terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

DEUS NÃO RETIROU DE MIM A ORAÇÃO


Bautista mujer


─ Deus me ouviu, prestou atenção à minha súplica. Bendito seja Deus que não rejeitou [não removeu de mim] a minha oração (Salmo 66,20)

O texto original desses versículos, como mostra a tradução literal da Nova Vulgata, agradece a Deus que, além de ouvi-lo, não lhe tenha tirado, não tenha “removido” dele, a sua oração (non amovit orationem meam a me).

Privar da oração, tirar de alguém a capacidade de orar, é como matar-lhe a alma. É lógico que seja assim. A oração é um dom que a graça do Espírito Santo deposita no fundo do nosso coração [1]. Pois bem, desprezar essa graça é uma forma de expulsar, de entristecer o Espírito Santo de Deus (Ef 4,30).

Sem essa graça, nós nunca seriamos capazes de ter a felicidade de estabelecer um contacto direto com Deus, orando a qualquer hora, em qualquer lugar e em qualquer circunstância. «A meu ver – dizia santa Teresa de Ávila –, a oração … é apenas um relacionamento íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados»[2].

Deus oferece o dom da oração a todos, desde os maiores santos até os maiores pecadores. Só nós, só você e eu, podemos bloquear esse dom e tornar-nos impermeáveis a ele. A nossa alma, então, privada da oração por culpa nossa, torna-se um deserto de solidão, aridez e amargura.

Talvez nos perguntemos: – “Se nem sequer o pior pecado pode nos privar da oração, o que é que a pode bloquear?” O Catecismo da Igreja nos dá uma resposta inspirada na Palavra de Deus: «Duas tentações frequentes ameaçam a oração: a falta de fé e a acídia [indiferença, tédio pelas coisas espirituais], que é uma forma de depressão devida a relaxamento do esforço espiritual, e que leva ao desânimo»[3].

Sem a fé, falar com Deus seria uma farsa; e seria uma hipocrisia falar com ele sem estar dispostos a fazer o que nos pede: Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Is 29,13 e Mc 7,6); rezar assim é inutilizar a graça da oração. Ora, graça desprezada, graça removida.

Lembre quais são as principais condições da boa oração:

  • Humildade: Jesus louva a oração do publicano no Templo: Mantendo-se a distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo“Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!”. Eu vos digo que este desceu para casa justificado (Lc 18,13-14).

«O pedido de perdão é a condição prévia de uma oração justa e pura», diz o Catecismo[4]. Basta o pedido confiante de misericórdia, como o do bom ladrão (Lc 23,42) ou as lágrimas silenciosas da mulher pecadora (Lc 7,44), ou o tremor contrito da adúltera (Jo 9-11) para que se estabeleça a ponte do perdão e da paz entre o coração arrependido e o coração amoroso de Jesus.

  • Sinceridade: Para fazer oração – diz também o Catecismo – é preciso «despertar a fé, para entrar na presença daquele que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar nosso coração para o Senhor que nos ama, a fim de nos entregarmos a Ele como uma oferenda que precisa ser purificada e transformada»[5].

Como podemos orar bem se andamos “mascarados”? Máscara é, por exemplo, achar-nos bons como o fariseu (Lc 18,11-12), não ver os nossos defeitos, não reconhecer que somos pecadores; ou então tapar com a máscara dos bons sentimentos a má vontade em relação aos deveres que nos custa cumprir: Nem todo o que me diz “Senhor, Senhor!” entrará no Reino dos Céus, mas sim o que pratica a vontade de meu Pai que está nos Céus  (Mt 7,21).

  • Confiança filial. Quando os apóstolos pediram a Jesus ensina-nos a orar, o Senhor respondeu: Quando orardes dizei: “Pai, santificado seja o teu nome…” (Lc 11,2). O Pai-nosso. Com certeza Jesus usou, para designar o Pai, uma palavra aramaica que atingia o coração dos ouvintes, pois todos eles, desde a infância, a tinham usado para se dirigir com carinho ao pai da terra: Abá (cf. Mc 14,36).
Desde o começo de sua pregação, Jesus quis infundir essa confiança ilimitada no coração de todos: Vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes… Vosso Pai vê, vosso Pai sabe… (Mt 6, 8.27 ss).

Orai sem cessar (1Ts 5,17). Para “conviver” assim, filialmente, com Deus não precisamos de discursos, de retórica. Como já víamos, para fazer oração basta muitas vezes uma invocação afetuosa a Deus, a Jesus, a Maria, aos nossos irmãos os santos. Basta um olhar, um suspiro, uma lágrima, um gemido, um sorriso, uma lembrança, uma breve jaculatória: ”Meu Deus, eu te amo, ajuda-me!”.

É claro que esse clima de serena intimidade com Deus precisa ser aquecido por momentos diários e semanais bem mais longos e intensos: a Santa Missa, a meditação, as leituras espirituais, o Terço… [6]. O que não podemos fazer é descurar a oração.

Penso que nos pode ajudar, para encerrar este capítulo, ler e meditar duas frases de dois grandes santos.

  • Santo Afonso Maria de Ligório, entre suas inúmeras obras, tem um livrinho sobre «A Oração»[7], que é uma verdadeira joia. Nele coloca uma frase que o a Igreja assumiu no seu Catecismo: «Quem reza certamente se salva, quem não reza certamente se condena» (n. 2744).

  • São João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars, dizia em suas Catequeses: «Deus não tem necessidade de nós: se ele nos pede que rezemos é porque deseja a nossa felicidade, e essa felicidade só pode ser encontrada na oração… A oração é toda a felicidade do homem. Quanto mais se reza, mais se quer rezar».
Experimente, e verá.
[1] cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2725
[2] Livro da vida, cap. 8º.
[3] cf. n. 2755
[4] cf. Catecismo, n. 2631
[5] Ibidem, n. 2711
[6] Sobre este tema ver as nossa obra Para estar com Deus, Ed. Cultor de Livros e Cleófas, S~Cao Paulo 2012
[7] Editora Santuário, Aparecida.

SALMOS: A ESTRADA QUE EU DEVO SEGUIR

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A ESTRADA QUE EU DEVO SEGUIR

─ Senhor, ouve a minha oração, sê atento à minha súplica… Indica-me a estrada que devo seguir, porque a ti elevo a minha alma (Salmo 143,1.8). Todas as veredas do Senhor são amor e verdade (Salmo 25,10).
Na meditação anterior considerávamos a estrada régia do cristão, que todos somos chamados a percorrer.  Mantendo-nos na via clara dos mandamentos, devemos avançar no amor, seguindo as pegadas de Cristo. Progredi no amor – escrevia são Paulo –, como Cristo também nos amou e se entregou a Deus por nós como oferenda e sacrifício de suave odor  (Ef  5,2).
O caminho cristão é um só para todos. O próprio Cristo é o nosso caminho, com seu exemplo, com sua graça, com sua palavra: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).
É um único caminho, mas não é um caminho uniforme: nele se manifesta a variedade das insondáveis riquezas de Cristo (Ef  3,8): A meta do Amor pode-se alcançar por diversas sendas (todas elas dentro do Caminho), conforme a vocação particular que Deus der a cada um.
  • Vocação para a santidade. Esta é a vocação primordial, básica, de todos os batizados. Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, dizia são Paulo aos primeiros cristãos (1 Ts 4,3).
Todo batizado é chamado por Deus à santidade. Eis uma verdade, por muitos esquecida, que o Concílio Vaticano II quis proclamar com vigor em 1964,
«A chamada universal à santidade»[1], e que o Papa Francisco voltou a recordar na sua Exortação apostólica Gaudete et exsultate de 19/03/2018.
Na época contemporânea, Deus serviu-se especialmente de são Josemaria Escrivá, desde 1928, para erguer como um estandarte esse apelo geral à santidade que Cristo dirigiu a todos: Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48).
Por ocasião da canonização de são Josemaria, em 6 de outubro de 2002,  são João Paulo II dizia: «São Josemaria foi escolhido pelo Senhor para anunciar a chamada universal à santidade e mostrar que as atividades correntes que compõem a vida e todos os dias são caminho de santificação… Estava convencido de que, para quem vive sob a ótica da fé, tudo é ocasião de um encontro com Deus, tudo se torna um estímulo para a oração. Vista desta forma,a vida diária revela uma grandeza insuspeitada. A santidade apresenta-se verdadeiramente ao alcance de todos»[2]
Cada caminhante siga seu caminho. Ao mostrar-nos o leque da santidade aberto para todos, Deus faz-nos compreender que o caminho da santificação não é apenas o das vocações para o sacerdócio, para a vida monástica, para o convento, para as missões, etc.; são igualmente os variadíssimos caminhos honestos dos homens e mulheres que vivem, lutam e trabalham no meio do mundo.
A esses dizia são Josemaria: «Devem compreender que Deus os chama a servi-lo em a partir das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçamos nunca: há “algo” de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir». Esse “algo” é uma chamada de Deus que nos diz: “Dá-te mais, ama mais, faz melhor, reza mais, trabalha mais um pouco, ajuda mais…”.
E acrescentava: «Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca»[3].
Para buscar a santidade na vida cotidiana, não existe uma única trilha. Há muitos caminhos que a Igreja aprova e abençoa. Cada caminhante deve descobrir o seu, o que Deus quer, o que Deus preparou para ele, a missão que Deus lhe reservou desde toda a eternidade. O que não podemos fazer é ficar no acostamento, sem empreender nenhum caminho.
Não podemos diluir-nos numa multidão anônima. Você e eu temos nome único e missão pessoal aos olhos de Deus. Perguntemos-lhe: «Senhor, que queres que eu faça?».
Será uma boa oração para fazer todos os dias, assim que acordamos. Nosso Senhor ficará do nosso lado, nos mostrará em que ponto ele nos espera, e nos dirá: Segue-me, apontando para a “nossa” trilha particular naquele dia.

[1] Constituição dogmática Lumen gentium, capítulo V
[2] Discurso após a Missa de Ação de Graças pela Canonização de são Josemaria, 7/10/2002
[3] Homilia Amar o mundo apaixonadamente, Ed. Quadrante

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O momento em que a Verdade se encontrou com a Mentira


Leia isso antes de sair de casa

Conta uma parábola que um dia a Mentira e a Verdade se encontraram:
A Mentira disse à Verdade:
– Bom dia, dona Verdade.
E a Verdade foi comprovar se realmente era um bom dia. Ela olhou para cima, vendo que não havia nuvens de chuva, que vários pássaros cantavam e que era realmente um bom dia, respondeu à Mentira:
– Bom dia, senhora Mentira.
– Está muito quente hoje, continuou a Mentira.
E a Verdade, vendo que a Mentira era sincera, relaxou-se.
A Mentira, então, convidou a Verdade a se banhar no rio. Ela tirou a roupa, pulou na água e disse:
– Realmente, a água está deliciosa.
E, uma vez que a Verdade, sem duvidar da Mentira, tirou suas roupas e caiu no rio, a Mentira saiu da água e vestiu-se com a roupa da Verdade. Esta por sua vez, recusou-se a vestir as roupas da Mentira e, não tendo de que se envergonhar, saiu desnuda, andando pela rua.
Aos olhos das outras pessoas, no entanto, foi mais fácil aceitar a Mentira vestida de Verdade, do que a Verdade nua e crua.

(Autor desconhecido)

Por que mentimos para nós mesmos?




Conheça os 7 danos do autoengano

Quem é prejudicado pelas mentiras? Bem, é claro que Deus se ofende, como pode ser comprovado no mandamento ” não prestar falso testemunho” (Êxodo 20,16).
Também está claro que o próximo é prejudicado pelas mentiras, como eloquentemente expresso pelo ensaísta Michel de Montaigne:
“Mentir é realmente um vício maldito. Somos homens, e só temos relações entre si pela fala. Se reconhecermos o horror e a gravidade de uma mentira, deveríamos puni-la mais justificadamente com fogo do que qualquer outro crime.”
Uma vítima menos frequente da mentira é a nossa própria personalidade. Porém, Dostoiévski, em “Os irmãos Karamázov” faz um relato acerca do mal que faremos à nossa alma, caso adquiramos o hábito de mentir para nós mesmos:
“O homem que mente para si mesmo e ouve sua própria mentira chega a tal ponto que ele não consegue distinguir a verdade dentro dele ou ao seu redor, e, assim perde todo o respeito por si e pelos outros. E, sem respeito, ele deixa de amar para se ocupar e se distrair. Sem amor, abre caminho para paixões e prazeres grosseiros e afunda na bestialidade em seus vícios (…). O homem que mente para si mesmo pode ser mais facilmente ofendido do que qualquer um. Você sabe que, às vezes, é muito agradável se ofender, não é? Um homem pode saber que ninguém o insultou, mas que ele inventou o insulto para si mesmo, mentiu e exagerou para torná-lo pitoresco (…), mas será o primeiro a se ofender, e se deleitará com seu ressentimento até sentir um grande prazer nisso, e assim passar à vingança genuína.”
Esta passagem é, na verdade, uma descrição de uma cadeia de eventos que é forjada (sem trocadilhos) quando alguém costuma mentir para si mesmo:
1. A verdade não pode ser encontrada;
2. Na verdade ausente, a bondade não pode ser encontrada;
3. Na bondade ausente, não pode haver amor;
4. Com o amor ausente, o coração se transforma em vícios egoístas;
5. Corrompido pelo vício, não pode haver empatia;
6. Na falta de empatia, apenas as emoções de despeito e ódio permanecem;
7. A malícia do rancor e do ódio faz com que alguém diminua e destrua outros.

Essa lógica é, acredito, a lógica do inferno. Os demônios têm um desejo sem fim, uma insatisfação sem fim, o que gera raiva e malícia sem fim. A Arte e a Literatura, bem como a História confirmam repetidas vezes esse padrão de aniquilação que explode quando alguém decide mentir para si mesmo.
Então, por que fazemos isso? Por que iniciamos um processo que evacua o amor de nossas vidas e da vida de outras pessoas? É claro que isso não é racional. Se fosse simplesmente uma questão de razão, isso poderia ser explicado apenas uma vez: “Não minta para si mesmo! Aqui está o porquê …” Infelizmente, sabemos que não funciona dessa maneira. Por que não?
Não funciona dessa maneira porque não somos inteiramente racionais – quero dizer que existem elementos não racionais na natureza humana. Temos coração, emoção, apetite, desejo. Se partirmos para o curso destrutivo de mentir para nós mesmos, isso indica que não cometemos simplesmente um erro (como adicionar incorretamente uma coluna de números).
O problema não é tanto uma questão de razão ou de coração. Em outras palavras, mentir para nós mesmos é um ato de idolatria – amamos algo mais do que amamos o Deus vivo, que é toda verdade, toda bondade, toda beleza, todo amor. Sim, precisamos conhecer a verdade – também precisamos amar a verdade. Amar a verdade nos levará a organizar nossa vida para ficarmos em harmonia com o amor, com o que é verdadeiro, bom e bonito.
Essa mudança de coração não é algo que podemos conseguir por nós mesmos. Temos que invocar o poder e a misericórdia do Deus justo, como vemos no Salmo 50:
“Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. Eu reconheço a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado. Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento.”

Vamos admitir nossa culpa, nossa necessidade e nossa incompletude. Vamos nos alegrar por haver misericórdia oferecida àqueles que se arrependem. E vamos todos confessar fiel e frequentemente!

https://pt.aleteia.org/2020/02/18/por-que-mentimos-para-nos-mesmos/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

Como funciona uma boa discussão de relação


Tenha cuidado, apenas porque eles existem discussões, isso não significa que o relacionamento está em perigo! Na vida a dois, o conflito é inevitável, o mais importante é saber “lutar” bem

Pequenas discussões fazem parte da vida conjugal por causa das diferenças de personalidade, educação, ritmos e gostos, mas é possível administrar as pequenas tensões da vida cotidiana, sem violência física e com um mínimo de violência verbal. Conflito não significa fracasso, ao contrário da crença popular. Nós podemos amar um ao outro e discutir. As conversas são uma maneira de se livrar de sentimentos antigos, sentimentos não ditos acumulados através dos anos ou de sinalizar que o relacionamento precisa de uma mudança em seu funcionamento. Os psicoterapeutas, Serge e Carolle Vidal-Graf, compartilham os segredos de uma boa discussão de casal.
Por que a raiva é incontornável na discussão? Não poderíamos simplesmente coversar?
As discussões não são conversas frias porque contém um componente emocional, a raiva. Isso significa que algo está errado. O “eu” diz que não está satisfeito. Ficar com raiva é dizer emocionalmente que você não se está em acordo com algo. Porém, a reação emocional não é necessariamente de gritos ou violência.
Para que serve a raiva?
A raiva tem uma má reputação. No entanto, é uma energia vital maravilhosa. Permite que os contadores sejam redefinidos para zero. Nas pessoas que não discutem, os contadores são sempre altos! Como uma panela de pressão cuja tampa você abriria depois de um ano, as chances de explosão são muito altas. Uma discussão em que todos os sentimentos não são expressos, é como uma ferida que você não limpa e fica infectada. É melhor dizer pouco a pouco suas dificuldades, seus desencantamentos, evitando assim a explosão. Alto e forte, mas sem violência.
A raiva torna possível colocar tudo em pratos limpos e abrir-se a uma negociação que satisfaça a ambos. A raiva é um presente para o casal. Indica que o relacionamento importa para nós, que não somos indiferentes a ele.
Por que a raiva é tão assustadora?
Porque é confundida com violência. Todos nós temos experiências de raiva violenta, de um pai ou de um chefe no trabalho, que nos humilharam verbal ou fisicamente. Resultado, pensamos: “Se isso é raiva, não, obrigado! Não quero expressá-lo ou recebê-lo. “
Em nossa infância, nossos pais podem nos enviar para o nosso quarto para nos acalmar, com comentários como: “Eu não gosto de você quando chora!”. Para manter o amor de nossos pais, tivemos que tudo reprimir. É assim que a ideia de que amor e raiva são incompatíveis se enraiza em nós.
Como expressar bem a sua raiva?
Na técnica de comunicação não violenta, aprendemos a importância do “eu”. É muito importante: fale sobre si mesmo, como você se sente em relação às situações, em vez de dizer “você” e acusar o outro. Isso é muito importante, já que a raiva muitas vezes visa se afirmar na frente do outro. Passar de “você” para “eu” leva algum tempo e é difícil abandonar completamente o abuso verbal.
Outro objetivo: permanecer no assunto e não entrar em censuras mais gerais sobre as pessoas que são queridas pelo outro ou sobre seus fracassos. Como você conhece bem o seu cônjuge, sabe exatamente onde dói, por isso é melhor parar antes. Implica em viver o luto da vingança quando o outro nos feriu. É uma verdadeira lição da humanidade aprender a discutir.
Após a raiva, você aconselha a escuta silenciosa, como uma maneira de superar as dificuldades. Como ela realmente funciona?
É uma ferramenta muito útil, se a raiva não for suficiente para acalmar a disputa. Claro, você tem que esperar até que todos se acalmem. O difícil é voltar ao outro após a discussão, colocando seu orgulho no bolso. Todo mundo fala na sua vez, pelo tempo que quiser, sem ser interrompido. Podemos parar, marcar silêncios que nos permitem realmente compreender e nos libertar. Depois de sentir que terminou, diga ao seu cônjuge. Ele pode falar por sua vez, sem tentar responder, mas confidenciar o que sente.
É um exercício difícil. Ele tem o mérito de evitar o debate estéril de acusações e negações. Permite o diálogo em profundidade, com calma, que vai além da censura, até a emoção. A censura coloca o cônjuge na defensiva, a expressão de sensibilidade o toca. Você precisa ouvi-lo no seu próprio ritmo, não apenas após os conflitos. A regularidade também possibilita discutir o positivo.
E a negociação?
É um método surpreendente que pode ser usado. Isso mostra que em um conflito, você pode evitar ter um vencedor e um perdedor. Também é uma prática fria: voltamos ao outro, algumas horas após a briga, para sugerir um acordo em que todos terão que ceder em um ponto para que os dois encontrem o equilíbrio. A vantagem da negociação é de que todos expressam suas necessidades, todos foram reconhecidos e ouvidos. Este é um excelente modo de aprendizagem para crescer como pessoa e para construir sua família, contando que as concessões feitas não sejam unilaterais.
As discussões repetitivas são indicativos de um problema mais profundo?
Elas não são mais sérias em sua forma do que outras discussões, mas o que os alerta é sua frequência: elas acontecem quase todos os dias. Revelam um clima de tensão e um problema subjacente, como um sofrimento infantil não resolvido. Eles são um sinal de atenção: talvez seja necessário tomar uma decisão, renegociar uma escolha mais séria, como ter um novo filho, uma mudança profissional, todas as situações deixadas em suspenso que prejudicam o relacionamento.
Quando um dos cônjuges está zangado e o outro menos zangado. Como as discussões entre o casal podem evoluir?
Estamos convencidos de que pessoas não coléricas não existem. A raiva é uma emoção básica, não pode ser evitada. O não colérico é uma pessoa que recusa a raiva, muitas vezes porque a confunde com violência. Sem perceber, ele transforma sua raiva em culpa: “Eu não deveria ter…”, ou em tristeza: “Como você pode ser tão duro comigo?” O não colérico não consegue expressar sua raiva. Então, ele fará todo tipo de ato fracassado para empurrar seu cônjuge zangado para a discussão e, assim, usar a raiva do outro para reclamar e esvaziar sua bolsa de ressentimentos. Para uma pessoa não colérica, é um esforço enorme conseguir expressar essa emoção, daí o interesse por ele na escuta silenciosa que o forçará a dizer o que sente.
Quelle importance accordez-vous au pardon ?
Il est capital d’être convaincu qu’une relation peut se réparer. Quand on a blessé l’autre, on peut déjà présenter ses excuses. Même si la blessure n’était pas intentionnelle, elle lui a fait mal. Parfois la parole ne suffit pas, tout dépend de l’offense : il faut alors réparer par des actes concrets, inviter l’autre au restaurant, lui offrir des fleurs, proposer une démarche qui lui fasse plaisir.
Que importância você atribui ao perdão?
É muito importante saber que um relacionamento pode ser reparado. Quando você machuca o outro, você já pode se desculpar. Mesmo que a ferida causada não tenha sido intencional, você a machucou. Às vezes, palavras não são suficientes, tudo depende da ofensa. É necessário reparar nossos erros com ações concretas, convidar o outro para o restaurante, oferecer flores, propor uma abordagem que o faça feliz.
Florence Brière-Loth

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

“6º mandamento: Não pecar contra a castidade”.

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INTRODUÇÃO:
São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?… Não sabeis que vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, pois o recebestes de Deus, e que não vos pertenceis? Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1 Coríntios 6, 15;19-20). Vivendo a realidade de um mundo pagão, no qual a castidade era desprezada e ridicularizada, São Paulo demonstra as razões para que o cristão viva a castidade: é membro de Cristo, templo do Espírito Santo e deve dar glória a Deus também com o corpo.
Mas não tão somente o cristão, mas todo o ser humano como tal, deve respeitar seu corpo – e o dos demais – cuidando com esmero de viver a castidade em pensamentos, palavras, obras e desejos, se quiser viver conforme a razão. Deus marcou o caminho da dignidade humana neste campo com dois preceitos: o sexto, “não cometerás atos impuros”, e o nono, “não consentirás em pensamentos e nem em desejos impuros”, para o pleno domínio racional – interior e exterior – da sexualidade.
IDÉIAS PRINCIPAIS:
1. A sexualidade é um dom de Deus
Um ponto de partida, tão fundamental como necessário para falar do sexto mandamento, é a afirmação da Sagrada Escritura, quando nos ensina que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e os criou homem e mulher (cf. Gênesis 1,27). E que o homem, pois, seja homem e a mulher seja mulher, isso vem de Deus. Deus assim o quis. Portanto, como tudo aquilo que Deus faz é bom, a sexualidade não é um mal, nem é contrária à lei de Deus: é boa, pois veio de Deus. É um grande dom de Deus.
Mas a sexualidade tem uma razão de ser muito definida e sublime. Ainda que Deus tivesse podido fazer as coisas de outra maneira, quis – pela sexualidade – confiar ao homem e à mulher –aos esposos – a missão nobre de transmitir a vida, continuando a geração humana, querida por Deus. E como a missão é tão alta, quis também ordena-la e protege-la com uns preceitos que a mantém em sua dignidade e eficácia, conforme o plano de Deus. Por isso não se pode fazer com o corpo aquilo que apetece. Deus estabeleceu uma ordem no uso da sexualidade e tal ordem consiste em que o prazer sexual – seja de pensamento, palavra ou obra – somente seja lícito, se for buscado dentro do matrimonio e encaminhado ao fim que Deus Criador lhe assinalou: a transmissão da vida humana, junto com a ajuda mútua dos esposos.
2. A virtude da castidade
Ainda que às vezes se identificam castidade e pureza, a virtude da pureza expressa melhor o fato e a renúncia total ao uso da sexualidade, enquanto que a castidade expressa o senhorio sobre a sexualidade por renúncia total ao uso ilícito. A castidade é, pois, a virtude que regula e controla a sexualidade, impondo o respeito ao corpo em pensamentos, desejos, palavras e ações. Esta virtude expressa a integração da sexualidade na pessoa e, por conseguinte, a submissão da paixão sexual à razão humana e à fé. A virtude da castidade é, como toda virtude, uma conquista própria de valentes; é algo positivo que liberta da escravidão de vícios e do pecado.
3. A impureza destrói muitas coisas no ser humano
O pecado da impureza destrói no ser humano tesouros que Deus lhes deu, não só pelo fato de O ofendermos e perdermos sua amizade, mas também porque é um dano de modo particular a virtudes de verdade excelentes. O impuro é alguém triste, por ser escravo do pecado; não é generoso porque só pensa em si mesmo e em seu prazer; debilita sua fé, porque seu coração vai se cegando. Perde a sensibilidade fina da alma, que lhe capacita para amar a Deus e aos demais.
Se não se consegue a educação e o domínio da sexualidade, com uma pedagogia da liberdade, a alternativa é evidente: ou o ser humano controla suas paixões e obtém, assim a paz, ou se deixa dominar por elas e se torna um pobre coitado.
4. A castidade é para todos
Cristo é o modelo de todas as virtudes, e a condição do cristão, seguidor de Cristo, é a de viver uma vida casta. Cada um em seu estado de vida, e segundo a vocação que recebeu de Deus, pois a uns, Deus lhes pede viver em virgindade ou no celibato – um modo eminente de se dedicar por inteiro a Deus com o coração indiviso – , e a outros, no matrimonio ou solteiros. Os casados hão de viver a castidade conjugal, fiéis a seus deveres matrimoniais; os solteiros praticam a castidade na continência.
Os esposos hão de ter presente que a fecundidade é um bem e o fim do matrimônio, pois o amor conjugal tende naturalmente a ser fecundo; por isso, o ato matrimonial deve estar aberto à transmissão da vida, e nunca será permitido o recurso à anticoncepção ou à esterilização para evitar a procriação.
5. Pecados contra a castidade
Pecam contra a castidade os que – consigo ou com outras pessoas – cometem ações impuras; olham coisas impuras; consentem em pensamentos ou desejos impuros; mantém conversações ou contam piadas sobre coisas impuras; os que voluntariamente colocam a si mesmos ou a outros em perigo de comete-los. Como tipificação moral, são pecados notórios contra a castidade a masturbação, a fornicação (união sexual entre duas pessoas não casadas, de sexo oposto), as atividades pornográficas e as praticas homossexuais; contra a dignidade do matrimonio podemos destacar o adultério, a poligamia e o chamado “amor livre”.
Estes pecados contra a castidade são sempre graves, se há pleno conhecimento e consentimento; em tal caso não existe matéria leve.
6. A luta pela castidade
Para ganhar a batalha da castidade é necessário fugir das ocasiões; nesta matéria, fugir não significa Covardia, mas sim, prudência. E a prudência exige evitar amizades, leituras, espetáculos, conversas, etc.. que levem ao pecado.
Outro passo será o de estar ocupados em um trabalho sério, que salva de ensimesmar-se no egoísmo; ajuda também a prática de esportes, que forma virtudes esplendidas para resistir ao capricho. E não se pode esquecer a importância da sinceridade, que conta as dificuldades às pessoas competentes em busca de ajuda e conselho, assim como a modéstia e o pudor que ensinam a delicadeza no vestir, no asseio diário, etc…, para a defesa da pureza propriamente dita.
Mas o mais importante é colocar os meios sobrenaturais: a confissão e a comunhão freqüentes; pedir a castidade com humildade e perseverança; acudir à Virgem Puríssima e nossa Mãe; oferecer pequenos sacrifícios que afirmam a vontade e conseguem a graça. Como observa Santo Tomás de Aquino, “que o homem viva na carne e não segundo a carne, não é do homem, mas de Deus”.
7. PROPÓSITOS DE VIDA CRISTÃ:
• Acudir à Virgem ao sentir alguma tentação contra a castidade
• Colocar esmero em ser e mostrar-se sempre limpos nas palavras, conversas, piadas, etc…

http://www.psteresinhacj.com.br/catequese/6o-mandamento-nao-pecar-contra-a-castidade/

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O monge beneditino cego e quase paralítico que escreveu a Salve Rainha


Sempre que rezamos o Terço, recordamos, de algum modo, o Beato Herman de Reichenau, autor da oração 'Salve Rainha'. 

Herman nasceu a 18 de Julho de 1013, filho do conde de Altshausen. Nasceu deformado, com palato fendido e sérios problemas nas costas, talvez espinha bífida, ou esclerose lateral amiotrófica ou atrofia muscular espinal. Seja qual fosse o problema, falava e andava com enorme dificuldades. Ainda criança, caiu doente de poliomielite, mas milagrosamente sobreviveu. Seguindo as práticas da época, quando completou sete anos, os seus pais colocaram-no no mosteiro beneditino de Reichenau, que fica isolado numa ilha do Lago Constança, no Sul da Alemanha. Foi onde Herman passou o resto da sua vida.

Ali começou a estudar teologia e o mundo. Aos vinte anos tornou-se monge. Como não podia ajudar em nenhuma tarefa, passava os dias a rezar e estudar. Dele temos obras sobre geometria, aritmética, astronomia e teoria musical. Como historiador, compilou e organizou relatos, que até então estavam dispersos, sobre os primeiros séculos da Igreja, incluindo a vida de Jesus Cristo e dos seus discípulos, e também um martiriológio dos cristãos sob domínio romano. Era fluente em várias línguas, incluindo o árabe, grego e latim; escreveu poesias e construía instrumentos musicais e astronómicos, em especial o astrolábio, um enorme avanço científico na época que viria a ser fundamental nas grandes navegações. Como compositor, temos ainda hoje os ofícios a São Gregório Magno, Santa Afra e São Wolfgang. 

Nos últimos anos de vida ficou cego. Foi nesta época que compôs o Salve Regina, um canto gregoriano para ser utilizado na Liturgia das Horas e Festas Marianas. E

Faleceu no dia 24 de Setembro de 1054, aos 41 anos, de pleurite. A morte foi narrada assim pelo seu discípulo Bertoldo: Quando finalmente Deus decidiu livrar a sua alma da tediosa prisão do mundo, Herman foi atacado pela pleurisia, tendo sofrido terrível e continuadamente durante os seus últimos dez dias. Numa manhã, após a Santa Missa, perguntei-lhe se se sentia melhor. Ele respondeu que havia pensado muito sobre o bem e o mal, e todas as coisas que ainda pretendia escrever, mas que o mundo futuro, a vida eterna era muito mais desejável, e que já era hora de partir. E assim foi. 

O seu corpo foi enterrado no túmulo da sua família, que se perdeu com o tempo. Algumas das suas relíquias encontram-se em Zurique. Herman foi beatificado em 1863 pelo Papa Pio IX.

in 'Tesouros da Igreja Católica'