sábado, 21 de abril de 2018

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (2)

Recapitulando
Na palestra anterior – “Formação da consciência (1) -, vimos o que é a consciência: «A  consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou» (CCE, n. 1778).
Dizíamos que a consciência é um juízo da razão com base na verdade e no bem objetivos, que a Lei de Deus nos mostra. E lembrávamos que a Lei eterna é a própria Sabedoria divina, inseparável do Amor com que Deus cria o homem, Sabedoria da qual participa a razão do homem, feito à imagem de Deus: essa participação é a “lei natural”,  quaedam participatio legis aeternae in creatura rationali – uma certa participação da lei eterna na criatura racional (S. Tomás, S. Th. I-II, q.91, a.2).
Com a obra da Redenção realizada por Cristo, e o envio do Espírito Santo, Deus revela plenamente qual é o verdadeiro bem do homem, elevado à ordem da graça, e transformado em filho de Deus.
Qualidades objetivas da consciência
Já sabemos que a consciência não é infalível, não é uma espécie de oráculo divino incontestável. «Posta diante de uma escolha moral, a consciência pode emitir um julgamento correto, de acordo com a razão e a lei divina, ou, ao contrário, um julgamento errôneo que se afasta da razão e a lei divina» (CCE, n. 1786).
“Emitir um julgamento correto” não é fácil. «Às vezes − diz também o Catecismo da Igreja −, o homem depara com situações que tornam o juízo moral menos seguro e a decisão difícil. Mas ele deverá procurar sempre o que é justo e bom e discernir a vontade de Deus expressa na lei divina» (n. 1787).
Esta última frase indica uma das primeiras qualidades que deve ter a consciência do cristão: a procura do que é objetivamente bom, do que Deus quer.
  • Chama-se consciência reta a que procura conhecer a lei divina, para depois agir conforme com o querer de Deus. Jesus ilustra essa busca sincera com estas palavras: Aquele que pratica a verdade vem para a luz (Jo 3, 21).
Santo Tomás, com sua característica sobriedade, explica: «A razão do homem será reta na medida em que se deixar dirigir pela vontade divina, que é a regra primeira e suprema» (Suma Teológica, 1-2, a. 154, a. 2).
Essa qualidade da consciência é descrita assim na Encíclica Veritatis splendor: «Sem dúvida, o homem, para ter uma “boa consciência” (1 Tim 1, 5), deve procurar a verdade e julgar segundo esta mesma verdade. Como diz o apóstolo Paulo, a consciência deve ser iluminada pelo Espírito Santo (cf. Rm 9, 1), deve ser “pura” (2 Tim 1, 3), não deve com astúcia adulterar a palavra de Deus, mas manifestar claramente a verdade (cf. 2 Cor 4, 2). Por outro lado, o mesmo Apóstolo adverte os cristãos, dizendo: “Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito” (Rm 12, 2)» (n. 62).
Para um cristão, a “retidão” vem principalmente da fidelidade à Lei Nova, à “lei evangélica”, como consequência da vida nova em Cristo. E uma prova de retidão será a existência de uma verdadeira luta ascética para alcançar a santidade (cf. Aurelio Fernández, Compendio de Teología Moral, ed. Palabra, Madri 1995, p. 178).
  • Quando a consciência reta julga de modo certeiro, de acordo com «a verdade do bem» (Ibidem, n. 61), chama-se consciência verdadeira.
Mas a consciência «não está isenta da possibilidade de erro» (cf  Veritatis splendor, n. 62). Como dizíamos, não é infalível, da mesma forma que o juízo prudencial sobre o melhor modo de encarar qualquer assunto humano, pode errar.
Temos então a consciência errônea (contrária à verdade).
Há dois tipos de erro de consciência:
a) O erro inculpado. «Não raro acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade» (Gaudium et spes, n. 16, e Veritatis splendor, n. 62). A ignorância invencível é aquela «de que o sujeito não é consciente e de onde não pode sair sozinho» (V. Spl., n. 62). Portanto, quem comete uma falta com essa ignorância, não peca.
Isso, porém , não quer dizer que o ato cometido seja bom. Ele é objetivamente mau, é um mal, mesmo que por ele sujeito não incorra em culpa. A Veritatis splendor comenta a esse respeito: « O mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou de um erro de juízo não culpável, pode não ser imputado à pessoa que o realiza; mas, também neste caso, aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face à verdade do bem. Além disso, o bem não reconhecido não contribui para o crescimento moral da pessoa que o cumpre: não a aperfeiçoa nem serve para encaminhá-la ao supremo bem. Assim, antes de nos sentirmos facilmente justificados em nome da nossa consciência, deveríamos meditar nas palavras do Salmo: «Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas» (Sal 19, 13)» (n. 63).
b) O erro culpado, ou ignorância vencível. A consciência – dizíamos − pode errar por ignorância invencível, e então está isenta de culpa.. «Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem, e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado» (Gaudium et spes, 16). Com estas breves palavras, o Concílio Vaticano II oferece uma síntese da doutrina que a Igreja, ao longo dos séculos, elaborou sobre a consciência errônea» (Veritatis splendor, n. 62).
Somos responsáveis pela ignorância culpável. «Existem faltas que não conseguimos ver e que, não obstante, permanecem culpáveis, porque nos recusamos a caminhar para a luz (cf. Jo 9, 39-41). A consciência, como juízo último concreto, compromete a sua dignidade quando é culpavelmente errônea, ou seja, “quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem, e quando a consciência se torna quase cega em consequência do hábito do pecado” (Veritatis splendor, n. 63, com citação de Gaudium et spes, n. 16).
(continua)

http://www.padrefaus.org/2018/02/15/formacao-da-consciencia-2/

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (1)

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Consciência, o que é?
Hoje há confusão e ambiguidade:
  • valoriza-se a consciência moral como guia de uma vida individual, vida autônoma e independente. “Minha” consciência é minha”, e intocável.
  • mas se tem um conceito equívoco, confuso, de consciência moral: dizem-se sobre ela verdades misturadas com erros, e nada fica claro, de modo que o mundo se enfraquece desorientado pela falta de “valores” . Vejamos algumas afirmações, em si válidas, mas muito mal entendidas na sociedade materialista:
– a) Cada qual dever seguir a sua consciência. Também a Igreja diz: «A dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria consciência» (Gaudium et spes, 17).
– b) Ninguém pode me forçar a agir contra a minha consciência. Também a Igreja diz que cada qual deve proceder de acordo com a sua consciência «por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa» (Ibidem e Veritatis Splendor, n. 42).
Tudo isso é completado pelo CCE, quando diz: «O homem tem direito de agir com consciência e liberdade e fim de tomar  pessoalmente as decisões morais. “O homem não pode ser forçado a agir contra a própria consciência. Mas também não há de ser impedido de proceder segundo a consciência, sobretudo em matéria religiosa» (n. 1782 e Dignitatis Humanae, n. 3). (aqui entrariam os temas da objeção de consciência, e da coação do governo que impõe ideias opináveis  e ideologias como dogmas).
= Essa “concordância” entre a opinião geral e a moral cristã transforma-se em profunda discordância, conforme o que cada um dos lados entende por consciência.
Que entendemos por “consciência”?
 A) = A maioria confunde consciência com opinião subjetiva, inclinação instintiva, sentimento espontâneo ou simples preferência. Não teria relação com nenhuma realidade ou verdade objetiva. A consciência seria só uma opi9nião subjetiva e, portanto, “relativa” conforme o sentimento, o desejo ou a convicção de cada um. É o relativismo moral absoluto, hoje imperante (ideologia de gênero, aborto, drogas…), um subjetivismo que tem como única barreira os limites que a legislação do momento impõe.
Excetuando as “imposições coativas” da legislação e a pressão social do  “politicamente correto”, a consciência (na realidade, o “palpite” de cada um), seria, para ele, o referencial único do bem e do mal. Com isso, faz-se da opinião (por mais superficial, absurda e interesseira que seja) um oráculo. Não há nenhuma referência à Verdade e ao Bem, nenhuma luz clara que nos indique os valores objetivos, nenhum o sentido de verdade e de bem. Ficam eliminados os “transcendentais” (ens, unum, bonum, verum, pulchrum).
Como diz Bento XVI na Encíclica Spe salvi, , «o encontro com Deus desperta a minha consciência, para que deixe de fornecer-me uma autojustificação, cesse de ser um reflexo de mim mesmo e dos contemporâneos que me condicionam, mas se torne capacidade de escuta do mesmo Bem» (n. 33).
= B) Em coerência com a razão e a fé, a Igreja ensina que a consciência é, acima de tudo, um “juízo da razão”, que avalia a moralidade (a bondade ou malícia moral) à luz da verdade e do bem objetivos, que têm Deus como fonte. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica:
«Na intimidade da consciência [ver n. 1778], o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar e fazer o bem e evitar o mal, no momento oportuno a voz desta lei soa aos ouvidos do coração… É uma lei inscrita por Deus no coração do homem» (CCE n. 1776 e Gaudium  et Spes 16).
E, de modo claríssimo: «A  consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou» (n. 1778). Não cria nem inventa essa “qualidade moral”, mas a conhece, a “reconhece”.
O juízo da consciência, na perspectiva da Criação e a Redenção 
            = O ponto crucial, nessas questões, consiste na convicção de que existe um Bem e um Mal objetivos, que não são camaleônicos, relativos e mutantes. Existe um Norte da vida moral, uma estrela que guia o homem em todas as épocas, lugares e circunstâncias, e que está fora e acima do indivíduo, como a estrela que guiou os Magos.
Essa “estrela” é a Lei de Deus. A palavra Lei pode sugerir uma imposição legal, fria e até arbitrária, uma norma legal externa a nós (G. Ockham). Não é assim. A teologia católica define a Lei de Deus como «a razão da sabedoria divina,que conduz tudo ao seu devido fim» (S. Tomás de Aquino). De maneira simples, entenderemos isso fazendo duas considerações:
  • Deus é o criador do mundo, e do homem. Com linguagem expressiva, o livro do Gênesis diz que Deus, após a criação, viu tudo quanto tinha feito e achou que era muito bom (Gn 1, 31).
Deus, que é Amor, e cria e redime o homem por amor, e toda a criação é boa, é um bem (cf. 1 Jo 4,8, Jo 3,16). Ora, o Amor não cria sem sentido, nem joga sua criação como uma folha perdida ao vento. Ele é bom, a criação é boa, e o homem  e a mulher, imagem de Deus, estão destinados a uma bondade que participa da bondade de Deus, que é orientada por Deus, prevista e ensinada por Deus. Como diz São João Paulo II, «Deus, que é o único bom (cf Mt 19,17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos» (Veritatis splendor , n. 35).
«O homem não só não é fruto do acaso, como é o fruto de um pensamento e de um querer divinos. Para expressá-lo com a nossa linguagem comum: o homem – como, de resto, toda a criação – é um projeto idealizado por Deus. Desde sempre, esteve na mente de Deus o modelo ideal do ser humano e, ao mesmo tempo, a ideia exata daquilo que é a verdade e o bem do homem, daquilo que o pode levar à plenitude e à felicidade. Essa ideia do bem do homem, concebida pela Sabedoria de Deus, é precisamente a lei moral, que a teologia cristã chama lei eterna (porque existe eternamente em Deus e é válida eternamente, para todos os seres humanos)» (F. Faus, A voz da consciência, p.38).
Chama-se lei natural  à «participação da lei eterna na criatura racional», como diz S. Tomás, e explica que é a própria inteligência dada por Deus, que permite ao homem (embora com sombras e confusões após o pecado original) sintonizar com a sabedoria de Deus, com o “projeto” de Deus.
Com a vinda de Cristo e o envio do Espírito Santo, Deus revela plenamente qual é o verdadeiro bem do homem, elevado à ordem da graça, e transformado em filho de Deus, chamado a um destino eterno. O homem conta agora com a plenitude da revelação divina (da verdade), levada a cabo por Cristo (o “evangelho”, a Boa Nova) e com a luz interior do Espírito Santo, que é o Amor de Deus em pessoa.

(continua)

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (3)

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Dever de formar a consciência
             Do que víamos no post anterior  – “Formação da consciência” (2) -, deduz-se a grave responsabilidade que temos de formar bem a consciência.
«A consciência deve ser educada e o juízo moral, esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica […]. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos a influências negativas e tentados pelo pecado a preferir seu julgamento próprio e a recusar os ensinamentos autorizados» (CCE n. 1783). «A educação da consciência é tarefa para toda a vida» (Idem, n. 1784).
Como se educa a consciência?
1º)  = Com o conhecimento da Palavra de Deus, «luz para o nosso caminho», que deve ser assimilada na fé e na oração. = Com o exame da nossa consciência, confrontado com Cristo, seu amor, sua Cruz. = Tomando como guia o ensinamento autorizado da Igreja. = Acolhendo o exemplo e os conselhos de outros. = E invocando a assistência do Espírito Santo (cf. CCE n. 1785).
A consciência erra «quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem» (Const. Gaudium et spes, n. 16).
2º) Com a luta ascética para avançar nas virtudes, especialmente na virtude da caridade. Não é suficiente o conhecimento. Santo Tomás diz que é indispensável uma espécie de «conaturalidade [sintonia experimental] entre o homem e o verdadeiro bem» (S.Th. II-II, q.45, a.2; e VS n. 64). O que Camões chamaria “saber de experiência feito”. O Bem só pode ser bem “conhecido” quando praticado e saboreado: então a alma abre-se aos dons do Espírito Santo, que iluminam e aquecem.
«Se não se é humilde – dizia são Josemaria – é fácil chegar a deformar a consciência».
3º) Lutando seriamente contra as justificativas, que o orgulho sempre quer apresentar;  = contra a falta de sinceridade com quem pode nos orientar, = contra a vergonha de abrir-nos na confissão, etc.
4º) Lutando contra a cegueira causada pela tibieza e o hábito do pecado. Não sabes que és cego…, diz Cristo ao tíbio, no Apocalipse (Ap 3,17). A consciência erra – diz também a Const. Gaudium et spes –  «quando a consciência se torna quase cega em consequência do hábito do pecado»  (n. 16). E o Catecismo desenvolve esse pensamento: «O servilismo às paixões, a pretensão de uma mal entendida autonomia da consciência [orgulho]…, a falta de conversão ou de caridade podem estar na origem dos desvios do julgamento na conduta moral» (n. 1792).

As dúvidas de consciência 
A consciência, além de ser reta, deve ser certa.
Consciência duvidosa é a que não sabe escolher, distinguir entre o que é bom e o que não é: vacila perante a liceidade de fazer ou omitir alguma ação.
Chama-se dúvida positiva à que aparece porque se dão razões serias para duvidar. Dúvida negativa é a que se baseia em razões inconsistentes (deve ser simplesmente rejeitada).
Quando há uma dúvida positiva (p.e. sobre licitude de alguns meios de regular a natalidade), não é lícito agir sem antes esclarecê-la. Deve-se fazer o possível para sair da dúvida (o contrário seria desprezar a possibilidade de praticar um ato gravemente culpável contra a “lei” de Deus).
Meios? Consultar, estudar o assunto, refletir sinceramente na oração… Se a dúvida persiste, os moralistas aconselham a seguir a opinião mais segura ou, pelo menos, a solução mais provavelmente certa. Se existe um conflito de deveres, deve-se escolher o que traz consigo um mal menor.
= Uma dúvida doentia é a que padece a consciência escrupulosa. É escrupulosa a pessoa que vê ou teme pecado em tudo, que vê pecado onde não há, ou pecado mortal onde há só uma falta venial. Além da oração, o modo de superar essa dúvidas enfermiças é:
= Guiar-se pela doutrina sobre os pecado e as condições objetivas para que exista ou seja grave, procurando não se deixar arrastar por um falso peso psicológico da consciência. Precisa de matéria grave, plena advertência e consentimento deliberado.
= agir com a cabeça e não com o sentimento.
obedecer o confessor ou diretor espiritual criteriosos.
= procurar assistência médica, pois muitas vezes o escrúpulo é um tipo de patologia psíquica, que não se dá apenas no campo moral.
Às vezes, esse afã de segurança próprio do escrupuloso, pode levar a outro erro de consciência, o chamado tuciorismo. É o caso da pessoa que, para se sentir segura, opta sempre pelo mais seguro e garantido, ainda que seja absurdo e exagerado. Por exemplo, se confessa de uma falta duvidosa apresentando-a como pecado grave, para “garantir” que não vai fazer uma confissão sacrílega.
A melhor solução é sempre obedecer a um diretor espiritual ou confessor piedoso e de reta doutrina.


Amor no Céu e missão na terra

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Um olhar para o futuro
No final do seu Evangelho, São João transcreve o diálogo tocante que Cristo manteve com Pedro:
– Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?
– Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo!
Repetindo três vezes a sua declaração de amor, Pedro reparou as suas três negações. Depois disso, Jesus confirmou-o na sua missão de pastor supremo da Igreja e continuou caminhando e conversando com ele pela margem do lago de Genesaré.
Num dado momento, inesperadamente, o Senhor parou e fitou Pedro nos olhos. Antecipando a perspectiva do seu futuro, disse-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais jovem, cingias-te e ias para onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. Por estas palavras, indicava o gênero de morte com que ele havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: “Segue-me!” (Jo 21, 15-19).
Assim foi. Durante a perseguição do imperador Nero, Pedro foi preso em Roma pelo ”crime” de ser cristão, e, amarrado como um bandido, levaram-no ao patíbulo, onde o crucificaram. O Apóstolo, cheio da fé e da fortaleza que o Espírito Santo lhe infundia, padeceu e morreu serenamente, e – segundo a tradição – teve o detalhe delicado de pedir que o crucificassem de cabeça para baixo, pois se considerava indigno de morrer como o seu Senhor Jesus.
Uma primeira mensagem
Prestando atenção a essa profecia de Jesus, reparamos que nela há duas mensagens. Uma encerra-se no modo em que Jesus alude à morte. A outra, no É modo como alude ao sofrimento, à Cruz. Detenhamo-nos um pouco em ambas. Desde já, é importante perceber que Jesus fala da morte e da dor com tanta naturalidade que é evidente que não pensa que nenhuma das duas seja uma coisa terrível, ruim. Isso faz pensar.
Mensagem sobre a morte. A própria naturalidade – naturalidade séria e grave, mas serena – com que Jesus fala da morte revela que, para Nosso Senhor, a morte não é nem uma tragédia nem o fim de tudo. Ele mesmo dissera que morrer é chegar passar para a casa do Pai (Cf. Jo 14,2). Quer dizer que a vida nesta terra é apenas um caminho – bem curto, por sinal – ; deve ser uma passagem que encaminha para a meta definitiva, que é o Céu, a união plena e feliz com Deus e o convívio com os amigos de Deus por toda a eternidade. Este é o verdadeiro fim e destino do homem.
Isso é algo que Pedro, sob a luz da fé e a graça do Espírito Santo, compreendeu muito bem, como se reflete nesse trecho da sua primeira carta aos fiéis cristãos: Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia, ele fez-nos renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcessível, reservada para vós nos céus. (1 Pedr 1,3-4).
E, na segunda carta, falando da vocação cristã, diz com serena clareza: Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais de assegurar a vossa vocação […]. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedr 1,10-11).
O triunfo, a realização autêntica da vida é a salvação eterna, é ser santo, é ir para o Céu. Que adianta – dizia Jesus – alguém ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma (Mat 16,26).
Sem olhar para a vida eterna, todas as grandezas e conquistas deste mundo são pó e vento que passa. Mais ainda, uma vida carregada de “realizações”, mas virada de costas para Deus, é como um navio ricamente equipado, que navega com cargas valiosíssimas, mas não tem destino, não chegará a porto algum; seu destino consistirá em girar no redemoinho e afundar no abismo.
Uma segunda mensagem
A segunda mensagem é a serenidade com que Jesus fala da dor – do martírio de Pedro – como de um bem, considerando-o como um modo de amar e de glorificar a Deus (Cf. Jo 21, 19).
O próprio Pedro chegará a ver o sofrimento, sob a luz poderosa da fé e do amor, como um verdadeiro tesouro. Àqueles cristãos do século primeiro, perseguidos de morte pelo Imperador (muitos foram queimados vivos como tochas, quando Nero incendiou Roma), escrevia-lhes dizendo que seus padecimentos eram a prova a que é submetida a vossa fé, mais preciosa do que o ouro perecível (1 Ped 1,7). E exortava-os deste modo: Alegrai-vos de ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada a sua glória (1 Ped 4,13). Referindo-se ainda a Jesus, acrescentava com palavras tocantes: Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa (1 Ped 1,8).
Ao meditar nessa fé dos que conheceram Cristo e os Apóstolos, causam-nos imensa pena aqueles que são incapazes de entender a grandeza do fim sobrenatural da nossa vida – Deus, o amor que dá sentido a tudo, o Céu – e vivem exclusivamente atrás do prazer, da ambição e da vaidade: balões ocos, furados, que a morte vai queimar. Só a alma iluminada pela luz do Espírito Santo pode compreender o paradoxo, incompreensível para um materialista, de que amar a Cruz – a Cruz-amor de Cristo e do cristão – é o segredo para se ser feliz, não só no Céu, mas já antes na terra. Mas este é um tema bem profundo, que agora ultrapassa a nossa reflexão 1. Falta-nos ainda acompanhar a parte final do diálogo entre Cristo e Pedro que estamos meditando.
Uma passagem alegre e fecunda
Depois das palavras sobre o futuro de Pedro, houve mais um diálogo interessantíssimo. O apóstolo Pedro, voltando-se para trás, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava – João, o narrador destas cenas – . Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, e este? Que será dele?” Jesus não lhe quis satisfazer a curiosidade, e respondeu-lhe de um modo aparentemente seco: “Que te importa…? Tu, segue-me!” (Jo 21,20-22).
Digo que é aparentemente seco, porque, entre Pedro e Jesus, havia uma confiança grande e afetuosa, difícil para nós de calibrar. Podemos, contudo, imaginar Nosso Senhor com um sorriso meio brincalhão, dizendo a Pedro algo assim: “Estamos falando agora é da tua vida, da tua missão e da tua entrada no Céu, não da vida dos outros. Cada filho de Deus tem a sua tarefa, a sua vocação própria. Deixa João tranqüilo. É claro que também tenho uma missão reservada para ele, e não é nada pequena (de fato João viveu até cerca dos cem anos, cuidou de Nossa Senhora, difundiu a fé entre milhares de pessoas, escreveu o quarto Evangelho e três Epístolas que fazem parte da Bíblia… Nada menos!). Mas o que interessa é que tu, Pedro, cumpras a tua missão pessoal. Por isso, te digo: Tu segue-me!
Com certeza, estas palavras – Tu, segue-me! – provocaram um sobressalto no coração de Pedro, pois fora com esses mesmos termos que Jesus o chamara, três anos antes, à beira do mesmo lago onde agora estavam, para se tornar o seu apóstolo. O coração de Pedro deve ter acelerado. As lembranças do dia da vocação devem ter-lhe voltado à memória, rodando com a nitidez de um filme colorido.
Na realidade, havia uma correspondência significativa – querida por Cristo – entre aquele dia, já remoto, do primeiro chamado e esse dia do encontro com o Ressuscitado. No dia da sua vocação, Jesus, antes de comunicar-lhe a chamada, fez o prodígio da primeira pesca milagrosa, que São Lucas descreve no capítulo quinto, e à qual já nos referimos. Naquele dia, após o milagre, Pedro jogou-se aos pés do Senhor, e este disse-lhe: “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (Lc 5, 10). Era uma definição simbólica da vocação do apóstolo, e é também uma definição da vocação apostólica do cristão: Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens (Mat 4,19).
A Igreja nos ensina que todos os batizados temos uma vocação divina e uma missão a realizar no mundo. Deus chama-nos a todos para sermos pescadores de homens. Não podemos ficar pensando apenas na nossa santificação, na nossa salvação. Não é cristão ficar fechado nas preocupações e sonhos pessoais. Estamos chamados por Deus a envolver afetuosamente os outros – respeitando-lhes sempre a liberdade – nas “redes” da nossa caridade, do nosso amor fraterno, desse amor que deseja para todos o maior bem, isto é, trazê-los para junto de Cristo, tal como os Apóstolos puseram aos pés de Jesus os cento e cinqüenta e três peixes grandes. Peixes que o próprio Jesus fez questão de que simbolizassem as almas: farei de vós pescadores de homens!
Perguntemo-nos, à vista disso, quantos parentes, amigos, colegas, conhecidos já levamos nós aos pés de Cristo, à alegria de se encontrarem com o olhar de Cristo, com a palavra de Cristo, com o Coração de Cristo; à felicidade de descobrirem junto de Jesus o amor que não acaba e que dá o sentido à vida?
O mar da Galiléia, para nós, é o mundo, e o “Pedro” atual, o Papa, no caso João Paulo II, posto ao leme da barca da Igreja, nos deu como lema – para o novo milênio – as mesmas palavras com que Jesus mandou Pedro pescar, naquele encontro do dia da vocação: -Duc in altum! – Mar adentro! Deus quer que recristianizemos o mundo!
Por incrível que pareça, Deus, que é tudo e fez tudo , quer contar conosco para estender pelo mundo os frutos da Redenção que Cristo conquistou para nós na Cruz, ao preço do seu Sangue. Ele quer que o Reino de Deus também “dependa de nós”: do nosso exemplo, do nosso empenho em difundir a doutrina cristã, do nosso apostolado pessoal, feito com a palavra compreensiva, com a confidência amiga, com o conselho leal.
“Mar adentro! Sigamos em frente, com esperança! – escreveu João Paulo II na Carta sobre o novo milênio – Diante da Igreja – dizia – abre-se um novo milênio como um vasto oceano onde aventurar-se com a ajuda de Cristo […]. O mandato missionário introduz-nos no terceiro milênio, convidando-nos a ter o mesmo entusiasmo dos cristãos da primeira hora; podemos contar com a força do mesmo Espírito que foi derramado no Pentecostes e nos impele hoje a partir de novo sustentados pela esperança que não nos deixa confundidos (Rom 5,5)”.
Cheio de um santo otimismo, o mesmo Papa, na sua Carta sobre o Rosário, escrevia que o Cristianismo, “passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a “fazer-se ao largo” – mar adentro! – para reafirmar, melhor, para “gritar” Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como “caminho, verdade e vida” , como “o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização”.
Concluamos esta reflexão. A vida tem como meta, certamente, o Céu. Mas, antes de chegarmos ao Céu, é preciso que arregacemos as mangas e realizemos muitas coisas na terra. Sobretudo, é preciso que ajudemos muitos a encontrarem e amarem a Deus, porque Cristo nos deu essa missão no mundo e confia em nós.
(Adaptação de um capítulo do livro de F.Faus: Cristo, minha esperança)
1 Cf. F.Faus: A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001

ALEGRIA E BOM HUMOR


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A alegria cristã

Ha umas palavras muito bonitas no livro de Nehemias, que se leem com frequência na Liturgia das Horas: A alegria do Senhor será a vossa força (Ne 8,10).
─ A tristeza enfraquece, a nós e aos que nos cercam. Faz-nos murchar, enfraquece o ânimo e as forças e desperta o mau humor. Uma pessoa triste cria um ambiente desanimado. Já dizia, no século II, um dos mais antigos escritores cristãos: «Afasta de ti a tristeza. Não entendes que a tristeza é pior do que qualquer outro estado de ânimo, que é a coisa que mais desanima e que repele o Espírito Santo? Uma pessoa alegre pratica o bem, gosta das coisas boas e agrada a Deus. O triste, pelo contrário, sempre age errado (Pastor de Hermas, Mand. 10,1.1; 3.1).
─ A alegria, antítese da tristeza, enche-nos de vitalidade e desperta vitalidade nos outros . É dinâmica e amável. Pode-se dizer que uma pessoa alegre – alegre de coração – faz sair o sol em qualquer lugar onde se encontra.
Mas, talvez nos perguntemos: “É possível a alegria como um bem estável da alma, como algo permanente? Não é, na realidade, como um vagalume, uma luzinha efêmera que pisca só uns instantes na escuridão da noite?”
Deus nos responde que não.
─ Escute Jesus, falando as Apóstolos na Última Ceia, pouco antes da Paixão: Vós, sem dúvida, agora estais tristes. Mas hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria (Jn 16,22).
─ Escute São Paulo, falando aos primeiros cristãos que acabavam de abraçar a fé: Nós estamos sempre contentes! (2 Cor 6,10).
─ E ouça-o ainda dando o “mandamento da alegria” aos filipenses: Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! … O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma!  (Fl 4,4-6).
Será possível essa alegria?
Essa é a pergunta que se fazia Bento XVI, ao iniciar, com uma meditação, o Sínodo dos Bispos de 2005. Acabava de ler as palavras com que Paulo termina sua segunda carta aos coríntios: Por fim, irmãos, vivei com alegria…, animai-vos…, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco (2 Cor 13,11), e fazia o seguinte comentário:
– «É possível ordenar, mandar desta forma a alegria? A alegria, poderíamos dizer, vem ou não vem, mas não pode ser imposta como um dever. Neste ponto, ajuda-nos a pensar o texto mais conhecido sobre a alegria das cartas paulinas: Alegrai-vos sempre no Senhor. O Senhor está perto” [refere-se a Fl 4,4, acima citado]…
»Se a pessoa amada, se o amor, o maior dom da minha vida, estiver próximo de mim, se eu puder ter a certeza de que aquele que me ama – Deus – está perto de mim, também nos momentos de tribulação, então poderá manter-se firme no meu coração uma alegria maior do que todos os sofrimentos» (Meditação, 3/10/2005).
No mesmo sentido, o Papa Francisco afirma, com a leveza jovial de quem habitualmente está de bom humor: «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus […]. O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria […] Reconheço que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de que, não obstante as aparências contrárias, somos infinitamente amados» (Encíclica Evangelii Gaudium nn. 1.5.6).
Deus nos ama. Somos seus filhos muito amados (Ef  5,1). Ele está sempre perto de nós. Nós é que podemos afastar-nos dele, e então baixa a tristeza ao nosso coração. Como dizia São Josemaria [sem se referir, como é lógico, à tristeza patológica que procede da depressão]: «A alegria é um bem cristão. Só desaparece coma ofensa a Deus, porque o pecado é fruto do egoísmo e o egoísmo é causa de tristeza» (É Cristo que passa, n. 178).
E convidava a fazer um exame: «Não há alegria? – Então pensa: há um obstáculo entre Deus e mim. – Quase sempre acertarás» (Caminho, n. 662).
Quer dizer que, para estarmos alegres e alegrar os demais, é preciso que aumente o nosso amor a Deus – a nossa vida de oração, o nosso amor à Eucaristia, a nossa mortificação por amor, a nossa luta pelas virtudes –, e que vençamos o egoísmo, correspondendo generosamente ao amor que o Espírito Santo derrama em nossos corações (cf. Rm 5,5 e Gl 5,22).
O bom humor
Que tem alegria, tem bom humor. «Onde quer que a alegria esteja ausente, onde quer que desapareça o senso do humor, com certeza ali não estará o espírito de Jesus» (J. Ratzinger, Princípios teológicos). Não se trata do humorismo sarcástico, irônico, que agride e humilha os outros. Mas do bom humor amável, que faz bem, como um bálsamo que suaviza e perfuma as asperezas da vida.
Como andamos de sadio bom humor lá em casa? E no ambiente de trabalho, entre colegas e amigos? E, em geral, com todas as pessoas com quem temos contato, mesmo que seja ocasional. Ficamos de cara fechada, com reações bruscas, queixas, gestos antipáticos e respostas ríspidas?  Ou temos uma amabilidade sorridente, como a de Cristo ressuscitado: Alegraram-se os discípulos ao ver o Senhor (Jn 20,20)?
O papa Francisco, usando uma expressão popular, tem repetido que o cristão não pode ter «cara de vinagre». Se tivermos vinagre no coração precisamos limpá-lo e enxugá-lo bem, sobretudo conversando com Deus, como dizia Santo Agostinho e o Papa Bento lembrava na sua encíclica sobre a esperança (Spe salvi, n. 33).
Quem é que tem vinagre no coração? Aquele que vive como descrevem estas palavras: «Não és feliz porque ficas ruminando tudo como se sempre fosses tu o centro: é que te dói o estômago, é que te cansas, é que te disseram isto ou aquilo… – Já experimentaste pensar nEle e, por Ele, nos outros? » (Sulco, n. 74).
Quem limpa o vinagre? Aquele que descobriu o que se lê em outro pensamento do mesmo livro: «Talvez ontem fosses uma dessas pessoas amarguradas nos seus sonhos, decepcionadas nas suas ambições humanas. Hoje, desde que Ele se meteu na tua vida – obrigado, meu Deus! –, ris e cantas e levas o sorriso, o Amor e a felicidade aonde quer que vás» (n. 81).
As almas cristãs, sobretudo os santos, nos dão exemplos maravilhosos desse bom humor que procede da caridade e da luta espiritual. Não veja os exemplos que vou mencionar a seguir como legendas áureas, só dignas de admiração, mas como lampejos, como mensagens que batem no seu coração, e lhe dizem: “E você…, com que fé e amor vive a alegria diante de situações muito menos difíceis?”.
Exemplos de santos
─ São Filipe Neri, Pippo il buono, que muitos veneravam como santo ainda em vida, sabia fazer ingênuas palhaçadas «para sabotar em si  – como diz um escritor[1] – a tentação do orgulho, pois o riso, às custas de si mesmo, libera do inchaço da vaidade e atrai alegremente todos para Deus». Como é bom saber rir de si mesmo, sem dar importância aos nossos “méritos”, nem aos nossos “dramas” e “tragédias”cotidianos.
─ São Josemaria Escrivá referiu certa vez o que lhe aconteceu quando ainda era um jovem padre. Por causa de uma contrariedade forte, «irritei-me… e depois me irritei por ter-me irritado». Nesse estado de ânimo, indo pelas ruas de Madrid, passou por uma daquelas máquinas que faziam seis fotografias rápidas por quatro tostões, e Deus lhe inspirou uma ideia. Entrou na cabine e tirou as fotografias. Dizia que olhou para elas, e  «estava engraçadíssimo com a cara de irritação!». Rasgou cinco das fotos e guardou a sexta na carteira durante um certo tempo. «De vez em quando – comentava –, olhava-a para ver a cara de irritação, humilhar-me diante do Senhor e rir-me de mim mesmo: «Por bobo!, dizia para mim»[2].
─ É célebre o impressionante exemplo de humor de São Thomas More, chanceler da Inglaterra, quando ia ser decapitado por ter-se oposto a aderir ao cisma religioso provocado pelo rei Henrique VIII. Quando inclinava a cabeça sobre o talho, olhou para o carrasco e disse-lhe: «Ânimo, rapaz! Não tenhas medo de cumprir o teu dever. O meu pescoço é muito curto. Cuida, pois de não cortá-lo de lado, para que não fique abalado o teu prestígio» E após isso acrescentou: «Deixa-me ajeitar a barba, não aconteça que também a cortes. Ela nada tem nada a ver com isso»[3].
Um precedente muito mais antigo que esse de Sir Thomas é o do diácono de Roma São Lourenço, martirizado no ano de 285. Segundo conta Santo Ambrósio, foi queimado a fogo lento, deitado numa grelha. Brincando com os verdugos, disse em certo momento: “Este lado já está assado, podem virar-me para o outro”[4].
Após refletir sobre esses exemplos – quatro entre muitos – talvez seja bom terminar este capítulo transcrevendo uma oração “para pedir o bom humor” – que tanta falta nos faz –, composta por São Thomas More. Diz-se que a rezava todos os dias:
─ «Dai-me, Senhor a saúde do corpo e, com ela, o bom senso pra conservá-la o melhor possível. Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir. Dai-me uma alma santa, Senhor, que mantenha diante dos meus olhos tudo o que é bom e puro. Dai-me uma alma afastada do tédio e da tristeza, que não conheça os resmungos, as caras fechadas, nem os suspiros melancólicos… E não permitais que essa coisa que se chama o “eu”, e que sempre tende a dilatar-se, me preocupe demasiado. Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Dai-me a graça de compreender uma piada, uma brincadeira, para conseguir um pouco de felicidade e para dá-la de presente aos outros. Amém».



[1] Carlos Pujol, La casa de los santos, Ed. Rialp, Madrid 1991, p. 185
[2] José Luís Soria, Mestre de bom humor, Ed. Quadrante, São Paulo 2002, p. 95.
[3] A. Vázquez de Prada: Sir Thomas More, p. 18
[4] Carlos Pujol, obra citada, pág. 269

domingo, 15 de abril de 2018

9 coisas que afastam as pessoas da Igreja, segundo um padre desanimado

funcionam na Igreja; o livro dele virou best-seller na Alemanha

“Depois de 30 anos de serviço, deixo minha atividade como pároco e meu serviço ativo na diocese de Münster. Pedi demissão e abandonei o campo que configurou, durante décadas, meus dias, minha vida, minha pessoa”.
O padre Thomas Frings foi pároco da cidade de Münster, Alemanha. Agora, decidiu deixar a paróquia e passar um tempo de reflexão em um mosteiro. Está desanimado pelo que considera um “esforço inútil” de uma “pastoral esclerosada e inadequada”.
Depois de sua decisão, escreveu o texto Correcciones de ruta! (“Correções de rota!”), que divulgou entre os fiéis, e o livro “Così non posso più fare il parroco”, que esclarece os motivos de sua decisão. O livro está entre os mais vendidos da Alemanha.
Padre Thomas faz uma lista de coisas que não funcionam na Igreja alemã, mas que podem se referir a qualquer outra Igreja do mundo. São problemas que afastam as pessoas e enfraquecem a instituição eclesiástica, deixando-a estranha aos olhos de muitas pessoas:
1) O erro de dessacralizar as igrejas
O sacerdote acredita que é um grande erro dessacralizar lugares de cultos históricos aos quais as comunidades se sentem vinculadas.
“Elas são pontos de referência e lugares de memória, não se pode subvalorizar as igrejas, nem no campo, nem na cidade” – adverte o padre em seu livro. “Por exemplo, na ilha de Mull, na Escócia, há uma aldeia de pescadores encantadora que tem três igrejas. A primeira se transformou em um restaurante, a segunda, em supermercado que vende pizza e papel higiênico. Somente a terceira continua sendo a casa de Deus, embora fique fechada de segunda a sábado”, diz o padre.
“Quantas igrejas teremos que dessacralizar para chegar o momento em que as pessoas já não relacionem mais o edifício com a imagem da casa de Deus?”, provoca o sacerdote.
2) Poucas vocações, muita confusão
Segundo Thomas Frings, uma das figuras que gera mais desconfiança é a do seminarista. Ser sacerdote parece o mesmo que pertencer a empresa complicada, quase titânica. Seja pelos vínculos tão duros, como o celibato e a promessa de obediência, seja porque não é fácil definir o próprio futuro num contexto em que há falta de sacerdotes e de fé.
“Em 1980, comecei a estudar Teologia. Em Münster, éramos 40 seminaristas naquele semestre. Éramos somente a metade em relação a 25 anos atrás. Mas as perspectivas eram boas: 3 postos de capelão em 4 anos, depois pároco. Nas estruturas da época, era algo factível. Quem começa hoje a estudar Teologia, provavelmente já não encontrará esse caminho. Há 30 anos, a estima por esta vocação ainda era muito alta. Não se escolhia ser padre por isso – ao menos normalmente. Mas a perda de consideração certamente não ajuda a estar motivado para isso. (…) Não somos uma empresa. Mas alguém aconselharia um jovem a fazer parte de uma companhia com estas perspectivas e com celibato e promessa de obediência?”, pergunta o padre.
3) Chega de discussões inférteis nos conselhos paroquiais
Outro erro que deixa a Igreja pouco atrativa são as discussões que frequentemente se repetem nos órgãos paroquiais.
“Que impressão teria um não crente ou uma pessoa de outra religião que participasse das discussões dos conselhos paroquiais, em que são negociados os lugares e horários de nossas celebrações? Quando se negocia meia hora antes ou mais tarde para que dê tempo de fazermos o trabalho no jardim, dormir até mais tarde ou assistir a uma partida de futebol? Quando se falam de costumes e comidas, ao invés de discutir o significado da morte e ressurreição de Jesus? (…) Como podem brotar da Missa a luz e a alegria, esperança e convicção, quando ela já não é tão importante quanto um café da manhã mais tarde ou um jogo entre o Colonia e o Bayern de Munich?”, pergunta-se o padre.
4) Mudar sim, mas sem ferir sentimentos
Uma reflexão que o sacerdote alemão repete frequentemente em seu livro é que, hoje, muitos padres não entendem o contexto em que se encontram. Com isso, a distância com os fiéis aumenta.
“Às vezes, participo de celebrações litúrgicas e, ao final delas, me pergunto se eu continuaria indo àquela igreja. Ao final da Missa, me sinto verdadeiramente ‘despedido’, no sentido literal da palavra. Às vezes, mesmo como fiel, saio da celebração eucarística e não sei se deveria me sentir zangado, triste ou até afetado. Nem sempre isso depende do celebrante ou da homilia; geralmente depende do quadro em seu conjunto. Se, por exemplo, querem mudar os costumes e tradições, antes de fazer isso é preciso levar em conta a sensibilidade dos fiéis. (…) Um companheiro contou, visivelmente emocionado, que lhe fizeram uma amável advertência depois de sua primeira Missa na paróquia. Um homem se aproximou dele e disse: ‘Padre, em nossa paróquia é preciso distribuir a comunhão mais devagar. Nós levamos muito tempo para comungar’. A advertência e sua formulação diziam muito da atmosfera que reinava na celebração eucarística e na relação existente entre as pessoas da comunidade. Além disso, aquela advertência caiu em um terreno disposto a recebê-la”, esclarece o Padre Thomas.
5) A promessa batismal não cumprida
“Prometemos educar nosso filho na fé”. Quem já participou de um batizado conhece esta frase. E muitos já a pronunciaram, de forma mais ou menos consciente.
Hoje, a crise da fé, sobretudo entre os mais jovens, deve-se muito à distância das famílias em relação à Igreja, que se recuaram da promessa feita no batismo.
“Encontrei-me, certa vez, com um casal que tinha deixado a Igreja e queria batizar o filho somente para que ele pudesse frequentar, depois, uma escola diocesana. Eu não batizei a criança. Mas os pais encontraram outro padre que, talvez, tenha tido outras boas razões para fazer o batismo”, lamenta o padre.
O sacerdote pensa que uma solução poderia ser a “introdução de um catecumenato mais longo” para pais, padrinhos e madrinhas dos batizandos. “Seria, provavelmente, um caminho, mas só funcionará se todas as paróquias seguirem-no”.
6) Primeira Comunhão? Um show!
Sobre os problemas da cerimônia da Primeira Comunhão, Padre Thomas pega pesado. Hoje, é cada vez mais difícil transmitir às crianças a importância do primeiro “encontro” com o corpo de Cristo.
“Reina em todas as partes um grande nervosismo. O salão é arejado, limpo e enfeitado. Os bancos são reservados e o programa com o desenvolvimento da cerimônia é impresso. Várias bandeirinhas são colocadas no caminho da entrada e na fachada da igreja. Depois, chegam eles, os pequenos protagonistas, por quem se gastam tanto tempo e dinheiro. Eles vão vestidos como se fossem a um antigo e prestigioso Gran Hotel, com roupas e adornos de pequenos adultos”, diz um trecho do livro.
À luz dessas experiências, o Padre Thomas propõe outro modelo de preparação para a comunhão: em uma hora as crianças receberiam a explicação sobre a celebração eucarística, em outra momento ensaiariam a celebração e, no domingo, elas já participariam da celebração. No final, todos seriam convidados a seguir a catequese como preparação posterior (não anterior, como acontece hoje), em forma de grupos, com reuniões e participação na Eucaristia do domingo.
7) Compreensão e ajuda aos casais
O casamento pode ser o momento em que os noivos voltam a encontrar a fé. E para que comecem a viver uma nova vida cristã depois de um período de distanciamento espiritual.
Mas os padres, geralmente, não dão aos noivos a oportunidade de conhecer a fundo o valor do que eles vão celebrar. Para fazer isso, é preciso compreender a história dos que vão receber o sacramento.
“Um dia, veio até mim um jovem casal que havia redescoberto a fé. Eles me contaram isso e também disseram que os membros de suas famílias poderiam participar do casamento, mas não de uma celebração eucarística. Para o casal, era muito importante que a Comunhão fosse dada a todos, mas seus convidados não saberiam o que fazer com ela. No entanto, eles não queriam renunciar à Eucaristia. Por outro lado, não poderiam excluir o resto da família da celebração. A solução foi simples. O matrimônio foi celebrado com a Liturgia da Palavra e, depois, os recém-casados receberam a comunhão em uma Missa, mais tarde”, exemplificou o autor.
8) Mau exemplo
O mau exemplo que os responsáveis pelas instituições dão no que diz respeito ao estilo de vida e à ostentação afasta as pessoas da Igreja. Escreve o Padre Thomas: “antes de administrar o sacramento da confirmação, um bispo quis dialogar em tom amistoso com os confirmandos. Ele pediu para que os crismandos perguntassem tudo o que eles queriam saber sobre um bispo. Ele lhes disse: ‘Sou um de vocês, podem perguntar tudo’. Então, um deles respondeu: ‘Senhor bispo, enquanto o senhor se vestir assim e andar nesse carro com motorista, o senhor não será um de nós’”.
9) Um verdadeiro “centro de serviços” para os fiéis e para os demais
“Se eu vejo a igreja como algo que tenho na minha frente, então posso desejar algo dela, exatamente como o cliente em um restaurante, onde ele é rei”, explica o padre alemão.
“Pode-se argumentar que, na Igreja, fala-se com amor às pessoas e que elas não podem vir com exigências. Efetivamente, isso não deveria acontecer nunca em relação aos sacramentos, mas entre os dois extremos – o pedido e a exigência – há um caminho longo. E quem se aproxima deveria ser bem-vindo”, conclui Thomas Frings.
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O santo do cotidiano

“O santo do cotidiano”. Este é o título que são João Paulo II deu ao fundador do Opus Dei, são Josemaria Escrivá, no discurso pronunciado no dia 7 de outubro de 2002, na Praça de são Pedro. No dia anterior, o Papa havia celebrado a Missa solene da Canonização de são Josemaria perante uma multidão de mais de 300.000 fiéis, que continuavam lá presentes em 7 de outubro.

– Caríssimos Irmãos e Irmãs! Dirijo-vos com alegria a minha cordial saudação, neste dia que se segue ao da canonização do Beato Josemaría Escrivá. […] Este encontro festivo reúne uma grande variedade de fiéis, provenientes de muitos países e pertencentes aos mais diversos âmbitos sociais e culturais: sacerdotes e leigos, homens e mulheres, jovens e anciãos, intelectuais e trabalhadores manuais.Trata-se de um sinal do zelo apostólico que ardia na alma de São Josemaría.
Na vida do Fundador do Opus Dei sobressai o amor à vontade de Deus. Existe um critério seguro para se verificar a santidade de alguém: a sua fidelidade ao cumprimento da vontade divina até as últimas consequências. O Senhor tem um projeto para cada um de nós, confia a cada um de nós uma missão sobre a terra. E o santo não consegue nem sequer imaginar-se a si mesmo fora do projeto de Deus: vive unicamente para realizá-lo.
São Josemaría foi escolhido pelo Senhor para anunciar a chamada universal à santidade e mostrar que as atividades cor­rentes que compõem a vida de todos os dias são caminho de santificação. Pode-se dizer que foi o santo do cotidiano. De fato, estava convencido de que, para quem vive sob a ótica da fé, tudo é ocasião de um encontro com Deus, tudo se torna um estímulo para a oração. Vista desta forma, a vida diária revela uma grandeza insuspeitada. A santidade apresenta-se verdadeiramente ao alcance de todos.
Escrivá  foi um santo de grande humanidade. Todos os que se relacionaram com ele, de qualquer cultura ou condição social, tinham-no como um pai, totalmente entregue ao serviço dos outros, porque estava convencido de que cada alma é um tesouro maravilhoso; com efeito, cada homem vale todo o Sangue de Cristo. Esta atitude de serviço é patente na sua entrega ao ministério sacerdotal e na magnanimidade com que impulsionou tantas obras de evangelização e de promoção humana em benefício dos mais pobres. O Senhor fez com que entendesse profundamente o dom da nossa filiação divina. E ele ensinou a contemplar o rosto terno de um Pai no Deus que nos fala através das mais diversas vicissitudes da vida. Um Pai que nos ama, que nos acompanha passo a passo e nos protege, nos compreende e espera de cada um de nós uma resposta de amor. A consideração desta presença paterna, que acompanha o cristão a toda a parte, proporciona-lhe uma confiança inquebrantável; em todos os momentos deve confiar no Pai celestial. Nunca se sente só nem tem medo. Quando depara com a Cruz, não vê nela um castigo, mas uma missão que lhe foi confiada pelo próprio Senhor. Por­tanto, o cristão é necessariamente um otimista, porque sabe que é filho de Deus em Cristo.
São Josemaría estava profundamente convencido de que a vida cristã implica uma missão e um apostolado, de que estamos no mundo para redimi-lo com Cristo. Amou o mundo apaixonadamente, com um “amor redentor” (Catecismo da Igreja Católica, n. 604). Precisamente por essa razão, os seus ensinamentos ajudam tantos fiéis comuns a descobrir o poder redentor da fé, a sua capacidade de transformar a terra. É uma mensagem que tem abundantes e fecundas implicações para a missão evangelizadora da Igreja. Fomenta a cristianização da sociedade “a partir de dentro”, e mostra que não pode haver conflito entre a lei divina e as exigências do genuíno progresso humano. Este sacerdote santo ensinou que Cristo deve estar no cume de todas as atividades humanas (cf.Jo 12, 32). A sua mensagem anima o cristão a atuar nos lugares onde se forja o futuro da sociedade. Somente através da presença ativa dos leigos em todas as profissões e nas mais avançadas fronteiras do desenvolvimento é que se pode dar uma contribuição positiva para o fortalecimento da harmonia entre a fé e a cultura, uma das grandes necessidades da nossa época.
Gostaria de concluir com uma referência à festa litúrgica de hoje, Nossa Senhora do Rosário. São Josemaría escreveu um belo opúsculo intitulado “Santo Rosário”, resultado da sua vida de infância espiritual, essa disposição de espírito própria daqueles que atingem um total abandono na vontade divina. Com o meu mais profundo carinho, confio à proteção maternal de Maria todos os presentes assim como os seus familiares e apostolados, e lhes agradeço pela sua vinda.
[…] Convido-os, caríssimos Irmãos e Irmãs, a levar a todas pessoas um testemunho claro da fé, conforme o exemplo e os ensinamentos do seu santo Fundador. Acompanho-os com a minha oração e de todo o coração os abençoo, bem como às suas famílias e atividades.

Papa João Paulo II