sexta-feira, 29 de março de 2019

O santo temos

O santo temor
 
E é só na presença de Deus que nos revelamos em toda a verdade. Porque é então que, vendo a Deus em sua luz, vinda na obscuridade da fé, também vemos, à mesma claridade, como somos diferentes do que pensamos ser em nossa ambição e vaidade.
 

Aqui o recolhimento colore-se de compunção e daquilo que os Padres chama de ‘santo temor’. Temor é o conhecimento de nós mesmos em presença da santidade de Deus. É o conhecimento que temos de nós diante do seu amor, ao ver como estamos longe do que esse amor queria.

Homem algum é uma ilha
(Verus, 2003) pág. 191

Prudência: Decisão

TERCEIRA ETAPA: A DECISÃO 
1 – A etapa “definitiva” da prudência

Até aqui acompanhamos dois elementos necessários para a virtude da prudência: a reflexão (não agir sem antes ter pensado devidamente) e o juízo (ter julgado ponderadamente acerca dos valores e dos meios a empregar). São dois passos importantes da prudência: conforme o caso, podem ser praticados em poucos segundos, em horas, ou em dias e até mesmo em anos. Mas são necessários para o momento decisivo, que é a hora de agir com prudência, a “hora da verdade”.
Neste sentido, Santo Tomás ensina que «ato principal» da prudência é «comandar, que consiste em aplicar o conhecimento ao desejo e à ação»[1]. Comandar é determinar-se a agir. Por isso, Josef Pieper pode afirmar que a prudência é «a perfeita capacidade de decisão em função da realidade»[2].
Essa decisão leva o processo da prudência à perfeição. Por isso se diz que a prudência é a virtude característica do governante. «Onde se encontra uma razão especial de direção e de comando nos atos humanos, haverá também uma razão especial de prudência… Por isso de considera a ciência de governo uma espécie de prudência»[3]
Vale a pena meditar sobre isso porque frequentemente se cometem graves imprudências por faltas de decisão (no governo da família, de qualquer comunidade,de um país, etc.).
Vejamos algumas modalidades do vício da “indecisão”. Todas elas, evidentemente, são manifestações de fraqueza moral

A hesitação
A vida não é um jogo matemático, no qual todos os elementos e variáveis possam se meter numa tabela ou num computador para obter o resultado infalível.
Não sei se leu ou ouviu dizer que um computador sofisticado da IBM, o Deep blue, acabou vencendo, em 1997, Garry Kasparov, talvez o maior enxadrista de todos os tempos.
Acontece, porém, que não existe o computador do namoro, nem o computador da fidelidade conjugal, nem o computador do amor ao próximo, nem o da vocação cristã,  nem sequer o do sucesso de uma missão política ou militar, ou de uma simples microempresa comercial.
Se esse computador existisse, muito teria ajudado Flora,  a jovem do romance Esaú e Jacó de Machado de Assis. Flora, a eterna hesitante, morreu sem se haver decidido por nenhum dos dois gêmeos, Pedro ou Paulo, que a cortejavam. Pela sua fraqueza de caráter, se morresse aos noventa anos, seria enterrada ainda indecisa.
Com perdão pela comparação, pessoas assim vivem uma história análoga à experiência feita por alguns biólogos há tempos: encerrar um cachorro em um cubículo em frente a duas tigelas atulhadas de boa comida, uma à direita e outra à esquerda. Que aconteceu? Diante dos dois banquetes tentadores, o cão morreu de fome antes de engolir um bocado. São as pessoas do famoso «nem sim nem não, antes muito pelo contrário».
Às vezes custa decidir, porque isso significa inevitavelmente excluir. Se você decide casar-se com tal pessoa, exclui todas as outras. Aquele que decide alistar-se como voluntário na força de paz da ONU exclui continuar na tranquilidade do lar.  Não se pode jogar baralho mantendo todas as cartas na mão. Algumas delas, por vezes a maioria, têm que ser descartada.

O medo
Outras vezes, para nos decidirmos a algo que valha a pena, precisamos ultrapassar a barreira do medo.
─ Medo de que não dê certo. Medo dos imprevistos. Medo das dificuldades. Medo de não ser capaz. Se você não vencer esse medo, nunca fará nada.
decisão exige “lançar-se” a fazer, sabendo que nada na vida está absolutamente garantido e sempre podem surgir surpresas ou imprevistos. Sem essa coragem de começar, de empreender, de arriscar, nunca faríamos nada que valesse a pena… e nem sequer enfrentaríamos as dificuldades do cotidiano. Não iríamos de carro, porque poderia haver um acidente, não desceríamos uma escada porque poderíamos escorregar e quebrar o pescoço…
Shakespeare mostra-nos Hamlet monologando sobre a sua própria reflexão indecisa: ele reconhece que se dedica a «pensar nas consequências com excessiva minúcia», e acaba confessando: «Reflexão esta que, de quatro partes, tem uma só de prudência e sempre três de covardia»[4].
Aos que se sintam indecisos por esse tipo de medos, aconselharia ler os relatos das diversas viagens de Amyr Klink. Impressiona a seriedade – a prudência! – com que preparou em cada caso o barco, os alimentos, as rotas, o clima, o estudo das correntes marítimas, as experiências dos exploradores mais qualificados, e tantos detalhes mais.
Quando chegou a hora em que, com tudo suficientemente preparado, tinha que partir, partiu. E não recuou no meio da travessia. Assim se inscreveu entre os grandes dessas aventuras imortais (Amundsen, Shackleton…). Bem conhecidos são alguns conselhos dele, que são verdadeiras máximas de prudência:
─ «Para se chegar, onde quer que seja, é preciso, antes de mais nada, querer».
─ «O pior naufrágio é não partir».
Medite também estas outras considerações de São Josemaria:
«Pela prudência, o homem é audaz, sem insensatez. Não evita, por ocultas razões de comodismo, o esforço necessário […]. Não atua com tresloucada precipitação ou com absurda temeridade, mas assume o risco das suas decisões e não renuncia a conseguir o bem por medo de não acertar»[5].

O falso querer
A prudência pode perder-se pela fragilidade do querer. É o caso das pessoas que querem, dizem que querem, mas falta-lhes caráter e convicção.
Tranquilizam a consciência pensando que, na verdade, “estão querendo sinceramente” (dedicar-se muito mais aos filhos, preparar um concurso difícil, assumir um compromisso de serviço à comunidade, resolver longas dúvidas sobre a vocação), mas na realidade não querem, só “gostariam de”…
São os que alguém chamava “os suicidas do condicional”. “Eu gostaria muito de recomeçar a minha vida cristã: assisti a um filme sobre padre Pio e chorei”, “Eu gostaria tanto de fazer juntamente com a esposa um curso de orientação familiar do IOF, me falaram que é ótimo… Vamos ver se no ano que vem vai dar, quem sabe…”.
Mil desculpas de pura moleza ou preguiça levam a não resolver. Os desejos matam o preguiçoso, diz o Livro dos Provérbios (21, 25). Morre no pântano do condicional.
Para esses São Josemaria escrevia: «Um querer sem querer é o teu… – Não queiras iludir-te dizendo-me que és fraco. És … covarde, o que não é o mesmo» (Caminho, n.714).
Em contraste com os moles inoperantes, penso em Santa Teresa de Ávila. Uma mulher de fraca saúde e com uma vida cheia de incompreensões, perseguições e obstáculos aparentemente invencíveis.Tinha orado, meditado e se aconselhado muito; por isso estava certa do que Deus lhe pedia. E em poucos anos realizou – com a fundação de um grande número de mosteiros de carmelitas descalças – o que raríssimos homens e mulheres de empresa conseguem durante a vida[6]. Um trabalho, um serviço, que continua a dar frutos vigorosos e saborosos em todo o mundo.
A importância de um querer sincero  atinge o grau máximo quando se trata de decisões das quais depende o sentido profundo da existência (o ideal, a fé, a vocação cristã, a fidelidade, o amor, a família).
Pensando nisso, peço-lhe que medite devagar (sinceramente!) este ponto de Caminho:  «Dizes que sim, que queres. – Está bem. – Mas… queres como um avaro quer o seu ouro, como uma mãe quer ao seu filho, como um ambicioso quer as honras, ou como um pobre sensual quer o seu prazer? – Não? Então não queres» (n. 316).

[1] II-II, q. 47, 8 c
[2] Obra citada, p. 44
[3] Santo Tomás, Suma Teológica II-II, 50, 1 c
[4] Hamlet, príncipe da Dinamarca, ato quarto, terceira cena.
[5]  Amigos de Deus, n. 88
[6] Ver Livro da vida e As Fundações. Ed. Paulus, São Paulo

Exercícios espirituais - Obras de misericórdia

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1ª semana - *Obras de misericórdia espirituais*

5º dia - *Perdoar (as injustiças de boa vontade)*

_O perdão é uma exigência do Evangelho, e uma condição para entrar no Reino. Jesus nos dá essa lição ao ensinar a oração do Pai Nosso: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.” (Mt 6, 14-15)_

_Se nós não perdoamos, impedimos que o perdão de Deus chegue a nós._

_São Paulo também nos exorta: “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente toda vez que tiverdes queixas contra os outros. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós” (Col 3, 13)._

_Pedir perdão a Deus é fácil, mas conceder o perdão aos outros na maioria das vezes é difícil, e agimos como o servo mau que foi perdoado no muito que devia, e não soube perdoar seu próximo no pouco que lhe era devido (Mt 18, 23-35)._

_Perdoar de coração deveria nos levar a esquecer toda injustiça sofrida, mas nem sempre conseguimos, e nem sempre voltamos a um relacionamento normal com a pessoa perdoada, isso não deve nos impedir de, à luz do Espírito Santo, exercitar e aprimorar o perdão, pois nem sempre e na maioria das vezes um ato de vontade pode eliminar uma lembrança._

_No dialogo com Pedro, Nosso Senhor Jesus ensina que devemos perdoar sempre e sem limites (Mt 18, 21-22)._

_Negar o perdão nos leva um ato de injustiça com Deus, conosco e com os irmãos.



*MEDITAÇÃO (REFLEXÃO)*

1. Você tem pedido perdão às pessoas que você ofendeu?
2. Você tem dado o perdão para as pessoas que te ofenderam?
3. Você tem pedido perdão a Deus pelos seus atos e ações? Palavras e omissões?

*ORAÇÃO*

Jesus, ensina-me a amar como Tu me amas. Que eu saiba perdoar assim como Tu nos destes o exemplo, ao orar ao Pai pedindo perdão pelos que O crucificavam. Ensina-me a amar e perdoar quem me ofendeu. E dai-me a humildade e sabedoria de pedir perdão a quem eu ofendi. Amém.

*A paz de Cristo!*

Fonte: https://www.padrereginaldomanzotti.org.br/artigo/obras-de-misericordia-espirituais/

sábado, 23 de março de 2019

O valor da honestidade

STUDYING

A honestidade tornou-se um requisito desejado e desejável em todas as áreas vitais

À primeira vista, o conceito de honestidade parece bastante simples. Tudo o que você precisa fazer é dizer a verdade e agir com retidão em todas as situações. Então, por que pessoas sinceras justificam a distorção da verdade em certas situações?
Existem inúmeras situações que muito rapidamente testarão nossa determinação de ser completamente honestos.
Podemos nos recordar da nossa infância quando queríamos evitar ser punidosO medo leva as crianças a mentir em um esforço para evitar consequências que sejam consideradas negativas. Desta forma, a mentira é apresentada como menos dolorosa do que a honestidade, pelo menos aparentemente.
“Justificativas” da falta de honestidade
Além de evitar as consequências de nossas ações, existem mais razões pelas quais supostamente “valeria a pena” não ser inteiramente honesto:
  • Não prejudicar os sentimentos de alguém ou seu orgulho.
  • Evitar que outros pensem mal de nós.
  • Medo de que alguém possa roubar nosso reconhecimento.
  • Pensar que estamos protegendo alguém.
  • Proteger nosso ego ao evitar o constrangimento.
  • Evitar que nossa imagem ou reputação seja comprometida.
  • Quando não gostamos de alguém, mas não queremos que as pessoas saibam.
À primeira vista, você pode pensar que estes seriam motivos perfeitamente legítimos para desviar um pouco a verdade. Afinal, não é para o bem maior?
Pois bem, adotar este tipo de raciocínio distorcido é o mesmo que dizer que o fim sempre justifica os meios. Em outras palavras, é bom fazer algo ruim, desde que você obtenha os resultados desejados.
Ser honesto exige coragem e tato
Ser honesto exige coragem porque nos torna vulneráveis ​​e exige que sejamos responsáveis. Para evitar ferir os sentimentos dos outros com nossa honestidade, o tato também é necessário.
É claro que ser verdadeiramente honesto envolve mais do que dizer a verdade em cada situação, mas, para as pessoas com integridade, é a única opção aceitável.
A honestidade tornou-se um requisito desejado e desejável em todas as áreas vitais.
Permanecer honesto permite, acima de tudo, aumentar a autoconfiança.
Nessa linha fina que separa o que é certo e o que é errado, nossa honestidade pessoal pode nos mostrar o caminho do que realmente é certo.
Ser honesto nem sempre será o curso de ação mais simples ou mais conveniente, mas é o único caminho que lhe dará integridade. Pessoas com integridade sempre reconhecerão e apreciarão sua honestidade e coragem.

https://pt.aleteia.org/2019/03/22/o-valor-da-honestidade/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

quinta-feira, 7 de março de 2019

CRISTO PARA MORRER, DISSE: “EU TENHO SEDE”. NÃO DIZ QUE TEM DORES, DIZ QUE TEM SEDE. E QUE SEDE SERÁ ESTA?




[Pelo Pe. Manoel José Gonçalves Couto]
Jesus Cristo estando para morrer sobre a cruz, seus carrascos não cessavam de o atormentar e desprezar cada vez mais com injúrias e escárnios. Diziam outros: “Ele tem livrado os outros e agora não pode se livrar a si?” Diziam outros: “Se Ele é o Rei de Israel, que desça agora da cruz”. Porém, enquanto eles o insultavam, Jesus Cristo por eles estava pedindo a seu Eterno Pai.
Vingativo, põe aqui os teus olhos. Olha para o teu Divino Mestre. Ele pediu a seu Eterno Pai perdão para os seus inimigos, e tu? Tu, nem para os teus inimigos, nem para ti o pedes. Dos inimigos desejas vingar-te. Se assim continuas, que esperança de salvação podes ter? Nenhuma, porque não segues o exemplo de Jesus Cristo.
A morte de Jesus Cristo foi, pois, a mais amarga e a mais dolorosa porque morreu sobre uma cruz, sem alívio algum. Desde os pés até a cabeça tudo é dor e aflição. Ele ainda procurou quem o consolasse, mas não achou quem.
Os judeus e os romanos proferiam contra Ele terríveis maldições e blasfêmias. Maria Santíssima bem queria dar-lhe algum alívio, mas as suas dores mais o atormentavam. Não achando na terra quem o consolasse, levantou os olhos ao Céu e pediu socorro a se Eterno Pai, porém o Pai lhe responde: “Não, meu Filho, não quero consolar-te, porque satisfazes a minha justiça por todos os pecados do mundo. É justo, pois, que eu te abandone nesses tormentos e te deixe morrer sem algum alívio.” E foi, então, quando Jesus Cristo deu um grande brado, um ai, proferindo estas palavras para nos fazer conhecer a grande dor em que morria e o grande amor que nos tinha em tanto padecer por nós.
Ó pecador, não sejas mais ingrato a tantos excessos de amor divino. Deixa já o pecado. Já é bem tempo de te voltares para Deus e de ter muito amor a Jesus, que tanto sofreu por ti.
Estando, pois, Jesus Cristo para morrer, disse: “Eu tenho sede”. Não diz que tem dores, diz que tem sede. E que sede será esta? Era um grande desejo que tinha de salvar os pecadores, era um grande desejo que tinha de sofrer e de padecer ainda mais para o salvar. Sabes isto, pecador, e não terás também sede de Jesus?
Ó, se tu tiveras tanta sede ou desejo de te salvar, como Ele teve de sofrer e de padecer por teu amor.
Estando Jesus Cristo para dar o último suspiro, disse com uma voz moribunda: “Já está tudo cumprido. A obra da vossa redenção está concluída. A divina justiça está satisfeita. O Céu já está aberto para todos. Aí vos fica remédio para tudo. Aproveite-se pois quem quiser! Tempo é de deixar o pecado. Já me podeis amar. Pois eu primeiro vos amei a vós. Eu não tenho mais que fazer para ser amado por vós.
Vede, pois, o que eu tenho feito por amor de vós e para que deixeis o pecado. Por vós eu tenho passado uma vida toda cheia de trabalho e aflições. Por vós eu tenho sido esgotado de sangue. Por vós o meu rosto foi escarrado, o meu corpo rasgado, a minha cabeça penetrada de espinhos. Sobre este madeiro por vós tenho sofrido as maiores dores e agonias. Que resta ainda para fazer, pecadores?
Que eu morra por vós! Pois também quero morrer por vós! Morte! Vem, ó morte! Vem tirar-me a vida para salvar estes pecadores. E vós, pecadores, eu vos peço que deixes o pecado e que me ameis. Eu não posso ir mais longe, não posso fazer mais para ganhar o vosso amor e a emenda do vosso pecado. Que me dizes, pecador? Ouves estas coisas e ainda não aborreces nem deixas o pecado?
Ah, quantos infernos serão precisos para castigar as tuas ingratidões? Nem mil infernos! Mil infernos ainda não são suficientes.
Lá está morrendo Jesus Cristo. Está para dar o último suspiro. Os seus olhos já estão moribundos, o seu rosto pálido, o Céu já se obscurece, a terra treme, as sepulturas se abrem. Que sinais são estes tão horrorosos? Assim acontecer porque morreu o Criador do universo, e Ele é o Salvador do gênero humano.
Jesus Cristo, tendo encomendado sua alma a seu Eterno Pai e baixando a cabeça, expirou pela violência da dor. Que me dizes, pecador? Ainda não será tempo de deixar o pecado e de ter muito amor a Jesus? A Jesus que tanto tem sofrido e padecido por teu amor? Ele bem te pudera salvar, passando uma vida bem sossegada e bem regalada. Mas, não. Ele rejeitou as riquezas, deixou os prazeres e os regalos, aborreceu as honras. Escolheu uma vida pobre e uma morte afrontosa.
Que maior prova de amor pode dar o amigo, do que sacrificar sua vida por essa pessoa que ama! Pois Jesus Cristo ainda passou a mais, porque deu a vida por ti, sem tu seres amigo d’Ele. Eras, sim, um grande inimigo, porque eras com o demônio, até lhe fazias uma grande guerra.
Mas se Jesus Cristo deu a própria vida por ti, sendo tu inimigo seu, como podes tu resistir a tanto amor? A Sagrada Paixão de Jesus Cristo é um excesso de misericórdia, é um excesso de amor.
Ó, meu Jesus! Quem poderá meditar na vossa sagrada Paixão e não se abrasar no vosso santo amor? Mas, ai de ti, pecador quanto és infeliz! Pois ainda não amas a Jesus. Tu amas os teus parentes, amas os teus prazeres, amas os teus regalos e divertimentos, amas as tuas conveniências e interesses, até amas os teus animais. Tudo isto amas, e ainda mais do que a Deus, teu Redentor, porque por via destas coisas, e por amor a elas fazes muitos pecados mortais, ofendes muitas vezes a Deus, e deixas a Deus.
Ó, que ingratidões as tuas! Quando abrirás os olhos da tua alma? Ainda queres mais tempo? Pois não esperes por ele, porque ninguém ainda o prometeu a ti. É já, pecador, que deves voltar par Deus e amar muito a Jesus. Pede-lhe perdão das tuas culpas, dizendo:
Ó meu Jesus, perdoai-me, Senhor. Eu bem sei que tenho sido um ingrato a tantos excessos de amor. Porém já conheço as minhas ingratidões e misérias, e quero emendar-me, meu Jesus. Por isso vos peço que me perdoeis. Vós me tendes amado como o maior excesso e eu agora também não quero senão a vós. Todas as minhas obras serão feitas por vós e não quero viver senão para vos amar. Ajudai-me pois, Senhor.
E vós, minha Mãe Santíssima, intercedei também por mim. De vós fico esperando todas as graças que me são necessárias para emendar o pecado e amar muito o vosso Jesus.

https://capelasantoagostinho.com/2018/03/29/cristo-para-morrer-disse-eu-tenho-sede-nao-diz-que-tem-dores-diz-que-tem-sede-e-que-sede-sera-esta/

FAÇAMOS A GENUFLEXÃO PARA A CRUZ


A Tradição finalmente começa a atrair a atenção das pessoas que estão aí nas paróquias, que ouvem já há tantos anos seus padres falando coisas que não são muito bem católicas. Pouco a pouco este trabalho, esta insistência, esta espiritualidade, a fé começa a fazer o seu trabalho. Nosso Senhor nos corações atraindo as almas para onde está o Filho de Deus, para onde está o Seu Santo Sacrifício, para onde está a Sua Missa.
Nosso Senhor morreu hoje para nós, Nosso Senhor entregou o seu corpo e sua alma ao suplício da cruz e nós acompanhamos mais uma vez estes mesmos ritos e quanto mais a gente acompanha, quanto mais nós vivemos a Semana Santa mais as coisas vão acontecendo com uma certa simplicidade.
E o que resta para nós? Resta para nós a cruz, a cruz gloriosamente posta sobre o altar para que nós possamos nos lembrar de Jesus crucificado, nosso redentor, que nos trouxe a salvação. Nada disso é brincadeira, nada disso é teatro, nada disso é para nos alimentar um sentimento religioso. Todos os homens nascem com um sentimento religioso, todos os homens fazem algum culto a algum deus por causa de sentimento religioso, menos nós. Nós não fazemos por sentimento religioso, nós fazemos porque recebemos o dom da fé no coração, a fé sobrenatural.
O mundo de Deus, o mundo do céu está presente dentro de nós. Não é por motivos de sentimentos religiosos que nós estamos aqui, é por fé sobrenatural. Todas as outras religiões por mais belas que sejam, por mais interessantes que sejam historicamente, nada disso vale uma vírgula do rito católico, da doutrina católica, da fé católica, uma vírgula, não vale nada! Porque todos os pagãos que matam suas criancinhas, todos os pagãos que fazem sacrifício de porcos, todos os pagãos que fazem sacrifícios horríveis, muitas vezes humanos, fazem por sentimento religioso. Não vale nada, são obras do demônio, diz São Paulo.
Mas nós fazemos por uma visão de fé sobrenatural que Deus sopra no nosso coração. E esta visão de fé sobrenatural põe a cruz no centro da nossa vida e é por isso que nós estamos hoje celebrando a exaltação da Santa Cruz, não a exaltação da Santa Cruz como na festa de setembro, mas a exaltação da Santa Cruz porque ela foi posta no lugar principal e nós dobramos o joelho no dia de hoje, nós entramos e saímos da igreja fazendo genuflexão para a cruz. Nosso Senhor não está no sacrário, mas a Igreja nos manda e nós obedecemos. Façamos a genuflexão para a cruz, não para o ídolo, não para o gesso, não para a madeira, mas Jesus Cristo está tão presente hoje pela Sua cruz, é tão importante para nós estarmos unidos a sua cruz que nós reconhecemos nela o próprio Cristo e fazemos a genuflexão.
Dia de jejum, dia de penitência. Vamos fazer a nossa penitência com generosidade, vamos oferecer para Nosso Senhor esta fome que nós passamos um pouquinho neste dia para que nós possamos realmente estar comungando com Nosso Senhor crucificado. Para que os efeitos do Seu sangue derramado realmente penetrem no nosso coração e nós possamos dizer amanhã: “Cristo ressuscitou, aleluia!”. E que isso vibre dentro de nós como a verdade espiritual que realmente brota de um coração mortificado por uma Quaresma, endurecido no rude combate por causa de uma Quaresma, de uma penitência, de um jejum. E que nós possamos compreender pela fé sobrenatural o que é a ressurreição para o resto do ano, para o resto da nossa vida. Porque Cristo ressuscitou e nós também ressuscitamos por Cristo, Ele morreu na cruz e nós morremos com ele, fomos batizados nessa morte e saímos das águas batismais para ressuscitarmos com Cristo.
Isso tudo é a grandeza do mistério da nossa fé, isso tudo é a grandeza do único mistério de fé, nenhum outro existe além desse. Nada. Nenhuma outra missa existe que não seja o verdadeiro sacrifício da cruz, renovado incruentamente sobre os nossos altares. E é por isso que nós temos que tirar dessa Semana Santa um sumo, uma seiva de vida espiritual, uma seiva de renovação dos nossos atos, renovação da nossa moral, renovação da nossa casa, das nossas crianças, para que vivam num ambiente religioso. Não façamos essa dicotomia entre a vida na capela e a vida lá fora, não existe isso! Se nós somos católicos aqui e se nós puxamos a espada do combate aqui temos que levá-las pra casa e combater contra essas coisas todas que trazem a corrupção pra dentro da casa de vocês. Nós temos que ter a coragem de enfrentar o mundo porque nós somos portadores da cruz, portadores dessa cruz que Jesus carregou para nós, onde ele morreu por nós e de onde ele vai ressuscitar para torná-la gloriosa para nós.
A única e verdadeira Tradição recusa todo e qualquer compromisso com qualquer modernidade que venha diminuir a luz dessa fé como o Concílio Vaticano Segundo diminuiu. Não podemos, não podemos aceitar isso. E é dentro desse contexto que nós estamos aqui e todos os novatos que vêm já a seis meses, três meses, três semanas, que seja, saibam onde estão pondo os pés, saibam onde estão vindo. É a fé íntegra e nada da modernidade, nada do modernismo, nada.
Nós acabamos de fazer a oração das Nove Orações, tem uma que é pelo Papa e vocês ouviram, nós rezamos pelo Papa. Por mais dor que ele possa causar, pela confusão que ele causa dentro da Igreja, nós rezamos pela conversão deles, para que eles voltem à Tradição, para que eles voltem à verdadeira fé e nos confirme na fé. Mas não podemos aceitar o modernismo deles, isso não. Nada, zero, sem compromisso.
Então, que seja este brilho da fé, de uma fé íntegra e total, de uma fé que nos põe em combate constante contra nós mesmos, contra o mundo modernista, contra o liberalismo do mundo político. Nós nos levantamos contra tudo isso para podermos cantar as alegrias de Jesus ressuscitado, para podermos estar numa Via Sacra como agora faremos, para consagrarmos a Nossa Senhora, como faremos daqui a pouco, para o jejum que vamos fazer. E amanhã, nós temos a Vigília Pascal, mais uma grande cerimônia. E vamos cantar o Exultet, e vamos benzer a água batismal e vamos batizar, e vamos cantar o Aleluia da ressurreição com toda a alegria espiritual do nosso coração. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Sento. Amém.
Por Dom Lourenço Fleichman, Sexta-feira Santa, Niterói, 2017

OS 3 MOTIVOS PRA SE PRATICAR O JEJUM, SEGUNDO SÃO TOMÁS DE AQUINO


Meditações extraídas das obras de São Tomás de Aquino
Pratica-se o jejum por três motivos:
Primeiro, para reprimir as concupiscências da carne. Donde o dizer o Apóstolo (2 Cor 6, 5): «Nos jejuns, na necessidade», porque o jejum conserva a castidade. Pois, como diz Jerônimo, «sem Ceres e Baco Vênus esfria», i. é, pela abstinência da comida e da bebida a luxúria se amortece.
Segundo, praticamos o jejum para mais livremente se nos elevar a alma na contemplação das sublimes verdades. Por isso, refere a Escritura que Daniel (Dn 10), depois de ter jejuado três semanas, recebeu de Deus a revelação.
Terceiro, para satisfazer pelos nossos pecados. Por isso, diz a Escritura (Jl 2, 12): «Convertei-vos a mim de todo o vosso coração em jejum e em lágrimas e em gemido». E é o que ensina Agostinho num sermão: «O jejum purifica a alma, eleva os sentidos, sujeita a carne ao espírito, faz-nos contrito e humilhado o coração, dissipa o nevoeiro da concupiscência, extingue os odores da sensualidade, acende a verdadeira luz da castidade».
O jejum é objeto de preceito. Pois o jejum é útil para delir e coibir as nossas culpas e elevar-nos a mente para as coisas espirituais. Ora, cada um está obrigado, pela razão natural, a jejuar tanto quanto lhe for necessário para conseguir tal fim. Por onde, o jejum, em geral, constitui um preceito da lei natural. Mas, a determinação do tempo e do modo de jejuar, conforme à conveniência e à utilidade do povo Cristão, constitui um preceito de direito positivo, instituído pelos superiores eclesiásticos. E tal é o jejum da Igreja, diferente do jejum natural.
Os tempos de jejum estão convenientemente determinados pela Igreja. O jejum é ordenado por dois motivos: para delir a culpa e para nos elevar a mente às coisas espirituais. Por isso, os jejuns foram ordenados especialmente naqueles tempos em que, sobretudo, devemos os fiéis nos purificar dos pecados e elevar a mente a Deus pela devoção. O que sobretudo se dá antes da solenidade Pascal, quando as culpas são delidas pelo batismo, celebrado solenemente na vigília da Páscoa, em memória da sepultura do Senhor; pois, pelo batismo, somos sepultados com Cristo para «morrer ao pecado», na frase do Apóstolo (Rm 6, 4). E também na festa Pascal devemos, sobretudo, pela devoção, elevar a mente à glória da eternidade, a que Cristo deu começo pela sua ressurreição. Por isso, imediatamente antes da solenidade Pascal, a Igreja nos manda jejuar; e pela mesma razão, nas vigílias das principais festividades, quando devemos nos preparar devotamente para celebrar as festas que se vão celebrar.
 (P. D. Mézard, Quinta-feira depois das cinzas: O jejum