da contemplação
Pesquisas mostram que as práticas contemplativas têm vários benefícios. Um estudo mostrou que tais práticas aumentam a percepção precisa da taxa de batimentos cardíacos, que melhoram a habilidade de falar do próprio estado emocional. Quando podemos pausar em silêncio, podemos verificar o nosso corpo e nossas emoções, o que nos ajuda a cuidar melhor de nós mesmos, além de aumentar a conscientização sobre o que estamos trazendo em nossos relacionamentos.
Outro estudo mostrou que a prática contemplativa regular tem múltiplos impactos positivos em nossos cérebros. Pode melhorar a memória de trabalho, a função de manter informações no curto prazo, como lembrar instruções ou sobre o que você estava trabalhando antes de ser interrompido. Também apresentou aumentar o seu “filtro verbal” e sua capacidade de manter a tarefa em direção a seus objetivos. Também ajuda a regulação emocional, nos permitindo sentir emoções sem ser dominado por elas.
Praticando o silêncio num mundo ruidoso
Muitos de nós teríamos dificuldade em identificar um momento no nosso dia em que experimentamos mais do que alguns minutos de silêncio. Quando não estamos conversando com os outros, preenchemos nosso espaço sonoro com diferentes tipos de mídia e, com o advento dos podcasts, sempre podemos ter algo para ouvir. Para alguns de nós, a ausência de som é quase surpreendente, pois nos sentimos automaticamente obrigados a ligar a TV ou o rádio.

O principal meio para uma vida mais contemplativa não é ter mais tempo, mas mais propósito

Outros desejam o silêncio, mas parece difícil. Temos dias complicados, cheios de crianças barulhentas ou colegas de trabalho inquietos. Nós temos pessoas em nossas vidas que precisam de conexão e da nossa presença, e o tempo para si mesmo não parece se encaixar na mistura durante essa temporada de vida. Mesmo com tempo e oportunidade, parece que há outro item na lista de tarefas que precisa ser concluída antes de poder descansar na quietude.
Há momentos ao longo do dia que você pode integrar o silêncio no seu dia se você ficar de olho neles. Se você é um pai/mãe que fica em casa, você pode dedicar os primeiros 15 minutos de um descanso para silenciar. Se você trabalha, considere deixar seu telefone na sua mesa e dar um passeio na hora do almoço, ininterrupto. Tire cinco minutos durante o dia para olhar pela janela e fixar-se no instante presente.
As práticas de silêncio nem sempre devem ser estacionárias. Se você regularmente usa fones de ouvido na academia, considere deixá-los de lado uma vez por semana e preste atenção ao que está acontecendo dentro de você, incluindo pensamentos e emoções. Considere andar devagar durante a transição, como andar do seu carro até o prédio de escritórios, levando um momento para perceber seu próprio corpo e seus próprios sentimentos, antes de entrar no seu dia. Ou se você estiver em casa, encontre uma parte calma da sua casa para que você possa sentar-se por 2 a 10 minutos ininterruptos e, intencionalmente, ficar em silêncio.
Um simples começo para silenciar é desligar os aparelhos eletrônicos. Uma vez por semana, volto para casa do trabalho e faço o jantar enquanto o resto da minha família está fora. Enquanto antes eu costumava ouvir rádio, fiz uma prática de cozinhar em silêncio, permitindo que a quietude da casa crie espaço para meu próprio ser, pensamentos e emoções. Em primeiro lugar, o silêncio era desconfortável, pois me sentia aborrecida ou dominada por meus próprios pensamentos. No entanto, uma das chaves para o silêncio é reconhecer que, como a maioria das coisas que são boas para nós, é difícil no início, mas fica mais fácil com o tempo. Outros fizeram uma prática de dirigir sem o rádio, ao invés de preencher o tempo silencioso em seu carro.
Definir um temporizador pode ser uma boa maneira de se permitir estar presente sem se preocupar com o tempo. Passar pelo menos 20 minutos em silêncio produz muitos benefícios, simplesmente começar com dois a cinco minutos pode ter um impacto profundo no seu humor e consciência, especialmente se praticado ao longo do dia.
Definir um propósito
Se pensarmos em práticas contemplativas apenas em termos de visitar um mosteiro por um dia, nunca teremos tempo para praticar o silêncio. No entanto, mesmo os mais ocupados de nós pode tirar pequenos períodos de silêncio e decidir fazer uma pequena pausa na vida ocupada. O principal meio para uma vida mais contemplativa não é ter mais tempo, mas mais propósito. Usar o tempo que já estamos gastando – dirigindo, sentado em casa, lavando a louça – e decidindo praticar o silêncio, virando para dentro e ficando quieto.

https://pt.aleteia.org/2018/03/04/como-praticar-o-silencio-na-vida-cotidiana/2/

A beleza da vida cristã

WOMAN PRAYING,CHURCH PEWS

E aí está a beleza da vida cristã. É uma vida suada, sofrida, lutada, mas é uma vida feliz

Os desejos do espírito se opõem aos desejos da carne. São Paulo diz que eles são contraditórios. E, muitas vezes, temos que dizer não a nós mesmos.
Na verdade, o nosso espírito quer o bem, não o mal. É como se houvesse duas pessoas dentro de nós: a nossa carne puxa para um lado e o nosso espírito para o outro.
Vida cristã é vida de cruz. Mas quem entra por este caminho, embora encontre dificuldades, pois exige luta, esforço e sofrimento, vai atingir a felicidade e encontrar a paz.
E aí está a beleza da vida cristã. É uma vida suada, sofrida, lutada, mas é uma vida feliz. Realmente, nós tocamos a alegria e a paz, apesar de todas as dificuldades que nós enfrentamos.
E quanta gente vai pelo caminho mais fácil, de ganhar dinheiro fácil, ter alegrias e prazeres fáceis, de subir na vida fácil, de conquistar posições e cargos. E essas pessoas, infelizmente, não são felizes. Talvez deem uma enganada, com aparência de serem felizes, até ostentem e esbanjem como se fossem felizes. Elas caricaturam algo que não são. E o pior, ainda vão perdendo a graça de Deus, os referenciais, o sentido da vida, pois só buscam a falsa alegria e a falsa felicidade.
A alegria que nós tanto aspiramos é fruto de muita dureza, luta e esforço. Aguenta firme! Você vai ser feliz! Continua, e você vai ver quanta felicidade virá, no tempo certo.
Seu irmão,
Monsenhor Jonas Abib
Fundador da Comunidade Canção Nova, presidente da Fundação João Paulo II, mantenedora do Sistema Canção Nova de Comunicação, em Cachoeira Paulista (SP) e reitor do Santuário do Pai das Misericórdias. É um dos religiosos que mais se destacou utilizando os meios de comunicação na ação evangelizadora da Igreja Católica, na América Latina. Autor de 57 livros, CDs e DVDs, além de várias palestras em áudio e vídeo.