domingo, 11 de agosto de 2019

Presença de Deus: I – Sob o sol de Deus

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O pardal, a despedida e a promessa
Pouco tempo antes de falecer, São Josemaria Escrivá dizia a alguns dos que estavam perto dele: «Rezem por mim para que seja bom, isto é, para que tenha presença de Deus e seja mortificado».
Pode parecer pouca coisa. No entanto, a Bíblia dá-nos como pauta da santidade precisamente «caminhar na presença de Deus» (cf. Gen 17,4; Salm 56,14 e 116,9, etc.).
Ter presença de Deus é, antes de mais nada, tomar consciência de que Deus vive e está sempre perto de nós: que nos vê, que nos ouve, que nos acompanha com amor e se interessa como Pai até pelas menores coisas da nossa vida.
Creio que nos pode ajudar a perceber o sentido desta realidade recordar três passagens do Evangelho:
1ª) Você se lembra do pardal? Sim, do passarinho… Olhai os pássaros do Céu… – diz Jesus –, vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles? (Mt 6,26). E também: Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais (Mt 10, 29.31). Presença de Deus Pai;
2ª) Você se lembra da última despedida de Jesus? Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28,29). Presença de Deus Filho;
3ª) Você se lembra da grande promessa de Jesus, na Última Ceia? Eu pedirei ao Pai, e ele vos dará outro Defensor [o Espírito Santo], que ficará para sempre convosco: o Espírito da Verdade…, que permanece junto de vós e está em vós (Jo 14,16-17) Presença de Deus Espírito Santo.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade está conosco, convive conosco, voltada amorosamente para nós. Mais ainda, mora em nós, como nos lembra São Paulo: «Acaso não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?» (1 Cor 3,16). Essa presença inefável de Deus, no “centro da alma” é o grande dom que recebem os filhos de Deus, quando vivem a vida da graça. «Nós somos – insiste São Paulo – o templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus: …”Eu vos acolherei, e serei para vós um pai; e vós sereis meus filhos e filhas, diz o Senhor todopoderoso” » (2 Cor 6,16-18).
O poço e o túnel
Jacques Leclecq, o teólogo belga, usa uma comparação sugestiva. Diz que, muitas vezes, somos como um homem que vive agachado no fundo de um poço, estreito, escuro e cheio de lama. Não é um poço alto. Bastaria que fizesse o esforço de ficar em pé, de apoiar as mãos na borda do poço, fazer força e erguer-se até colocar a cabeça para fora, e veria, então, um panorama maravilhoso: campos verdejantes, caminhos, riachos, montanhas ao longe… Uma paisagem que poderia ser o mundo novo onde ele, saindo do poço, começasse a viver uma vida nova e bela.
Quando alguém começa a ter presença de Deus, sai do poço; ou então, sai de dentro de um túnel, como dizia, de modo muito expressivo, São Josemaria, mostrando, além disso, em que consiste o “mundo novo”: «Alguns passam pela vida como por um túnel, e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé» (Caminho, n. 575).
É preciso sair do nosso túnel espiritual, que só nos permite enxergar o mundo ao nível do chão, nas suas dimensões mais planas e rasteiras, e passar a contemplar a vida com o sol da fé, que dá luz e sentido novo,divino, a tudo. Ter presença de Deus é, simplesmente, manter abertos os olhos da alma Então Deus faz com que compreendamos:
1) «O esplendor do sol da fé». Com a luz de Deus, as pessoas, as coisas e os acontecimentos ganham uma dimensão nova, muito mais profunda, bonita e alegre. Até mesmo o sofrimento pode ganhar o brilho e as cores do amor.
2) «A segurança do sol da fé». Com essa luz de Deus, alma se enche de confiança, de segurança. Aconteça o que acontecer, podemos afirmar com convicção o que dizia São Paulo: «Se Deus é por nós, quem será contra nós … Quem nos separará do amor de Cristo?… Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus» (Rom 8, 28.31.35).
3) «O calor do sol da fé». Com a luz que nos dá a fé na presença de Deus, podemos sentir aquele aconchego que, mesmo na proximidade de sua Paixão e Morte, Jesus sentia: «O Pai que me enviou está comigo. Ele não me deixa sozinho, porque eu sempre faço o que é do seu agrado» (Jo 8,29). É o «calor» do carinho de Deus, nosso Pai, que a fé nos faz experimentar de modo maravilhoso. Entendemos então o “mandamento da alegria” que dava São Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos… O Senhor está próximo. Não vos preocupeis com coisa alguma…» (Fil 4,4-6). 

A caminho da «luz da vida»
Nesta primeira reflexão sobre a «presença de Deus», vamos ficar, por ora, apenas com essas considerações gerais sobre os motivos que temos para desejar sair quanto antes do túnel e viver sob «o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé».
Nas duas próximas meditações sobre o mesmo tema, procuraremos refletir, com a ajuda de Deus, sobre os modos práticos de ganhar presença de Deus e, ao mesmo tempo, sobre os frutos saborosos que a presença de Deus nos proporciona, ajudando-nos a viver todos os instantes da nossa vida com espírito cristão, esperança e alegria.

https://www.padrefaus.org/2013/06/12/presenca-de-deus-i-sob-o-sol-de-deus-2/

O plano de vida espiritual: II – Finalidade

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Um fim ou um meio?
Na reflexão anterior, começamos a falar do Plano de vida espiritual. Vimos o que é e lembramos a importância de vencer algumas tentações, dificuldades e desculpas que atrapalham o seu cumprimento.
Depois de termos refletido sobre o que é, vamos perguntar-nos agora a respeito do para que, quer dizer, sobre a finalidade do Plano de vida espiritual.
Como fizemos em outras reflexões, acho bom começarmos com um «esclarecimento prévio». É o seguinte: o Plano de vida espiritual não é um fim em si mesmo, mas um meio(veremos para quê).
a) Muitos erram transformando, sem reparar, o Plano de vida em um fim. Acham que o mais importante é cumpri-lo, não deixar de praticar as «normas espirituais» que o integram (oração, leitura, Terço, etc.). Por isso, ficam aflitos se alguma vez chega a noite e percebem que deixaram penduradas algumas das «normas» do Plano. Então, afobados e ansiosos por completá-lo, fazem-nas atabalhoadamente, distraídos ou sonolentos, só para cumprir.
Não vou lhe dizer que não seja importante o empenho por cumprir o Plano de vida completo. É importante. Os cristãos responsáveis deveríam colocar todo o empenho em não deixar de fazer essas «normas espirituais», ainda que muitas vezes custem e exijam sacrifícios. Mas cumprir não é a finalidade. Também o fariseu da parábola do capítulo dezoito do Evangelho de São Lucas «cumpria» – Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucrosI, etc. (Luc 18,12) -, mas fazia-o só para ficar «quites» com Deus. Por isso, Jesus diz que saiu do Templo reprovado.
b) Com o que acabamos de lembrar, você compreenderá melhor algo que, no íntimo, já sabia: que o Plano de vida é um meio.
Mas… um meio para que? Para a única coisa que importa, aquela que Jesus, falando com Marta na casa de Betânia, chamou a única coisa necessária (cf. Lc 10,42): amar a Deus!
Entende-se, por isso, que São Paulo, falando de oração, de fé e de alguns sacrifícios heróicos, diga: Se não tiver amor, nada disso me aproveita (1 Cor 13, 1-3).

Um meio para amar e viver com Deus
Eu diria que o Plano de vida é um grande meio para viver algo que Jesus nos pedia na Última Ceia: Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor (Jo 15, 9). Este é o fim: permanecer no seu amor. O Plano de vida é, portanto, um meio – eficaz, praticado desde o começo do Cristianismo – para amar a Deus, para amar a Cristo e para perseverar sempre nesse amor.
Lembre-se de que o amor que Jesus nos pede é muito grande, e requer muita intimidade com Ele, com Deus. Baste agora recordar algumas palavras de Nosso Senhor. Por exemplo: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada (Jo 14,23). E ainda essas outras: Se me amais, guardareis os meus preceitos. E eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito [o Espírito Santo], para que fique eternamente convosco […], Ele permanecerá convosco e estará em vós (Jo 14, 16-17).
Como é maravilhoso o que Cristo nos promete, se lhe formos fiéis, se o amarmos e cumprirmos os seus mandamentos: chegar a ter uma intimidade de amor intensíssima, incrível, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo; viver de modo a termos Deus – a Trindade Santíssima – dentro de nós, sendo o seus «templos» vivos (ver 1 Cor 3,16 e 6,19).
Pois bem, é justamente para alcançar essa maravilhosa realidade que procuramos ter e viver um Plano de vida espiritual.
Tudo é «coisa» de amor
Não custa muito perceber como é que as «normas» do Plano de vida nos levam a fazer o que acabamos de comentar.
Dizíamos que tudo é questão de amor, «coisa» de amor. Vamos pensar, então, no ideal do amor humano como um guia para entender isso.
O amor, todo grande amor humano, requer:
1) Aprofundar no conhecimento da pessoa amada.  Que os que se amam se conheçam cada vez mais e melhor. É claro que essa é, em grande parte, a finalidade de várias «normas» do Plano como a leitura meditada da Bíblia (especialmente do Evangelho)a leitura de livros de formação e de espiritualidade cristã; meditação…? Meios para conhecer a Deus, conhecer a Cristo, conhecer a Palavra de Deus, não só teoricamente, mas também com o coração, com um carinho vivo e prático.
2) Para amar, é preciso ganhar sensibilidade a fim de ir evitando tudo o que possa magoar ou ofender a pessoa querida. Aí está a razão dos exames de consciência, da confissão frequente, das mortificações que fazemos para vencer – com a ajuda da graça – defeitos e indelicadezas que ofendem a Deus.
3) O amor exige dialogar, conversar com o coração aberto e sincero, ouvir com carinho e falar com carinho, oferecer e pedir com confiança. Isso é o que nos propomos com a meditação, a oração mental, a visita ao Santíssimo Sacramento…; e, em geral, com todo tipo de orações, dentre as quais merece um especial destaque o Santo Rosário.
4) Não existe amor sem que os que se querem bem tenham, um para com o outro, muitos detalhes delicados, como palavras afetuosas, pequenos presentes e atenções. As «normas» que cumprem essa finalidade são, entre outras, o oferecimento do dia a Deus, a recitação do Anjo do Senhor pelo menos ao meio-dia, as jaculatórias e outras orações breves espalhadas ao longo do dia, as pequenas mortificações “de aperfeiçoamento”, que ajudem a fazer melhor o que já fazemos por Deus, etc.
5) O máximo anseio dos que se amam é chegarem a ser um só coração, uma só vida, a terem uma união perfeita e feliz. Para nós, não há maior união com Deus – com Jesus – do que a Eucaristia: a Santa Missa e a Comunhão.
Você percebeu? Falando de «coisas de amor», como diz «A banda» do Chico Buarque, foram aparecendo, como práticas naturais e muito convenientes (em maior ou menor medida, conforme as pessoas), as «normas» que constituem um bom Plano de vida espiritual. Meios, em suma, para um único fim: amar a Deus e, com a força de seu amor, amar ao próximo. Isto é a santidade.

https://www.padrefaus.org/2010/09/26/o-plano-de-vida-espiritual-ii-finalidade-2/

O plano de vida espiritual:I – O que é

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O que é um “plano de vida espiritual”?
O “plano de vida espiritual” consiste, simplesmente, em programar as práticas da vida espiritual (oração, comunhão, leituras, terço, etc.) de modo a garantir que sejam realizadas com ordem e constância. Esse “plano” tem dois aspectos:
1º) A definição do “tipo” de práticas espirituais que nos propomos a exercitar. Quer o tipo, quer o número e a frequência dessas práticas não tem que ser o mesmo para todos: para uns, o plano consistirá em rezar algumas orações breves ao acordar e ao deitar e em ler diariamente o Evangelho durante cinco ou dez minutos; para outros, além disso, o plano incluirá a Comunhão frequente e, diariamente, a meditação, o Terço, uma leitura formativa, o exame de consciência, etc. Dependerá das circunstâncias espirituais de cada pessoa.
Uma boa direção espiritual pessoal poderá aconselhá-lo sobre o tipo e o número de práticas que lhe convém em cada momento da vida, sobre a frequência delas, e sobre a conveniência, lógica e natural, de ir aumentando-as um pouco, por um plano inclinado, à medida que a alma amadurece. Nisso do “aumento” também não há regras fixas: cada alma é “uma” alma.
2) O segundo aspecto consiste em definir, de modo claro e concreto, o momento do dia em que cada prática será cumprida, ou seja, definir um horário, que garanta que o “plano” não fique inutilmente só nos desejos gerais, mas seja um meio eficaz de formação e de crescimento espiritual.
Monotonia e amor
É interessante, a esse respeito, ler as seguintes palavras de “Caminho“: «Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário, é tão monótono!, disseste-me. – E eu te respondi: há monotonia porque falta Amor» (n. 77).
1) A “monotonia”! Fazer todos os dias as mesmas coisas é tão monótono – podemos pensar -, acaba tornando-se rotina, prática mecânica. Não seria melhor rezar, ler, comungar, etc. só de vez em quando, nos momentos em que nos sentirmos mais dispostos, com mais condições de aproveitar esses meios, ou mais necessitados de Deus?
Com Camões, vou-lhe responder: «ledo engano!», ou seja, não. O problema da “monotonia” ou da “rotina” não procede da repetição, mas do vazio de amor do coração. Talvez entenda isso, tomando como referência um fato real:
Uma boa senhora de família minha conhecida veio conversar comigo, para desabafar e pedir conselho. Nem tinha começado a falar, e já chorava. Quando lhe perguntei por que, respondeu: “Durante vinte anos, meu marido, todos os dias, ao sair de casa para o trabalho, se despedia de mim com um beijo. Desde faz dois meses, ele sai sem nem avisar”. Andava mal aquele amor. Tão mal, que o drama da separação veio pouco depois. Deu para entender? Havendo amor, a repetição da mesma prática diária não é rotineira. Isso é o que devemos procurar, e pedir a Deus: amor. “Mas… e se não sinto esse amor?”
2) Aí vem um segundo ponto. Será que amar é sentir? Quando uma mãe, fatigada e morta de sono, levanta três, quatro, cinco vezes à noite para amamentar ou acalmar o seu bebê, duvido que “sinta” uma grande emoção ou alegria. Mas ela ama seu filho, e esse seu amor – quer sinta, quer não sinta – justifica todos os seus sacrifícios. “Sentir amor”, muitas vezes significa “sentir-me bem a mim mesmo…, ter prazer (como quando “sinto” vontade de beber cerveja, e então bebo; e quando não sinto, não bebo)
O amor daquela mãe é mil vezes mais autêntico que o amor de uma mulher superficial, que logo pensa em separação quando nota que a convivência com o marido já não lhe dá prazer, não lhe traz satisfações. A esse falso amor, chama-se “egoísmo”.
«Passou-me o entusiasmo”, escreveste-me. – Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação» – lemos também em “Caminho” (n. 994). É isso o que faz a mãe do bebê chorão. E Deus será menos? Não estaremos dispostos a dar-lhe o que daríamos a uma pessoa querida, sendo que, ao rezar, comungar, etc, na realidade é Ele quem nos ama e nos dá, é Ele quem se entrega a nós.
Amar é “querer”
Não caiamos, portanto, na cilada da falsa autenticidade. Amar é “querer” bem (o bem, o que é bom), custe o que custar. Por isso, pergunto-lhe ainda com “Caminho“: «Dizes que sim, que queres. – Está bem. -Mas queres como um avaro quer o seu ouro, como a mãe quer ao seu filho, como um ambicioso quer as honras, ou como um pobre sensual quer o seu prazer? – Não? Então não queres».
Pense um pouco nos sacrifícios que é capaz de fazer, nos compromissos a que não falta de jeito nenhum, nas despesas que não mede aquele que “quer” mesmo ficar rico, ou ganhar uma posição política elevada, ou satisfazer um prazer que o traz alucinado… Então? Deus não merece mais?
Se medita nisso, compreenderá a grande importância de ter e seguir um plano de vida espiritual, definindo-o bem claramente por escrito na sua agenda, e ficará precavido contra os “grandes inimigos” do plano de vida espiritual:
a) os sentimentalismo egoísta e a autenticidade falsa, já mencionados;
b) o engano perigosíssimo de quem diz a si mesmo: “agora, na hora prevista no plano para a oração, não vou fazer; faço depois”. Quase sempre, o “depois” não existe. É muito melhor, quando se prevê dificuldade, fazê-lo “antes”, ou seja, adiantar uma prática, que você prevê que não poderá cumprir no horário previsto. São Josemaria dizia, meio brincando e muito a sério, que os grandes inimigos da alma são: “amanhã, depois, achei que, pensei que”… Quer dizer, as desculpas, que continuam sendo desculpas por mais que queiramos justificá-las. Quase sempre, o momento em que Deus nos concede mais graça é precisamente o “mau momento”, aquela hora em que nos custa cumprir o nosso compromisso de fé e amor a Deus, e, mesmo assim, nos vencemos e o cumprimos;
c) também é um inimigo o desânimo de achar que não serve de nada cumprir fielmente o plano, ao vermos que, por mais que o cumpramos não melhoramos. Creio que basta outro ponto de Caminho para responder a isso: «Quantos anos comungando diariamente! Qualquer outro seria santo – disseste-me -, e eu, sempre na mesma! -Meu filho – respondi-te -, continua com a Comunhão diária e pensa: Que seria de mim se não tivesse comungado?».
Se tiver oportunidade de ler alguma vida de Santa Teresa de Ávila, a mulher admirável, forte, dinâmica e empreendedora, que era ao mesmo tempo uma alma mística, de elevadíssima oração, verá como a santa conta que as horas de oração que lhe trouxeram mais proveito espiritual foram aquelas (muitas!), em que se sentia incapaz de pensar e de sentir na capela, mas perseverava nos seus horários de oração, entregando-se assim humildemente nas mãos de Deus.

https://www.padrefaus.org/2010/06/05/o-plano-de-vida-espiritual/

SALMOS: COMO UMA CORUJA ENTRE RUÍNAS

SOU COMO UMA CORUJA ENTRE RUÍNAS
         ─ Inclina para mim o teu ouvido; quando te invoco atende-me depressa. Pois meus dias se dissipam como fumaça… Pareço um pelicano no deserto, sou como uma coruja entre ruínas (Salmo  102, 3-4.7)
Conversava há pouco com um amigo sobre a triste estatística de suicídios de adolescentes e jovens, que cresce de ano para ano.
Veio-me então à memória o caso de uma menina de 16 anos, morta após despencar de um dos últimos andares de um prédio, onde uma turma de colegas consumia drogas. Era agosto de 1990. Recortei e conservo uma reportagem da Folha de São Paulo, que reproduz umas linhas escritas pela pobre criatura pouco antes de morrer, como um desabafo. Transcrevo uns trechos:
«Em 1º lugar, eu queria viver, mas eu vivo o problema não é esse. O problema é ter que viver para quê? Ou para quem? Eu quero encontrar algo que me faça querer viver eternamente… Me sinto às vezes tão vazia, que quero botar tudo para fora mas não consigo».
Naquela conversa com o amigo, falamos desse vazio. Quanta gente jovem cresce hoje sem ideais, sem fé, sem valores. Não sabem encontrar um sentido para a vida. Então, como a menina, se apegam a algo, a alguém, até que percebem que “não é isso o que meu coração procura”. Tudo volta então ao mesmo vazio, e aumenta a vertigem interior. A menina sentia isso, e escreveu, literalmente: «Por quê será que eu fico com raiva dos meninos que eu fico?».
Penso que as imagens do salmo que encabeçam esta meditação podem nos dar alguma luz.
  • Pareço um pelicano no deserto. Não sei se teve oportunidade de assistir a uma reportagem televisiva muito interessante sobre o deserto da Namíbia, no sudoeste da África. A desolação quase total do deserto, ao chegar a época das chuvas, transforma-se em uma paisagem de vegetação florescente, com riachos, lagoas e lagos, que atraem numerosa população animal.
A reportagem mostrava uma das lagoas em que os peixes resurgiam com as chuvas. Estava repleto de pelicanos que até ali migravam na época da reprodução. Pouco depois, porém, vinha de novo, rapidamente, a seca. As aves fugiam, dirigindo-se para outras latitudes, mas alguns filhotes retardatários, que haviam  ficado na lagoa já seca definhavam tristemente e morriam.
Um pelicano no deserto, se não achar a rota salvadora de outras águas, é um condenado a morte na solidão e no ardor implacável do sol.
Não acha que essa é uma imagem muito expressiva da juventude sem rumo e, em geral, do ser humano sem norte nem sentido para a vida?
Nos Irmãos Karamázovi, Dostoiévski escreve: «A essência íntima do homem não é apenas viver, mas viver para alguma coisa. Sem uma noção firme do motivo para que vive, o homem não há de querer viver, e preferirá destruir-se»[1].
Assim andava, sem rumo, André Frossard, filho do primeiro secretário-geral  do Partido Comunista francês, até que Cristo, inopinadamente, o “apanhou”. «Eu não tinha identidade – escreveu –. Deus foi o primeiro a dar-me um nome, assim como no íntimo te chama a ti que me lês e que, grande ou pequeno, célebre ou humilde, só és conhecido por Ele»[2].
Só Deus pode nos mostrar o rumo que salva do deserto. Só ele pode nos dar um nome novo (Ap 2,17), e derramar na nossa alma as águas vivas da graça do Espírito Santo, que saltam até a vida eterna (Jo 4,14). E,com elas, a paz e a alegria (Gl 5,22).
  • Sou como uma coruja entre ruínas. No Velho Mundo é frequente ver corujas aninhadas em velhas ruínas de cidades ou de construções antiquíssimas.
A coruja é ave noturna, inimiga da luz. Na luz, seus olhos abertos pouco enxergam. À noite percebem muito bem as lagartixas, ratinhos e outros bichos de que se alimentam.
A nossa vida tem finalidade, mas é preciso ter olhos para vê-la. Cada ser humano veio ao mundo para ser protagonista de um programa divino. Deus não nos lançou à toa no mundo, tem um projeto para cada um de nós, que nos vai dando a conhecer de muitos modos com a sua graça. Depende da nossa liberdade aceitá-lo, dizendo “sim” a cada apelo divino, ou recusá-lo, e mergulhar na noite de um labirinto sem guia. Então será lógico que sintamos como o protagonista de outro salmo: Sou como os que dormem nos sepulcros (Salmo 88,6).
Impressiona ler o que escreveu sobre Deus, numas páginas autobiográficas, Simone de Beauvoir: «Deus? Uma noite, eu o apaguei». Não será por isso que a sua vida, como a de seu companheiro Jean-Paul Sartre, se transformou em La Nausée?
Quando nos sentirmos perdidos e solitários, como cegos rodeados de ruínas, temos de pedir a Deus que nos ajude a fazer um duplo tratamento espiritual:
─ Por um lado, um tratamento oftalmológico. Cuidar das vistas da alma. Pedir a Jesus, como o cego Bartimeu: Senhor, que eu veja! (Lc 18,41). Ou como os apóstolos: Aumenta-nos a fé (Lc 17,5). E, ao mesmo tempo, esforçar-nos por conhecer a fundo, cada vez melhor, o “desconhecido” de muitos cristãos: Jesus, o Cristo, a Luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo homem (Jo 1,9).
─ Por outro, um tratamento cardíaco. Abrir-nos aos poucos ao Amor, que é Deus, porque sem amor nada se entende. Eu vos chamei amigos, dizia Jesus antes de dar a vida por nós (Jo 15,15). Ele no ama e nos oferece a sua amizade. E nós? Às vezes, parece que perambulamos estonteados no meio de ruínas. Só o coração disposto a amar a Cristo e a ganhar intimidade com ele – na oração, na Eucaristia, no próximo necessitado com quem ele se identifica – é que nos pode tirar dos escombros e iluminar a existência, até os menores dos nossos atos.

Do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019
[1] Os Irmãos Karamázovi, Liv. José Olympio, Rio de Janeiro 1955, vol. III, pág. 491

[2] Há um outro mundo, Ed. Quadrante 2003, p.13

sábado, 3 de agosto de 2019

QUE É A CONTRIÇÃO PERFEITA?



QUE É A CONTRIÇÃO PERFEITA?
"Contrição é uma dor da alma e uma detestação dos pecados cometidos. Deve acompanhá-la o propósito, quer dizer, uma firme vontade de emendar a vida e de não mais pecar. Para que a contrição seja legítima, deve ser interna e estar na alma, isto é‚ que não seja uma mera expressão feita com os lábios e sem reflexão: isto seria apenas contrição de boca.
Não é necessário manifestar exteriormente a contrição interna por meio de suspiros, lágrimas, etc... tudo isto pode ser sinal de contrição, não é, porém, sua ESSÊNCIA.
A essência da contrição está na ALMA, na VONTADE, EM AFASTAR-SE DEVERAS DO PECADO e CONVERTER-SE PARA DEUS.
Além disto, a contrição deve ser GERAL, quer dizer, deve estender-se a todos os pecados cometidos ou, pelo menos, a todos os mortais. Deve, finalmente, ser SOBRENATURAL e não meramente natural, pois esta nada aproveita.
Segue-se que a contrição, como todo o bem, deve PROCEDER DE DEUS e DA SUA GRAÇA, e, com a Graça de Deus, desenvolver-se na alma.
Porém, não tenhas receio; basta que a peças, basta que tenhas boa vontade e te arrependas por algum motivo legítimo, sobrenatural, e Deus te dará a Graça necessária.
Se o motivo se funda na natureza ou somente na razão (por exemplo, nos danos temporais, na vergonha, doença, etc.), é muito fácil que a dor seja puramente natural e sem mérito; porém, se o motivo da contrição é alguma verdade da Fé, por exemplo: o inferno, o purgatório, o céu, Deus, etc., então a contrição é legítima, sobrenatural.
E esta contrição legítima e sobrenatural pode, por sua vez, ser de duas classes: PERFEITA e IMPERFEITA; e com isto temos chegado a nossa matéria da contrição perfeita.
Em poucas palavras, contrição perfeita é a contrição que PROCEDE DE AMOR; IMPERFEITA, a que PROCEDE DO TEMOR DE DEUS.
É contrição perfeita QUANDO PROCEDE DE AMOR PERFEITO A DEUS. Pois bem, o nosso amor a Deus é perfeito quando O amamos PORQUE ELE É EM SI INFINITAMENTE PERFEITO, formoso e bom (amor de benevolência), e porque nos mostrou de uma maneira tão admirável o Seu AMOR (amor de agradecimento).
É imperfeito o amor de Deus quando O amamos porque esperamos alguma coisa dEle. De modo que, com o amor imperfeito, pensamos, sobretudo, nos dons; com o perfeito, na bondade do doador; com o amor imperfeito, amamos mais os dons; com o perfeito, amamos mais o doador, e isto não tanto pelos seus dons, como pelo amor e bondade que nos dons se manifesta.
DO AMOR NASCE A CONTRIÇÃO. Será, pois, perfeita a contrição se nos arrependermos dos pecados POR AMOR PERFEITO de Deus, quer seja de benevolência, quer de agradecimento.
Será imperfeita se nos arrependermos dos pecados por temor de Deus, porquê pelo pecado perdemos a recompensa de Deus, o Céu, e merecemos seu castigo, o inferno ou o purgatório.
Na contrição imperfeita, fixamo-nos principalmente EM NÓS e nas desgraças que, segundo a Fé nos ensina, nos acarretou o pecado.
Na contrição perfeita, fixamo-nos, sobretudo, EM DEUS, na Sua GRANDEZA, na Sua FORMOSURA, AMOR e BONDADE, vendo quanto o pecado O ofende, e que foi o pecado que Lhe ocasionou tantos sofrimentos e dores, para nos redimir.
Na contrição perfeita, não queremos unicamente o nosso bem, senão o bem de Deus.
Com um exemplo o verás melhor. Quando São Pedro negou o Divino Salvador, saiu fora e “chorou amargamente” (Lc. 22,62).
— Por que chora São Pedro?

É, porventura, pensando na vergonha que vai ter diante dos outros apóstolos? Se assim fosse, a sua dor teria sido puramente natural e sem mérito. É porque receia que seu Divino Mestre lhe tire, como ele merece, o cargo de Apóstolo e Superior e o expulse do seu reino? Então seria boa contrição, mas somente imperfeita.
Mas, não; Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque OFENDEU a seu amado Mestre, tão bom, tão SANTO, tão digno de ser amado e por ser tão desagradecido ao seu imenso amor por ele. Tem, pois, VERDADEIRA e PERFEITA CONTRIÇÃO.
Agora dize-me: tens tu também, cristão de minha alma, algum fundamento, algum motivo, parecido com o de São Pedro, para te arrependeres dos teus pecados por amor, e por amor perfeito e agradecido?
Sim, certamente, pois os BENEFÍCIOS que Deus te tem feito são mais que os cabelos da tua cabeça, e, considerando-os, podes dizer, em cada um deles, o que dizia São João:
“Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro” (I Jo 4,19). E como te amou? “... amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor.” (Jer 31,3)"

A contrição perfeita - Uma chave de ouro para o céu - J. de Drieach

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quarta-feira, 31 de julho de 2019

EXEMPLOS: EU NÃO TINHA IDENTIDADE

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  • EU NÃO TINHA IDENTIDADE
Nos Irmãos Karamázovi, Dostoiévski escreve: «A essência íntima do homem não é apenas viver, mas viver para alguma coisa. Sem uma noção firme do motivo para que vive, o homem não há de querer viver, e preferirá destruir-se».
É assim que andava sem rumo André Frossard, filho do primeiro secretário-geral  do Partido Comunista francês, antes de que Cristo, inopinadamente, o “apanhasse”. «Eu não tinha identidade – escreveu –. Deus foi o primeiro a dar-me um nome, assim como no íntimo te chama a ti que me lês e que, grande ou pequeno, célebre ou humilde, só és conhecido por Ele».
Só Deus pode nos mostrar o rumo que salva do deserto. Só ele pode nos dar uma estrela-guia e um nome novo (Ap 2,17), e derramar na nossa alma as águas vivas da graça do Espírito Santo, que saltam até a vida eterna (Jo 4,14). E,com elas, vem a paz e a alegria (Gl 5,22).


Adaptação de um trecho do livro O espelho dos Salmos

SALMOS: ASAS PARA FUGIR DO BEM


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ASAS PARA FUGIR DO BEM

Ah! Se eu tivesse asas para voar! … Fugiria para longe” (Salmo 55,6-8). “Vamos quebrar suas correntes [de Deus] e libertar-nos da sua opressão” (Salmo 2, 3)
Na meditação anterior considerávamos a necessidade de termos  asas de sinceridade e coragem para fugir das tentações, das desculpas e da autossuficiência, que nos afastam de Deus. Refletindo por outro ângulo, pode-se afirmar que também tentações, desculpas e autossuficiência possuem asas – asas de morcego – para fugir da luz de Deus e esquivar o bem.
Sobre essas asas de morcego vamos meditar agora um pouco, fixando a atenção apenas em dois pontos.
  • Fugir da Cruz de Cristo. Já contemplamos a figura de são Pedro, fraco, que morria de medo de que descobrissem que era discípulo de Cristo, e assim não foi capaz de fugir da tentação.
Ora, antes disso, deu-se um episódio que nos permite enxergar as raízes mais profundas dessa fraqueza.
Conta o Evangelho que, depois de Pedro ter feito, inspirado por Deus, uma magnífica profissão de fé na messianidade de Cristo – tu és o Cristo, o filho do Deus vivo! –, Jesus começou a anunciar a sua próxima paixão e morte. A partir de então, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e resurgisse ao terceiro dia (Mt  16,16 e 21).
Pedro, sempre impulsivo, cheio de carinho por Jesus, não se conteve e, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo dizendo: Deus não o permita, Senhor! Isso não te acontecerá!.
A reação de Cristo parece exagerada: Vai para trás de mim, Satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim as dos homens (Mt 16,16 e 21-23).
Jesus sabe que, na Cruz, ele vai expiar os nossos pecados e alcançar-nos a eterna salvação. Fugir da Cruz, para ele, seria desertar da sua missão redentora (coisa que interessava muito a Satanás).
Jesus, que nos ama, tem plena consciência de que veio ao mundo para servir e dar a vida em resgate por muitos (Mt 20,28). Justamente por ter sentimentos humanos, estremece no Horto ao pensar nos horrores da Cruz (Mc 14,33-34), mas, apesar disso,  quer a Cruz com toda a alma e a abraça, porque arde em desejos de nos salvar: Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade (Jo 10,18). Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13).
Cruz e amor, na vida de Cristo, e na do cristão, são inseparáveis. Quem é que acompanhou Jesus até a Paixão e a Cruz? Só aqueles que mais o amavam: sua Mãe, Maria; são João, o discípulo amado; Maria Madalena, a pecadora libertada de sete demônios. Todos eles sabem, ou pelo menos intuem, que da Cruz virão para o mundo todas as bênçãos e graças.
Quem compreende esse mistério, que só a fé e o amor podem iluminar, exclama como são Paulo: Estou pregado na cruz com Cristo. Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2,20).
Basta captar um lampejo do mistério da Cruz – precisamente o que Pedro não foi capaz de ver –, para mudarmos de atitude ante o sofrimento e o sacrifício. Percebemos então que, se abraçarmos a cruz em união com Cristo, acharemos o amor verdadeiro e colaboraremos com o Redentor para implantar, em todos os âmbitos da vida, o Reino do seu Amor (cf. Cl 1,13)[1].
  • Fugir da vocação. Talvez você se lembre da história de um homem jovem, que – empolgado pela figura e a palavra de Cristo – correu afobadamente atrás de Jesus, lançou-se-lhe aos pés e disse: Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna? Jesus respondeu: Conheces os mandamentos. E citou vários dos dez mandamentos da Lei de Deus. Mestre – retrucou o moço –, tudo isso eu tenho observado desde a minha adolescência. Jesus, então, fixou os olhos nele com amor, e o chamou para uma vocação de entrega total, como homem de confiança de Deus, como apóstolo: Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!
É a história de uma vocação maravilhosa, que começou tão bem… e terminou tão mal: Ao ouvir isso, ele, pesaroso, foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens (Mc 10,17-22).
A figura do rapaz que recusa o chamado de Cristo perde-se, de ombros caídos e cabeça baixa, como uma sombra que se vai diluindo à medida que se afasta. Nunca mais no Evangelho se fala dele. Fugiria para longe! Só resta dele uma imagem de tristeza.
Como diria nosso Senhor de alguns dos fariseus e escribas: Frustraram o desígnio de Deus a seu respeito (Lc 7,30). E isso é triste.
Não duvidemos. A plena realização humana e cristã de cada um de nós consiste na fidelidade generosa e perseverante à vocação que Deus nos dá: procurar Deus e servir o próximo no celibato, no matrimônio, no sacerdócio, em todas as profissões e tarefas honestas desta terra…, assumindo a missão que, nessa vocação, o Senhor nos dá.
Todos temos vocação divina, todos recebemos uma chamada divina para a plenitude do amor, para a santidade.
Numa anotação de 1938, são Josemaria Escrivá afirmava: «Tens obrigação de santificar-te. − Tu também. − Alguém pensa, por acaso, que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos? − A todos, sem exceção, disse o Senhor: “Sede perfeitos, como meu Pai Celestial é perfeito”»[2].
Com grande vibração, repisava essa mesma doutrina na cidade de São Paulo, no dia 1º de junho de 1974. Respondendo à pergunta de um engenheiro, dizia: «O Senhor pede a todos nós – a você a e a mim também – que sejamos santos: “sede santos como é santo meu Pai celestial.” E isso não o diz somente aos que vestimos estas coisas (apontava para sua batina). Diz a todos. Aos casados, às casadas, aos solteiros, aos operários, aos intelectuais, aos trabalhadores rurais… A todos!»[3].
É uma doutrina cativante, que a Igreja assumiu e proclamou vigorosamente em 1964, no documento central do Concílio Vaticano II[4], e que recentemente o Papa Francisco quis lembrar de novo na Exortação apostólica Gaudete et exsultate, de 19 de março de 2018.

Convençamo-nos de que a fidelidade às exigências divinas da nossa vocação – exigências de Amor  a Deus e ao próximo – é o caminho que nos levará à santidade e à alegria. Certamente, recusas como a do jovem rico podem vir a ser sanadas pela misericórdia infinita de Deus. Mas, como no caso dos infartados, sempre ficará uma cicatriz no fundo do coração. Mesmo assim, nosso Senhor não deixará de chamar-nos à santidade, por outras vias, e de nos oferecer a graça necessária.

[1] Sobre a cruz na vida do cristão, pode ajudar ler o livro de F. F. A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001
[2] Caminho, n. 291
[3] F.F. São Josemaria Escrivá no Brasil, 3ª edição. Ed. Quadrante, 2017
[4] Constituição dogmática Lumen gentium, de 21/11/1964, Capítulo V