domingo, 17 de novembro de 2013

Rumo a um mundo novo

As primeiras comunidades de seguidores de Jesus, diante das dificuldades e conflitos, lembravam as palavras do Mestre: "Tudo será destruído". Bem sabiam que era pura ilusão ficar admirando construções de pedra como o templo de Jerusalém, pois aquele mundo em que viviam passaria. 
E, se acabaria, era natural quisessem saber quando. Mas a essa pergunta Jesus não responde. Nem responde a respeito dos sinais que indiquem a proximidade do fim. Usando a linguagem comum na época para se referir ao fim do mundo (linguagem apocalíptica), Jesus simplesmente fala dos desafios e conflitos que seus seguidores enfrentariam.
Desde quando não existem enganadores, prometendo uma religião fácil, de prosperidade material? Desde quando não existem guerras entre as nações, terremotos, fomes e pestes? Desde quando os seguidores de Jesus, por lutarem por um mundo novo, deixaram de ser perseguidos e mortos?
Então as palavras de Jesus nos indicam que, em vez de nos preocupar com o fim do mundo, é fundamental nos perguntar: Que mundo estamos construindo? Pois é aí que ganhamos ou desperdiçamos a vida. "É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!"
Ao falar do templo de Jerusalém, Jesus falava do fim de um mundo, baseado em estruturas injustas e de poder. Um mundo que se vai á medida que construímos novas relações de justiças, solidariedade, gratuidade e serviço.
E, se este mundo acabará, é fundamental continuar acreditando que o mundo novo do reinado de Deus se tornará pleno. E continuar agindo "para que toda a humanidade se abra á esperança de um undo novo", como rezamos na Oração Eucarística VI-D.
Estamos aqui a caminho. Um caminho de fé nos passos no Mestre, que nos dá forças para construir um mundo novo. Fiéis a Jesus, vamos dando fim ao mundo de injustiça, vivendo já a construção de um mundo renovado para, em fim, ganhar de presente um mundo da plenitude de Deus.

Pe. Paulo Bazaglia, ssp sobre o evangelho deste Domingo

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Elogio da Sabedoria

Nela há um espírito inteligente,santo, único, múltiplo, sutil, móvel penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo, incoercível, benfazejo, amigo dos homens, firme, seguro, sereno, tudo podendo, tudo abrangendo, que penetra todos os espíritos inteligentes, puros, os mais sutis.
A sabedoria é mais móvel que qualquer movimento e, por sua pureza, tudo atravessa e penetra.
Ela é eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente,
pelo que nada de impuro nela se introduz.
Pois ela é reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade.
Por outro lado, sendo só, ela tudo pode; sem nada mudar, tudo renova e, entrando nas almas santas de cada geração, delas fez amigos de Deus e profetas; pois Deus ama só quem habita com a Sabedoria.
Ela é mais bela que o sol, supera todas as constelações: comparada à luz do dia, sai ganhando, pois a luz cede lugar à noite, ao passo que sobre a Sabedoria não prevalece ao mal.

Sabedoria de Salomão 7, 22-30 Bíblia de Jerusalém

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O inferno? Quase ninguém mais acredita nele

Por D. Estêvão Bettencourt

A razão por que muitos em nossos tempos não acreditam no inferno, é que nunca tiveram explicação exata do que ele significa: é frequente conceber-se o inferno como castigo que Deus inflige de maneira mais ou menos arbitrária, como se desejasse impor-se vingativamente como Soberano Senhor; o réprobo seria atormentado maldosamente por demônios de chifres horrendos, em meio a um incêndio de chamas, etc. — Não admira que muitos julguem tais concepções inventadas apenas para incutir medo ; não seriam compatíveis com a noção de um Deus Bom.


Na verdade, o inferno não é mais do que a consequência lógica de um ato que o homem realiza de maneira consciente e deliberada aqui na terra; é o indivíduo quem se coloca no inferno (este vem a ser primàriamente um estado de alma; vão seria preocupar-se com a sua topografia) ; não é Deus quem, por efeito de um decreto arbitrário, para lá manda a criatura, É o que passamos a ver.


Admitamos que um homem nesta vida conceba ódio a Deus (ou ao Bem que ele julgue ser o Fim último, Deus) e O ofenda em matéria grave, empenhando toda a sua personalidade (pleno conhecimento de causa e liberdade de arbítrio); essa criatura se coloca num estado de habitual aversão ao Senhor. Caso morra nessas condições, sem retratar, nem mesmo no seu íntimo, o ódio ao Sumo Bem, que sorte lhe há de tocar ?


A morte confirmará definitivamente nessa alma o ódio de Deus, pois a separará do corpo, que é o instrumento mediante o qual ela, segundo a sua natureza, concebe ou muda suas disposições. Depois da morte, tal criatura de modo nenhum poderá desejar permanecer na presença de Deus; antes espontaneamente pedirá afastar-se d'Ele. Não será necessário que, para isto, .o Juiz supremo pronuncie alguma sentença; o Senhor apenas reconhecerá, da sua parte, a opção tomada pela criatura ; Ele a fez livre e respeitará esta dignidade, em hipótese nenhuma forçando ou mutilando o seu alvitre.


Eis, porém, que desejar afastar-se de Deus e permanecer de fato afastada, vem a ser, para a alma humana, o mais cruciante dos tormentos. Com efeito, toda criatura é essencialmente dependente do Criador, do qual reflete uma imagem ou semelhança ; por conseguinte, ela tende por sua própria essência a se conformar ao seu Exemplar (é a natureza quem o pede, antecedentemente a qualquer opção da vontade livre); caso o homem siga esta propensão, ele obtém a sua perfeição e felicidade. Dado, porém, que se recuse, a fim de servir a si mesmo, não pode deixar de experimentar os protestos espontâneos e veementíssimos da natureza violentada. A existência humana torna-se então dilacerada : o pecador sente, até nas mais recônditas profundezas do seu ser, o brado para Deus ; esse brado, porém, ele o sufocou e sufoca, para aderir a um fim inadequado, fim que, em absoluto, ele não quer largar apesar do terrível tormento que a sua atitude lhe causa. — Na vida presente, a dor que o ódio ao Sumo Bem acarreta, pode ser temperada pela conversão a bens aparentes, mas precários..., pela auto-ilusão ; na vida futura, porém, não haverá possibilidade de engano!


É nisto que consiste primariamente o inferno. Vê-se que se trata de uma pena infligida pela ordem mesma das coisas, não de uma punição especialmente escolhida , entre muitas outras por um Deus que se quisesse “vingar” da criatura. Em última análise, dir-se-á que no inferno só há indivíduos que nele querem permanecer. — A este tormento espiritual se acrescenta no inferno uma pena física, geralmente designada pelo nome de fogo; certamente não se trata de fogo material, como o da terra, mas de um sofrimento que as demais criaturas acarretam para o réprobo, e acarretam muito naturalmente. Sim; quem se incompatibiliza com o Criador não pode deixar de se incompatibilizar com as criaturas, mesmo com as que igualmente se afastaram de Deus (o pecador é essencialmente egocêntrico), de sorte que os outros seres criados postos na presença do réprobo vêm a constituir para este uma autêntica tortura (não se poderia, porém, precisar em que consiste tal tormento).


Por último, entende-se que o inferno não tenha fim ; há de ser tão duradouro quanto a alma humana, a qual por sua natureza é imortal; Deus não lhe retira a existência que lhe deu e que, em si considerada, é grande perfeição. Embora infeliz, o réprobo não destoa no conjunto da criação, pois por sua dor mesma ele proclama que Deus é a Suma Perfeição, da qual ele se alheou (é preciso, nos lembremos bem de que Deus, e não o homem, é o centro do mundo).


Não se pense em nova “chance” ou reencarnação neste mundo. Esta, de certo modo, suporia que Deus não leva a sério as decisões que o homem toma, empenhando toda a sua personalidade; o Senhor não trata o homem como criança que não merece respeito. De resto, a reencarnação é explicitamente excluída por textos da Sagrada Escritura como os que se acham citados sob o no 8 deste fascículo.


Eis a autêntica noção do inferno, que às vezes é encoberta por descrições demasiado infantis e fantasistas.


Veja a propósito E. Bettencourt, A vida que começa com a morte (ed. AGIR) Cap. VI.


Fonte: Revista Pergunte e Responderemos. No. 03, Julho de 1957. Pág. 10-12.


    domingo, 10 de novembro de 2013

    A celebração da morte para a vida Franciscana






    Por Frei Hugo Baggio, OFM.

    Museu do Brooklyn,
    "São Francisco salva as almas do Purgatório"
    Francisco faz da morte uma celebração, uma liturgia. Por ser ela um fato humano, uma realidade "da qual homem algum pode escapar", ele a convoca para unir-se aos demais elementos vitais do homem: o sol, a lua, a terra com suas flores e frutas, as estrelas e o vento, a água cristalina e cantante.

    Não é ela a mensageira de uma fatalidade, embora homem vivente algum dela possa esquivar-se, não é destruidora da tessitura da vida e separadora de corações e dos elementos naturais. Não é uma criatura deformada, repelente, intrusa ou alheia à criação de Deus. Ela é também uma criatura nascida, como todas, da bondade de Deus.

    Se para Francisco todas as criaturas são irmãos e irmãs, também a morte é a irmã, aquela que nos toma pela mão e nos conduz por este trecho do caminho, misterioso e sombrio. Misterioso porque não temos dele nenhuma experiência. Tudo o que da morte sabemos é algo exterior a nós, algo que nos chega de fora.

    Por isso, não a conscientizamos. E, consequentemente, não a incorporamos à nossa história, procurando afastá-la. E como não o podemos fazer biologicamente, fazemo-lo mentalmente: recusamo-nos a pensar nela e dela falar. Rejeitamo-la. Sombrio, porque as civilizações e as culturas encheram este caminho de negrume e sombras assustadoras.

    Para Francisco de Assis, esta saudação não é mera exuberância poética, numa hora de bem-estar espiritual, quando nosso ser suporta até os pensamentos aparentemente mais assustadores e desconfortantes. É uma saudação arrancada, no momento de plena consciência da proximidade de sua dissolução, quando o fenômeno morte lhe está próximo, palpável, no tempo e no espaço.

    Nem tampouco é um grito nascido de um "cansado da vida", porque sua cosmovisão fazia-o degustar a vida, e amá-la, em suas múltiplas alegrias. É a conformidade profunda, nascida da fé que acredita numa realidade meta-histórica, atingível apenas através da morte.

    Se a morte é irmã, isto significa que entre ela e o homem existe um parentesco, portanto não se trata de algo estranho, algo punitivo, algo fatal, algo inimigo. Também aqui aparece uma dimensão diferente: o desapego foi libertando o homem, até desejar apenas a realização no plano eterno de Deus. Portanto, não fala, aqui, a emoção estética, ainda que o belo exercesse tão profundo fascínio em Francisco, mas é uma expressão teológica de aceitação alegre. Tudo é bem. Tudo é dádiva. Tudo é gratuidade. Por isso ele usa a expressão: bem-vinda!

    A terra é "irmã" e sobre ela quer seu corpo estendido para nela passar à realidade eterna, pelas mãos de outra "irmã", a Morte. Sempre de novo, na visão de Francisco, aparece a fraternização, que vem marcada pela entrega total. Francisco foi o homem "à disposição" de tudo e de todos, como ensina em suas exortações: o frade está submisso à toda criatura. Mormente à disposição de Deus. Daí a entrega final, generosa e alegre, fraterna e pacificada.

    Tinha bem claro que o homem não é um ser-para-a-morte, mas um ser-para-a-vida. Por isso, olha com o mesmo olhar límpido e destemido o sol, a lua, as flores, as águas e a morte, porque em todos eles se manifesta o mesmo mistério do ser e palpita a mesma centelha da vida. Sem dúvida, é resultado de uma longa caminhada. Sobretudo, resultado de um relacionamento equilibrado e iluminado com todos os seres, relacionamento feito de ternura e de amor. O que se ama não se teme, pois os dois termos são excludentes. Esta estrofe não foi um aditamento de última hora, mas um complemento necessário, sem o qual o Cântico das Criaturas ficaria mutilado e incompleto.

    O Cântico começa com o Sol e termina com a Morte sem estabelecer um paradoxo, ou antagonismos, mas é uma continuidade natural, uma decorrência lógica. É o encontro da luz solar com a luz da eternidade. É a explosão da luz. Francisco aproximou o Sol e a Morte, a Vida e a Morte, a Beleza e a Morte, a Alegria e a Morte, dentro de sua simplicidade característica, sem fazer violências a si ou aos outros, mas na aceitação plena de quem sabe que somente quando as folhas da flor caem é que a semente tem possibilidade de tornar-se geradora de uma nova primavera.

    Ou somente no apodrecer no seio da terra irrompe a vida do grão. Na tradição franciscana, desde Frei Pacífico, o jogral da corte, dos dias de Francisco até um Alceu Amoroso Lima dos nossos dias, vamos encontrar esta fraterna convivência do homem com a morte, depois de ter exorcizado todos os fantasmas e medos e de ter aceito o parentesco com a Irmã Morte.

    Por isso, entre a série de elementos com os quais tentamos descrever a riqueza do vocábulo franciscanismo, devemos alinhar, com toda a naturalidade, a concepção da morte de Francisco como um dos elementos constitutivos do franciscanismo. T


    "Porque sentimos medo diante da morte?"



    Depois de ter celebrado a Solenidade de Todos os Santos, hoje a Igreja convida-nos a comemorar todos os fiéis defuntos, a dirigir o nosso olhar para os numerosos rostos que nos precederam e que concluíram o caminho terreno. Na Audiência deste dia, então, gostaria de vos propor alguns pensamentos simples sobre a realidade da morte, que para nós cristãos é iluminada pela Ressurreição de Cristo, e para renovar a nossa fé na vida eterna.

    Como disse ontem noAngelus, nestes dias vamos ao cemitério para rezar pelas pessoas queridas que nos deixaram, é quase como ir visitá-las para lhes manifestar, mais uma vez, o nosso carinho, para as sentir ainda próximas, recordando também, deste modo, um artigo do Credo: na comunhão dos Santos há um vínculo estreito entre nós que ainda caminhamos nesta terra e muitos irmãos e irmãs que já alcançaram a eternidade.

    Desde sempre, o homem preocupou-se pelos seus mortos e procurou conferir-lhes uma espécie de segunda vida, através da atenção, do cuidado e do carinho. De certa maneira, deseja-se conservar a sua experiência de vida; e, paradoxalmente, como eles viveram, o que amaram, o que temeram e o que detestaram, nós descobrimo-lo precisamente a partir dos túmulos, diante dos quais se apinham recordações. Estas são como que um espelho do seu mundo.

    Por que é assim? Porque, não obstante a morte seja com frequência um tema quase proibido na nossa sociedade, e haja a tentativa contínua de eliminar da nossa mente até o pensamento da morte, ela diz respeito a cada um de nós, refere-se ao homem de todos os tempos e de todos os espaços. E diante deste mistério todos, também inconscientemente, procuramos algo que nos convide a esperar, um sinal que nos dê consolação, que abra algum horizonte, que ofereça ainda um futuro. Na realidade, o caminho da morte é uma senda da esperança, e percorrer os nossos cemitérios, como também ler as inscrições sobre os túmulos é realizar um caminho marcado pela esperança de eternidade.

    Mas perguntamo-nos: por que sentimos medo diante da morte? Por que motivo uma boa parte da humanidade nunca se resignou a acreditar que para além dela não existe simplesmente o nada? Diria que as respostas são múltiplas: temos medo diante da morte, porque temos medo do nada, este partir rumo a algo que não conhecemos, que nos é desconhecido. E então em nós existe um sentido de rejeição, porque não podemos aceitar que tudo quanto de belo e grande foi realizado durante uma existência inteira seja repentinamente eliminado e precipite no abismo no nada. Sobretudo, nós sentimos que o amor evoca e exige a eternidade, e não é possível aceitar que ele seja destruído pela morte num só instante.

    Além disso, temos medo diante da morte porque, quando nos encontramos próximos do fim da existência, há a percepção de que existe um juízo sobre as nossas obras, sobre o modo como conduzimos a nossa vida, principalmente sobre aqueles pontos de sombra que, com habilidade, muitas vezes sabemos anular ou tentamos remover da nossa consciência. Diria que precisamente a questão do juízo está com frequência subjacente ao cuidado do homem de todos os tempos pelos finados, a atenção pelas pessoas que foram significativas para ele e que não estão mais ao seu lado no caminho da vida terrena. Num certo sentido, os gestos de carinho e de amor que circundam o defunto constituem um modo para o proteger, na convicção de que eles não permaneçam sem efeito na hora do juízo. Podemos ver isto na maior parte das culturas que caracterizam a história do homem.

    Hoje o mundo tornou-se, pelo menos aparentemente, muito mais racional, ou melhor, difundiu-se a tendência a pensar que cada realidade deve ser enfrentada com os critérios da ciência experimental, e que também à grandiosa interrogação da morte é necessário responder não tanto com a fé, mas a partir de conhecimentos experimentais, empíricos. Porém, não nos damos conta de modo suficiente, de que precisamente desta maneira terminamos por cair em formas de espiritismo, na tentativa de manter algum contato com o mundo para além da morte, quase imaginando que existe uma realidade que, no final, seria uma réplica da vida presente.

    Caros amigos, a Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fiéis defuntos dizem-nos que somente quem pode reconhecer uma grande esperança na morte, pode também levar uma vida a partir da esperança. Se nós reduzirmos o homem exclusivamente à sua dimensão horizontal, àquilo que se pode sentir de forma empírica, a própria vida perde o seu profundo sentido. O homem tem necessidade de eternidade, e para ele qualquer outra esperança é demasiado breve, é demasiado limitada. O homem só é explicável, se existir um Amor que supere todo o isolamento, também o da morte, numa totalidade que transcenda até o espaço e o tempo. O homem só é explicável, só encontra o seu sentido mais profundo, se Deus existir. E nós sabemos que Deus saiu do seu afastamento e fez-se próximo, entrou na nossa vida e diz-nos: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá» (Jo 11, 25-26).

    Pensemos por um momento na cena do Calvário e voltemos a ouvir as palavras que Jesus, do alto da Cruz, dirige ao malfeitor crucificado à sua direita: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Pensemos nos dois discípulos no caminho de Emaús quando, depois de terem percorrido um trecho da estrada com Jesus Ressuscitado, O reconhecem e, sem hesitar, partem rumo a Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 24, 13-35). Voltam à mente com clareza renovada as palavras do Mestre: «Não se turve o vosso coração: credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito; pois vou preparar-vos um lugar?» (Jo 14, 1-2). Deus revelou-se verdadeiramente, tornou-se acessível e amou de tal modo o mundo, «que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16), e no supremo gesto de amor da Cruz, mergulhando no abismo da morte, venceu-a, ressuscitou e abriu também para nós as portas da eternidade. Cristo sustém-nos através da noite da morte que Ele mesmo atravessou; é o Bom Pastor, a cuja guia podemos confiar sem qualquer temor, porque Ele conhece bem o caminho, até através da obscuridade.

    Cada domingo, recitando o Credo, nós confirmamos esta verdade. E visitando os cemitérios para rezar com afeto e com amor pelos nossos defuntos, somos convidados, mais uma vez, a renovar com coragem e com força a nossa fé na vida eterna, aliás, a viver com esta grande esperança e testemunhá-la ao mundo: por detrás do presente não existe o nada. E é precisamente a fé na vida eterna que confere ao cristão a coragem de amar ainda mais intensamente esta nossa terra e de trabalhar para lhe construir um futuro, para lhe dar uma esperança verdadeira e segura. T



    A vida presente e a futura

    Entram em cena, neste domingo, os casos de duas famílias, com sete irmãos cada uma, para ilustrar o mesmo tema: a ressurreição dos mortos. O primeiro (primeira leitura) é histórico e o segundo (evangelho) é fictício. O caso do evangelho, proposto pelos saduceus, que negavam a ressurreição, vem questionar a crença na vida após a morte. Querem testar Jesus a respeito do despropósito, segundo eles, da fé na vida eterna.
    Jesus, percebendo a malícia dos seus opositores e não se prendendo à lei do levirato, desmascara-os e esclarece que a vida após a morte não é continuação da presente. As preocupações e as questões desta vida não perdurarão na eternidade. A vida de ressuscitados será diferente da que temos hoje.
    O que será da pessoa após a morte? Eis uma questão que está sempre na cabeça de qualquer mortal - também dos cristãos. Outra questão que nos incomoda: Por que temos de morrer? O certo é que, alguns antes e outros depois, todos morreremos.
    A fé na ressurreição não nos aliena da vida nem nos tira da história; ao contrário, mergulha-nos nela e nos torna os seus principais artífices, ao procurarmos moldar a sociedade segundo o projeto de Deus, na qual todos tenham seu lugar e todos se realizem como seres humanos.
    Desde que nasce, a pessoa convive com a vida e a morte. Às passagens pelas várias etapas da existência humana correspondem perdas e conquistas. Para haver ressurreição, passagem para uma vida melhor, faz-se necessária a morte. Vida e morte, duas irmãs inseparáveis, são parte de nossa experiência terrena e nos acompanham no dia a dia.
    A realidade do pós-morte continua sendo um mistério, embora nossa fé nos garanta que a vida não se limita aos anos deste mundo. A fé no além da morte deveria nos levar á reflexão e á valorização da vida presente. A ressurreição precisa ser vista como a plenitude do viver cotidiano: inicia-se com o nascimento e plenifica-se com a morte.

    Pe. Nilo Luza, ssp sobre o evangelho deste domingo 10-11-2013

    quinta-feira, 7 de novembro de 2013

    A lâmpada voltiva de São Francisco de Assis




    Detalhe do verso de Dante:
    "Altro non è che di Suo lume un raggio"
    A Lâmpada

    Ao Arquiteto Ugo Tarchi foi confiada a tarefa de desenhar uma lâmpada votiva e nos primeiros dias de Setembro 1937, enviou ao Ministro Geral o desenho da lâmpada, com uma descrição detalhada:

    “A lâmpada votiva, de 1 metro e 20 centímetros é toda em bronze polido (fosco) e prata. No eixo central, está forjada a cruz, alçada desde o meio da taça, que em sua forma semisférica simboliza o mundo. No alto, a coroa de torres da Itália, o brasão da Casa de Savoia, o Feixe de varas (Lictor), a Loba Romana e o brasão da cidade de Assis. Sobre a orla da copa, na parte externa, contra o fundo luminoso do alabastro as palavras do verso dantesco: 'Não é mais que um raio de Sua luz'. Abaixo da copa a frase de dedicatória: 'Dos Municípios da Itália para o Santo'. Acima da taça, três pombas de prata sustentam com seu bico uma coroa de Oliveira, símbolo soberano e universal da paz”.

    O acender da Lâmpada Votiva em Assis

    Em 4 de Outubro de todo ano a Basílica de São Francisco se torna o coração pulsante de toda a Nação italiana. Na presença de uma multidão de fiéis e de outras personalidades da hierarquia eclesiástica e do Estado, o Prefeito da capital de uma região escolhida para representar o País, reacende a Lâmpada votiva que ilumina a cripta onde repousam os restos mortais do Pobrezinho de Deus.

    Por um ano inteiro a Lâmpada arderá com o óleo oferecido, em nome de todos os italianos e dos habitantes daquela região.

    Lâmpada na entrada da Cripta
    em que repousam os restos mortais do Santo de Assis
    A cerimônia sugestiva se repete desde 4 Outubro de 1939. Naquele ano, enquanto Pio XII proclamava Francisco de Assis Patrono primário da Itália (18 Junho), os Municípios da Nação ofereceram ao seu Patrono celeste a Lâmpada artística em torno da qual gira o verso dantesco "Não é mais que um raio de Sua luz". (Canto 26 do Paraíso, verso 33). A linguagem do Divino Poeta evidencia o simbolismo que se dá à Lâmpada e à cerimônia em seu reacendimento anual: toda a Itália vê no Pobrezinho de Deus o místico "Sol", que levantou-se de Assis como do "Oriente" (Canto 11 do Paraíso, versos 50-54), e se espalham por toda a terra os raios poderosos da sua luz espiritual, da qual aquela Lâmpada não é senão sinal de um brilho suave.

    Todos os anos, portanto, na região italiana que viaja até Assis para oferecer o óleo para a Lâmpada Votiva, está toda a alma da Nação que vibra e se inclina reverente e grata ao todo Seráfico em ardor (Canto 11 do Paraíso, 37) que o mundo inteiro abalou e iluminou com a exemplaridade de sua vida evangélica e com a sua mensagem de amor e de fraternidade universal.

    A luz discreta

    Na penumbra da Tumba de Francisco, o enamorado de Cristo, se vê arder por todo o ano uma pequena luz. Não é invasora, mas discreta: muitos nem sequer a notam, mas também não é a intenção tirar a atenção. É a Lâmpada votiva alimentada pelo óleo que os Municípios da Itália oferecem anualmente por meio de um representante daquela Região por ocasião da festa do Santo, em 4 de Outubro. Uma luz que está ali, ao menos em desejo, em oração, para dizer a Francisco: ensina-nos a tua pobreza, ensina-nos a ver um irmão que nos circunda. T