domingo, 11 de agosto de 2019

SALMOS: COMO UMA CORUJA ENTRE RUÍNAS

SOU COMO UMA CORUJA ENTRE RUÍNAS
         ─ Inclina para mim o teu ouvido; quando te invoco atende-me depressa. Pois meus dias se dissipam como fumaça… Pareço um pelicano no deserto, sou como uma coruja entre ruínas (Salmo  102, 3-4.7)
Conversava há pouco com um amigo sobre a triste estatística de suicídios de adolescentes e jovens, que cresce de ano para ano.
Veio-me então à memória o caso de uma menina de 16 anos, morta após despencar de um dos últimos andares de um prédio, onde uma turma de colegas consumia drogas. Era agosto de 1990. Recortei e conservo uma reportagem da Folha de São Paulo, que reproduz umas linhas escritas pela pobre criatura pouco antes de morrer, como um desabafo. Transcrevo uns trechos:
«Em 1º lugar, eu queria viver, mas eu vivo o problema não é esse. O problema é ter que viver para quê? Ou para quem? Eu quero encontrar algo que me faça querer viver eternamente… Me sinto às vezes tão vazia, que quero botar tudo para fora mas não consigo».
Naquela conversa com o amigo, falamos desse vazio. Quanta gente jovem cresce hoje sem ideais, sem fé, sem valores. Não sabem encontrar um sentido para a vida. Então, como a menina, se apegam a algo, a alguém, até que percebem que “não é isso o que meu coração procura”. Tudo volta então ao mesmo vazio, e aumenta a vertigem interior. A menina sentia isso, e escreveu, literalmente: «Por quê será que eu fico com raiva dos meninos que eu fico?».
Penso que as imagens do salmo que encabeçam esta meditação podem nos dar alguma luz.
  • Pareço um pelicano no deserto. Não sei se teve oportunidade de assistir a uma reportagem televisiva muito interessante sobre o deserto da Namíbia, no sudoeste da África. A desolação quase total do deserto, ao chegar a época das chuvas, transforma-se em uma paisagem de vegetação florescente, com riachos, lagoas e lagos, que atraem numerosa população animal.
A reportagem mostrava uma das lagoas em que os peixes resurgiam com as chuvas. Estava repleto de pelicanos que até ali migravam na época da reprodução. Pouco depois, porém, vinha de novo, rapidamente, a seca. As aves fugiam, dirigindo-se para outras latitudes, mas alguns filhotes retardatários, que haviam  ficado na lagoa já seca definhavam tristemente e morriam.
Um pelicano no deserto, se não achar a rota salvadora de outras águas, é um condenado a morte na solidão e no ardor implacável do sol.
Não acha que essa é uma imagem muito expressiva da juventude sem rumo e, em geral, do ser humano sem norte nem sentido para a vida?
Nos Irmãos Karamázovi, Dostoiévski escreve: «A essência íntima do homem não é apenas viver, mas viver para alguma coisa. Sem uma noção firme do motivo para que vive, o homem não há de querer viver, e preferirá destruir-se»[1].
Assim andava, sem rumo, André Frossard, filho do primeiro secretário-geral  do Partido Comunista francês, até que Cristo, inopinadamente, o “apanhou”. «Eu não tinha identidade – escreveu –. Deus foi o primeiro a dar-me um nome, assim como no íntimo te chama a ti que me lês e que, grande ou pequeno, célebre ou humilde, só és conhecido por Ele»[2].
Só Deus pode nos mostrar o rumo que salva do deserto. Só ele pode nos dar um nome novo (Ap 2,17), e derramar na nossa alma as águas vivas da graça do Espírito Santo, que saltam até a vida eterna (Jo 4,14). E,com elas, a paz e a alegria (Gl 5,22).
  • Sou como uma coruja entre ruínas. No Velho Mundo é frequente ver corujas aninhadas em velhas ruínas de cidades ou de construções antiquíssimas.
A coruja é ave noturna, inimiga da luz. Na luz, seus olhos abertos pouco enxergam. À noite percebem muito bem as lagartixas, ratinhos e outros bichos de que se alimentam.
A nossa vida tem finalidade, mas é preciso ter olhos para vê-la. Cada ser humano veio ao mundo para ser protagonista de um programa divino. Deus não nos lançou à toa no mundo, tem um projeto para cada um de nós, que nos vai dando a conhecer de muitos modos com a sua graça. Depende da nossa liberdade aceitá-lo, dizendo “sim” a cada apelo divino, ou recusá-lo, e mergulhar na noite de um labirinto sem guia. Então será lógico que sintamos como o protagonista de outro salmo: Sou como os que dormem nos sepulcros (Salmo 88,6).
Impressiona ler o que escreveu sobre Deus, numas páginas autobiográficas, Simone de Beauvoir: «Deus? Uma noite, eu o apaguei». Não será por isso que a sua vida, como a de seu companheiro Jean-Paul Sartre, se transformou em La Nausée?
Quando nos sentirmos perdidos e solitários, como cegos rodeados de ruínas, temos de pedir a Deus que nos ajude a fazer um duplo tratamento espiritual:
─ Por um lado, um tratamento oftalmológico. Cuidar das vistas da alma. Pedir a Jesus, como o cego Bartimeu: Senhor, que eu veja! (Lc 18,41). Ou como os apóstolos: Aumenta-nos a fé (Lc 17,5). E, ao mesmo tempo, esforçar-nos por conhecer a fundo, cada vez melhor, o “desconhecido” de muitos cristãos: Jesus, o Cristo, a Luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo homem (Jo 1,9).
─ Por outro, um tratamento cardíaco. Abrir-nos aos poucos ao Amor, que é Deus, porque sem amor nada se entende. Eu vos chamei amigos, dizia Jesus antes de dar a vida por nós (Jo 15,15). Ele no ama e nos oferece a sua amizade. E nós? Às vezes, parece que perambulamos estonteados no meio de ruínas. Só o coração disposto a amar a Cristo e a ganhar intimidade com ele – na oração, na Eucaristia, no próximo necessitado com quem ele se identifica – é que nos pode tirar dos escombros e iluminar a existência, até os menores dos nossos atos.

Do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019
[1] Os Irmãos Karamázovi, Liv. José Olympio, Rio de Janeiro 1955, vol. III, pág. 491

[2] Há um outro mundo, Ed. Quadrante 2003, p.13

sábado, 3 de agosto de 2019

QUE É A CONTRIÇÃO PERFEITA?



QUE É A CONTRIÇÃO PERFEITA?
"Contrição é uma dor da alma e uma detestação dos pecados cometidos. Deve acompanhá-la o propósito, quer dizer, uma firme vontade de emendar a vida e de não mais pecar. Para que a contrição seja legítima, deve ser interna e estar na alma, isto é‚ que não seja uma mera expressão feita com os lábios e sem reflexão: isto seria apenas contrição de boca.
Não é necessário manifestar exteriormente a contrição interna por meio de suspiros, lágrimas, etc... tudo isto pode ser sinal de contrição, não é, porém, sua ESSÊNCIA.
A essência da contrição está na ALMA, na VONTADE, EM AFASTAR-SE DEVERAS DO PECADO e CONVERTER-SE PARA DEUS.
Além disto, a contrição deve ser GERAL, quer dizer, deve estender-se a todos os pecados cometidos ou, pelo menos, a todos os mortais. Deve, finalmente, ser SOBRENATURAL e não meramente natural, pois esta nada aproveita.
Segue-se que a contrição, como todo o bem, deve PROCEDER DE DEUS e DA SUA GRAÇA, e, com a Graça de Deus, desenvolver-se na alma.
Porém, não tenhas receio; basta que a peças, basta que tenhas boa vontade e te arrependas por algum motivo legítimo, sobrenatural, e Deus te dará a Graça necessária.
Se o motivo se funda na natureza ou somente na razão (por exemplo, nos danos temporais, na vergonha, doença, etc.), é muito fácil que a dor seja puramente natural e sem mérito; porém, se o motivo da contrição é alguma verdade da Fé, por exemplo: o inferno, o purgatório, o céu, Deus, etc., então a contrição é legítima, sobrenatural.
E esta contrição legítima e sobrenatural pode, por sua vez, ser de duas classes: PERFEITA e IMPERFEITA; e com isto temos chegado a nossa matéria da contrição perfeita.
Em poucas palavras, contrição perfeita é a contrição que PROCEDE DE AMOR; IMPERFEITA, a que PROCEDE DO TEMOR DE DEUS.
É contrição perfeita QUANDO PROCEDE DE AMOR PERFEITO A DEUS. Pois bem, o nosso amor a Deus é perfeito quando O amamos PORQUE ELE É EM SI INFINITAMENTE PERFEITO, formoso e bom (amor de benevolência), e porque nos mostrou de uma maneira tão admirável o Seu AMOR (amor de agradecimento).
É imperfeito o amor de Deus quando O amamos porque esperamos alguma coisa dEle. De modo que, com o amor imperfeito, pensamos, sobretudo, nos dons; com o perfeito, na bondade do doador; com o amor imperfeito, amamos mais os dons; com o perfeito, amamos mais o doador, e isto não tanto pelos seus dons, como pelo amor e bondade que nos dons se manifesta.
DO AMOR NASCE A CONTRIÇÃO. Será, pois, perfeita a contrição se nos arrependermos dos pecados POR AMOR PERFEITO de Deus, quer seja de benevolência, quer de agradecimento.
Será imperfeita se nos arrependermos dos pecados por temor de Deus, porquê pelo pecado perdemos a recompensa de Deus, o Céu, e merecemos seu castigo, o inferno ou o purgatório.
Na contrição imperfeita, fixamo-nos principalmente EM NÓS e nas desgraças que, segundo a Fé nos ensina, nos acarretou o pecado.
Na contrição perfeita, fixamo-nos, sobretudo, EM DEUS, na Sua GRANDEZA, na Sua FORMOSURA, AMOR e BONDADE, vendo quanto o pecado O ofende, e que foi o pecado que Lhe ocasionou tantos sofrimentos e dores, para nos redimir.
Na contrição perfeita, não queremos unicamente o nosso bem, senão o bem de Deus.
Com um exemplo o verás melhor. Quando São Pedro negou o Divino Salvador, saiu fora e “chorou amargamente” (Lc. 22,62).
— Por que chora São Pedro?

É, porventura, pensando na vergonha que vai ter diante dos outros apóstolos? Se assim fosse, a sua dor teria sido puramente natural e sem mérito. É porque receia que seu Divino Mestre lhe tire, como ele merece, o cargo de Apóstolo e Superior e o expulse do seu reino? Então seria boa contrição, mas somente imperfeita.
Mas, não; Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque OFENDEU a seu amado Mestre, tão bom, tão SANTO, tão digno de ser amado e por ser tão desagradecido ao seu imenso amor por ele. Tem, pois, VERDADEIRA e PERFEITA CONTRIÇÃO.
Agora dize-me: tens tu também, cristão de minha alma, algum fundamento, algum motivo, parecido com o de São Pedro, para te arrependeres dos teus pecados por amor, e por amor perfeito e agradecido?
Sim, certamente, pois os BENEFÍCIOS que Deus te tem feito são mais que os cabelos da tua cabeça, e, considerando-os, podes dizer, em cada um deles, o que dizia São João:
“Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro” (I Jo 4,19). E como te amou? “... amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor.” (Jer 31,3)"

A contrição perfeita - Uma chave de ouro para o céu - J. de Drieach

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quarta-feira, 31 de julho de 2019

EXEMPLOS: EU NÃO TINHA IDENTIDADE

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  • EU NÃO TINHA IDENTIDADE
Nos Irmãos Karamázovi, Dostoiévski escreve: «A essência íntima do homem não é apenas viver, mas viver para alguma coisa. Sem uma noção firme do motivo para que vive, o homem não há de querer viver, e preferirá destruir-se».
É assim que andava sem rumo André Frossard, filho do primeiro secretário-geral  do Partido Comunista francês, antes de que Cristo, inopinadamente, o “apanhasse”. «Eu não tinha identidade – escreveu –. Deus foi o primeiro a dar-me um nome, assim como no íntimo te chama a ti que me lês e que, grande ou pequeno, célebre ou humilde, só és conhecido por Ele».
Só Deus pode nos mostrar o rumo que salva do deserto. Só ele pode nos dar uma estrela-guia e um nome novo (Ap 2,17), e derramar na nossa alma as águas vivas da graça do Espírito Santo, que saltam até a vida eterna (Jo 4,14). E,com elas, vem a paz e a alegria (Gl 5,22).


Adaptação de um trecho do livro O espelho dos Salmos

SALMOS: ASAS PARA FUGIR DO BEM


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ASAS PARA FUGIR DO BEM

Ah! Se eu tivesse asas para voar! … Fugiria para longe” (Salmo 55,6-8). “Vamos quebrar suas correntes [de Deus] e libertar-nos da sua opressão” (Salmo 2, 3)
Na meditação anterior considerávamos a necessidade de termos  asas de sinceridade e coragem para fugir das tentações, das desculpas e da autossuficiência, que nos afastam de Deus. Refletindo por outro ângulo, pode-se afirmar que também tentações, desculpas e autossuficiência possuem asas – asas de morcego – para fugir da luz de Deus e esquivar o bem.
Sobre essas asas de morcego vamos meditar agora um pouco, fixando a atenção apenas em dois pontos.
  • Fugir da Cruz de Cristo. Já contemplamos a figura de são Pedro, fraco, que morria de medo de que descobrissem que era discípulo de Cristo, e assim não foi capaz de fugir da tentação.
Ora, antes disso, deu-se um episódio que nos permite enxergar as raízes mais profundas dessa fraqueza.
Conta o Evangelho que, depois de Pedro ter feito, inspirado por Deus, uma magnífica profissão de fé na messianidade de Cristo – tu és o Cristo, o filho do Deus vivo! –, Jesus começou a anunciar a sua próxima paixão e morte. A partir de então, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e resurgisse ao terceiro dia (Mt  16,16 e 21).
Pedro, sempre impulsivo, cheio de carinho por Jesus, não se conteve e, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo dizendo: Deus não o permita, Senhor! Isso não te acontecerá!.
A reação de Cristo parece exagerada: Vai para trás de mim, Satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim as dos homens (Mt 16,16 e 21-23).
Jesus sabe que, na Cruz, ele vai expiar os nossos pecados e alcançar-nos a eterna salvação. Fugir da Cruz, para ele, seria desertar da sua missão redentora (coisa que interessava muito a Satanás).
Jesus, que nos ama, tem plena consciência de que veio ao mundo para servir e dar a vida em resgate por muitos (Mt 20,28). Justamente por ter sentimentos humanos, estremece no Horto ao pensar nos horrores da Cruz (Mc 14,33-34), mas, apesar disso,  quer a Cruz com toda a alma e a abraça, porque arde em desejos de nos salvar: Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade (Jo 10,18). Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13).
Cruz e amor, na vida de Cristo, e na do cristão, são inseparáveis. Quem é que acompanhou Jesus até a Paixão e a Cruz? Só aqueles que mais o amavam: sua Mãe, Maria; são João, o discípulo amado; Maria Madalena, a pecadora libertada de sete demônios. Todos eles sabem, ou pelo menos intuem, que da Cruz virão para o mundo todas as bênçãos e graças.
Quem compreende esse mistério, que só a fé e o amor podem iluminar, exclama como são Paulo: Estou pregado na cruz com Cristo. Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2,20).
Basta captar um lampejo do mistério da Cruz – precisamente o que Pedro não foi capaz de ver –, para mudarmos de atitude ante o sofrimento e o sacrifício. Percebemos então que, se abraçarmos a cruz em união com Cristo, acharemos o amor verdadeiro e colaboraremos com o Redentor para implantar, em todos os âmbitos da vida, o Reino do seu Amor (cf. Cl 1,13)[1].
  • Fugir da vocação. Talvez você se lembre da história de um homem jovem, que – empolgado pela figura e a palavra de Cristo – correu afobadamente atrás de Jesus, lançou-se-lhe aos pés e disse: Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna? Jesus respondeu: Conheces os mandamentos. E citou vários dos dez mandamentos da Lei de Deus. Mestre – retrucou o moço –, tudo isso eu tenho observado desde a minha adolescência. Jesus, então, fixou os olhos nele com amor, e o chamou para uma vocação de entrega total, como homem de confiança de Deus, como apóstolo: Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!
É a história de uma vocação maravilhosa, que começou tão bem… e terminou tão mal: Ao ouvir isso, ele, pesaroso, foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens (Mc 10,17-22).
A figura do rapaz que recusa o chamado de Cristo perde-se, de ombros caídos e cabeça baixa, como uma sombra que se vai diluindo à medida que se afasta. Nunca mais no Evangelho se fala dele. Fugiria para longe! Só resta dele uma imagem de tristeza.
Como diria nosso Senhor de alguns dos fariseus e escribas: Frustraram o desígnio de Deus a seu respeito (Lc 7,30). E isso é triste.
Não duvidemos. A plena realização humana e cristã de cada um de nós consiste na fidelidade generosa e perseverante à vocação que Deus nos dá: procurar Deus e servir o próximo no celibato, no matrimônio, no sacerdócio, em todas as profissões e tarefas honestas desta terra…, assumindo a missão que, nessa vocação, o Senhor nos dá.
Todos temos vocação divina, todos recebemos uma chamada divina para a plenitude do amor, para a santidade.
Numa anotação de 1938, são Josemaria Escrivá afirmava: «Tens obrigação de santificar-te. − Tu também. − Alguém pensa, por acaso, que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos? − A todos, sem exceção, disse o Senhor: “Sede perfeitos, como meu Pai Celestial é perfeito”»[2].
Com grande vibração, repisava essa mesma doutrina na cidade de São Paulo, no dia 1º de junho de 1974. Respondendo à pergunta de um engenheiro, dizia: «O Senhor pede a todos nós – a você a e a mim também – que sejamos santos: “sede santos como é santo meu Pai celestial.” E isso não o diz somente aos que vestimos estas coisas (apontava para sua batina). Diz a todos. Aos casados, às casadas, aos solteiros, aos operários, aos intelectuais, aos trabalhadores rurais… A todos!»[3].
É uma doutrina cativante, que a Igreja assumiu e proclamou vigorosamente em 1964, no documento central do Concílio Vaticano II[4], e que recentemente o Papa Francisco quis lembrar de novo na Exortação apostólica Gaudete et exsultate, de 19 de março de 2018.

Convençamo-nos de que a fidelidade às exigências divinas da nossa vocação – exigências de Amor  a Deus e ao próximo – é o caminho que nos levará à santidade e à alegria. Certamente, recusas como a do jovem rico podem vir a ser sanadas pela misericórdia infinita de Deus. Mas, como no caso dos infartados, sempre ficará uma cicatriz no fundo do coração. Mesmo assim, nosso Senhor não deixará de chamar-nos à santidade, por outras vias, e de nos oferecer a graça necessária.

[1] Sobre a cruz na vida do cristão, pode ajudar ler o livro de F. F. A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001
[2] Caminho, n. 291
[3] F.F. São Josemaria Escrivá no Brasil, 3ª edição. Ed. Quadrante, 2017
[4] Constituição dogmática Lumen gentium, de 21/11/1964, Capítulo V

Beijo a tua paixão


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Beijo a tua paixão, com a qual fui libertado das minhas más paixões. Beijo a tua Cruz, com a qual condenaste o meu pecado e me libertaste da condenação à morte.

Beijo aqueles cravos, com que removeste o castigo da maldição. Beijo as feridas dos teus membros, com que foram curadas as feridas da minha rebelião.

Beijo a cana com que assinaste o atestado da minha libertação e com que feriste a cabeça arrogante do dragão. 

Beijo a esponja encostada aos teus lábios incontaminados, com que a amargura da transgressão me foi transformada em doçura.

Tivesse podido eu degustar aquele fel, que dulcíssimo alimento não teria sido! Tivesse podido eu tomar o vinagre, que bebida agradável!

Aquela coroa de espinhos teria sido para mim um diadema régio. Aquelas cusparadas
me teriam ornado como esplêndidas pérolas.
Aquelas zombarias me teriam ornado como sinal de profundo obséquio.Aquelas bofetadas me teriam glorificado como o prestígio mais alto.

Eu te beijo, Senhor, e a tua paixão é o meu orgulho. Beijo a lança que dilacerou o documento da minha dívida e abriu a fonte da imortalidade.

Beijo o teu lado do qual jorraram os rios da vida
e brotou para mim o rio perene da imortalidade.

Beijo a tua mortalha com que me adornaste
tirando-me minhas vestes vergonhosas.
Beijo o preciosíssimo sudário de que te revestiste para envolver-me na veste dos teus filhos adotivos.

Beijo o túmulo no qual inauguraste o mistério da minha ressurreição e me precedeste pela estrada que sai do Hades.

Beijo aquela pedra com a qual me tiraste o peso do medo da morte.

#Jorge De Nicomedia 

Corpus Christi


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Eis o pão que os anjos comem
transformado em pão do homem;
só os filhos o consomem:
não será lançado aos cães!

Em sinais prefigurado,
por Abraão foi imolado,
no cordeiro aos pais foi dado,
no deserto foi maná...

Bom Pastor, pão de verdade,
piedade, ó Jesus, piedade,
conservai-nos na unidade,
extingui nossa orfandade,
transportai-nos para o Pai!

Aos mortais dando comida,
dais também o pão da vida;
que a família assim nutrida
seja um dia reunida
aos convivas lá do céu!

#Corpus Christi 

"Quantas vezes desejaríamos que Deus se mostrasse mais forte!

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"Quantas vezes desejaríamos que Deus se mostrasse mais forte! Que Ele castigasse duramente, que abatesse o mal e que criasse um mundo melhor! 

Todas as ideologias do poder justificam-se desta forma, justificam a destruição do que se opõe ao progresso e à libertação da humanidade. 

Nós sofremos pela paciência de Deus. E, não obstante, todos necessitamos da sua paciência. 

O Deus, que se fez cordeiro, diz-nos que o mundo se salva pelo Crucificado e não pelos crucificadores. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens." 

#Bento XVI