sábado, 4 de abril de 2020

Você não sabe o que fazer com seus dias? Tente aprofundar seu relacionamento com Deus

PONDER

Cada um de nós é chamado a um relacionamento pessoal e íntimo com Deus, no segredo do nosso coração. Por que não aproveitar o confinamento para aprofundar esse relacionamento?

Deus ama os homens um por um, nunca “em bloco”. Ele nos une como um povo, mas esse povo é composto de pessoas únicas, com as quais ele deseja viver uma história de amor totalmente nova. Deus nunca cria dois seres iguais, e nunca nos ama com amor comum. Quando Jesus falou às multidões, todos ouviram a mesma coisa, mas cada um foi tocado pessoalmente, de uma forma diferente. É o mesmo Evangelho que é dado a todos nós, mas cada um o recebe com as graças que lhe são próprias, de acordo com a vocação que é sua e que não interessa aos outros. É um segredo nosso com o Senhor.
Cada pessoa tem um relacionamento especial com Deus
Deus dá a cada um o que é melhor para esta pessoa, e somente para ela, no devido tempo. Ao longo de nossas vidas, ele nos revela pacientemente e com discernimento aquilo que vamos sendo capazes de entender. Ele nos faz avançar em nosso ritmo, de forma que não precisamos nos comparar com ninguém. Não cabe a nós medir, nem muito menos controlar aquilo que Deus deseja realizar em nós. Muitas vezes, isso acontece sem o nosso conhecimento: nunca sem nós, nunca apesar de nós, mas de maneira tão discreta que nos escapa! Dessa forma, quando rezamos, o mais importante não é o que é visto no exterior, nem mesmo aquilo que percebemos do nosso interior. O mais importante é o silencioso trabalho de Deus “mais íntimo de nós do que nós mesmos” (Santo Agostinho).
Deus não se impõe. Ele sempre se dirige a nós com grande discrição, a fim de respeitar nossa liberdade. Ele nunca tenta nos prender ou foçar a sua vontade sobre nós. “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (1 Ap 3, 20-21). Se ninguém abre, Deus fica na porta, pois ele nunca nos força a recebê-lo. Ninguém pode saber se eu abri minha porta ao Senhor, ou até que ponto eu a abri. Da mesma forma que eu não sei se os outros o abriram, mesmo quando estão muito perto de mim (marido, filhos, amigos).
Aproveite o silêncio para ouvir melhor o Senhor
Deus não faz barulho para não nos assustar. Ele não se esconde, mas se faz muito pequeno, para não humilhar aquele a quem se dirige. Para revelar-se a nós, ele se fez homem “manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Sua palavra não é estrondosa, mas suave “como uma brisa leve” (1 Reis 19, 12). Devemos, portanto, ficar em silêncio para ouvi-lo e adentrar na morada do nosso coração. “Quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai ocultamente” (Mt 6, 6).
Nós não nos retiramos “para as profundezas de nossa casa” para permanecermos enclausurados, fechados em nós mesmos ou aconchegados em uma confortável conversa com Deus. Entramos em nós mesmos para receber tudo o que nos permitirá agir e amar nossos irmãos, no concreto da vida cotidiana. O confinamento, precisamente, pode ser um período favorável para descobrir o esplendor do silêncio e provar a alegria de um momento de solidão ou mesmo para descobrir o sabor da leitura.
Envolvendo as crianças
A educação sobre a interioridade pressupõe grande discrição de nossa parte. Se somos pais, devemos permitir que cada um de nossos filhos ouça e responda ao chamado de Deus. Mas não precisamos saber o que eles vivem de coração para coração com Deus, mesmo quando são pequenos. Não é necessariamente fácil. Porque temos que estar atentos e disponíveis para poder ajudá-los quando e como eles precisam e, ao mesmo tempo, permanecer respeitosamente no limiar de seu jardim secreto.
Christine Ponsard

Você tem medo do teu futuro depois do Covid-19? Ouça este monge

WIRUS

A incerteza e a imprevisibilidade surgiram para perturbar a vida de milhões de pessoas. Uma preocupação permanente sobre o futuro agora ocupa a mente de todos. Como avançar e continuar vivendo além desses medos?

Omedo é um termo genérico muito amplo para designar várias noções. É uma reação natural e psicológica, às vezes muito útil. Primeiro, é um reflexo da sobrevivência que vem do nosso lado animal. Ele salva nossas vidas quando nos faz correr para fugir de um perigo. É também um estimulante que nos mantém alertas. Também pode nos paralisar ou nos fazer realizar atos tolos.
Num nível mais profundo, o medo causa preocupação, principalmente em relação ao futuro e a tudo que não controlamos. No entanto, é possível superá-lo. São as explicações do Frei Alain Quilici, que é o prior do convento dominicano em Toulouse, França.
Como você luta contra o medo do futuro?
Temos medo do desconhecido e, portanto, do futuro. A rejeição da doença e da morte, instintivamente inscrita em nós, continua sendo um medo essencial. Somos encorajados a administrar essas ansiedades através de seguros (de aposentadoria, de incêndio, de roubo, de doença), para multiplicar as garantias contra todos os nossos medos sob o pretexto do realismo. No entanto, a insegurança continua sendo a mesma: todas essas precauções nunca podem nos proteger 100% do perigo.
O único antídoto é o de viver no presente, focado no que temos que fazer hoje. São Luis de Gonzaga dizia: “Se eles anunciassem minha morte iminente, eu continuaria brincando se fosse a hora de brincar”. É isso que Cristo nos convida para praticar no Evangelho: “Não se preocupem com a sua vida (…). Olhem para os pássaros no céu: eles não semeiam nem colhem, nem se acumulam em celeiros, e no entanto, o Pai que está no céu os alimenta. ”
Quando Cristo nos diz “Não se preocupem”, do que Ele quer nos libertar?
De todos os nossos medos humanos. Cristo nos conhece intimamente. E no Evangelho, os apelos à paz do coração são frequentes. Os apóstolos no barco, durante a tempestade, tinham boas razões para tremer. Todos esses medos são legítimos. Jesus não censura nada, pelo contrário, ele quer nos apaziguar. A mesma coisa que uma mãe que diz ao seu filho: “Não tenha medo, eu estou aqui”.
A ação de Deus, como Cristo nos revela, é uma ação tranquilizadora. O Senhor Jesus, que convida o homem a não ter medo, revela-se como mestre dos acontecimentos que nos ameaçam. Ele é mais poderoso do que eles. Cuida de nós. Este não é um convite humano para dominar por mera vontade, mas um incentivo para confiar nele. Esta é a luta do crente.
O remédio para o medo é se colocar nas mãos do Senhor Jesus. São João Paulo II assumiu esse mandato em outro contexto, o dos medos de nossas sociedades: “Não tenha medo dos outros, não tenha medo de ser você mesmo. Seja livre! “
Esse pedido de Cristo é realista? Podemos ficar calmos?
Cristo não suprime o medo visceral nem a morte, mas transforma os dois. Ele venceu a morte, que se tornou a porta de entrada para a vida eterna. O mártir tem medo, com certeza, mas ele confia em Deus. Santo Tomás Moro, em suas cartas desde a prisão para a sua filha, fala muito sobre sua angústia ao morrer, mas, quando chega ao cadafalso, encontra forças para dizer com humor ao seu carrasco: “Agradeço agora por fazer seu trabalho, porque depois será mais difícil para mim ”.
O santo não evita o medo?
O próprio Jesus, em sua agonia, estava com medo. Os santos e os mártires têm confiança nos ensinos do Senhor: “Não temam os que matam o corpo …” (Mt 10,28). O Evangelho é um grande livro de conforto. Vemo-lo nas parábolas. Embora Deus seja um professor exigente, ele também é um consolador.
O que podemos legitimamente temer?
Traindo a Deus, pecando, não sendo fiéis aos seus ensinos, devemos ter medo disso. Lembremo-nos de São Luís e das recomendações que ele fez ao seu filho no leito de morte: “Cuidado com todos os pecados mortais”, aqueles os quais cometemos sabendo que definitivamente nos distancia de Deus se nunca pedirmos perdão. “Temam antes àquele que pode lançar a alma e o corpo à Gehenna [ao inferno]”, diz Mateu.
O medo do Tentador é um medo salvador que nos mantém alerta. Devemos estar vigilantes diante das tentações, entre as quais o orgulho é a maior de todas. Vamos distinguir bem a prova da tentação: o Diabo quer nos arrastar para o mal e nos fazer cair, enquanto Deus nos permite enfrentar provações para nos fazer crescer. Como nos exames os quais o aluno faz para passar para o curso seguinte.
Armas espirituais devem ser usadas para lutar contra um adversário espiritual: faça o sinal da cruz num momento em que a luta se torne dura demais, comprometa-se com a oração da Virgem Maria, reze o terço, faça um caminho da cruz, priva-se de um prazer inútil: é estar no terreno certo do combate que devemos enfrentar.
Florence Brière-Loth

Tempo de desprendimento

PRZEDPOŚCIE

Deus não habita numa alma cheia de bugigangas

Neste tempo da Quaresma, a Igreja nos faz repetidas chamadas para que nos desprendamos das coisas da terra e assim acumulemos o nosso coração de Deus. Em Jr 17,7-8, nos diz: “Bendito o homem que deposita a sua confiança no Senhor e põe n’Ele a sua esperança. Assemelha-se à árvore plantada perto da água, que estende as suas raízes para o arroio. Quando chegar o estio, não o temerá, e a sua folhagem continuará verdejante. Não a inquieta o ano de seca; continua a produzir frutos”. O Senhor cuida da alma que colocou n’Ele o seu coração.
O Senhor deseja que nos ocupemos das coisas da terra e as amemos corretamente: “Enchei a terra e submetei-a” (Jr 17, 6). Mas uma pessoa que ame “desordenadamente” as coisas da terra não deixa lugar na sua alma para o amor a Deus. São incompatíveis o “apego” aos bens e o amor ao Senhor: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6,24). As coisas podem converter-se numa amarra que nos impeça de chegar a Cristo. E se não o alcançarmos, para que serve a nossa vida?
Para chegar a Deus, Cristo é o caminho. Mas Cristo está na cruz; e, para subir à cruz, é preciso ter o coração livre, desprendido das coisas da terra. Ele nos deu o exemplo: passou pelos bens desta terra com perfeito senhorio e com mais plena liberdade. “Sendo rico, fez-se pobre por nós” (2 Cor 8,9). Para segui-Lo, estabeleceu-nos uma condição indispensável: “Qualquer um de vós que não renuncie a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 33). Este não renunciar aos bens encheu de tristeza o jovem rico, que tinha posses e estava muito apegado a elas. Quando não perdeu nesse dia este homem jovem que tinha meia dúzia de coisas que, em breve, lhe fugiriam das mãos.
Os bens materiais são bons, porque são de Deus. São meios que Deus pôs à disposição do homem desde a criação, para que se desenvolvesse em sociedade com os outros. Somos administradores desses bens por um breve espaço de tempo. Tudo nos deve servir para amar a Deus – Criador e Pai – e aos outros. Se nos apegamos às coisas que temos e não praticamos atos de desprendimento efetivo, se os bens não nos servem para fazer o bem, se nos separam do Senhor, então não são bens, convertem-se em males.
Exclui-se do Reino dos céus todo aquele que põe as riquezas como centro da sua vida; idolatria, é como chama São Paulo a avareza. Um ídolo ocupa o lugar que só Deus deve ocupar. Exclui-se de uma verdadeira vida interior, de um relacionamento de amor com o Senhor, todo aquele que não quebra as amarras, ainda que finas, que o atam de um modo desordenado às coisas, às pessoas e a si próprio.
Com o bom uso que fizemos dos bens materiais – muitos ou poucos – que Deus pôs nas nossas mãos, ganharemos a vida eterna. A vida é o tempo de ganhar méritos. Se formos generosos e tratarmos os outros como filhos de Deus, seremos felizes aqui na terra e depois na outra vida. A caridade, nas suas diversas formas, é sempre realização do Reino de Deus, bem como a única bagagem que nos sobrará deste mundo que passa.
O nosso desprendimento deve ser efetivo, com resultados bem determinados, que não se conseguem sem sacrifícios; e, também, natural e discreto, como é próprio de cristãos correntes que devem servir-se de bens materiais no seu trabalho ou nas tarefas apostólicos. Trata-se de um desprendimento positivo, porque todas as coisas da terra são ridiculamente pequenas e insuficientes em comparação com o bem imenso e infinito que pretendemos alcançar; e ainda interno, pois diz respeito aos desejos; atual, porque exige que examinemos com frequência onde pomos o coração e tomemos resoluções concretas que assegurem a liberdade interior; e alegre, porque temos os olhos postos em Cristo, bem incomparável, e porque não é uma mera privação, mas riqueza espiritual, domínio das coisas e plenitude.
O desprendimento nasce do amor a Cristo e, ao mesmo tempo, possibilita que esse amor cresça e viva. Deus não habita numa alma cheia de bugigangas. Por isso é necessário um firme trabalho de vigilância e de limpeza interior.
Este tempo da Quaresma é muito oportuno para examinarmos a nossa atitude em face das coisas e em face de nós mesmos: tenho coisas desnecessárias ou supérfluas? Evito tudo o que para mim significa luxo e mero capricho, ainda que não o seja outros? Estou apegado às coisas ou instrumentos que devo utilizar no meu trabalho? Queixo-me quando não disponho do necessário? Levo uma vida sóbria, própria de uma pessoa que quer ser santa? Faço gastos inúteis por precipitação ou falta de previsão? Pratico habitualmente a esmola, generosamente, sem avareza? Contribuo para a manutenção de alguma obra apostólica e para o culto da Igreja com uma ajuda proporcionada aos meus ganhos e despesas?
Que Santa Maria, nossa Mãe, ajude-nos a limpar e ordenar os afetos do nosso coração para que só o seu Filho reine nele. Agora e por toda a eternidade. Coração dulcíssimo de Maria, guardai o nosso coração e preparai-lhe um caminho seguro.

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

terça-feira, 31 de março de 2020

O Bʀᴇᴠɪᴀ́ʀɪᴏ ᴅᴀ Cᴏɴғɪᴀɴᴄ̧ᴀ


O que pode abalar a confiança dos filhos nos pais - Blog ...


Caímos tantas vezes! Senhor, quanta miséria! Por que nos admirarmos de ser a enfermidade enferma, a fraqueza fraca, a miséria miserável? Que somos diante de Deus, que é o Divino Forte, senão fraqueza? Paciência! Nossa miséria é uma doença que não tem cura neste mundo. Nosso Senhor quer a nossa vontade. Ele faz o resto! A santidade não é obra de um dia. Enquanto não tocarmos a nossa miséria com o dedo e não nos convencermos do nada que somos, ainda nos resta muito a caminhar. As quedas têm esta vantagem: ajudam-nos a desprezar-nos, a desconfiar de nossas próprias forças e a só confiar em Deus. Essa é a razão porque caímos tanto.

Estejamos bem convencidos – diz o Padre Caussade (1) – de que nossa miséria é a causa de todas as nossas fraquezas e de que estas, Deus as permite por misericórdia. Sem isso, nunca nos curaríamos de uma presunção e de uma orgulhosa confiança em nós mesmos. Jamais compreenderíamos, como é preciso, que todo mal vem de nós e todo o bem somente de Deus. Só com “um milhão de experiências pessoais” é que se pode adquirir o hábito desse duplo sentimento…

Por que o desânimo quando nos achamos fracos e cobertos de miséria, caindo a cada passo? Que podemos nós? Humilhemo-nos! Paciência! Aspiremos à perfeição, à santidade, com e apesar de nossas misérias. Já temos um milhão de experiências pessoais?

(Brandão, Ascânio. Breviário da Confiança: Pensamentos para cada dia do ano. Oficinas Gráficas “Ave-Maria”, 1936, p. 55)

📚 filhosespirituaisdepepio.blogspot.com

FAMÍLIA – LUZES NO LAR


Silhueta de uma família andando de mãos dadas Vetor grátis

Ponto de luz«Às vezes, fala-se do amor como se fosse um impulso para a satisfação própria, ou um simples recurso para completarmos em moldes egoístas a nossa personalidade. E não é assim: o amor verdadeiro é sair de si mesmo, entregar-se. O amor traz consigo a alegria, mas é uma alegria com as raízes em forma de cruz… O amor deve ser renovado dia a dia; e o amor se ganha com o sacrifício, com sorrisos, com arte também» 
(Entrevistas a Mons. Escrivá, nn. 43 e 107).


Um projeto a ser realizado

São Josemaria falava sempre de que os lares cristãos deveriam ser «luminosos e alegres».

Enchem-se de luz os lares em que o casamento e a família são vistos como um «projeto» a ser realizado dia após dia, entre os três (marido, mulher e Deus). Entendem que o matrimônio cristão é – como o sacerdócio – uma «vocação» e uma «missão», que o dia das núpcias é apenas um início, que exigirá um aprendizado, uma retificação, um aprimoramento e uma renovação contínuos[1].

Alguém dizia, com aparente seriedade, que «o matrimônio não existe», e com isso queria significar que é como o projeto de uma construção apenas planejada; só se tornará real quando os esposos, com a oração, com  o aprofundamento na formação cristã, e a experiência, comecem a construí-lo. E deve ser uma construção permanente, diária, uma tarefa que durará a vida interia.

Precisarão os esposos de cuidar dos alicerces, as bases fortes de um ideal familiar cristão; e escolher os melhores materiais: as virtudes humanas e sobrenaturais aplicadas a cada situação, fácil ou difícil: fé, esperança, amor, prudência, fortaleza, generosidade, desprendimento, justiça, etc.

O alicerce insubstituível da família, como de toda a vida cristã, é Cristo, que está sempre pronto para ajudar, mediante graça do Sacramento do Matrimônio. Cada um veja como constrói – dizia são Paulo –. Quanto ao fundamento, ninguém pode colocar outro  diverso do que foi posto: Jesus Cristo (1Cor 3,10-11).

Sobre esse alicerce, os materiais são as virtudes. Uma família, um lar, construído sobre o direito de ser feliz e os meros sentimentos, é uma casa de papel que um fósforo pode reduzir a cinzas.

Ora, entre as muitas virtudes que se devem conjugar para a edificação de uma família bela e sólida, penso que há duas que têm um papel fundamental: a humildade e a generosidade.

A humildade

            Quando se cultiva essa virtude, vai-se adquirindo um «seguro de amor», que previne a falência. O que desgasta a família é quase sempre a falta de humildade: quer se chame soberba, egoísmo, susceptibilidade, teimosia, prepotência… Tudo isso são colorações diversas do orgulho.

A experiência mostra que as duas frases de santos que vou citar a seguir estão carregadas de razão:

  • Santo Agostinho: «Não há caminho mais excelente que o do amor, mas por ele só podem transitar os humildes».
  • São Josemaria: «A soberba é o maior inimigo da vida conjugal».

Sugiro que se examine sobre algumas manifestações de humildade, que anoto a seguir:

  • respeito mútuo dos esposos. Cada ser humano é imagem de Deus, e só por isso merece ser respeitado. São Josemaria recordava que Cristo morreu por todos, e que «cada um vale todo o sangue de Cristo». Quando se perde o respeito entre marido e mulher, torna-se impossível a compreensão e o diálogo. Crescem as humilhações mútuas, a grosseria, o desprezo e a injúria, falhas que são a peste do amor.

Com o egoísmo, o marido tende para a passividade no lar, para a poltrona, o jornal, a tv, e outras formas de esquecimento dos problemas domésticos. A mulher tende a cair no desleixo na apresentação, nas reclamações excessivas e nos maus modos; e os nervos ficam mais prontos para disparar.

Um excelente ato de respeito é saber escutar, sem menosprezar a pessoa que fala. A Imitação de Cristo diz: «Não queiras confiar demais na tua opinião… Sempre ouvi dizer que é mais seguro ouvir e receber conselho do que dá-lo… É sinal de orgulho e teimosia não querer concordar com os outros quando a ocasião e a razão o pedem»[2]. A virtude da prudência – muito ligada à razão e à reflexão – é a que nos indicará quando convém calar e escutar e quando falar.

  • misericórdia, que é a capacidade de compreender e relevar as misérias alheias, assim como Deus compreende e perdoa as nossas. Consiste em saber desculpar, em não revidar na hora, em tratar de esquecer, mudar de conversa, perdoar. Perdoai e sereis perdoados, dizia Jesus (Lc 6,37), e respondendo a uma pergunta de Pedro sobre a frequência do perdão, disse-lhe que é preciso perdoar não só sete vezes, mas setenta vezes sete (Mt 18,22).

Custa perdoar. Sem dúvida. Mas, com Deus, podemos. Peçamos-lhe que Ele, todopoderoso, queime o arquivo maligno que guardamos no coração, contendo a lembrança de todas as mágoas antigas e recentes. Essas mágoas que, quando um esposo ofende o outro, emergem como uma lista interminável de recriminações e acusações mútuas. Como sofre o amor por não termos sabido calar e abandonar as nossas dores nas mãos de Deus!

  • gratidão. É importante agradecer tudo, até os menores serviços e atenções, com simplicidade; sem cair no acostumamento, como se tivéssemos direito a tudo. É um conselho que o Papa Francisco não se cansa de repetir aos casais. Costuma falar de «três palavras-chave» para fazer o casamento durar: “Posso?”, “Obrigado” e “Desculpe”[3]. Pense que um pequeno elogio, uma palavra amável bem escolhida, é como pó de estrela que ilumina o dia.

A generosidade

Amar é dar, sobretudo é dar-se. O egoísta só pensa no que recebe, e então calcula com uma balança interior mesquinha o pouco que dá. O generoso é como Jesus, que não se poupou em nada e deu a vida por nós.

Vamos lembrar agora apenas dois aspectos da generosidade no cotidiano do lar:

  • Ultrapassar-se a si mesmo. Não pensar: «Já faço muito, faço até demais». O coração generoso sempre diz: «Plus ultra» – «Mais além», como os antigos navegantes.

  • Às vezes, esse «além» será algum sacrifício mais custoso, que exige vencer o bem-estar e o comodismo. Mas, na maioria dos casos, será «ir além» em pequenos pormenores: nas coisas pequenas que renovamos, na inventividade no cuidado das coisas mais comuns (como evitar a monotonia nas refeições ou nos assuntos de conversa; como cuidar da limpeza e dos enfeites que alegram o lar; ou como vencer o desleixo no arranjo pessoal). É aí onde se deve concentrar o espírito que refaz tudo, que transforma o mais comum em uma floração cheia de surpresas e de encanto.

  • Para finalizar, pensemos que é da máxima importância o cultivo constante da vida espiritual. Já víamos que Deus deve ser o Mestre de obras na construção do lar. Vou acrescentar agora que Ele deve ser a Vida da vida dos protagonistas do lar. Alimentemo–nos do Pão de Deus na Santíssima Eucaristia, da sua Palavra na oração; das outras práticas de piedade próprias do homem e da mulher de fé; e peçamos uma maior participação nos frutos do Espírito Santo, que enumera são Paulo: amor, alegria, paz, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22-23).
[1] Cf. nosso livro A paz na família, 2ª edição, Quadrante 1999
[2] Livro I, capítulo 9
[3] Ver a Exortação apostólica Amoris laetitia-A alegria do amor, de 19 de março de 2016, n. 133

quarta-feira, 25 de março de 2020

Origem e sentido da Bênção de Santo Antônio


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Nossos termos “abençoar” e “bendizer”, dos quais deriva o substantivo “bênção”, originam-se do Latim “benedicere”. Este verbo composto é formado dos radicais bene e dicere, que significam “dizer bem”.

A palavra bênção, com os verbos “abençoar”, “benzer”e “bendizer”, expressa, em sua própria essência, uma atitude religiosa, uma relação entre o homem e o sobrenatural. Mostram um vínculo de reciprocidade entre o humano e o divino. É a divindade que concede os seus dons e dádivas (suas bênçãos) e o homem que pede as bênçãos e bendiz e agradece ao recebê-las.

Por isso, vale dizer que o sentido mais amplo de bênção é “invocar a divindade, a sua proteção sobre as pessoas e sobre as realidades humanas”. E, ao receber essa proteção e seus benefícios o homem bendiz e louva.

Vale também lembrar, aqui, o fato de que a procura de bênçãos, ultimamente, foi de novo revalorizada. Inclusive, em manifestações supersticiosas e deturpadas. Mas, seja como for, o importante que se pode notar, é que o sentido da bênção foi redescoberto, tanto pelo povo como pela própria Igreja.

Origem da Bênção de Santo Antônio
Existem muito poucas pesquisas sobre a origem desta bênção. E nenhuma pesquisa séria mais recente. Até hoje, a mais citada é a dos Bolandistas. E mesmo esta é baseada numa lenda. Eles a contam assim:

“Havia em Portugal, no reinado do rei Diniz, uma pessoa atormentada por vexações diabólicas. O inimigo da nossa salvação aparecia-lhe sempre sob a forma de Jesus Cristo e ordenava-lhe que se atirasse ao Rio Tejo, para obter a remissão dos seus pecados e a recompensa celestial. A infeliz, enganada pelas mentiras de Satanás, decidiu um dia afogar-se. No caminho, encontrou uma capela franciscana e ali entrou. Ajoelhou-se diante do altar de Santo Antônio de Pádua, suplicou ao Santo para ajudá-la a salvar a alma. Depois, amedrontada com a perspectiva do gênero de morte que lhe estava reservado e bastante fatigada, adormeceu.

Durante o sono, Santo Antônio lhe apareceu, afastou-a do funesto projeto e deu-lhe um pergaminho, dizendo-lhe para o trazer sempre consigo. Ao acordar, achou suspensa no pescoço a folha preciosa, onde se liam algumas linhas, chamadas depois “Breve ou Carta de Santo António”. Imediatamente se fez sentir a eficácia do remédio celeste: a obsessão de Satanás desapareceu imediatamente.

O rei de Portugal, tendo tomado conhecimento do milagre, quis ver o maravilhoso escrito e mandou buscá-lo. Desde que se viu privada do seu tesouro, a pessoa recaiu no poder do demônio. Levaram-lhe uma cópia exata do Breve milagroso. Recebeu-a com confiança, trazendo-a dia e noite consigo. No mesmo instante, recobrou a paz e ficou livre de tais tentações. O rei conservou o original entre as relíquias da coroa.

O Breve ou Bênção de Santo Antônio

O “Breve”, tradicionalmente, vem impresso numa cruz. De um lado está o texto da bênção e, do outro lado, uma figura de Santo Antônio.

O texto da bênção é este: “Ecce crucem Domini; fugite, partes adversae! Vixit Leo de tribu Juda. Radix David. Alleluia! Alleluia!

Geralmente, a tradução vem, mais ou menos, nestes termos: “Eis aqui a cruz do Senhor; fugi, potências Inimigas! Venceu o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi. Aleluia! Aleluia!”

Esta bênção é dada, em muitas igrejas de Santo Antônio, às terças-feiras. Os fiéis, devotos do Santo, têm muita fé na eficácia desta bênção. Procuram recebê-la todas as terças-feiras!

A raiz bíblica desta bênção

A Bênção de Santo Antônio (ou “Breve-) é tirada, em sua parte central, do Livro do Apocalipse (Ap 5.5). Isso já lhe dá logo um valor especial. Mesmo que a sua origem esteja envolvida em elementos lendários, ela tem, no entanto, um valor garantido por suas raizes bíblicas.

O texto do Livro do Apocalipse refere-se à vitória do Cordeiro sobre Satanás e a força do mundo. Essa raiz bíblico-cristológica lhe dá o sentido bem característico de uma bênção do Novo Testamento. E assim lhe assegura a garantia de uma bênção legítima e um valor inquestionável.

Se isso não bastasse para legitimá-la, pode-se ainda invocar a sua longa tradição de uso constante em muitas igrejas. Esse fato também lhe dá um direito de legitimidade adquirida.

Como entender hoje esta bênção

A Igreja sempre estimulou o uso das bênçãos autênticas e legítimas. Elas, em última análise, são uma forma de “exorcismo” positivo, como remédio contra o mal. Vale aqui lembrar que a melhor forma de combater o mal não é ir contra ele, diretamente, mas cultivar o bem. Onde o bem entra, e se toma uma realidade, o mal é, “ipso facto”, eliminado.

Outro fato, que convém aqui lembrar, é que o povo simples dá muito valor às bênçãos. E se não encontra as bênçãos boas na Igreja Católica, vai procurá-las em outros lugares, onde encontrará as fórmulas supersticiosas e deturpadas. E pode até ser levado a seguir falsas religiões manipuladas por exploradores, com suas “tendas de bênçãos e milagres”.

Portanto, usar e popularizar a boa bênção pode ser até uma ocasião para se fazer evangelização. São pequenas oportunidades, mas preciosas, para se conscientizar o Povo de Deus sobre valores genuinamente cristãos. E, por meio das bênçãos, pode-se conduzir este mesmo povo a amar “o Pai das luzes, de quem nos vem toda dádiva boa e todo dom perfeito” (Tg 1,17).

A Bênção de Santo Antônio, além de ter um longo valor histórico, é uma bênção de raízes bíblicas. Tem, portanto, os seus direitos de legitimidade. E, se Santo Antônio é “o Santo mais querido do povo brasileiro”, a sua bênção tem uma significação muito grande para este povo tão sofrido!

Mas vale a pena lembrar que, por meio dela, há um grande caminho aberto para uma evangelização desses devotos. Pode-se aproveitá-la para invocar os dons e dádivas boas do Pai das Luzes e levar esses devotos a imitar as virtudes do “Grande Santo Antônio”, que é o “Doutor Evangélico”. E, assim, pode-se criar nos fiéis também o mesmo amor ao Evangelho de Jesus Cristo, que Santo Antônio viveu tão profundamente e anunciou com tanta eloquência aos seus ouvintes.

Esta bênção é uma grande porta aberta para a descoberta e a vivência de muitos e grandes valores da fé cristã! Vale a pena aproveitá-la bem!

http://conventosantoantonio.org.br/origem-e-sentido-da-bencao-de-santo-antonio.html

Pequena oração de exorcismo ensinada por Santo Antônio

Para rezar a qualquer momento do dia e afastar as tentações

A tradição popular diz que Santo Antônio deu uma oração a uma pobre mulher que procurava ajuda contra as tentações do demônio.
Sisto V, Papa franciscano, mandou esculpir a oração – chamada também de “lema de Santo Antônio” – na base do obelisco que mandou erigir na Praça de S. Pedro, em Roma.
Eis o original, em latim:
Ecce Crucem Domini! +
Fugite partes adversae! +
Vicit Leo de tribu Juda, +
Radix David! Alleluia!

Eis a tradução:
Eis a cruz do Senhor! +
Fugi forças inimigas! +
Venceu o Leão de Judá, +
A raiz de David! Aleluia !

Esta breve oração tem todo o sabor de um pequeno exorcismo. Também nós podemos usá-la – em latim ou português – para nos ajudar a superar as tentações que se nos apresentam.

https://pt.aleteia.org/2016/02/03/pequena-oracao-de-exorcismo-ensinada-por-santo-antonio/