terça-feira, 17 de setembro de 2013

A santa missa por Santo Pe. Pio


 
Padre, o Sr. ama o Sacrifício da Missa?
Sim, porque Ela regenera o mundo.

Que glória dá a Deus a Missa?
Uma glória infinita.

Que devemos fazer durante a Missa?
Compadecer-nos e amar.

Padre, como devemos assistir à Santa Missa?
Como assistiram a Santíssima Virgem e as piedosas mulheres. Como assistiu S. João Evangelista ao Sacrifício Eucarístico e ao Sacrifício cruento da Cruz.

Padre, que benefícios recebemos ao assistir à Santa Missa?
Não se podem contar. Vê-lo-ás no céu. Quando assistires à Santa Missa, renova a tua fé e medita na Vítima que se imola por ti à Divina Justiça. Não te afastes do altar sem derramar lágrimas de dor e de amor a Jesus, Crucificado por tua salvação. A Virgem Dolorosa te acompanhará e será tua doce inspiração.

Padre, que é sua Missa?
Uma união sagrada com a Paixão de Jesus. Minha responsabilidade é única no mundo. (Dizia-o chorando.)

Que devo descobrir na sua Santa Missa?
Todo o Calvário.

Padre, diga-me tudo o que o senhor sofre durante a Santa Missa.
Sofro tudo o que Jesus sofreu na sua Paixão, embora sem proporção, só enquanto pode fazê-lo uma criatura humana. E isto, apesar de cada uma de minhas faltas e só por sua bondade.

Padre, durante o Sacrifício divino o senhor carrega os nossos pecados?
Não posso deixar de fazê-lo, já que é uma parte do Santo Sacrifício.

O senhor considera a si mesmo um pecador?
Não o sei, mas temo que assim seja.

Eu já vi o senhor tremer ao subir aos degraus do altar. Por quê? Pelo que tem de sofrer?
Não pelo que tenho de sofrer, mas pelo que tenho de oferecer.

Em que momento da Missa o senhor sofre mais?
Na Consagração e na Comunhão.

Padre, esta manhã na Missa, ao ler a história de Esaú, que vendeu os direitos de sua primogenitura, seus olhos se encheram de lágrimas.
Parece-te pouco desprezar o dom de Deus!?

Por que, ao ler o Evangelho, o senhor chorou quando leu estas palavras: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue...”
Chora comigo de ternura!

Padre, por que o senhor chora quase sempre que lê o Evangelho na Missa?
A nós nos parece que não tem importância que um Deus fale às suas criaturas e elas O contradigam e continuamente O ofendam com sua ingratidão e incredulidade.

Sua Missa, Padre, é um sacrifício cruento?
Herege!

Perdão, Padre, quis dizer que na Missa o Sacrifício de Jesus não é cruento, mas a sua participação em toda a Paixão o é. Engano-me?
Não, nisso não te enganas. Creio que tens toda a razão.

Quem lhe limpa o sangue durante a Missa?
Ninguém.

Padre, por que o senhor chora no Ofertório?
Queres saber o segredo? Pois bem: porque é o momento em que a alma se separa das coisas profanas.

Durante sua Missa, Padre, o povo faz um pouco de barulho...
Se estivesses no Calvário, não ouvirias gritos, blasfêmias, ruídos, e ameaças? Havia um alvoroço enorme.

Não o distraem os ruídos?
Em nada.

Padre, por que sofre tanto na Consagração?
Não sejas maldoso... (Não quero que me perguntes isso...)

Padre, diga-me: por que sofre tanto na Consagração?
Porque nesse momento se produz realmente uma nova e admirável destruição e criação.

Padre, por que chora no altar, e que significam as palavras que pronuncia na Elevação? Pergunto por curiosidade, mas também porque quero repeti-las com o senhor.
Os segredos do Rei Supremo não podem revelar-se nem profanar-se. Pergunta-mes por que choro, mas eu não queria derramar essas pobres lagrimazinhas, mas torrentes de lágrimas. Não meditas neste grandioso mistério?

Padre, o senhor sofre, durante a Missa, a amargura do fel?
Sim, muito freqüentemente...

Padre, como pode estar-se de pé no Altar?
Como estava Jesus na Cruz.

No altar, o senhor está pregado na Cruz, como Jesus no Calvário?
E ainda me perguntas?

Como se acha o senhor?
Como Jesus no Calvário.

Padre, os carrascos deitaram a Cruz no chão para pregar os cravos em Jesus?
Evidentemente.

Ao senhor também lhos pregam?
E de que maneira!

Também deitam a Cruz para o senhor?
Sim, mas não devemos ter medo.

Padre, durante a Missa o senhor pronuncia as Sete Palavras que Jesus disse na Cruz?
Sim, indignamente, mas também as pronuncio.
E a quem diz: “Mulher, eis aí teu filho”?
Digo para Ela: “Eis aqui os filhos de Teu Filho”.

O senhor sofre a sede e o abandono de Jesus?
Sim.

Em que momento?
Depois da Consagração.

Até que momento?
Costuma ser até a Comunhão.

O senhor diz que tem vergonha de dizer: “Procurei quem me consolasse e não achei”. Por quê?
Porque nossos sofrimentos de verdadeiros culpados não são nada em comparação com os de Jesus.

Diante de quem sente vergonha?
Diante de Deus e da minha consciência.

Os Anjos do Senhor o reconfortam no Altar em que o senhor se imola?
Pois... não o sinto.

Se não lhe vem o consolo até à alma durante o Santo Sacrifício, e o senhor sofre, como Jesus, o abandono total, nossa presença não serve para nada.
A utilidade é para vós. Por acaso foi inútil a presença da Virgem Dolorosa, de São João e das piedosas mulheres aos pés de Jesus agonizante?

Que é a Sagrada Comunhão?
É toda uma misericórdia interior e exterior, todo um abraço. Pede a Jesus que se deixe sentir sensivelmente.

Quando Jesus vem, visita somente a alma?
O ser inteiro.

Que faz Jesus na Comunhão?
Deleita-se na sua criatura.

Quando se une a Jesus na Santa Comunhão, que quer peçamos a Deus pelo senhor?
Que eu seja outro Jesus, todo Jesus e sempre Jesus.

O senhor sofre também na Comunhão?
É o ponto culminante.

Depois da Comunhão, continuam seus sofrimentos?
Sim, mas não sofrimentos de amor.

A quem se dirigiu o último olhar de Jesus agonizante?
À sua Mãe.

E o senhor para quem olha?
Para meus irmãos de exílio.

O senhor morre na Santa Missa?
Misticamente, na Sagrada Comunhão.

É por excesso de amor ou de dor?
Por ambas as coisas, porém mais por amor.

Se o senhor morre na Comunhão, continua a ficar no Altar? Por quê?
Jesus morto permanecia pendente da Cruz no Calvário.

Padre, o senhor disse que a vítima morre na Comunhão. Colocam o senhor nos braços de Nossa Senhora?
Nos de São Francisco.

Padre, Jesus desprega os braços da Cruz para descansar no Senhor?
Sou eu quem descansa n’Ele!

Quanto ama a Jesus?
Meu desejo é infinito, mas a verdade é que, infelizmente, tenho de dizer nada e me causa pena.

Padre, por que o senhor chora ao pronunciar a última palavra do Evangelho de São João: “E vimos sua glória como do Unigênito Pai, cheio de graça e de verdade”?
Parece-te pouco? Se os Apóstolos, com seus olhos de carne, viram essa glória, como será a que veremos no Filho de Deus, em Jesus, quando se manifestar no céu?

Que união teremos então com Jesus?
A Eucaristia nos dá uma idéia.

A Santíssima Virgem assiste à sua Missa?
Julgas que a Mãe não se interessa por seu Filho?

E os Anjos?
Em multidões.

Padre, quem está mais perto do Altar?
Todo o Paraíso.

O senhor gostaria de celebrar mais de uma Missa por dia?
Se eu pudesse, não quereria descer do Altar.

Disseram-me que traz com o senhor o seu próprio Altar...
Sim, porque se realizam estas palavras do Apóstolo: “Eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus”. “Estou cravado com Cristo na Cruz.” “Castigo o meu corpo, e o reduzo à escravidão...”

Nesse caso, não me engano quando digo que estou vendo Jesus Crucificado!
(Nenhuma resposta)

Padre, o senhor se lembra de mim na Santa Missa?
Durante toda a Missa, desde o princípio até o fim, lembro-me de ti.

A Missa do Padre Pio, em seus primeiros anos, durava mais de duas horas. Sempre foi um êxtase de amor e de dor. Seu rosto estava inteiramente concentrado em Deus e cheio de lágrimas. Um dia, ao confessar-me, perguntei-lhe sobre este grande mistério:

Padre, quero fazer-lhe uma pergunta.
Dize-me, filho.

Padre, queria perguntar-lhe que é a Missa?
Por que me perguntas isto?

Para ouvi-la melhor, Padre.
Filho, posso dizer-te que é a minha Missa.

Pois é isso o que quero saber, Padre.
Meu filho, estamos na Cruz, e a Missa é uma contínua agonia.

Tirada de Tradition Catolica, nº 141, nov. 98 citando "Assim Falou o Padre Pio" (S. Giovanni Rotondo, Foggia, Itália, 1974) com o Imprimatur de D. Fanton, Bispo Auxiliar de Vicenza.

Fonte da entrevista: Editora Permanência

domingo, 15 de setembro de 2013

Francisco. Homo Totus Evangelicus (Homem todo evangélico)



Francisco entrou na intimidade do Evangelho e percebeu-o puro e sem retoques. Por isso, a Igreja o chamará deHomo totus Evangelicus, quer dizer, que “se evangelizou” na totalidade do ser e na radicalidade das exigências. E mostrou, ao mesmo tempo, que o Evangelho, no seu todo, é algo possível de ser traduzido em vida.

O próprio Papa, Inocêncio III, observara que a norma de vida da primitiva comunidade era por demais árdua para compor um programa de vida, mas a tempo foi advertido que não poderia declará-la impossível, pois declararia impossível o Evangelho de Cristo.

Para Francisco a afirmação do Papa significava a impossibilidade de seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois vinham eles retraçados, concretamente, nas páginas do Evangelho. Esta concretude com que percebia o Evangelho fazia com que Francisco a ele recorresse com a simplicidade e a confiança de quem recorre a um “diretor espiritual”.

Com naturalidade, colocava os livros dos Evangelhos à sua frente e os abria, a esmo, encontrando exatamente a Palavra que lhe servia de resposta. Não argumentava, não discutia, não duvidava. Deus acabara de lhe falar. E feliz partia para executar as ordens que acabara de ler.

Assim fala Celano, na vida I (n° 92-93): que abrindo o Evangelho, pôs-se de joelhos e pediu a Deus que lhe revelasse qual a sua vontade. “Levantando-se, fez o sinal da cruz, tomou o livro do altar e o abriu com reverência e temor. A primeira coisa que deparou, ao abrir o livro, foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto em que anunciava as tribulações por que haveria de passar. Mas, para que ninguém pudesse suspeitar de que isso tivesse acontecido por acaso, abriu o livro mais duas vezes e o resultado foi o mesmo. Compreendeu, então, aquele homem cheio do espírito de Deus, que deveria entrar no reino de Deus depois de passar por muitas tribulações, muitas angústias e muitas lutas…”T

A gratuidade do amor e do perdão

O Senhor nos reúne com alegria para o banquete festivo da eucaristia. Apesar de nossas fraquezas e pecados, ele não nos rejeita, mas, com amor e misericórdia, vem-nos ao encontro, nosso Pai, quando dele nos afastamos. Alcançados e resgatados por seu Filho, abramos, nesta liturgia, os lábios e o coração para o seu louvor.

Jesus recebe crítica dos fariseus e dos mestres da lei porque se aproxima dos pobres e pecadores. Diante disso,o evangelista nos presenteia com três parábolas chamadas "da misericórdia de Deus", no capítulo 15 de Lucas. Esse capítulo é como que o coração do Evangelho de Lucas e representa o cume da caminhada de Jesus a Jerusalém, donde podemos rever o percurso feito e vislumbrar o trajeto a ser percorrido. Nele encontramos a gratuidade do amor e do perdão de Deus.
Na terceira parábola, Jesus revela a imagem de Deus. Ele é um Pai que sabe perdoar, acolher, abraçar e beijar o filho que retorna ao lar, faz festa divide com os filhos os bens que tem, permite-lhes fazer a própria experiência de vida.
Esta parábola, com certeza, desconcertou os ouvintes de Jesus e, hoje, desconcerta também a nós. As atitudes do pai questionam qualquer sociedade que valorize as aparências, o poder da autoridade (familiar), o moralismo de fachada, a supervalorização e a concentração dos bens.
Quando lemos a parábola, ficamos mais focados no pai que demonstra seu amor e perdoa e no filho mais filho novo que abandona a casa e depois se arrepende e volta aos braços do pai. Esquecemos, com frequência, as atitudes do filho mais velho.
Este é, muitas vezes, proposto como exemplo de fidelidade, pois não abandona o pai, dedica-se ao trabalho e à família e não tinha a vida desordenada do irmão. É um fiel cumpridor das leis e, por isso, pensa ter mais méritos diante do pai. Ele aplica a si a teologia da retribuição, a teologia do "toma lá, dá cá". Mas o amor de Deus é gratuito e não se deixa comprar por cumprimento de leis.
Esse filho nunca abandonou a casa, mas, com a volta do irmão, sente-se estranho na família; sempre obeceu ao pai, mas não conhece a lei do amor; reconhece-se bom filho, mas não aceita o retorno do irmão. Numa palavra, é pessoa ressentida, incapaz de amor, perdoar e acolher. Não entende nem aceita a atitude de misericórdia do Pai.

Pe. Nilo Luza, ssp sobre o evangelho deste domingo 15/09/2013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Oração pelso sacerdotes

Senhor, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Pai eterno, que sois Deus, tende piedade dos sacerdotes.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus,
Adorável e indivídua Trindade,
Sagrado Coração de Jesus, modelo do coração sacerdotal, santificai os sacerdotes.

Jesus, bom pastor, que dais a vida pelas vossas ovelhas.
Jesus, sumo Sacerdote, que pelas almas vos sacrificastes na cruz,
Jesus, vitima divina de nossos altares,
Jesus, que permaneceis como alimento em nossos tabernáculos,
Jesus, Rei de amor, que desejais reinar nas nossas almas,
Jesus, Rei de amor, que desejais reinar nas famílias,
Jesus, Rei do amor, que desejais reinar nas sociedades,
Jesus, Mestre divino que desejais que o vosso Evangelho seja ensinado,
Jesus, amigo dos operários e dos pobres,
Jesus, consolo dos que sofrem,
Jesus, luz dos que procuram a verdade,
Jesus, que desejais sejam os vossos padres luz e sal da terra,

ORAÇÃO:

Maria Santíssima, Rainha do Clero, Mãe do Sumo Sacerdote Jesus, intercedei pelos sacerdotes e pelos que se preparam para o sacerdócio e despertai verdadeiras vocações sacerdotais entre a mocidade.

Divino Salvador, Jesus Cristo que confiastes aos sacerdotes, como a vossos representantes, a obra da Redenção, a salvação e a felicidade dos homens, eu vos ofereço pelas mãos de nossa Mãe Santíssima, para a santificação dos sacerdotes e dos candidatos ao sacerdócio, inteiramente, todas as orações, trabalho, alegrias, sacrifícios e sofrimentos deste dia. Concedei-nos, Senhor, sacerdotes verdadeiramente santos, que, abrasados pelo fogo do vosso amor divino, só procurem a vossa maior gloria e a salvação de nossas almas. E vós, ó Maria, boa Mãe dos sacerdotes, protegei a todos eles, nos perigos e dificuldades de sua santa vocação. Guiai, também, com vossa Mão maternal, os sacerdotes que se tornaram infiéis à sua sublime vocação, para que voltem, quanto antes, para junto do Bom Pastor.

Amém

No tempo que passa abanonamo-nos a palavra



Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática (Lc 11, 28).
O simples e idiota Francisco, como ele próprio costumava se apresentar (cf. Ord 39), sem maior instrução, isto é, sem uma formação própria do clérigo ou do letrado de então, tinha tal conhecimento da Palavra que “penetrava nas realidades escondidas dos mistérios e o que era inacessível à ciência dos mestres, abria-se seu afeto cheio de amor” (2Cel 102). Sem ser mestre na arte de falar, ele resolvia questões difíceis e, como Jó (cf. Jó 28,11), iluminava os pontos obscuros, chegando revelar aquilo que o texto escriturístico escondia aos estudiosos (José Rodriguez Carballo, OFM, Guiados pela Palavra, mendicantes de sentido, n. 15).
Em muitos momentos andamos preocupados com nossa caminhada de cristãos ou de religiosos. Temos receio de marcar passo. Não queremos nos deixar anestesiar pela rotina. Desejamos progredir na intimidade do Senhor e num amor de verdade pelos outros. Georges Bernanos, escritor francês, escreve: “A maioria dentre nós engaja na vida apenas uma pequena parte, ridiculamente pequena de sua existência. As pessoas vivem na superfície de si mesmas. O solo humano é tão rico que alguns se dão por satisfeitos com essa mínima parte. O santo não vive do lucro sobre o lucro, mas engaja toda a sua vida”.


Ora, para darmos passos adiante será preciso o exercício delicado da escuta. Aceitar escutar, desejar escutar. Escutar o quê? Escutar quem? Dizemos: escutar a voz do Senhor, ouvir a Palavra do Senhor. Por Palavra de Deus não pensamos apenas nos textos do Antigo ou do Novo Testamento, mas no eco desses livros na vida das pessoas com as quais convivemos, no coração da Igreja, na vida dos santos e, evidentemente, em nosso projeto de existência.

A escuta parece ser o que existe de mais humano e de mais essencial. Talvez somente sejamos nós mesmos quando escutamos. Escutar é levar em conta um outro, conferir-lhe realidade e presença. A escuta só existe quando nos relacionamos com um outro, com outros. Quem escuta reconhece que não existe por si, nem sozinho. Sabe perfeitamente que nas horas das escolhas decisivas não pode estar isolado. Necessita alimentar uma disposição fundamental de escuta.

Escuta aquele que tem a capacidade de receber de fora, dos outros, do Outro. Escutar e obedecer quase significam a mesma coisa: estirar os ouvidos para captar o que vem de fora. A escuta se transforma em disponibilidade do coração, aceitação de se deixar instruir, chance de transformação. Não somos os mestres exclusivos da verdade. A verdade se partilha. Pela mútua escuta nos tornamos discípulos uns dos outros. Somos “mendicantes” do sentido da vida.

Quando digo que “escuto alguém” pode querer significar; confio nele, quero segui-lo, obedeço-o. Pode também significar: “Deixo-lhe a possibilidade de falar, de ser ouvido, de existir mais densamente, talvez de nascer e de renascer. Escuto a palavra de um outro para receber dele alguma coisa porque faço confiança nele. O outro me escuta para que eu possa falar, porque deposita confiança em mim. Bem no coração da escuta está a confiança. Quando não confiamos, não falamos. Sem confiança não há escuta. Régine du Charlat: “A confiança ousa crer que, apesar de tudo, estamos ligados uns aos outros. A confiança é o núcleo incandescente de todo relacionamento”. Entrar na escuta é ingressar na confiança.

“Ouve, Israel, o Senhor teu Deus”(Dt 6,4): cada dia, ainda hoje, ele continua falando, falando de maneira nova, dizendo o que ainda não tínhamos ouvido. O fiel sincero e reto se põe à escuta da Palavra. “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o” (Mt 3, 17). Jesus é colocado diante de vidas, de histórias para ser ouvido, para ser obedecido e assim ele pode operar maravilhas.

Pela escuta da Palavra entramos no campo da experiência espiritual. Abrimos nosso interior, fazemos confiança nele. “Se hoje como ontem é urgente conhecer melhor o homem Jesus, reconhecido como Cristo e confessado como Senhor, não temos outro caminho para chegar a esse objetivo senão tomar o livro das Escrituras, abrir-lhe as portas de nossos corações e oferecer escuta e acolhida à Palavra. Se nosso coração arde no desejo de sair da insignificância ou da prostração de nossos cotidianos fracassos, não temos outro caminho senão deixar-nos possuir pela Palavra e dar-lhes amplo espaço em nossas vidas. Ser possuído pela Palavra e por Cristo é a mesma coisa. Se quisermos recriar e refundar nossa vida e missão, não nos resta outra saída senão abrir espaço à Palavra, relê-la, estudá-la, meditá-la, acolhê-la num coração vazio e pobre, sussurrá-la dia e noite para então vivê-la e celebrá-la” ( Guiados pela palavra, op. cit., n. 20).

Escutar a Palavra, melhorar a qualidade de nossa Liturgia das Horas, com mais silêncio, mais reverencia à Palavra. Viver em nossas casas a Leitura Orante da Bíblia. “Estirar o ouvido” também para escutar nossa vida, nossa própria humanidade, escutar-nos, escutar o grito das ruas, escutar o murmúrio do irmão que sente o frio do isolamento. Não se trata apenas de uma beata leitura das páginas da Escritura, mas tentar ouvir esse Deus que nos fala, também em nosso estilo de vida consagrada. “A vida consagrada e, com ela, a vida franciscana, são chamadas a percorrer um longo êxodo de busca e de renovação que já não tem volta. Com muitos homens e mulheres, nossos contemporâneos, somos mendicantes de sentido. A partir da escuta da Palavra, nossa vida será, no presente e no futuro, como foi no passado, proposta alternativa e de fronteira. A Palavra nos convida a isso, impele-nos e nos convoca. A partir e com a Palavra, nossas vidas serão testemunho de uma palavra que não pode calar, de uma razão que não pode se ocultar, de uma convicção que se necessita partilhar. Como o fogo da Palavra, nosso coração arderá e nossa vida encontrará o ritmo de Deus, que é sempre jovem e atual, que jamais passa. A Palavra tem uma força transformadora impressionante e, se nossa vida se deixar tocar pela Palavra, transformar-se-á, sem dúvida alguma: a rotina dará lugar à novidade evangélica, o cansaço, à coragem, a resignação, à lucidez e à audácia, os medos à liberdade. Quando formos capazes de abandonarmos à Palavra, de confiar nela, de apostar tudo numa única carta, aconteça o que acontecer, ficará em nós um sabor intenso que nos garante que somos de Deus e para Deus, que não estamos sós. Se nossa vida se puser à escuta da Palavra e se deixar levar por ela, encontrará novas paragens e novas sendas para tomar o caminho mais suportável e alegre. É necessário abrir espaços pessoais e comunitários à Palavra. Nosso futuro, como o futuro de toda a vida consagrada, está em deixar-nos fazer pela Palavra” (Guiados pela palavra…op. cit., n. 20). T