sábado, 20 de abril de 2019

PRUDÊNCIA: A REALIZAÇÃO


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QUARTA E ÚLTIMA ETAPA: A REALIZAÇÃO 
  1. Decisões de curto e longo prazo
Nem todas as decisões, como é óbvio, têm subjetivamente a mesma dimensão. É diferente a decisão de votar num determinado candidato da decisão de constituir uma família ou de instalar uma grande usina. Todas elas exigem uma ponderação prévia, séria e responsável. Mas, nas eleições, o ato de votar é coisa de minutos. Nos outros casos, a responsabilidade é contínua, sine die.
Vamos chamar “decisões permanentes” essas que miram a vida inteira ou um longo período de tempo. Jesus amava a palavra permanecer. Repetiu-a com insistência na Última Ceia quando se despedia dos apóstolos: Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… Aquele que permanece em mim, esse dá muito fruto… Permanecei no meu amor… (Jo 15, 4.5.9).
Permanecer significa manter a decisão tomada, apesar das dificuldades, do cansaço e das demoras.
Segundo Pieper, a prudência nesses casos «significa a coragem que se arrisca na decisão irreversível»[1].
As decisões que atingem profundamente a vida devem manter-se vivas através dos anos, contra vento e maré. Para conseguir isso, são necessárias três qualidades habituais: firmezacapacidade de renovar-se e humildade de retificar.
  1. Firmeza
Vamos escutar umas palavras de Santa Teresa de Ávila, que são como uma sacudida revigorante da alma. Dirigindo-se às jovens que desejavam seguir a vocação de carmelita descalça, escreve:
«Importa muito, e tudo, uma grande e muito determinada determinação de não parar até alcançar a meta, venha o que vier, aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se sintam forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se tenha ânimo para os sacrifícios que há que enfrentar, ainda que se afunde o mundo…»[2].
Santa Teresa era enérgica. Uma mulher e tanto, que ultrapassou com garra mil obstáculos. Mas não foi o que hoje se chama uma “voluntarista”, isto é, uma pessoa que acha que tudo depende única e exclusivamente da sua força de vontade. Esse foi o erro de Pelágio, no século V, que a Igreja condenou. 
Santa Teresa nunca se esqueceu de que, sem a ajuda a graça de Deus, não seríamos capazes de mexer um dedo[3]. Pelo menos uma vez por semana, como todas as Irmãs, rezava com estas palavras: Se o Senhor não construir a casa, é inútil a fadiga dos que a constroem (Sl 127 [126], 1); pois tu és, ó Deus, a minha fortaleza (Sl 43 [42], 2). Por isso, ao empreender tarefas que ultrapassavam as suas forças confiava tudo a Deus mediante muita oração, intensa e cheia de fé, e pedia às suas Irmãs que orassem dia e noite, sem cessar, “importunando” a Deus com suas petições.
Ao mesmo tempo, sabia que, contando em primeiro lugar – sempre e para tudo –, com o auxílio da graça de Deus, é preciso que façamos da nossa parte todo o esforço humano possível. Deus não abençoa a preguiça nem a inconstância. Ele quer contar com a nossa colaboração. Então podemos exclamar: Sim, contigo sinto-me forte, com o meu Deus venço qualquer barreira (Sl 18 [17], 30).
As barreiras, as dificuldades, são o teste da firmeza das nossas decisões[4]. Quando queremos mesmo, enfrentamos os problemas com força. Assim, os obstáculos que ameaçam impedir-nos de chegar à meta – mesmo os da nossa fraqueza, das nossas debilidades ou quedas pessoais –, em vez de nos paralisar, nos estimulam a reagir, a rezar mais e a empenhar-nos mais.
«Cresce perante os obstáculos – lemos em Caminho – A graça do Senhor não te há de faltar: Inter medium montium pertransibunt aquae!: – passarás através das montanhas! ( n. 12).
Assim, mantendo a firmeza perante as dificuldades, as virtudes que nos farão chegar à meta amadurecem: a humildade, o amor, a esperança, a perseverança, a fé, a paciência, o espírito de sacrifício … As águas passam através das montanhas e, com a ajuda de Deus, atingimos o ideal proposto.
  1. Capacidade de renovação
As melhores “decisões permanentes” esmorecem quando nos dedicamos apenas a  marcar o passo, a prosseguir por inércia, por rotina cega.
Digo rotina cega, porque há rotinas lúcidas. A cega é a simples continuidade, manutenção mecânica e mortiça de uma resolução tomada tempos atrás. A lúcida é a que se renova todos os dias, e se vivifica com iniciativas criativas.
Entre as decisões permanentes, mencionávamos antes a decisão de construir uma família. Fiquemos com esse exemplo. Você deve ter visto muitas vezes – vezes demais! – famílias que começaram bem, no sonho e a esperança, … e foram esmorecendo até afundar-se num mundo cinzento de maus humores, egoísmos e queixas. O amor ficou no grau mínimo da fidelidade: apenas “não” se separaram.
Não foi para afogar-se nesse nevoeiro que marido e mulher decidiram casar-se e ter filhos. Acontece, porém,  que deixaram o barco correr sem se renovar, e assim a família foi deslizando rio abaixo, até perder grande parte da alegria, dos sonhos e do ideal.
A rotina “cega” vai desgastando a força das decisões. Pelo contrário, a rotina “lúcida” as desenvolve, as purifica, as mantém vivas, as multiplica e as leva à maturidade.
É bom meditar no que dizia Santo Agostinho: «Não fiques nunca satisfeito com aquilo que és, se queres chegar ao que ainda não és. Porque onde te consideraste satisfeito, lá mesmo ficaste parado. Se disseres “já basta”, morreste. Cresce sempre, progride sempre, avança sempre»[5].
Atitude viva é, por exemplo, a do casal que inicia cada dia com uma pequena ideia nova, uma iniciativa pensada para fazer o outro – ou os outros, os filhos – um pouco mais felizes: um cumprimento mais carinhoso, uma pequena surpresa, uma atitude de proximidade e conforto nas penas, um interesse sincero pelo que aos outros interessa, o propósito de silenciar o que os pode aborrecer e de procurar comentários que incentivem…
É interessante observar que há um grande paralelismo entre o amor a Deus e o amor humano. Se o amor a Deus de um cristão quer crescer – como todos deveríamos desejar – tem que avançar cada dia um pouco, com sacrifício e alegria (melhorando a oração, com confissões e comunhões mais frequentes, com pequenos sacrifícios, com constância diária nas leituras que renovam as ideias e os propósitos, etc.).
Fazendo isso se descobre que quando, na vida de um cristão, o amor a Deus se renova, também os amores humanos se vão renovando com mais facilidade. Não são amores separáveis. Ambos fazem parte do “primeiro mandamento”: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt 22, 37-39).
Tomara que assumíssemos como programa o que descrevia São Gregório de Nissa: «Aquele que vai subindo jamais cessa de progredir, de começo em começo, através de começos que não têm fim[6].
Quando as coisas fundamentais da vida – essas que dão sentido à vida − vão mal, a nossa tentação consiste em culpar os outros ou as circunstâncias. Seria melhor que fizéssemos uma boa autocrítica, que em linguagem cristã se chama exame de consciência: “Se eu melhorasse, se eu mudasse, se eu tentasse…, será que não mudariam muitas coisas à minha volta e, sobretudo, não mudariam os outros?”
Procuremos, então, uma direção espiritual periódica, façamos um retiro ou algum curso de formação cristã, algo …, mas não concluamos que “não dá mais”. Reconheçamos que a nossa decisão permanente  ficou congelada dentro do freezer dos nossos defeitos. Tiremo-la de lá e coloquemo-la diante da luz e do calor de Deus, adotando a tática de Santo Agostinho:
«Ainda corro, ainda avanço, ainda ando, ainda estou no caminho, ainda me esforço, ainda não cheguei. Deste modo, se andas, se te esforças, se tens o pensamento no que está por vir, lança no esquecimento o passado, não voltes o olhar para aquilo, para que não fiques no mesmo ponto onde te detiveste para olhar»[7].
  1. A humildade de retificar
Mais uma vez voltemos à sabedoria de Santa Teresa: «Para acertar, aproveita muito haver errado, porque assim se ganha experiência»[8].
Com um otimismo idêntico, São Josemaria escrevia: «Fracassaste? – Tu (estás bem convencido) não podes fracassar. –Não fracassaste; adquiriste experiência . – Para a frente»[9]. Naturalmente, está se dirigindo a cristãos que contam com Deus, e sabem que, junto dele, sempre é possível retificar os erros com humildade e recomeçar de novo com mais brio.
Deixemos que o mesmo santo nos fale dessa dimensão esperançosa da prudência, especialmente da prudência do cristão:
«Não é prudente quem nunca se engana, mas quem sabe retificar os seus erros… Que importância tem tropeçar, se na dor da queda encontramos a energia que nos reergue e nos impele a prosseguir com alento renovado? Não nos esqueçamos que santo não é o que não cai, mas o que se levanta sempre, com humildade e com santa teimosia.
» Nas batalhas da alma, a estratégia é muitas vezes questão de tempo, de aplicar o remédio conveniente, com paciência, com teimosia. Aumentai os atos de esperança. Quero lembrar-vos que sofrereis derrotas, ou passareis por altos e baixos , porque ninguém está livre desses percalços. Mas o Senhor, que é onipotente e misericordioso, concedeu-nos os meios idôneos para vencer[10].
Na nossa dedicação ao cumprimento das decisões permanentes  todos encontraremos o obstáculo das nossas fraquezas, que nos impelem:
─ a deixar de esforçar-nos por causa do cansaço
─ a cair no poço do pessimismo e o desalento, com complexo de vencidos
─ a ceder à tentação de desistir, trocando os melhores ideais pelo caminho fácil dos desvios morais (infidelidade, fuga do sacrifício, troca do dever pelo prazer, “jeitos” de ética duvidosa para poupar dores de cabeça, etc.).
Nada disso é bom, mas nada disso é um muro insuperável. Chesterton comentava que não existem “becos sem saída”. Sempre há uma saída: voltar para trás, desandar o caminho andado, ou seja, arrepender-nos, se a falha foi nossa, e corrigir – com o perdão e a ajuda de Deus – os rumos do coração e da conduta; ou então aproveitar a experiência de um fracasso sofrido sem culpa nossa e iniciar de novo – com “santa teimosia” – o itinerário da prudência (refletir, aconselhar-se, avaliar, até achar, com confiança em Deus e boa vontade, um novo caminho para recomeçar).


[1] Obra citada, p. 33
[2] Caminho de perfeição, 21, 2
[3] Permanecei em mim –disse Jesus – e eu permanecerei em vós. Como a vara não pode dar fruto por si mesma, se não estiver unida à videira, assim acontecerá convosco se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15, 4-5).
[4] cf. O valor das dificuldades, 2ª ed., Ed. Quadrante, São Paulo.
[5] Sermão 169, 18
[6] Cf. Homilias sobre o Cântico dos cânticos, n. 8
[7] Sermão, n. 169, 18
[8] Carta n. 307, à Madre Maria de São José (Sevilha)
[9] Caminho, n. 405
[10] Cf. Amigos de Deus, nn. 88, 131, 219

quinta-feira, 18 de abril de 2019

CRISTO PARA MORRER, DISSE: “EU TENHO SEDE”. NÃO DIZ QUE TEM DORES, DIZ QUE TEM SEDE. E QUE SEDE SERÁ ESTA?



[Pelo Pe. Manoel José Gonçalves Couto]
Jesus Cristo estando para morrer sobre a cruz, seus carrascos não cessavam de o atormentar e desprezar cada vez mais com injúrias e escárnios. Diziam outros: “Ele tem livrado os outros e agora não pode se livrar a si?” Diziam outros: “Se Ele é o Rei de Israel, que desça agora da cruz”. Porém, enquanto eles o insultavam, Jesus Cristo por eles estava pedindo a seu Eterno Pai.
Vingativo, põe aqui os teus olhos. Olha para o teu Divino Mestre. Ele pediu a seu Eterno Pai perdão para os seus inimigos, e tu? Tu, nem para os teus inimigos, nem para ti o pedes. Dos inimigos desejas vingar-te. Se assim continuas, que esperança de salvação podes ter? Nenhuma, porque não segues o exemplo de Jesus Cristo.
A morte de Jesus Cristo foi, pois, a mais amarga e a mais dolorosa porque morreu sobre uma cruz, sem alívio algum. Desde os pés até a cabeça tudo é dor e aflição. Ele ainda procurou quem o consolasse, mas não achou quem.
Os judeus e os romanos proferiam contra Ele terríveis maldições e blasfêmias. Maria Santíssima bem queria dar-lhe algum alívio, mas as suas dores mais o atormentavam. Não achando na terra quem o consolasse, levantou os olhos ao Céu e pediu socorro a se Eterno Pai, porém o Pai lhe responde: “Não, meu Filho, não quero consolar-te, porque satisfazes a minha justiça por todos os pecados do mundo. É justo, pois, que eu te abandone nesses tormentos e te deixe morrer sem algum alívio.” E foi, então, quando Jesus Cristo deu um grande brado, um ai, proferindo estas palavras para nos fazer conhecer a grande dor em que morria e o grande amor que nos tinha em tanto padecer por nós.
Ó pecador, não sejas mais ingrato a tantos excessos de amor divino. Deixa já o pecado. Já é bem tempo de te voltares para Deus e de ter muito amor a Jesus, que tanto sofreu por ti.
Estando, pois, Jesus Cristo para morrer, disse: “Eu tenho sede”. Não diz que tem dores, diz que tem sede. E que sede será esta? Era um grande desejo que tinha de salvar os pecadores, era um grande desejo que tinha de sofrer e de padecer ainda mais para o salvar. Sabes isto, pecador, e não terás também sede de Jesus?
Ó, se tu tiveras tanta sede ou desejo de te salvar, como Ele teve de sofrer e de padecer por teu amor.
Estando Jesus Cristo para dar o último suspiro, disse com uma voz moribunda: “Já está tudo cumprido. A obra da vossa redenção está concluída. A divina justiça está satisfeita. O Céu já está aberto para todos. Aí vos fica remédio para tudo. Aproveite-se pois quem quiser! Tempo é de deixar o pecado. Já me podeis amar. Pois eu primeiro vos amei a vós. Eu não tenho mais que fazer para ser amado por vós.
Vede, pois, o que eu tenho feito por amor de vós e para que deixeis o pecado. Por vós eu tenho passado uma vida toda cheia de trabalho e aflições. Por vós eu tenho sido esgotado de sangue. Por vós o meu rosto foi escarrado, o meu corpo rasgado, a minha cabeça penetrada de espinhos. Sobre este madeiro por vós tenho sofrido as maiores dores e agonias. Que resta ainda para fazer, pecadores?
Que eu morra por vós! Pois também quero morrer por vós! Morte! Vem, ó morte! Vem tirar-me a vida para salvar estes pecadores. E vós, pecadores, eu vos peço que deixes o pecado e que me ameis. Eu não posso ir mais longe, não posso fazer mais para ganhar o vosso amor e a emenda do vosso pecado. Que me dizes, pecador? Ouves estas coisas e ainda não aborreces nem deixas o pecado?
Ah, quantos infernos serão precisos para castigar as tuas ingratidões? Nem mil infernos! Mil infernos ainda não são suficientes.
Lá está morrendo Jesus Cristo. Está para dar o último suspiro. Os seus olhos já estão moribundos, o seu rosto pálido, o Céu já se obscurece, a terra treme, as sepulturas se abrem. Que sinais são estes tão horrorosos? Assim acontecer porque morreu o Criador do universo, e Ele é o Salvador do gênero humano.
Jesus Cristo, tendo encomendado sua alma a seu Eterno Pai e baixando a cabeça, expirou pela violência da dor. Que me dizes, pecador? Ainda não será tempo de deixar o pecado e de ter muito amor a Jesus? A Jesus que tanto tem sofrido e padecido por teu amor? Ele bem te pudera salvar, passando uma vida bem sossegada e bem regalada. Mas, não. Ele rejeitou as riquezas, deixou os prazeres e os regalos, aborreceu as honras. Escolheu uma vida pobre e uma morte afrontosa.
Que maior prova de amor pode dar o amigo, do que sacrificar sua vida por essa pessoa que ama! Pois Jesus Cristo ainda passou a mais, porque deu a vida por ti, sem tu seres amigo d’Ele. Eras, sim, um grande inimigo, porque eras com o demônio, até lhe fazias uma grande guerra.
Mas se Jesus Cristo deu a própria vida por ti, sendo tu inimigo seu, como podes tu resistir a tanto amor? A Sagrada Paixão de Jesus Cristo é um excesso de misericórdia, é um excesso de amor.
Ó, meu Jesus! Quem poderá meditar na vossa sagrada Paixão e não se abrasar no vosso santo amor? Mas, ai de ti, pecador quanto és infeliz! Pois ainda não amas a Jesus. Tu amas os teus parentes, amas os teus prazeres, amas os teus regalos e divertimentos, amas as tuas conveniências e interesses, até amas os teus animais. Tudo isto amas, e ainda mais do que a Deus, teu Redentor, porque por via destas coisas, e por amor a elas fazes muitos pecados mortais, ofendes muitas vezes a Deus, e deixas a Deus.
Ó, que ingratidões as tuas! Quando abrirás os olhos da tua alma? Ainda queres mais tempo? Pois não esperes por ele, porque ninguém ainda o prometeu a ti. É já, pecador, que deves voltar par Deus e amar muito a Jesus. Pede-lhe perdão das tuas culpas, dizendo:
Ó meu Jesus, perdoai-me, Senhor. Eu bem sei que tenho sido um ingrato a tantos excessos de amor. Porém já conheço as minhas ingratidões e misérias, e quero emendar-me, meu Jesus. Por isso vos peço que me perdoeis. Vós me tendes amado como o maior excesso e eu agora também não quero senão a vós. Todas as minhas obras serão feitas por vós e não quero viver senão para vos amar. Ajudai-me pois, Senhor.
E vós, minha Mãe Santíssima, intercedei também por mim. De vós fico esperando todas as graças que me são necessárias para emendar o pecado e amar muito o vosso Jesus.

AI DE TI, PECADOR, QUE CANTANDO E RINDO ANDAS A FAZER PECADOS E MAIS PECADOS SEM CONSIDERAR NOS TORMENTOS DE JESUS CRISTO




Considera, cristão, que Pilatos querendo livrar a Jesus Cristo e dizendo que não podia condená-lo por ser inocente, o judeus o aterraram com estas palavras: “Se soltais a Jesus Cristo não sois amigo de César”. Então Pilatos, temendo perder a amizade de César, tendo reconhecido e tantas vezes declarado que Jesus Cristo era um inocente, ultimamente o condena a morrer sobre uma cruz.
Ó meu Jesus! Que crimes tendes vós cometido para serdes condenado a morrer sobre uma cruz! Ah, eu bem sei os vossos crimes. Os vossos crimes são o grande amor que tendes às almas. Este amor é o que vos prendeu no horto. Este amor é o que vos faz caminhar para o Calvário. Finalmente, este amor é o que nos faz morrer sobre uma cruz. Ó, que excessos de amor! Caridade sem limites.
Jesus Cristo ouvindo ler a injusta sentença de morte, a aceita de boa vontade. Não se queixa de injustiça do juiz, nem apela para César, mas conforma-se com a vontade do seu Eterno Pai, o qual quer que Ele padeça e morra para salvar os pecadores. E Ele, pelo grande amor que tem às almas, até se alegra de padecer e de morrer por elas, crucificado.
Foi, pois, Jesus Cristo entregue por Pilatos a esses lobos ferozes, os quais lhe tiram a capa dos ombros e lhe vestem outra vez a sua túnica. Tomam uma cruz, mas Jesus Cristo não espera que lhe seja imposta pelo algoz. Ele mesmo a toma e põe sobre os seus ombros cobertos de chagas, dizendo: “Vem cá, vem a mim, ó cruz muito amada; já há trinta e três anos que te procuro e suspiro por ti. Eu te abraço e aperto ao meu coração. Tu és o altar sobre o qual tenho resolvido sacrificar a minha vida para salvar as almas…”
Ó, meu Jesus! Como podeis fazer tanto bem a quem vos faz tanto mal?! Vós a perdoar os pecadores, e os pecadores a ofender-vos cada vez mais, cada vez mais duros e ingratos. É assim, pecador, como pagas tanto amor que deves a Jesus Cristo? Agora mesmo ainda não te resolves a amá-lo e consagrar-lhe esses dias que te restam de vida?! Aonde irás para, se continuas com as tuas ingratidões?
No meio de dois ladrões lá vai caminhando o Rei dos Céus para a morte com a sua cruz. Ó anjos, saí também vós lá do Paraíso. Vinde lá dos Céus, vinde acompanhar o vosso Rei e vosso Deus, pois vai caminhando para o Calvário com o intento de morrer crucificado num madeiro infame entre ladrões e malfeitores. Que espetáculo mais horroroso um Deus assim castigado, e com tantos desprezos, para salvar pecadores? Que homem haverá no mundo que não se salve? Quem não amará a Jesus com todo seu coração e afeto?
Lá vai, pois, caminhando e caindo por várias vezes, todo coberto de chagas, com uma coroa de espinhos, com um pesado madeiro aos ombros e um algoz que o puxa por uma corda, como se fosse um bruto irracional. Assim vai caminhando o Rei dos Céus e da terra. Que maior desprezo! Que maior insulto!
Ó meu Jesus, pois ainda não estais satisfeito de desprezos, dores e tormentos? Se por esses meios vós pretendeis ganhar o meu amor e acabar com o pecado, então eu vos amo, meu Jesus, e não quero mais pecar. Eu vos dou todo o meu coração. Deixai, pois, já de sofrer e padecer tantos tormentos e tantos desprezos. “Não, responde Ele, não estou contente, nem ficarei satisfeito enquanto não morrer por teu amor”.
Mas, aonde ides, meu Jesus? “Bem o sabes, vou morrer por teu amor, não me embaraces. E quando me vires morto na cruz lembra-te de mim, e te peço que deixes o pecado, e que me ames”. Ó pecador, que tens aqui que responder? Ainda não amarás a Jesus? Ainda não deixarás o pecado? Talvez que não. Pois então ai de ti! Que grande prejuízo te espera!
Chegando Jesus Cristo ao Calvário, os Judeus lhe arrancam pela terceira vez o seus vestidos, já pegados às suas chagas, e é deitado sobre a cruz. Ele se estende sobre o leito de dores e apresenta suas mãos e pés para serem cravados. Uma mão é cravada, os nervos se comprimem, e por esse motivo é necessário puxar com cordas a outra mão e também os pés para chegar ao lugar dos cravos, e com isto os nervos e as veias se estenderam e romperam com uma dor terrível.
Pecador que tens empregado as tuas mãos nas impurezas e na maldade, foste tu o que lhe cravaste as mãos e também os pés, quando dava passos para ofender a Deus. Deixa, pois, esses pecados e não atormentes mais a Jesus Cristo!
A morte de cruz é a mais cruel, porque o peso do corpo suspenso faz que a dor seja contínua e se aumente até a morte. Olha, pois, para Jesus crucificado em um madeiro. Ele quer sustentar-se nas mãos, mas elas rasgam-se! Quer sustentar-se nos pés, mas também se rasgam! Ele volta a sua cabeça dolorosa ora para um lado, ora para outro. Se a deixa cair sobre os ombros, estes são atormentados pelos espinhos. Se a encosta para a cruz, os espinhos se cravam cada vez mais. Ó meu Jesus! Quanto é cruel a morte que vós sofreis por nosso amor! Ó, quanto vos custa dar remédio ao pecado.
E também ai de ti, pecador, que cantando e rindo andas a fazer pecados e mais pecados sem considerar nos tormentos de Jesus Cristo. Ai de ti, porque cantando e rindo vais caminhando para o fogo eterno. Que me dizes, pecador? Quando acabarás com as tuas loucuras e tolices? Não sabes tu que já tens a cama feita lá no inferno? Que não tens a tua fogueira já bem acesa? Quantos pecados já terás feito em toda a tua vida? Pois considera que são outros tantos molhos de lenha que tens talhado para lá te queimares.
Apaga já essa fogueira do inferno. As lágrimas de um verdadeiro arrependimento são as que vão apagar esse fogo. Chora, pois, os teus pecados, e pede perdão a Deus enquanto Ele te convida para a penitência, e recorre também a Maria, dizendo:
Ó minha Mãe Santíssima, acudi-me, Senhora. Eu estou perdido, minha Mãe. Eu também fui um daqueles carrascos que atormentaram o vosso Jesus. Cada pecado que cometia era uma flecha, era um punhal que lhe cravava no coração. Que ingratidões as minhas! Ele a procurar-me com carinhos de Pai, com entranhas de amor, e eu a atormentá-lo cada vez mais, sempre a persegui-lo, sempre a guerreá-lo juntamente com o demônio!
Ora, à vista destas coisas, que esperanças de salvação posso eu ter? Só vós me podeis valer, Senhora, porque podeis tudo. Acudi-me pois com os vossos rogos e com as vossas graças, que eu protesto nunca mais pecar. Antes cair no inferno, que tornar a ofender a Deus.

JUDAS E OS PECADORES QUE NÃO QUEREM SE EMENDAR

“Amigo, a que vieste?”
Judas, vindo por capitão dos que vinham prender a Jesus Cristo, chegou-se ao Senhor, e lhe disse: “Deus te salve, Mestre”; e abraçando-o, lhe deu um beijo de falsa paz em seu divino rosto. E o divino Jesus lhe respondeu: “Amigo, a que vieste?”
Judas na verdade fez o que quis, entregou a Jesus Cristo. Porém depois qual foi o seu destino? Bem o sabeis. Foi arrepender-se, desesperar, enforcar-se, e finalmente cair no inferno! Pois o mesmo tem de acontecer aos pecadores que se não querem emendar. Eles agora vão fazendo o que querem. Vão seguindo à rédea solta as suas paixões desordenadas. Não olham a Deus, nem aos seus preceitos. Nem lhes importa a eternidade. São como as criaturas irracionais que não tratam do Céu nem do inferno, mas depois qual será o seu destino?
Será tal como o de Judas, porque se portam como Judas… Quando Judas entregou a Jesus Cristo no horto, o Senhor lhe disse: “A que vieste?” Pois o mesmo há de dizer a essas almas pecadoras, quando sem veste nupcial da divina graça elas quiserem entrar lá no Reino dos Céus… A que vindes? Que pretendes deste Reino? Em que empregastes o vosso tempo? A quem servistes vós? Não foi às paixões, ao mundo e ao demônio? Pois então sois do demônio, não é aqui o vosso lugar. Apartai-vos já de mim. Ide com o demônio para o fogo eterno!!
Que responderás, pecador, quando Jesus te disser: Eu criei-te à minha imagem e semelhança. Eu dei-te a luz da fé, e fiz-te cristão. Eu remi-te com o meu próprio sangue. Por ti jejuei, trabalhei, caminhei, e suei gotas de sangue. Por ti sofri muitas perseguições, e muitos açoites. Levei muitas bofetadas, ouvi muitas blasfêmias, e sujeitei-me aos maiores tormentos. Esta cruz e estes cravos que aqui aparecem, são testemunhos. Estas chagas de mãos e pés, que no meu corpo observas, são testemunhos. São testemunhos o Céu e a terra, diante de quem padeci. Portanto, que queixas tiveste de mim para me deixares, e seguir o demônio?…
Eu chamei-te muitas vezes pelas vozes dos meus Ministros, e tu não me quiseste ouvir. Eu bati muitas vezes às portas do teu coração, e tu não me quiseste abri-las. Estendi muitas vezes as minhas mãos para te abraçar, e tu não quiseste olhar para elas. Tu desprezaste as minhas promessas e ameaças. Obedeceste sempre ao demônio. Pois então vai já com o demônio para o fogo eterno!!
E qual de vós, meus irmãos, terá esta sentença? Pois há de ser aquele que fizer como Judas. Aquele que vender a alma ao demônio pelo pecado mortal, e com tempo não reformar a sua vida. Portanto, preparai-vos, porque não sabeis o dia nem a hora em que sereis chamados a contas.
 Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto

A TUA CRUZ HÁS DE LEVÁ-LA QUER QUEIRAS, QUER NÃO



Depois de lida a sentença, os Judeus tomaram a Jesus Cristo, e o levaram para ser crucificado. Ele saindo levou a sua cruz para o lugar do Calvário. E com que amor a recebeu! Como lhe diria “Ó cruz desejada de minha alma! Tu és o objeto dos meus desejos e dos meus suspiros; vem cá, vem a mim, ó amada minha! Tu és o altar sobre o qual me quero sacrificar, para remir o mundo, dando a vida! Vem cá, recebe-me em teus braços, pois já há trinta e três anos que te procuro com os maiores desejos!…” Jesus Cristo assim receberia a sua cruz pelos grandes desejos que tinha de padecer e morrer por nosso amor.
E com que gosto e alegria levas tu a tua cruz, cristão?
Se estás enfermo, já não queres as dores com que Deus te purifica. Se te contradizem, se te repreendem, se te injuriam ou caluniam, já te inquietas. Não te humilhas, nem sofres com paciência por Deus; vais queixar-te e falar com contra essas pessoas. Se te causam algum dano ou prejuízo nos teus campos, ou nas tuas coisas, também logo te turbas, enches de ira e raiva, e rompes em ralhos e pragas contra quem te deu esse prejuízo temporal, e ao mesmo tempo com a tua alma carregada de pecados, podendo encher-te de merecimentos.
É assim, cristão, como observas o Santo Evangelho? Será isso viver como cristão, e imitar a Jesus Cristo? Ó, grande cegueira! Já que perdes o temporal, não percas também o eterno! Uma vez que tens esse prejuízo, o remédio é sofrê-lo por Deus, e com paciência, e oferecer a Deus essa mortificação. Desta sorte se purifica a tua alma cada vez mais, e adquires grandes merecimentos.
Que mais queres? Não sabes que Deus se serve de umas pessoas para castigar as outras? Não sabes que um pecador, por isso mesmo que é pecador, e se rebelou contra Deus, tudo merece? Não mereces tu por via dos teus pecados quantos castigos se podem dar neste mundo?
Vai conhecendo, que Deus todos os dias te está enchendo de benefícios, e tu nem sequer os conheces, nem lhos agradeces, e porque? Porque tens ainda os olhos da tua alma fechados, ainda te não diriges pela fé. As enfermidades, as dores, os trabalhos, a fome, a sede, o prejuízo nas coisas temporais, tudo isto são graças e benefícios divinos: porque Deus é justo, e o pecador há de ser castigado, ou neste mundo com estas e outras coisas, ou no outro à força do fogo; Porém neste mundo fica mil vezes mais folgado. Logo tudo são graças e benefícios que Deus está fazendo aos pecadores.
Finalmente, a cruz hás de levá-la quer queiras, quer não. Com a diferença que, se sofreres com paciência por Deus, custa-te menos, e ganhas o céu. E se levares a cruz contra a tua vontade, custa-te mais e ganhas o inferno. Portanto sofre tudo por Deus, e oferece tudo a Deus e tem paciência com tudo, para que tudo te sirva de proveito para a tua alma.
Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto

sexta-feira, 12 de abril de 2019

DA INSTABILIDADE DO CORAÇÃO E QUE A INTENÇÃO FINAL SE HÁ DE DIRIGIR A DEUS



Jesus: Filho, não te fies nos teus afetos atuais, que depressa em outros se mudarão. Enquanto viveres, estarás sujeito ao variável, ainda que não queira; ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado, ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio porém, e instruído na vida espiritual, está acima desta inconstância, não cuidando dos seus sentimentos, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas concentrando todo o esforço de sua alma no devido almejado fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo e inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.

IMITAÇÃO DE CRISTO - Capítulo 33

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O chamado de Deus

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O próprio Deus busca a si mesmo em nós, e a aridez e pesar de nosso coração é o pesar de Deus que não é conhecido por nós, que ainda não pode encontrar-se em nós porque não ousamos crer ou confiar na incrível verdade que Ele possa viver em nós, e viver em nós por escolha, por preferência [...]. É o amor de meu amante, meu filho ou meu irmão que me permite mostrar Deus nele ou nela. O amor é epifania de Deus em nossa pobreza.
 
BINGEMER, M. C. Thomas Merton: a clausura no centro do mundo.
Petrópolis, RJ: Vozes; Rio de Janeiro: Editora PUC, 2018, p. 59.