sexta-feira, 12 de abril de 2019

DA INSTABILIDADE DO CORAÇÃO E QUE A INTENÇÃO FINAL SE HÁ DE DIRIGIR A DEUS



Jesus: Filho, não te fies nos teus afetos atuais, que depressa em outros se mudarão. Enquanto viveres, estarás sujeito ao variável, ainda que não queira; ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado, ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio porém, e instruído na vida espiritual, está acima desta inconstância, não cuidando dos seus sentimentos, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas concentrando todo o esforço de sua alma no devido almejado fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo e inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.

IMITAÇÃO DE CRISTO - Capítulo 33

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O chamado de Deus

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O próprio Deus busca a si mesmo em nós, e a aridez e pesar de nosso coração é o pesar de Deus que não é conhecido por nós, que ainda não pode encontrar-se em nós porque não ousamos crer ou confiar na incrível verdade que Ele possa viver em nós, e viver em nós por escolha, por preferência [...]. É o amor de meu amante, meu filho ou meu irmão que me permite mostrar Deus nele ou nela. O amor é epifania de Deus em nossa pobreza.
 
BINGEMER, M. C. Thomas Merton: a clausura no centro do mundo.
Petrópolis, RJ: Vozes; Rio de Janeiro: Editora PUC, 2018, p. 59.

PRUDÊNCIA: MAIS INDECISÕES

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MAIS INDECISÕES

A negligência

            Santo Tomás, ao tratar sobre a prudência, na Suma Teológica, dedica alguns capítulos (“artigos”) à negligência.
«A negligência – diz – implica a falta da solicitude devida… Procede de um certo relaxamento da vontade, que faz com que não se estimule o raciocínio para que dele surja a determinação de fazer o que se deve e do modo devido»[1].
“Solicitude” significa zelo, empenho por atingir um objetivo. Para isso, é preciso que haja um querer, um ideal que aqueça a alma e a mantenha desperta.  O negligente não tem nada disso, nem metas de superação nem verdadeiros ideais. Só pensa com imediatismo, só fala em lugares comuns, só comenta festas, campeonatos, jogos, aventuras efêmeras, experiências etílicas e “viagens”.
Em suma, a negligência identifica-se com a frivolidade, um dos grandes inimigos da prudência. É um defeito característico das pessoas vazias por dentro: caprichosas, inconstantes de pensamento e de caráter, passivas, avoadas, volúveis, distraídas… Têm a consistência de uma bolha de sabão, embora apresentem às vezes, como a bolha, brilhos irisados.
São Josemaria alerta vigorosamente contra essa perigosa imprudência: «Não caias nessa doença do caráter que tem por sintomas a falta de firmeza para tudo, a leviandade no agir e no dizer, o estouvamento…, a frivolidade, numa palavra. – Essa frivolidade, que – não o esqueças – torna os teus planos de cada dia tão vazios (“tão cheios de vazio”), se não reages a tempo – não amanhã; agora! – fará da tua vida um boneco de trapos morto e inútil (Caminho, n. 17).
E, quando se trata da vida espiritual cristã, o mesmo santo faz um diagnóstico preciso, sobre o qual você fará bem de se examinar ponto por ponto: «És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou “manha” o modo de diminuir os teus deveres; se só pensas em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos [sem pensar em Deus]» (Caminho, n. 331)

O vício de protelar 
Há pessoas que padecem de um tipo especializado de negligência: postergar tudo o máximo possível. Não sei se o fazem de propósito ou como efeito da compulsão de sua irresponsabilidade.
Chegam esbaforidos ao aeroporto e apanham o avião na última chamada, ou simplesmente o perdem. Atrasam renovar a carteira de motorista, com risco de apanhar a correspondente multa ou sanção. A mesma coisa com o passaporte. Perdem outros prazos, com   consequências jurídicas e monetárias lamentáveis. E se afobam quando já não dá tempo..
É importante compreender que a verdadeira prudência exige  decisões prontas.
Santo Tomás, reportando-se a Aristóteles afirma: «É preciso deliberar calmamente, mas pôr prontamente em ação aquilo que antes foi deliberado e julgado»[2].
Façamos um balanço. Quantos bons projetos e propósitos nossos acabaram inutilizados, mofando no quarto de despejo da vida, por falta de prontidão, porque “chegamos tarde”. Fomos adiando-os, sem razões de peso e com pesada leviandade, e depois ficamos chorando a frustração daquilo que poderíamos e deveríamos ter feito. Quantas páginas da nossa vida ficaram em branco, e nos sussurram no fundo da consciência aquelas palavras de Cristo: Servidor mau e preguiçoso, devias… (Mt 25, 27).
«A prudência exige habitualmente uma determinação pronta e oportuna – ouçamos de novo São Josemaria −. Se algumas vezes é prudente adiar a decisão até que se completem todos os elementos de juízo, outras seria uma grande imprudência não começar a pôr em prática, quanto antes, aquilo que vemos ser necessário fazer, especialmente quando está em jogo o bem dos outros»[3].

[1] Suma Teológica., II-II, q. 54, a. 1-3
[2] Suma Terológica, II-II, q.47, a. 9, c
[3] Amigos de Deus, n. 86

“NÓS NÃO SABEMOS O QUE SOMOS, NEM SABEMOS O QUE PODEMOS, PORÉM A TENTAÇÃO O DESCOBRE”

Por Pe. Manuel José Gonçalves Couto
Jesus Cristo subindo a uma barca, os seus discípulos o seguiram, e houve uma grande tempestade, de sorte que as ondas iam cobrindo a barca. Jesus Cristo, meus irmãos, com esta tempestade quis ensinar aos seus discípulos e a todos nós, que no caminho do Céu também há tribulações e tentações, como diz o Eclesiástico: “Filho, chegando-te ao serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação”. E como disse S. Rafael a Tobias: “Por que eras aceito a Deus, foi necessário que a tentação te provasse”.
A alma justa muitas vezes anda cheia de alegrias e consolações, e dali por um pouco Deus a mete em uma noite escura de trabalhos e tribulações, como diz S. João da Cruz: “Quando a alma justa mais a seu gosto anda gozando destas delícias espirituais, e mais claro lhe brilha o sol dos divinos favores, Deus muitas vezes lhe escurece toda essa luz, e lhe fecha a porta dessa doce água espiritual, de que andava gozando em Deus, e quando ela queria. E desta sorte a deixa tanto às escuras, que não sabe dar um só passo na vida espiritual, porque para ela tudo é noite e escuridão. Nós sabemos que muitos santos viveram quase sempre nas tribulações e nas tentações.
A sagrada Escritura nos diz que são muitas as tribulações dos justos, de sorte que uma alma neste mundo anda sempre cercada de tentações, e se não as conhece, é porque ainda vive na cegueira. Mas perguntareis vós: “E Deus por que permite tantas tribulações e tentações aos seus servos?” Deveis saber que é para os mortificar e eles adquirirem merecimentos. Também é para os excitar nas virtudes, e experimentar o quanto são firmes. Diz um devoto escritor: “Nós não sabemos o que somos, nem sabemos o que podemos, porém a tentação o descobre”.

E assim é, meus irmãos. Poucas são as pessoas que sejam firmes, e que tenham virtudes verdadeiras. Muitos ainda entendem que tem as virtudes de um cristão, mas se o examinarmos não aparecerá virtude verdadeira, e porque? Porque só tem as virtudes enquanto não vem as tentações. Pois vindo as tentações, que é a prova, logo desaparece tudo. Nem há paciência, nem humildade. Não se sofre coisa alguma, murmura-se, dão-se queixas, falta-se à justiça e à caridade. Finalmente, lá vão as virtudes todas!… E que aconteça isto a essas pessoas que se confessam só uma vez a cada ano, não me admiro. Mas aconteça a pessoas que frequentam os sacramentos, que professam a virtude, que é isso, meus irmãos?! Que virtudes são estas? Aonde está o fruto das vossas confissões frequentes? Ai que eu temo muito que as vossas confissões seja todas nulas! Porque não tendes virtudes verdadeiras. As vossas virtudes são falsas e aparentes, porque desaparecem logo que vem as tentações, que são a prova. Ora, pois, desenganai-vos. A falta de emenda não tem remédio, notai estas palavras: a falta de emenda em matéria grave não tem remédio. Portanto tirai sempre fruto das vossas confissões.
Da obra “Missão Abreviada”

Imagem de Medjugorje Derrama Mel No Mosteiro Regina Pacis

sábado, 30 de março de 2019

Quem é essa Senhora? - Banda DOM



Quem é essa senhora
que me fala com ternura,
que me acolhe sempre com bondade,
em tudo se faz entrega.
Quem é essa senhora
de mãos estendidas
que me espera sempre em seu olhar
em tudo é misericórdia
Bem Aventurada, ouve esta nossa oração.
Maria bendita, nossa consolação.
Mãe, eis-me aqui sou teu filho,
nos teus braços gentis quero estar,
Mãe, eis-me aqui sou teu filho,
minha vida vou te entregar.
Quem é essa senhora
que é Mãe do próprio Deus,
que guarda em seu coração
as palavras de um anjo.
Bem Aventurada, ouve esta nossa oração.
Maria bendita, nossa consolação.
Mãe, eis-me aqui sou teu filho,
nos teus braços gentis quero estar.
Mãe, eis-me aqui sou teu filho,
minha vida vou te entregar...

Artista: Banda DOM
Álbum: O Amor Vai Falar
Data de lançamento: 2015

sexta-feira, 29 de março de 2019

Prudência: Virtudes humanas e cristãs

CULTIVAR AS VIRTUDES HUMANAS E CRISTÃS
«Persuadi-vos – escreve São Josemaria – de que um cristão, se de verdade pretende conduzir-se retamente diante de Deus e diante dos homens, precisa de todas as virtudes, pelo menos em potência»[1].
Tenhamos presente o que dizia o Pe. Antonio Vieira: «Os olhos veem pelo coração; e assim como             quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações»[2].
Onde o Pe. Vieira diz “humores”, coloquemos “vícios”, que são o contrário das virtudes. Para alcançar a clareza do olhar, do julgamento de que a prudência precisa (cf. Mt 6, 22-23), é necessário limpar esses “humores”, e eles só se limpam com a luta pelas virtudes, ajudados pela graça de Deus.
─ Em primeiro lugar – porque têm uma função básica −, precisamos esforçar-nos por cultivar as virtudes humanas[3] já mencionadas antes, ou seja as “virtudes morais”: prudência, justiça, fortaleza, temperança… e as outras virtudes ligadas a elas. Essas virtudes já foram comparadas à estrutura óssea de um corpo. Sem ela, o corpo se esparramaria no chão como uma ameba. Pois bem, sem virtudes, só pode haver  homens e mulheres “amebas”, incapazes de segurar a direção prudente da vida.
─ Não duvide de que as quatro virtudes cardeais são inseparáveis. Sem fortaleza, não há autodomínio, quer dizer, não há temperança. Essa moleza impede também que a prudência utilize, com constância e firmeza,  os “meios”. Por sua vez, a falta de temperança nos prazeres corporais, ofusca a mente e escurece a prudência, e também enfraquece a vontade desfibrando assim a fortaleza. Finalmente, sem justiça a alma se corrompe e confunde o certo com o errado; deixa de ter, então, um norte que lhe oriente a prudência.
─ Acima das virtudes humanas, e vivificando-as todas, estão as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Essas três virtudes, diz o Catecismo da Igreja, «informam e vivificam todas as virtudes morais» (n. 1813). Elas criam a abóbada luminosa onde a prudência é guiada com segurança pela “estrela” de Deus, como na história dos Magos.
─ Quando a alma vive sob o influxo dessa constelação de virtudes – teologais e morais −, os valores da vida se enxergam de uma forma mais alta, e a prudência, que agora já é “prudência sobrenatural”, toma rumos bem mais elevados.
Vale a pena recordar uma cena evangélica, que fala da vida de um jovem, que fracassou pela falta de prudência sobrenatural.
O Evangelho nos mostra um rapaz idealista e impetuoso. Empolgado, ao ver e ouvir Jesus, correu ao encontro dele e se lhe jogou aos pés dizendo: Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?  Queria estar com Deus, muito perto de Deus e para sempre. Jesus indicou-lhe o caminho dos dez Mandamentos da Lei de  Deus. Satisfeito, o jovem respondeu: Eu os tenho observado desde a minha adolescência.
Jesus então – diz São Marcos – olhou para ele com carinho, e lançou-lhe um apelo: Ainda te falta uma coisa. O que faltava era largar tudo e segui-lo, como fizeram Pedro, João, Mateus, Tiago…. Mal ouviu o apelo da vocação, o jovem ficou pesaroso e foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens. Ficou com o seu dinheiro e a sua tristeza, talvez para sempre… (cf. Mc 10, 17-22).
Fez uma inversão de valores. Mais do que acolher o amor de Deus e o privilégio da vocação divina, preferiu aconchegar-se nos seus bens materiais, no dinheiro. Bem dizia Jesus que ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a Deus e à riqueza (Mt 6, 24)

Duas virtudes auxiliares
Há uma série de virtudes que Santo Tomás chama “partes integrantes” da prudência, porque só com elas a prudência funciona bem[4]. Vamos considerar duas delas:
─ A docilitas (palavra ligada ao verbo latino docere, ensinar)
«A prudência – diz o santo doutor – refere-se às ações particulares, nas quais a diversidade é quase infinita. Não é possível que um só homem seja plenamente informado de tudo o que a isso se refere, nem em um curto tempo, senão em um longo tempo. Por isso, no que se refere à prudência, em grande parte o homem tem necessidade de ser instruído por outros»[5].
Docilitas é a arte de consultar a quem pode aconselhar-nos – como lembrávamos acima −, e de acolher os seus conselhos e sugestões de mente aberta, com ponderação e sem preconceitos.
Como é difícil a arte de “escutar”. Passamos grande parte da vida escutando-nos a nós mesmos. Ao fazer isso, substituímos a razão objetiva pela subjetividade dos nossos desejos, caprichos e vontades. É lógico que, assim, muitos “juízos” e “decisões” pessoais saiam deturpados.
É próprio do prudente consultar e escutar. Pelo contrário o vaidoso fala, fala, fala, impõe seus pontos de vista, nem que seja na base de gritar mais alto do que os outros. Assim impossibilita o diálogo, ignora a troca enriquecedora de pareceres. Quem não sabe ouvir se empobrece. Isso é muito ruim na família, é ruim entre amigos, é ruim na empresa, é ruim no esporte, é ruim na Igreja …
─ A previdência. É outra “parte integrante” da prudência. Dela, Santo Tomás afirma, entre outras coisas: «Deve-se dizer que todas as vezes que muitas coisas são requeridas para uma ação, uma delas é necessariamente a principal à qual todas as outras se subordinam»[6].
No mundo atual, é normal estar envolvido em muitas coisas, numa complexidade de ocupações e deveres. É necessário ordená-los. Não permitir que o secundário ocupe o lugar do principal, ou que o nosso tempo se organize de forma a deixar de lado os deveres primordiais.
Para mencionar um exemplo comum, lembre-se do grande número de pais e mães que, pela dedicação “desordenada” (ou seja, não necessária nem inevitável) ao trabalho profissional, não deixam espaço para o convívio familiar, não acham tempo para a conversa entre mulher e marido, nem para o diálogo e a vida compartilhada com os filhos.
Isso tudo é uma desordem na hierarquia de valores. Uma imprudência séria, que – por falha na formação da consciência moral −  é praticada por muitos como a coisa mais natural do mundo.
O prudente decide sobre os fins e os meios mantendo a ordem de importâncias: ao que é primeiro, deve dedicar-se a melhor atenção e empenho, ainda que não se lhe possa dedicar o maior tempo.
Quer uma ordem hierárquica clara?
─ primeiro, Deus (e os mais necessitados, espiritual e corporalmente, que Jesus identifica consigo: cf. Mt 25, 40)
─ segundo, a família, a “começar” pela mútua dedicação do casal
─ terceiro, os deveres profissionais e sociais, e a responsabilidade pelo bem comum
Dissemos desde o começo que a pessoa prudente tem que decidir quais os fins certos e os meios adequados que deve escolher. Falta-nos apenas refletir sobre a ação, sobre a decisão de agir, de pôr em prática esses meiosÉ o que veremos nos próximos capítulos.

[1] Amigos de Deus, m. 161
[2] Sermão da quinta quarta-feira, 1669
[3] Cf. A conquista das virtudes, Coedição Cultor de Livros e Cléofas, 2ª ed., São Paulo 2015
[4] S. Tomás chama-as partes integrantes pois são, diz ele, como «as paredes, o teto e as fundações que são parte de uma casa» (Suma Teológica, II-II, 48 c)
[5] Suma Teológica, II-II, 49, 3 c)
[6] Ibidem, II-II, 49, 6, 1