quinta-feira, 18 de abril de 2019

JUDAS E OS PECADORES QUE NÃO QUEREM SE EMENDAR

“Amigo, a que vieste?”
Judas, vindo por capitão dos que vinham prender a Jesus Cristo, chegou-se ao Senhor, e lhe disse: “Deus te salve, Mestre”; e abraçando-o, lhe deu um beijo de falsa paz em seu divino rosto. E o divino Jesus lhe respondeu: “Amigo, a que vieste?”
Judas na verdade fez o que quis, entregou a Jesus Cristo. Porém depois qual foi o seu destino? Bem o sabeis. Foi arrepender-se, desesperar, enforcar-se, e finalmente cair no inferno! Pois o mesmo tem de acontecer aos pecadores que se não querem emendar. Eles agora vão fazendo o que querem. Vão seguindo à rédea solta as suas paixões desordenadas. Não olham a Deus, nem aos seus preceitos. Nem lhes importa a eternidade. São como as criaturas irracionais que não tratam do Céu nem do inferno, mas depois qual será o seu destino?
Será tal como o de Judas, porque se portam como Judas… Quando Judas entregou a Jesus Cristo no horto, o Senhor lhe disse: “A que vieste?” Pois o mesmo há de dizer a essas almas pecadoras, quando sem veste nupcial da divina graça elas quiserem entrar lá no Reino dos Céus… A que vindes? Que pretendes deste Reino? Em que empregastes o vosso tempo? A quem servistes vós? Não foi às paixões, ao mundo e ao demônio? Pois então sois do demônio, não é aqui o vosso lugar. Apartai-vos já de mim. Ide com o demônio para o fogo eterno!!
Que responderás, pecador, quando Jesus te disser: Eu criei-te à minha imagem e semelhança. Eu dei-te a luz da fé, e fiz-te cristão. Eu remi-te com o meu próprio sangue. Por ti jejuei, trabalhei, caminhei, e suei gotas de sangue. Por ti sofri muitas perseguições, e muitos açoites. Levei muitas bofetadas, ouvi muitas blasfêmias, e sujeitei-me aos maiores tormentos. Esta cruz e estes cravos que aqui aparecem, são testemunhos. Estas chagas de mãos e pés, que no meu corpo observas, são testemunhos. São testemunhos o Céu e a terra, diante de quem padeci. Portanto, que queixas tiveste de mim para me deixares, e seguir o demônio?…
Eu chamei-te muitas vezes pelas vozes dos meus Ministros, e tu não me quiseste ouvir. Eu bati muitas vezes às portas do teu coração, e tu não me quiseste abri-las. Estendi muitas vezes as minhas mãos para te abraçar, e tu não quiseste olhar para elas. Tu desprezaste as minhas promessas e ameaças. Obedeceste sempre ao demônio. Pois então vai já com o demônio para o fogo eterno!!
E qual de vós, meus irmãos, terá esta sentença? Pois há de ser aquele que fizer como Judas. Aquele que vender a alma ao demônio pelo pecado mortal, e com tempo não reformar a sua vida. Portanto, preparai-vos, porque não sabeis o dia nem a hora em que sereis chamados a contas.
 Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto

A TUA CRUZ HÁS DE LEVÁ-LA QUER QUEIRAS, QUER NÃO



Depois de lida a sentença, os Judeus tomaram a Jesus Cristo, e o levaram para ser crucificado. Ele saindo levou a sua cruz para o lugar do Calvário. E com que amor a recebeu! Como lhe diria “Ó cruz desejada de minha alma! Tu és o objeto dos meus desejos e dos meus suspiros; vem cá, vem a mim, ó amada minha! Tu és o altar sobre o qual me quero sacrificar, para remir o mundo, dando a vida! Vem cá, recebe-me em teus braços, pois já há trinta e três anos que te procuro com os maiores desejos!…” Jesus Cristo assim receberia a sua cruz pelos grandes desejos que tinha de padecer e morrer por nosso amor.
E com que gosto e alegria levas tu a tua cruz, cristão?
Se estás enfermo, já não queres as dores com que Deus te purifica. Se te contradizem, se te repreendem, se te injuriam ou caluniam, já te inquietas. Não te humilhas, nem sofres com paciência por Deus; vais queixar-te e falar com contra essas pessoas. Se te causam algum dano ou prejuízo nos teus campos, ou nas tuas coisas, também logo te turbas, enches de ira e raiva, e rompes em ralhos e pragas contra quem te deu esse prejuízo temporal, e ao mesmo tempo com a tua alma carregada de pecados, podendo encher-te de merecimentos.
É assim, cristão, como observas o Santo Evangelho? Será isso viver como cristão, e imitar a Jesus Cristo? Ó, grande cegueira! Já que perdes o temporal, não percas também o eterno! Uma vez que tens esse prejuízo, o remédio é sofrê-lo por Deus, e com paciência, e oferecer a Deus essa mortificação. Desta sorte se purifica a tua alma cada vez mais, e adquires grandes merecimentos.
Que mais queres? Não sabes que Deus se serve de umas pessoas para castigar as outras? Não sabes que um pecador, por isso mesmo que é pecador, e se rebelou contra Deus, tudo merece? Não mereces tu por via dos teus pecados quantos castigos se podem dar neste mundo?
Vai conhecendo, que Deus todos os dias te está enchendo de benefícios, e tu nem sequer os conheces, nem lhos agradeces, e porque? Porque tens ainda os olhos da tua alma fechados, ainda te não diriges pela fé. As enfermidades, as dores, os trabalhos, a fome, a sede, o prejuízo nas coisas temporais, tudo isto são graças e benefícios divinos: porque Deus é justo, e o pecador há de ser castigado, ou neste mundo com estas e outras coisas, ou no outro à força do fogo; Porém neste mundo fica mil vezes mais folgado. Logo tudo são graças e benefícios que Deus está fazendo aos pecadores.
Finalmente, a cruz hás de levá-la quer queiras, quer não. Com a diferença que, se sofreres com paciência por Deus, custa-te menos, e ganhas o céu. E se levares a cruz contra a tua vontade, custa-te mais e ganhas o inferno. Portanto sofre tudo por Deus, e oferece tudo a Deus e tem paciência com tudo, para que tudo te sirva de proveito para a tua alma.
Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto

sexta-feira, 12 de abril de 2019

DA INSTABILIDADE DO CORAÇÃO E QUE A INTENÇÃO FINAL SE HÁ DE DIRIGIR A DEUS



Jesus: Filho, não te fies nos teus afetos atuais, que depressa em outros se mudarão. Enquanto viveres, estarás sujeito ao variável, ainda que não queira; ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado, ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio porém, e instruído na vida espiritual, está acima desta inconstância, não cuidando dos seus sentimentos, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas concentrando todo o esforço de sua alma no devido almejado fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo e inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.

IMITAÇÃO DE CRISTO - Capítulo 33

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O chamado de Deus

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O próprio Deus busca a si mesmo em nós, e a aridez e pesar de nosso coração é o pesar de Deus que não é conhecido por nós, que ainda não pode encontrar-se em nós porque não ousamos crer ou confiar na incrível verdade que Ele possa viver em nós, e viver em nós por escolha, por preferência [...]. É o amor de meu amante, meu filho ou meu irmão que me permite mostrar Deus nele ou nela. O amor é epifania de Deus em nossa pobreza.
 
BINGEMER, M. C. Thomas Merton: a clausura no centro do mundo.
Petrópolis, RJ: Vozes; Rio de Janeiro: Editora PUC, 2018, p. 59.

PRUDÊNCIA: MAIS INDECISÕES

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MAIS INDECISÕES

A negligência

            Santo Tomás, ao tratar sobre a prudência, na Suma Teológica, dedica alguns capítulos (“artigos”) à negligência.
«A negligência – diz – implica a falta da solicitude devida… Procede de um certo relaxamento da vontade, que faz com que não se estimule o raciocínio para que dele surja a determinação de fazer o que se deve e do modo devido»[1].
“Solicitude” significa zelo, empenho por atingir um objetivo. Para isso, é preciso que haja um querer, um ideal que aqueça a alma e a mantenha desperta.  O negligente não tem nada disso, nem metas de superação nem verdadeiros ideais. Só pensa com imediatismo, só fala em lugares comuns, só comenta festas, campeonatos, jogos, aventuras efêmeras, experiências etílicas e “viagens”.
Em suma, a negligência identifica-se com a frivolidade, um dos grandes inimigos da prudência. É um defeito característico das pessoas vazias por dentro: caprichosas, inconstantes de pensamento e de caráter, passivas, avoadas, volúveis, distraídas… Têm a consistência de uma bolha de sabão, embora apresentem às vezes, como a bolha, brilhos irisados.
São Josemaria alerta vigorosamente contra essa perigosa imprudência: «Não caias nessa doença do caráter que tem por sintomas a falta de firmeza para tudo, a leviandade no agir e no dizer, o estouvamento…, a frivolidade, numa palavra. – Essa frivolidade, que – não o esqueças – torna os teus planos de cada dia tão vazios (“tão cheios de vazio”), se não reages a tempo – não amanhã; agora! – fará da tua vida um boneco de trapos morto e inútil (Caminho, n. 17).
E, quando se trata da vida espiritual cristã, o mesmo santo faz um diagnóstico preciso, sobre o qual você fará bem de se examinar ponto por ponto: «És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou “manha” o modo de diminuir os teus deveres; se só pensas em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos [sem pensar em Deus]» (Caminho, n. 331)

O vício de protelar 
Há pessoas que padecem de um tipo especializado de negligência: postergar tudo o máximo possível. Não sei se o fazem de propósito ou como efeito da compulsão de sua irresponsabilidade.
Chegam esbaforidos ao aeroporto e apanham o avião na última chamada, ou simplesmente o perdem. Atrasam renovar a carteira de motorista, com risco de apanhar a correspondente multa ou sanção. A mesma coisa com o passaporte. Perdem outros prazos, com   consequências jurídicas e monetárias lamentáveis. E se afobam quando já não dá tempo..
É importante compreender que a verdadeira prudência exige  decisões prontas.
Santo Tomás, reportando-se a Aristóteles afirma: «É preciso deliberar calmamente, mas pôr prontamente em ação aquilo que antes foi deliberado e julgado»[2].
Façamos um balanço. Quantos bons projetos e propósitos nossos acabaram inutilizados, mofando no quarto de despejo da vida, por falta de prontidão, porque “chegamos tarde”. Fomos adiando-os, sem razões de peso e com pesada leviandade, e depois ficamos chorando a frustração daquilo que poderíamos e deveríamos ter feito. Quantas páginas da nossa vida ficaram em branco, e nos sussurram no fundo da consciência aquelas palavras de Cristo: Servidor mau e preguiçoso, devias… (Mt 25, 27).
«A prudência exige habitualmente uma determinação pronta e oportuna – ouçamos de novo São Josemaria −. Se algumas vezes é prudente adiar a decisão até que se completem todos os elementos de juízo, outras seria uma grande imprudência não começar a pôr em prática, quanto antes, aquilo que vemos ser necessário fazer, especialmente quando está em jogo o bem dos outros»[3].

[1] Suma Teológica., II-II, q. 54, a. 1-3
[2] Suma Terológica, II-II, q.47, a. 9, c
[3] Amigos de Deus, n. 86

“NÓS NÃO SABEMOS O QUE SOMOS, NEM SABEMOS O QUE PODEMOS, PORÉM A TENTAÇÃO O DESCOBRE”

Por Pe. Manuel José Gonçalves Couto
Jesus Cristo subindo a uma barca, os seus discípulos o seguiram, e houve uma grande tempestade, de sorte que as ondas iam cobrindo a barca. Jesus Cristo, meus irmãos, com esta tempestade quis ensinar aos seus discípulos e a todos nós, que no caminho do Céu também há tribulações e tentações, como diz o Eclesiástico: “Filho, chegando-te ao serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação”. E como disse S. Rafael a Tobias: “Por que eras aceito a Deus, foi necessário que a tentação te provasse”.
A alma justa muitas vezes anda cheia de alegrias e consolações, e dali por um pouco Deus a mete em uma noite escura de trabalhos e tribulações, como diz S. João da Cruz: “Quando a alma justa mais a seu gosto anda gozando destas delícias espirituais, e mais claro lhe brilha o sol dos divinos favores, Deus muitas vezes lhe escurece toda essa luz, e lhe fecha a porta dessa doce água espiritual, de que andava gozando em Deus, e quando ela queria. E desta sorte a deixa tanto às escuras, que não sabe dar um só passo na vida espiritual, porque para ela tudo é noite e escuridão. Nós sabemos que muitos santos viveram quase sempre nas tribulações e nas tentações.
A sagrada Escritura nos diz que são muitas as tribulações dos justos, de sorte que uma alma neste mundo anda sempre cercada de tentações, e se não as conhece, é porque ainda vive na cegueira. Mas perguntareis vós: “E Deus por que permite tantas tribulações e tentações aos seus servos?” Deveis saber que é para os mortificar e eles adquirirem merecimentos. Também é para os excitar nas virtudes, e experimentar o quanto são firmes. Diz um devoto escritor: “Nós não sabemos o que somos, nem sabemos o que podemos, porém a tentação o descobre”.

E assim é, meus irmãos. Poucas são as pessoas que sejam firmes, e que tenham virtudes verdadeiras. Muitos ainda entendem que tem as virtudes de um cristão, mas se o examinarmos não aparecerá virtude verdadeira, e porque? Porque só tem as virtudes enquanto não vem as tentações. Pois vindo as tentações, que é a prova, logo desaparece tudo. Nem há paciência, nem humildade. Não se sofre coisa alguma, murmura-se, dão-se queixas, falta-se à justiça e à caridade. Finalmente, lá vão as virtudes todas!… E que aconteça isto a essas pessoas que se confessam só uma vez a cada ano, não me admiro. Mas aconteça a pessoas que frequentam os sacramentos, que professam a virtude, que é isso, meus irmãos?! Que virtudes são estas? Aonde está o fruto das vossas confissões frequentes? Ai que eu temo muito que as vossas confissões seja todas nulas! Porque não tendes virtudes verdadeiras. As vossas virtudes são falsas e aparentes, porque desaparecem logo que vem as tentações, que são a prova. Ora, pois, desenganai-vos. A falta de emenda não tem remédio, notai estas palavras: a falta de emenda em matéria grave não tem remédio. Portanto tirai sempre fruto das vossas confissões.
Da obra “Missão Abreviada”

Imagem de Medjugorje Derrama Mel No Mosteiro Regina Pacis