quinta-feira, 18 de abril de 2019

CRISTO PARA MORRER, DISSE: “EU TENHO SEDE”. NÃO DIZ QUE TEM DORES, DIZ QUE TEM SEDE. E QUE SEDE SERÁ ESTA?



[Pelo Pe. Manoel José Gonçalves Couto]
Jesus Cristo estando para morrer sobre a cruz, seus carrascos não cessavam de o atormentar e desprezar cada vez mais com injúrias e escárnios. Diziam outros: “Ele tem livrado os outros e agora não pode se livrar a si?” Diziam outros: “Se Ele é o Rei de Israel, que desça agora da cruz”. Porém, enquanto eles o insultavam, Jesus Cristo por eles estava pedindo a seu Eterno Pai.
Vingativo, põe aqui os teus olhos. Olha para o teu Divino Mestre. Ele pediu a seu Eterno Pai perdão para os seus inimigos, e tu? Tu, nem para os teus inimigos, nem para ti o pedes. Dos inimigos desejas vingar-te. Se assim continuas, que esperança de salvação podes ter? Nenhuma, porque não segues o exemplo de Jesus Cristo.
A morte de Jesus Cristo foi, pois, a mais amarga e a mais dolorosa porque morreu sobre uma cruz, sem alívio algum. Desde os pés até a cabeça tudo é dor e aflição. Ele ainda procurou quem o consolasse, mas não achou quem.
Os judeus e os romanos proferiam contra Ele terríveis maldições e blasfêmias. Maria Santíssima bem queria dar-lhe algum alívio, mas as suas dores mais o atormentavam. Não achando na terra quem o consolasse, levantou os olhos ao Céu e pediu socorro a se Eterno Pai, porém o Pai lhe responde: “Não, meu Filho, não quero consolar-te, porque satisfazes a minha justiça por todos os pecados do mundo. É justo, pois, que eu te abandone nesses tormentos e te deixe morrer sem algum alívio.” E foi, então, quando Jesus Cristo deu um grande brado, um ai, proferindo estas palavras para nos fazer conhecer a grande dor em que morria e o grande amor que nos tinha em tanto padecer por nós.
Ó pecador, não sejas mais ingrato a tantos excessos de amor divino. Deixa já o pecado. Já é bem tempo de te voltares para Deus e de ter muito amor a Jesus, que tanto sofreu por ti.
Estando, pois, Jesus Cristo para morrer, disse: “Eu tenho sede”. Não diz que tem dores, diz que tem sede. E que sede será esta? Era um grande desejo que tinha de salvar os pecadores, era um grande desejo que tinha de sofrer e de padecer ainda mais para o salvar. Sabes isto, pecador, e não terás também sede de Jesus?
Ó, se tu tiveras tanta sede ou desejo de te salvar, como Ele teve de sofrer e de padecer por teu amor.
Estando Jesus Cristo para dar o último suspiro, disse com uma voz moribunda: “Já está tudo cumprido. A obra da vossa redenção está concluída. A divina justiça está satisfeita. O Céu já está aberto para todos. Aí vos fica remédio para tudo. Aproveite-se pois quem quiser! Tempo é de deixar o pecado. Já me podeis amar. Pois eu primeiro vos amei a vós. Eu não tenho mais que fazer para ser amado por vós.
Vede, pois, o que eu tenho feito por amor de vós e para que deixeis o pecado. Por vós eu tenho passado uma vida toda cheia de trabalho e aflições. Por vós eu tenho sido esgotado de sangue. Por vós o meu rosto foi escarrado, o meu corpo rasgado, a minha cabeça penetrada de espinhos. Sobre este madeiro por vós tenho sofrido as maiores dores e agonias. Que resta ainda para fazer, pecadores?
Que eu morra por vós! Pois também quero morrer por vós! Morte! Vem, ó morte! Vem tirar-me a vida para salvar estes pecadores. E vós, pecadores, eu vos peço que deixes o pecado e que me ameis. Eu não posso ir mais longe, não posso fazer mais para ganhar o vosso amor e a emenda do vosso pecado. Que me dizes, pecador? Ouves estas coisas e ainda não aborreces nem deixas o pecado?
Ah, quantos infernos serão precisos para castigar as tuas ingratidões? Nem mil infernos! Mil infernos ainda não são suficientes.
Lá está morrendo Jesus Cristo. Está para dar o último suspiro. Os seus olhos já estão moribundos, o seu rosto pálido, o Céu já se obscurece, a terra treme, as sepulturas se abrem. Que sinais são estes tão horrorosos? Assim acontecer porque morreu o Criador do universo, e Ele é o Salvador do gênero humano.
Jesus Cristo, tendo encomendado sua alma a seu Eterno Pai e baixando a cabeça, expirou pela violência da dor. Que me dizes, pecador? Ainda não será tempo de deixar o pecado e de ter muito amor a Jesus? A Jesus que tanto tem sofrido e padecido por teu amor? Ele bem te pudera salvar, passando uma vida bem sossegada e bem regalada. Mas, não. Ele rejeitou as riquezas, deixou os prazeres e os regalos, aborreceu as honras. Escolheu uma vida pobre e uma morte afrontosa.
Que maior prova de amor pode dar o amigo, do que sacrificar sua vida por essa pessoa que ama! Pois Jesus Cristo ainda passou a mais, porque deu a vida por ti, sem tu seres amigo d’Ele. Eras, sim, um grande inimigo, porque eras com o demônio, até lhe fazias uma grande guerra.
Mas se Jesus Cristo deu a própria vida por ti, sendo tu inimigo seu, como podes tu resistir a tanto amor? A Sagrada Paixão de Jesus Cristo é um excesso de misericórdia, é um excesso de amor.
Ó, meu Jesus! Quem poderá meditar na vossa sagrada Paixão e não se abrasar no vosso santo amor? Mas, ai de ti, pecador quanto és infeliz! Pois ainda não amas a Jesus. Tu amas os teus parentes, amas os teus prazeres, amas os teus regalos e divertimentos, amas as tuas conveniências e interesses, até amas os teus animais. Tudo isto amas, e ainda mais do que a Deus, teu Redentor, porque por via destas coisas, e por amor a elas fazes muitos pecados mortais, ofendes muitas vezes a Deus, e deixas a Deus.
Ó, que ingratidões as tuas! Quando abrirás os olhos da tua alma? Ainda queres mais tempo? Pois não esperes por ele, porque ninguém ainda o prometeu a ti. É já, pecador, que deves voltar par Deus e amar muito a Jesus. Pede-lhe perdão das tuas culpas, dizendo:
Ó meu Jesus, perdoai-me, Senhor. Eu bem sei que tenho sido um ingrato a tantos excessos de amor. Porém já conheço as minhas ingratidões e misérias, e quero emendar-me, meu Jesus. Por isso vos peço que me perdoeis. Vós me tendes amado como o maior excesso e eu agora também não quero senão a vós. Todas as minhas obras serão feitas por vós e não quero viver senão para vos amar. Ajudai-me pois, Senhor.
E vós, minha Mãe Santíssima, intercedei também por mim. De vós fico esperando todas as graças que me são necessárias para emendar o pecado e amar muito o vosso Jesus.

AI DE TI, PECADOR, QUE CANTANDO E RINDO ANDAS A FAZER PECADOS E MAIS PECADOS SEM CONSIDERAR NOS TORMENTOS DE JESUS CRISTO




Considera, cristão, que Pilatos querendo livrar a Jesus Cristo e dizendo que não podia condená-lo por ser inocente, o judeus o aterraram com estas palavras: “Se soltais a Jesus Cristo não sois amigo de César”. Então Pilatos, temendo perder a amizade de César, tendo reconhecido e tantas vezes declarado que Jesus Cristo era um inocente, ultimamente o condena a morrer sobre uma cruz.
Ó meu Jesus! Que crimes tendes vós cometido para serdes condenado a morrer sobre uma cruz! Ah, eu bem sei os vossos crimes. Os vossos crimes são o grande amor que tendes às almas. Este amor é o que vos prendeu no horto. Este amor é o que vos faz caminhar para o Calvário. Finalmente, este amor é o que nos faz morrer sobre uma cruz. Ó, que excessos de amor! Caridade sem limites.
Jesus Cristo ouvindo ler a injusta sentença de morte, a aceita de boa vontade. Não se queixa de injustiça do juiz, nem apela para César, mas conforma-se com a vontade do seu Eterno Pai, o qual quer que Ele padeça e morra para salvar os pecadores. E Ele, pelo grande amor que tem às almas, até se alegra de padecer e de morrer por elas, crucificado.
Foi, pois, Jesus Cristo entregue por Pilatos a esses lobos ferozes, os quais lhe tiram a capa dos ombros e lhe vestem outra vez a sua túnica. Tomam uma cruz, mas Jesus Cristo não espera que lhe seja imposta pelo algoz. Ele mesmo a toma e põe sobre os seus ombros cobertos de chagas, dizendo: “Vem cá, vem a mim, ó cruz muito amada; já há trinta e três anos que te procuro e suspiro por ti. Eu te abraço e aperto ao meu coração. Tu és o altar sobre o qual tenho resolvido sacrificar a minha vida para salvar as almas…”
Ó, meu Jesus! Como podeis fazer tanto bem a quem vos faz tanto mal?! Vós a perdoar os pecadores, e os pecadores a ofender-vos cada vez mais, cada vez mais duros e ingratos. É assim, pecador, como pagas tanto amor que deves a Jesus Cristo? Agora mesmo ainda não te resolves a amá-lo e consagrar-lhe esses dias que te restam de vida?! Aonde irás para, se continuas com as tuas ingratidões?
No meio de dois ladrões lá vai caminhando o Rei dos Céus para a morte com a sua cruz. Ó anjos, saí também vós lá do Paraíso. Vinde lá dos Céus, vinde acompanhar o vosso Rei e vosso Deus, pois vai caminhando para o Calvário com o intento de morrer crucificado num madeiro infame entre ladrões e malfeitores. Que espetáculo mais horroroso um Deus assim castigado, e com tantos desprezos, para salvar pecadores? Que homem haverá no mundo que não se salve? Quem não amará a Jesus com todo seu coração e afeto?
Lá vai, pois, caminhando e caindo por várias vezes, todo coberto de chagas, com uma coroa de espinhos, com um pesado madeiro aos ombros e um algoz que o puxa por uma corda, como se fosse um bruto irracional. Assim vai caminhando o Rei dos Céus e da terra. Que maior desprezo! Que maior insulto!
Ó meu Jesus, pois ainda não estais satisfeito de desprezos, dores e tormentos? Se por esses meios vós pretendeis ganhar o meu amor e acabar com o pecado, então eu vos amo, meu Jesus, e não quero mais pecar. Eu vos dou todo o meu coração. Deixai, pois, já de sofrer e padecer tantos tormentos e tantos desprezos. “Não, responde Ele, não estou contente, nem ficarei satisfeito enquanto não morrer por teu amor”.
Mas, aonde ides, meu Jesus? “Bem o sabes, vou morrer por teu amor, não me embaraces. E quando me vires morto na cruz lembra-te de mim, e te peço que deixes o pecado, e que me ames”. Ó pecador, que tens aqui que responder? Ainda não amarás a Jesus? Ainda não deixarás o pecado? Talvez que não. Pois então ai de ti! Que grande prejuízo te espera!
Chegando Jesus Cristo ao Calvário, os Judeus lhe arrancam pela terceira vez o seus vestidos, já pegados às suas chagas, e é deitado sobre a cruz. Ele se estende sobre o leito de dores e apresenta suas mãos e pés para serem cravados. Uma mão é cravada, os nervos se comprimem, e por esse motivo é necessário puxar com cordas a outra mão e também os pés para chegar ao lugar dos cravos, e com isto os nervos e as veias se estenderam e romperam com uma dor terrível.
Pecador que tens empregado as tuas mãos nas impurezas e na maldade, foste tu o que lhe cravaste as mãos e também os pés, quando dava passos para ofender a Deus. Deixa, pois, esses pecados e não atormentes mais a Jesus Cristo!
A morte de cruz é a mais cruel, porque o peso do corpo suspenso faz que a dor seja contínua e se aumente até a morte. Olha, pois, para Jesus crucificado em um madeiro. Ele quer sustentar-se nas mãos, mas elas rasgam-se! Quer sustentar-se nos pés, mas também se rasgam! Ele volta a sua cabeça dolorosa ora para um lado, ora para outro. Se a deixa cair sobre os ombros, estes são atormentados pelos espinhos. Se a encosta para a cruz, os espinhos se cravam cada vez mais. Ó meu Jesus! Quanto é cruel a morte que vós sofreis por nosso amor! Ó, quanto vos custa dar remédio ao pecado.
E também ai de ti, pecador, que cantando e rindo andas a fazer pecados e mais pecados sem considerar nos tormentos de Jesus Cristo. Ai de ti, porque cantando e rindo vais caminhando para o fogo eterno. Que me dizes, pecador? Quando acabarás com as tuas loucuras e tolices? Não sabes tu que já tens a cama feita lá no inferno? Que não tens a tua fogueira já bem acesa? Quantos pecados já terás feito em toda a tua vida? Pois considera que são outros tantos molhos de lenha que tens talhado para lá te queimares.
Apaga já essa fogueira do inferno. As lágrimas de um verdadeiro arrependimento são as que vão apagar esse fogo. Chora, pois, os teus pecados, e pede perdão a Deus enquanto Ele te convida para a penitência, e recorre também a Maria, dizendo:
Ó minha Mãe Santíssima, acudi-me, Senhora. Eu estou perdido, minha Mãe. Eu também fui um daqueles carrascos que atormentaram o vosso Jesus. Cada pecado que cometia era uma flecha, era um punhal que lhe cravava no coração. Que ingratidões as minhas! Ele a procurar-me com carinhos de Pai, com entranhas de amor, e eu a atormentá-lo cada vez mais, sempre a persegui-lo, sempre a guerreá-lo juntamente com o demônio!
Ora, à vista destas coisas, que esperanças de salvação posso eu ter? Só vós me podeis valer, Senhora, porque podeis tudo. Acudi-me pois com os vossos rogos e com as vossas graças, que eu protesto nunca mais pecar. Antes cair no inferno, que tornar a ofender a Deus.

JUDAS E OS PECADORES QUE NÃO QUEREM SE EMENDAR

“Amigo, a que vieste?”
Judas, vindo por capitão dos que vinham prender a Jesus Cristo, chegou-se ao Senhor, e lhe disse: “Deus te salve, Mestre”; e abraçando-o, lhe deu um beijo de falsa paz em seu divino rosto. E o divino Jesus lhe respondeu: “Amigo, a que vieste?”
Judas na verdade fez o que quis, entregou a Jesus Cristo. Porém depois qual foi o seu destino? Bem o sabeis. Foi arrepender-se, desesperar, enforcar-se, e finalmente cair no inferno! Pois o mesmo tem de acontecer aos pecadores que se não querem emendar. Eles agora vão fazendo o que querem. Vão seguindo à rédea solta as suas paixões desordenadas. Não olham a Deus, nem aos seus preceitos. Nem lhes importa a eternidade. São como as criaturas irracionais que não tratam do Céu nem do inferno, mas depois qual será o seu destino?
Será tal como o de Judas, porque se portam como Judas… Quando Judas entregou a Jesus Cristo no horto, o Senhor lhe disse: “A que vieste?” Pois o mesmo há de dizer a essas almas pecadoras, quando sem veste nupcial da divina graça elas quiserem entrar lá no Reino dos Céus… A que vindes? Que pretendes deste Reino? Em que empregastes o vosso tempo? A quem servistes vós? Não foi às paixões, ao mundo e ao demônio? Pois então sois do demônio, não é aqui o vosso lugar. Apartai-vos já de mim. Ide com o demônio para o fogo eterno!!
Que responderás, pecador, quando Jesus te disser: Eu criei-te à minha imagem e semelhança. Eu dei-te a luz da fé, e fiz-te cristão. Eu remi-te com o meu próprio sangue. Por ti jejuei, trabalhei, caminhei, e suei gotas de sangue. Por ti sofri muitas perseguições, e muitos açoites. Levei muitas bofetadas, ouvi muitas blasfêmias, e sujeitei-me aos maiores tormentos. Esta cruz e estes cravos que aqui aparecem, são testemunhos. Estas chagas de mãos e pés, que no meu corpo observas, são testemunhos. São testemunhos o Céu e a terra, diante de quem padeci. Portanto, que queixas tiveste de mim para me deixares, e seguir o demônio?…
Eu chamei-te muitas vezes pelas vozes dos meus Ministros, e tu não me quiseste ouvir. Eu bati muitas vezes às portas do teu coração, e tu não me quiseste abri-las. Estendi muitas vezes as minhas mãos para te abraçar, e tu não quiseste olhar para elas. Tu desprezaste as minhas promessas e ameaças. Obedeceste sempre ao demônio. Pois então vai já com o demônio para o fogo eterno!!
E qual de vós, meus irmãos, terá esta sentença? Pois há de ser aquele que fizer como Judas. Aquele que vender a alma ao demônio pelo pecado mortal, e com tempo não reformar a sua vida. Portanto, preparai-vos, porque não sabeis o dia nem a hora em que sereis chamados a contas.
 Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto

A TUA CRUZ HÁS DE LEVÁ-LA QUER QUEIRAS, QUER NÃO



Depois de lida a sentença, os Judeus tomaram a Jesus Cristo, e o levaram para ser crucificado. Ele saindo levou a sua cruz para o lugar do Calvário. E com que amor a recebeu! Como lhe diria “Ó cruz desejada de minha alma! Tu és o objeto dos meus desejos e dos meus suspiros; vem cá, vem a mim, ó amada minha! Tu és o altar sobre o qual me quero sacrificar, para remir o mundo, dando a vida! Vem cá, recebe-me em teus braços, pois já há trinta e três anos que te procuro com os maiores desejos!…” Jesus Cristo assim receberia a sua cruz pelos grandes desejos que tinha de padecer e morrer por nosso amor.
E com que gosto e alegria levas tu a tua cruz, cristão?
Se estás enfermo, já não queres as dores com que Deus te purifica. Se te contradizem, se te repreendem, se te injuriam ou caluniam, já te inquietas. Não te humilhas, nem sofres com paciência por Deus; vais queixar-te e falar com contra essas pessoas. Se te causam algum dano ou prejuízo nos teus campos, ou nas tuas coisas, também logo te turbas, enches de ira e raiva, e rompes em ralhos e pragas contra quem te deu esse prejuízo temporal, e ao mesmo tempo com a tua alma carregada de pecados, podendo encher-te de merecimentos.
É assim, cristão, como observas o Santo Evangelho? Será isso viver como cristão, e imitar a Jesus Cristo? Ó, grande cegueira! Já que perdes o temporal, não percas também o eterno! Uma vez que tens esse prejuízo, o remédio é sofrê-lo por Deus, e com paciência, e oferecer a Deus essa mortificação. Desta sorte se purifica a tua alma cada vez mais, e adquires grandes merecimentos.
Que mais queres? Não sabes que Deus se serve de umas pessoas para castigar as outras? Não sabes que um pecador, por isso mesmo que é pecador, e se rebelou contra Deus, tudo merece? Não mereces tu por via dos teus pecados quantos castigos se podem dar neste mundo?
Vai conhecendo, que Deus todos os dias te está enchendo de benefícios, e tu nem sequer os conheces, nem lhos agradeces, e porque? Porque tens ainda os olhos da tua alma fechados, ainda te não diriges pela fé. As enfermidades, as dores, os trabalhos, a fome, a sede, o prejuízo nas coisas temporais, tudo isto são graças e benefícios divinos: porque Deus é justo, e o pecador há de ser castigado, ou neste mundo com estas e outras coisas, ou no outro à força do fogo; Porém neste mundo fica mil vezes mais folgado. Logo tudo são graças e benefícios que Deus está fazendo aos pecadores.
Finalmente, a cruz hás de levá-la quer queiras, quer não. Com a diferença que, se sofreres com paciência por Deus, custa-te menos, e ganhas o céu. E se levares a cruz contra a tua vontade, custa-te mais e ganhas o inferno. Portanto sofre tudo por Deus, e oferece tudo a Deus e tem paciência com tudo, para que tudo te sirva de proveito para a tua alma.
Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto

sexta-feira, 12 de abril de 2019

DA INSTABILIDADE DO CORAÇÃO E QUE A INTENÇÃO FINAL SE HÁ DE DIRIGIR A DEUS



Jesus: Filho, não te fies nos teus afetos atuais, que depressa em outros se mudarão. Enquanto viveres, estarás sujeito ao variável, ainda que não queira; ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado, ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio porém, e instruído na vida espiritual, está acima desta inconstância, não cuidando dos seus sentimentos, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas concentrando todo o esforço de sua alma no devido almejado fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo e inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.

IMITAÇÃO DE CRISTO - Capítulo 33

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O chamado de Deus

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O próprio Deus busca a si mesmo em nós, e a aridez e pesar de nosso coração é o pesar de Deus que não é conhecido por nós, que ainda não pode encontrar-se em nós porque não ousamos crer ou confiar na incrível verdade que Ele possa viver em nós, e viver em nós por escolha, por preferência [...]. É o amor de meu amante, meu filho ou meu irmão que me permite mostrar Deus nele ou nela. O amor é epifania de Deus em nossa pobreza.
 
BINGEMER, M. C. Thomas Merton: a clausura no centro do mundo.
Petrópolis, RJ: Vozes; Rio de Janeiro: Editora PUC, 2018, p. 59.

PRUDÊNCIA: MAIS INDECISÕES

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MAIS INDECISÕES

A negligência

            Santo Tomás, ao tratar sobre a prudência, na Suma Teológica, dedica alguns capítulos (“artigos”) à negligência.
«A negligência – diz – implica a falta da solicitude devida… Procede de um certo relaxamento da vontade, que faz com que não se estimule o raciocínio para que dele surja a determinação de fazer o que se deve e do modo devido»[1].
“Solicitude” significa zelo, empenho por atingir um objetivo. Para isso, é preciso que haja um querer, um ideal que aqueça a alma e a mantenha desperta.  O negligente não tem nada disso, nem metas de superação nem verdadeiros ideais. Só pensa com imediatismo, só fala em lugares comuns, só comenta festas, campeonatos, jogos, aventuras efêmeras, experiências etílicas e “viagens”.
Em suma, a negligência identifica-se com a frivolidade, um dos grandes inimigos da prudência. É um defeito característico das pessoas vazias por dentro: caprichosas, inconstantes de pensamento e de caráter, passivas, avoadas, volúveis, distraídas… Têm a consistência de uma bolha de sabão, embora apresentem às vezes, como a bolha, brilhos irisados.
São Josemaria alerta vigorosamente contra essa perigosa imprudência: «Não caias nessa doença do caráter que tem por sintomas a falta de firmeza para tudo, a leviandade no agir e no dizer, o estouvamento…, a frivolidade, numa palavra. – Essa frivolidade, que – não o esqueças – torna os teus planos de cada dia tão vazios (“tão cheios de vazio”), se não reages a tempo – não amanhã; agora! – fará da tua vida um boneco de trapos morto e inútil (Caminho, n. 17).
E, quando se trata da vida espiritual cristã, o mesmo santo faz um diagnóstico preciso, sobre o qual você fará bem de se examinar ponto por ponto: «És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou “manha” o modo de diminuir os teus deveres; se só pensas em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos [sem pensar em Deus]» (Caminho, n. 331)

O vício de protelar 
Há pessoas que padecem de um tipo especializado de negligência: postergar tudo o máximo possível. Não sei se o fazem de propósito ou como efeito da compulsão de sua irresponsabilidade.
Chegam esbaforidos ao aeroporto e apanham o avião na última chamada, ou simplesmente o perdem. Atrasam renovar a carteira de motorista, com risco de apanhar a correspondente multa ou sanção. A mesma coisa com o passaporte. Perdem outros prazos, com   consequências jurídicas e monetárias lamentáveis. E se afobam quando já não dá tempo..
É importante compreender que a verdadeira prudência exige  decisões prontas.
Santo Tomás, reportando-se a Aristóteles afirma: «É preciso deliberar calmamente, mas pôr prontamente em ação aquilo que antes foi deliberado e julgado»[2].
Façamos um balanço. Quantos bons projetos e propósitos nossos acabaram inutilizados, mofando no quarto de despejo da vida, por falta de prontidão, porque “chegamos tarde”. Fomos adiando-os, sem razões de peso e com pesada leviandade, e depois ficamos chorando a frustração daquilo que poderíamos e deveríamos ter feito. Quantas páginas da nossa vida ficaram em branco, e nos sussurram no fundo da consciência aquelas palavras de Cristo: Servidor mau e preguiçoso, devias… (Mt 25, 27).
«A prudência exige habitualmente uma determinação pronta e oportuna – ouçamos de novo São Josemaria −. Se algumas vezes é prudente adiar a decisão até que se completem todos os elementos de juízo, outras seria uma grande imprudência não começar a pôr em prática, quanto antes, aquilo que vemos ser necessário fazer, especialmente quando está em jogo o bem dos outros»[3].

[1] Suma Teológica., II-II, q. 54, a. 1-3
[2] Suma Terológica, II-II, q.47, a. 9, c
[3] Amigos de Deus, n. 86